For all my life
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Notas iniciais
Aproximadamente dez anos atrás...
Mia corria sem medo de tropeçar ou cair. Ela corria por se sentir livre, por de fato, ser livre. Brincar de pique-pega nunca fora tão relaxante, tão... Natural. Sentia o vento nos seus cabelos, bagunçando-os e deixando-os mais leve. Sua pele, tão suave como um botão de rosa branco ainda fechado, contrastava perfeitamente com seus cabelos compridos e escuros, que refletiam através de seu brilho a imensa felicidade que a pequena garota de cidade pequena tinha. Assim como aquela flor, que poderia facilmente ser seu símbolo por tamanha inocência e pureza, quando ela se desenvolvesse, caso continuasse naquele ciclo, seria tão encantadora quanto naquela época.
Morava no interior, numa cidade quase desconhecida no mapa, que poderia facilmente passar despercebida. Mas Marília, ou Mia, como gostava de ser chamada, jamais passava despercebida. Seria um pecado.
Apesar de ter acabado de voltar do colégio do bairro, não estava cansada para recusar a oferta de seu melhor amigo. Não teve tempo nem de tirar a blusa e saia do uniforme, a qual se aproximava do joelho. Unicamente o sapato, pois poderiam feri-la; tirou também a meia, para não sujá-la.
Eles queriam estar juntos, queriam brincar, queriam, mais uma vez, se sentirem livres e felizes. Assim como toda criança deveria ser.
— Miguel, seu fracote, não consegue me pegar! — Mia gritava sem parar de correr. Retirou uma mecha do rosto que estava atrapalhando sua visão.
Sorria, graciosa, pelo quintal de sua casa, desviando sempre de algumas plantas. Escondeu-se atrás de uma árvore, a que ficava no centro do quintal da sua mãe. A árvore mais alta da casa e de todo o quarteirão, e a que dava mangas deliciosas. A melhor manga das redondezas, nenhuma das opções encontradas naquela cidade chegava aos pés das frutas que, graças ao pai de Marília, fora plantada. Ele havia colocado a semente ali, sabendo que aquele pé e aquela sombra que a árvore concedia se tornaria memorável.
— Cereja, cadê você? — Miguel Gritou, sua voz estava longe. Ela era confortante, e a cada dia que escutava mais uma vez, Mia se arrepiava. Renovava-se. Era bom. — Não conseguirá se esconder por muito tempo, sabe que eu te acho. Eu sempre te acho. — E era verdade. Sua voz mostrava que estava cada vez mais perto, de repente, um silêncio surgiu. Fazendo-a temer ser descoberta, assim como toda vez que brincavam.
Sarah, irmã mais velha de Marília apenas um ano, também brincava. Havia se escondido em outra árvore próxima a que Mia estava. E ela sabia disso, pois mesmo que não podendo vê-la, sabia que estava perto por conta do seu perfume. Quando moramos em lugares menos urbanizados, junto à natureza, afloramos alguns sentidos do corpo humano. Por conta disso, Mia sempre fora capaz de distinguir certas coisas sem usar a visão. Coisas que dificilmente alguém que cresceu na cidade grande conseguiria fazer. Sabia graças ao aroma, ao cheiro. Era fácil para ela, era como diferenciar o inverno do verão, apenas sentia.
— Ai está você, cereja! — Miguel gritou atrás de Mia, que se assustou no início, e depois começou a rir quando o garoto agarrou-a por trás, fazendo com que seu grito de susto fosse abafado. Ela se virou, abraçando-o de imediato e deu-lhe um beijo no rosto, tímido e rápido, depois correu em direção a Sarah e Dirce — Sua vizinha —, continuando, assim, o jogo.
Miguel ficou perplexo ao sentir os lábios de sua melhor amiga e quase irmã tocando sua bochecha. Fora mágico e muito, muito mesmo, especial. Guardaria aquilo para sempre, se fosse preciso. Nunca nenhuma menina havia feito tal coisa. Apenas sua mãe, antes dele se mudar há muito tempo para a casa de Fátima. Seu rosto tomou uma cor avermelhada, sentiu-se nas estrelas, agora sabia o gosto do céu.
Luís Miguel era filho do marido da mãe de Marília, Fátima. Sua mãe sempre morou naquele lugar, nunca fora capaz de deixar a casa em que cresceu e havia sido criada com tanto amor. Assim como Mia estava sendo criada. Lourenço, pai de Miguel, conhecera sua esposa graças a uma das viagens que sempre fazia por aquelas redondezas, onde nunca pensou que faria morada.
