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1 Desaparecido
Notas iniciais
– Que inferno! – Yoochun entrou em seu escritório batendo a porta. Acabara de sair de uma reunião que durou a tarde inteira com a diretoria da empresa. Uma reunião difícil, de tomada de decisões importantes para o futuro da empresa e de muita tensão e discórdia.
Foi até a mesinha no canto da sala, encheu um copo com uísque e sentou em sua poltrona em frente à imensa janela. Dali podia ter uma bela visão da cidade de Seul. Já estava escurecendo e as luzes começavam a iluminar as ruas.
Park Yoochun, 30 anos, dono de uma das maiores empresas de Seul, herdada de seu pai, que já se aposentara e naquele momento devia estar na beira de um rio, bebendo e pescando. Sua mãe falecera quando tinha 10 anos, em um acidente que deixou marcas tanto no corpo quanto no coração de Yoochun. Este seguiu os caminhos do pai e se formou para tomar conta dos negócios da família. Mas seu pensamento sempre focado em dinheiro, sucesso e reconhecimento o levou a ser uma pessoa fria e solitária. Quase todos os seus dias eram assim, estressantes e cansativos, terminando com um copo de uísque em frente à janela observando sua cidade. Sua cidade... Era assim que Yoochun falava de Seul. Conhecia todos os cantos daquele lugar, era influente, conhecia pessoas, conhecia os negócios de todo mundo e ninguém, absolutamente ninguém podia subestimá-lo, pois já provara muitas vezes que estava ali por mérito próprio e não por ser um herdeiro.
Yoochun saiu do escritório muito tarde naquela noite e seguiu para seu apartamento. A cobertura mais cara de Seul. Tomou um longo banho e colocou uma roupa confortável. Não quis comer, o estresse daquele dia havia tirado seu apetite. Dirigiu-se à varanda de seu quarto e deitou-se numa espreguiçadeira. Colocou seus fones de ouvido e ficou ali tentando relaxar. Depois de um longo tempo, virou sua cabeça para olhar a mesinha que estava ao lado. Ali havia um lindo vaso de orquídeas, as flores preferidas de sua mãe e também um porta- retrato colorido e infantil. Uma moldura azul sustentava letrinhas pequenas, onde lia-se Mamãe e Micky. Na foto havia uma mulher muito bonita abraçada à um lindo garotinho. Ambos sorriam e via-se que eram mãe e filho, pela semelhança nos olhinhos puxados e levemente caídos. O filho, agora um homem feito, guardara aquele porta retrato feito por sua mãe quando ainda era criança. Uma das poucas lembranças que tinha dela, pois seu pai levara tudo o que lembrava a esposa.
Yoochun adormeceu depois de um tempo olhando a foto. Passou a noite toda ali, apesar da brisa gelada da noite, não acordou.
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Quando o dia começou a clarear ele acordou com o telefone tocando. Era seu pai marcando um almoço para aquele mesmo dia. Deu mil recomendações ao filho sobre como deveria se vestir e se comportar, como se Yoochun já não soubesse.
“Por favor Yoochun, você sabe que isso é importante. Hoje vamos almoçar com a família da sua futura esposa. Um homem não é feito somente de negócios e dinheiro. Ele precisa construir uma família sólida e de bom nome”
Yoochun sabia que aquele momento chegaria. Seu pai falava disso há meses. Teria que conhecer a filha de outro dos grandes empresários de Seul. Era assim que sua vida seria, um casamento arranjado, para o bem dos negócios de ambas as famílias. Não que as empresas estivessem com problemas, jamais. Com Yoochun administrando tudo, impossível de se ter qualquer problema. Mas os nomes das famílias eram importantes, e um casamento entre famílias poderosas com certeza seria bem visto no mundo dos negócios. Pelo menos foi assim que Yoochun foi criado desde a morte de sua mãe. E foi pensando dessa forma que ele se levantou, tomou um banho e vestiu um belo terno. Tomou café e saiu para encontrar seu pai para se prepararem para o grande encontro do almoço.
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– Junsu, querido, acorde, você vai se atrasar! – a mulher pequenina sacudia o rapaz que se encontrava jogado na cama.
– Hum... Já vou, já vou. – Junsu resmungou e voltou a dormir.
– Tudo bem, mas sua aula começa em 30 minutos. – a mulher disse e saiu do quarto.
Ao ouvir aquilo Junsu deu um pulo da cama e correu para o banheiro. Tomou um banho rápido e escovou os dentes, vestiu sua roupa e pegou seus cadernos. Desceu as escadas correndo e tropeçando nos próprios pés.
– Não vai comer nada? – a mulher perguntou.
– Não tia, muito obrigado, mas estou realmente atrasado. — E saiu correndo porta afora.
Kim Junsu, 26 anos, estudante do quarto ano de medicina. Um rapaz humilde e de bom coração.
– Eu te disse mãe, ele sempre sai atrasado. – um outro rapaz que estava à mesa comendo falou com a boca cheia de bolo.
– Não fale de boca cheia menino! E ele está atrasado porque dorme pouco. Estuda demais de noite e dá nisso. Coitado, ele deve estar muito cansado.
