Los Angeles, Califórnia. Abril de 2010.

Querida Keltie,

Eu não sei até que ponto você ainda se lembra de mim, não sei até que ponto você quer se lembrar, ou se quer se lembrar. Eu já não conheço mais a camisola de seda que você costuma dormir, ou qual o roupão que usa para fazer o café da manhã. De certa forma, a nostalgia toma conta de mim e dessa vez – talvez só dessa vez – eu pude ignorar meus próprios preceitos.

Eu não sei até que ponto eu posso escrever sem me passar por idiota. Não sei como anda seu coração, não conheço mais a profundidade das feridas causadas por minhas atitudes. Faz o quê? Dois ou três anos que não nos vemos e eu não havia parado pra refletir em certas coisas que, convenhamos, fazem a vida parecer mais saborosa. Como sonhar com algo que vai dar certo. Eu não preciso que me entenda, eu só preciso que leia essas palavras cuidadosamente, da mesma forma que as escrevo.

Uso de cuidado em cada letra porque eu não queria aparecer e olhar nos seus olhos. A última vez que eu os vi, Keltie, estavam cheios. Você pediu-me tão dolorosamente para que eu não a procurasse mais que eu me vi na obrigação de respeitá-la. Ou pelo menos pseudo-respeitar, até o momento. Eu fui à nossa antiga casa, porque eu precisava limpá-la, e buscar as coisas que deixei ali quando você descobriu o que eu te havia feito. Quando eu matei completamente nossos planos. Por mais que a poeira e as teias de aranha predominassem, o tempo preservou nossas fotos grudadas nos porta-retratos de vidro colocados em cima da nossa antiga lareira. Preservou, também, o cheiro da Hobo no porão. Eu senti falta dela.

Esse pequeno pedaço de papel tem um único objetivo. Eu sei – e desde já peço desculpas – que não devia procurá-la, mas você tem dinheiro aplicado nessa casa e eu fui até ela para vendê-la. Eu não posso fazer isso sem seu consentimento e muito menos ficar para mim a sua parte do investimento. Eu não tenho tempo de ir à New York, porque estou numa fase cheia de trabalho, cheia de compromissos e por isso estou mandando isso, com minha letra. Sei que era muito mais fácil que eu ligasse, mas creio que você não quer ouvir minha voz tão cedo. E eu não a culpo.

Enquanto eu limpava a casa – o que foi bem trabalhoso e demorado, já que não é um trabalho que me agrada – encontrei algo que me deixou até um bocado emocionado. Em outras épocas, se eu achasse um perfume de uma ex-namorada, o entregaria à minha atual, sem vacilar e diria “Se você quiser, pode usar, pertencia à minha irmã, mas ela esqueceu aqui enquanto viajava”, mas esse frasco é seu, Keltie, e isso me torna diferente. Me faz tomar atitudes diferentes, mas talvez isso não dure tanto tempo como nós dois gostaríamos que durasse, porque eu continuo tão egoísta quanto antes. Talvez até mais.

Desculpe-me por não ir entregar o perfume – e dizer que vou vender, nossos sonhos, nossa casa -, eu realmente não posso ir até você. Tenho mais coisas suas para entregá-la, mas ainda estou ensaiando qual será o melhor jeito de fazê-lo.

Ainda seu amigo – se você achar que eu sou merecedor, Ryan Ross.

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