Lourenço amava Fátima, assim como amava Marília e Sarah. Sua paixão por aquelas mulheres era visível. Planejava criá-las para, futuramente, elas, junto a Miguel, cuidarem de sua empresa. Pois conhecia aquelas pessoas, e sabia que não havia ninguém melhor para tal responsabilidade. É claro que aquelas crianças ainda não conheciam os males do mundo em que viviam, tampouco conheciam sentimentos egoístas e mesquinhos. Mas, para ele, justamente por isso, saberiam diferenciar e lidar com imprevistos. Teriam êxito em tudo o que fizessem, pois caráter aquelas crianças possuía. E, caso fosse preciso, Lourenço teria tempo o suficiente para ensinar-lhes tudo o que aprendera com anos de experiência.
— Luís Miguel, o que aconteceu? Está parado ai feito uma bananeira! Anda, mexa-se! — Dirce ordenou nervosa por ver o estado do amigo. Era impaciente e falava mais do que a língua permitia. Era seu jeito e havia herdado isso de sua mãe. E se orgulhava disso, sua sinceridade e seu forte temperamento faziam com que a saudade de sua mãe fosse quase preenchida. Quase. Miguel voltou à realidade, balançando a cabeça negativamente ao perceber o que um simples beijo na bochecha havia lhe causado. Ele era homem, não podia agir como uma menininha, ora! — Está com você! — Sorriu de forma perversa e encostou a palma de sua mão no braço do menino, dessa forma, retomando a brincadeira.
(...)
— Miguel, será que posso ficar um pouco ai com você? É que eu estou com medo. — Mia pediu assim que entreabriu a porta do quarto do amigol ela não adentrou, apenas deixou que metade de seu rosto preenchesse o espaço vazio entre a porta e parede.
Miguel não estava dormindo, embora parecesse. Muito pelo contrário, sabia que Mia viria, e enquanto ela não aparecesse, não pregaria os olhos. Estava preocupado, sabia da fobia da garota de trovões e relâmpagos. Certa vez, quando foi fazer uma simples pergunta a Mia, pegou-a de surpresa em seu quarto. A garota estava debruçada sobre a cama chorando por medo da tempestade. Depois daquela cena, todas as vezes que via o céu daquela forma, pensava logo nela e dava um jeito de confortá-la para que a mesma pudesse dormir. E sempre ao seu lado, ela parecia não temer seus medos.
— Venha cá, cereja, hoje ficaremos no meu quarto, tudo bem? — Ela assentiu contente pela resposta de Miguel. Pouco importava em que quarto eles dormiriam, para ela, o importante era ele confortá-la para que os trovões não a fizessem mais medo. Para que, como ela dissera uma vez, pudesse dormir sabendo que, não importasse o que acontecesse, Miguel a protegeria.
Ela deitou-se gentilmente na cama do amigo e ele aconchegou-a ao seu lado. Seus rostos estavam bem próximos, ele podia sentir a pele sedosa de Marília massagear gentilmente seu braço esquerdo; os cabelos dela encontravam-se presos, e ao encarar os olhos dela fechados como se estivesse em paz, diferente da cena que a encontrara uma vez, ele suspirou sereno e sossegado por tal feito.
Era fato que se sentia muito bem por conseguir proporcionar a amiga certa cura para seus temores e medos. E saber disso, fazia-o sentir como seu protetor.
— Obrigada por estar aqui, Lu. — Mia sussurrou ao virar-se, permitindo que Miguel visualizasse e massageasse seu longo cabelo, desfazendo-se temporariamente de seu coque.
— Não tenha medo, porque eu não deixarei que nada aconteça a você. Eu sempre te protegerei, ao meu lado, você sempre estará segura. — Ele sussurrou, retrucando-a gentilmente. Miguel era doce, paciente e amigo, e ela agradecia a ele por ter tantas qualidades. Mia relaxou os ombros, e dormiu graças às poucas palavras que ouvira, embora elas a pertubasse de maneira desconhecida.
Aproximadamente oito anos atrás...
— Mia, vamos brincar? Tá com sol, nossos pais deixaram a gente ficar no quintal, é só ficarmos longe das plantas da sua mãe. Não vou tropeçar nelas de novo, como da última vez. Prometo. — Miguel pedia insistentemente a menina que estava de frente à penteadeira, sentada em um pequeno e confortável banco de madeira enquanto passava a escova em suas longas mechas.