– Puxa saco! – o rapaz disse engolindo o bolo.
– Shin Changmin, não fale assim! Ou eu vou te dar uns cascudos! – a mulher resmungou e saiu da cozinha.
A senhora Shin era muito dedicada à cuidar de sua casa. Casada com o dono de uma pequena venda, se dividia em ajudar o marido no trabalho e cuidar da casa, do filho único Changmin e do sobrinho Kim Junsu.
A irmã da senhora Shin e o marido desta faleceram em um acidente de carro quando Junsu estava no primeiro ano de faculdade. O sonho do pai de Junsu era que ele fosse médico e mesmo com suas condições financeiras limitadas, fez de tudo para mudarem para aquela cidade onde a cunhada morava para que seu filho tivesse um bom estudo. Junsu mudou-se primeiro para começar os estudos, pois ganhou uma bolsa, enquanto os pais ajeitavam tudo para a mudança. Mas durante a viagem de mudança, seus pais sofreram um grave acidente de carro e faleceram, deixando Junsu sozinho. Claro que seus tios o acolheram e fizeram o possível para que ele não deixasse os estudos.
Para pagar suas despesas com livros e afins para a faculdade, Junsu trabalhava de garçom num restaurante à noite. Não quis deixar essa despesa para os tios, e sempre que sobrava um pouquinho do seu salário, entregava à tia para ajudar nas despesas da casa.
A vida de Junsu era sempre assim, apressada e ocupada. Acordava cedo e passava o dia na faculdade. No fim da tarde se dirigia ao trabalho e ali ficava até às onze horas da noite. Chegava em casa, tomava banho e comia alguma coisa que a tia sempre deixava pronta para ele e logo depois sentava-se diante de sua pequena escrivaninha e estudava até o cansaço vence-lo. Era muito inteligente, o que ajudava bastante no fato de ter que trabalhar, já que o curso era desgastante e exigia muita dedicação.
Changmin, seu primo, era um rapaz brincalhão e comilão. Fazia faculdade de administração, pois queria melhorar os negócios da família. Sempre pegava no pé do primo, mas o ajudava quando precisava. Mesmo Junsu tivesse uma vida ocupada, isso não o impedia de ser uma rapaz doce e atencioso, fazendo com que todos o adorassem e também fazendo alguns sentirem inveja. Inveja por ser tão querido entre os professores, popular entre as garotas e alguns garotos da faculdade. Mas Junsu não ligava para isso, até porque não tinha tempo.
Aquele dia foi comum para Junsu. Faculdade, trabalho e livros. Adormeceu sobre os estes mais uma vez. Um sono tão profundo que até teve um sonho estranho. Sonhou com uma estrada vazia. Estava sozinho e chovia muito, mas não se importava e continuava andando. Ao longe avistou um homem alto, elegante, vestido em um terno alinhado. O homem vinha lentamente em sua direção, mas Junsu notou que algo estava errado, pois o homem parecia perdido. Quando o homem chegou perto, Junsu notou que ele sangrava. Junsu correu e tentou ajuda-lo, mas o homem não respondia, só deixou-se cair nos braços de Junsu.
Junsu acordou quando o homem do sonho desmaiou em seus braços. Estava suado e com as costas doloridas por ter dormido sentado. Olhou no relógio e viu que ainda tinha uma hora para dormir. Deitou-se na cama e rapidamente adormeceu. Não houve mais sonhos naquela madrugada.
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Cinco meses depois
Yoochun estava se dirigindo à um restaurante para mais um almoço com sua noiva. Aquilo se repetia pelo menos uma vez na semana há exatos cinco meses. Ele não sentia-se à vontade com a moça. Não podia negar que era uma mulher linda e cheia de encantos. Mas ainda não sentia nada de diferente por ela. Para ele, ela mais parecia um negócio. Nos últimos cinco meses chegou a perder noites de sono pensando como poderia construir uma família com uma mulher que não amava. Quando chegou ao restaurante ela já o aguardava.
– Olá, como vai Yoochun? – ela disse com um sorriso encantador.
– Oi HyeSoo, como vai? – Yoochun puxou a cadeira e sentou.
– Tudo bem, como está sendo seu dia? – ela tentou ser atenciosa.
– O mesmo de sempre, muitos problemas para resolver. Mas está tudo bem. – Yoochun disse chamando o garçom. Nem mesmo olhou nos olhos dela enquanto respondeu, o que não passou despercebido pela mesma.
Pediram o almoço e Yoochun ficou calado o tempo todo enquanto comiam. Respondeu algumas poucas perguntas tolas de HyeSoo enquanto mastigava.
– Bem, eu preciso ir, tenho uma reunião agora. – Yoochun disse olhando o relógio.
– Você precisa mesmo ir? Achei que podíamos dar uma volta depois do almoço. Nunca podemos nos ver fora desses almoços formais. – HyeSoo disse com uma expressão de decepção.
– Sinto muito HyeSoo, mas você sabe como sou ocupado. Vamos ter que deixar o passeio para outro dia. Quer que eu a acompanhe até o carro? – Yoochun disse já se levantando.
– Hum, claro. Se ainda tiver tempo, eu gostaria.
Ambos saíram do restaurante e se dirigiram à porta, onde ambos os carros já aguardavam.
– Bem, até breve. Dirija com cuidado. – Yoochun disse e se virou para partir.
– Espere! – HyeSoo disse um pouco alto, fazendo com que algumas pessoas os olhassem. Aproximou-se de Yoochun e disse baixinho. – Obrigada por almoçar comigo, eu realmente gosto de sua companhia. – disse levantando seu rosto e o deixando à centímetros de Yoochun. E então, sem que ele esperasse, ela o beijou. Um beijo singelo, um toque de lábios, mas suficiente para fazer Yoochun enfurecer por dentro.
Quando ela se afastou, ele a olhou com os olhos arregalados e cuspiu palavra por palavra, baixo o suficiente para que somente ela o ouvisse.
– Nunca mais faça isso na frente das pessoas. – se virou, entrou em carro e partiu em alta velocidade, deixando a noiva perplexa e envergonhada para trás.
Dirigiu direto para sua casa, ligando no escritório pelo caminho e cancelando a reunião. Estava furioso, não entendia o por que. Entrou em casa, tirou a gravata e a jogou no sofá, encheu um copo de whisky e o virou de uma só vez.
– Mas que diabos ela pensa que está fazendo? – resmungou sozinho.
Depois de alguns instantes não conseguiu acalmar sua mente. Jogou-se no sofá e ficou remoendo o acontecido. Achou-se um idiota, pois tinha certeza que muitos dariam um braço para poder estar com HyeSoo. E o que ela tinha feito não era nada demais. Mas o fato de ela o ter beijado o havia deixado com raiva, não conseguia sentir nada por ela. Cinco meses e nenhum único batimento cardíaco a mais por ela. Nem quando ela chegava deslumbrante durante almoços e jantares marcados com ele ou até mesmo nesse dia quando o beijou. Nada. E isso matava Yoochun. O preocupava o fato de estar prestes a se casar com uma mulher de quem ele nem queria a companhia. Preferia estar sozinho. As vezes inventava reuniões e compromissos para não ter que se encontrar com ela. Aquela situação estava realmente irritante.
A campainha tocou e tirou Yoochun de seus confusos pensamentos. Quando sua visita entrou, já sabia o que estava por vir.
– O que está fazendo em casa à essa hora Yoochun? – seu pai disse enquanto marchava pesadamente rumo ao centro da sala.
– Nada demais pai. Não me senti bem depois do almoço e resolvi vir descansar um pouco.
– Fiquei sabendo que cancelou uma reunião importante hoje. O que está havendo? — o pai de Yoochun, por mais que amasse o filho, não perdia a oportunidade de pressiona-lo a fazer tudo do seu jeito. Mas nesse dia Yoochun não suportaria mais pressão.
– Nada pai! Já disse, mas que droga!
Ficaram em silêncio por um instante, o senhor Park surpreendeu-se com a fúria do filho.
– Olha pai – Yoochun quebrou o silêncio – Eu só estou cansado. E eu nunca decepcionei o senhor ou faltei com minhas responsabilidades na empresa. Se eu cancelei a reunião é porque o assunto a ser tratado pode esperar. Eu preciso descansar, ok? Não durmo há dias, e essa história de casamento com a HyeSoo não está ajudando em nada. – disse se jogando no sofá.
– Meu filho, não me diga que está pensando em cancelar o noivado? – agora foi a vez do pai ficar nervoso. – Você sabe que não pode fazer isso. Sei que nunca faltou com suas responsabilidades na empresa, tire uns dias de folga se preciso. Mas o casamento não pode ser cancelado. Aigoo! Eu não aguento isso. Pode viajar com a HyeSoo, seria uma oportunidade de conhece-la melhor e...
– Chega pai! Meu Deus, você não entende! – Yoochun se colocou em pé novamente e ficou frente a frente com o pai. – Eu não quero ficar perto dela, ela me irrita. Que droga, como é que eu vou casar e construir uma família com uma mulher que não suporto? Eu não consigo gostar dela.
– Mas Yoochun, isso é normal, vocês se conhecem à pouco tempo, talvez se...
– Não! Não tem talvez! Eu não quero um casamento arranjado, não quero conviver com alguém que só sabe diferenciar uma bolsa legítima de uma réplica, que só quer saber se sapatos da moda e nem se quer houve músicas. Eu não suporto isso. – Yoochun se virou de costas para o pai e baixou o tom de voz – Quer saber... O senhor tem razão, eu preciso de uma folga. E vou fazer isso agora mesmo. — Pegou as chaves e a carteira sobre a mesinha perto da porta e saiu.
– Yoochun, espere meu filho! – mas já era tarde, Yoochun havia partido e o pai nem sabia para onde. Imaginou que o filho fosse em algum bar beber ou dar uma volta para espairecer. Mas essa certeza se esvaiu quando dois dias se passaram e Yoochun não deu notícias. Celular desligado, nenhum recado, não apareceu na empresa e nem em casa. Yoochun havia desaparecido.
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