Sentia-se bonita graças à idade que estava tomando.
Não que tivesse mudado muito, mas as mudanças que teve fora suficiente para fazê-la ter outras prioridades. Como, por exemplo, não correr como antes para não cair e machucar seus seios em formação. Iria doer, e Miguel nunca entenderia isso. Claro, ele era homem. Ele não sofria com TPM, menopausa, dores no seio ou coisa parecida. Não que ela já estivesse sofrendo disso tudo, o que era impossível. Mas era um modo exagerado, ainda assim claro, de explicar que ele jamais teria esses problemas.
— Por que você está assim, cereja? Não estou te reconhecendo, antes não tinha essas bobagens todas para brincar! — ele resmungou, jogando-se, imundo e sem se preocupar, sobre a cama de Marília. Esta que, ao notar seu estado, levantou-se num sobressalto do banco e o puxou bruscamente.
— Luís Miguel, você sujou meu forro branco! — Mia reclamou quando viu uma sujeira onde ele havia sentado. Mas não era de terra, não era marrom ou algum tom parecido. Era vermelha, cor de sangue.
E, assustadoramente, era sangue.
Marília arregalou os olhos, suplicando que o garoto fosse inocente o suficiente para não perceber o que estava acontecendo. Luís arregalou os olhos, olhando admirado para a meia irmã, como se ela tivesse acabado de se tornar maior de idade. Como um fã olha para o ídolo.
— Não é isso o que você está pensando, Miguel... — ele interrompeu-a.
— Você... Você, agora eu entendi! Cereja, temos que chamar sua mãe, logo! Não vou deixar que você estoure de vez! Estou aqui para te ajudar, Mia! — Sua expressão de admirado mudou rapidamente, demonstrando estar desesperado. — Você está virando moça, você está furada, vamos! Sua mãe tem que te levar ao médico urgentemente! — Ele gritou sem poupar voz puxando-a pelo braço até a porta do seu quarto. Abriu-a, e, apesar dela insistir para que ele a soltasse, ele era mais forte e chamou a atenção de Fátima.
— O que foi Luís Miguel? O que aconteceu? — Fátima perguntou preocupada.
A mulher olhou com atenção a expressão de pavor no rosto da filha mais nova e a expressão de desespero de Miguel. Era como se ele pudesse perdê-la, como se, dessa vez, sua presença não fosse suficiente para acabar com aquele problema. Não era como protegê-la da tempestade, não era como segurá-la quando ela estivesse caindo.
Ele estava de mãos atadas, e isso o afligia de maneira angustiante.
Mia nunca sentiu tanta vergonha em toda sua vida, sua mãe ainda não sabia do que tinha acontecido. A garota que havia crescido uns centímetros, entre outras coisas graças à idade, não estava pronta para contar a ninguém, e nem pretendia. Sentia-se estranha, ontem brincava de pique-pega e pique-parede no quintal, e hoje... Hoje parece que do nada havia crescido. Uma palavra tão pequena, mas que na cabeça da pequena garota parecia tão enorme, a ponto de confundi-la e fazê-la agir como se estivesse a ponto de ganhar um neném.
Crescer para ela era uma grande responsabilidade, e não sabia ao certo como adquiri-la.
Não podia se dar ao luxo de continuar vivendo como se fosse menor, muito pelo contrário. Deveria aprender a lidar com o crescimento repentino, nem que para isso fosse necessário esconder de sua mãe algumas confirmações de seu súbito desenvolvimento. A única coisa que a entristecia, era não poder acompanhar Luís Miguel em suas típicas aventuras, para ela era muito mais fácil quando pensava igual a ele.
— Tia, ela está vazando. — O menino desvendou o pequeno mistério com uma voz cautelosa e séria, como se quisesse silabar muito bem para que ninguém entendesse errado. Fátima franziu a testa, confusa com as palavras do garoto. — Hoje quando entrei no quarto da cereja, tinha sangue dela no forro novinho. E eu juro que eu não to machucado, então não fui eu quem colocou aquele sangue lá! Ela está vazando. Va-zan-do! — Explicou mais detalhadamente, expressando em seu tom mais uma vez sua situação alarmada. Assim que a ficha de Fátima caiu, que ela entendeu o que ele queria dizer, não aguentou segurar a risada e gargalhou.
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