For The Love Of A Daughter
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Teria de adiar o quanto conseguisse a parte de contar a Selena o que ela pediu. Acontece que depois daquele dia, nenhuma de nós tocou no assunto mais. Ou ela tinha esquecido ou estava esperando eu contar quando quisesse, já que o interesse era todo meu e isso no máximo a meteria numa bela encrenca junto comigo. Aproveitei esse tempo para pensar no que era realmente necessário que ela soubesse e analisa-la no dia a dia, entender como ela era e como lidava com os amigos e seus segredos. Tudo bem que isso não era só sobre mim, caso contasse a ela, a mesma estaria correndo riscos tão perigosos quanto eu. De qualquer forma, confesso que era divertido sentir-me “investigando” alguém, e era realmente necessário, pois não poderia confiar em qualquer um para contar algo que poria a vida dessa pessoa em risco caso chegasse a ouvidos errados. Por enquanto, tudo indicava que ela era a pessoa certa.
Já encerrara a semana escolar e hoje seria o teste para líderes de torcida de início de segundo semestre, e eu participaria. Ainda perguntava-me o que estava fazendo. Detestava pensar em estar perdendo o foco do meu principal objetivo. Mas seria bom ter uma atividade física e me divertir um pouco, afinal.
As aulas do dia acabaram às 16h30, teria de ir direto para o quarto encontrar uma roupa confortável para fazer o teste e aquecer o corpo um pouco, tentar alguns movimentos que há muito não fazia, desde a época de escola, quando fiz aulas de ginástica artística por um tempo. Eu era boa, pelo menos era o que diziam, talvez ainda fosse. Contava com isso.
Selena não estava lá quando cheguei, deve ter ido com o pessoal ficar nos jardins. Dei uma espiada pela janela acima da minha cama e logo avistei Joseph e os outros meninos sentados na pedra cinza bem trabalhada que delineava o espaço em que a água do chafariz caía, porém não vi a Selena, a Taylor, a Ashley ou a Jennifer com eles. Talvez estivessem em algum lugar fofocando.
Tomei banho e troquei de roupa, pus uma sainha daquelas que líderes de torcida usam e uma blusa curta colada, mais um top do que uma blusa, que deixava minha barriga a mostra. Afastei a cama de Selena para perto da minha deixando um espaço grande no quarto para que eu pudesse tentar algo. Surpreendi-me com o tanto que consegui fazer depois de uns nove anos sem praticar. Estava pronta pra fazer isso só não sabia muito bem o que fazer na frente deles, não tinha uma dança pronta ou algo do tipo bem planejado nem nada. Enquanto virava estrela a porta abriu e adentrou Selena seguida de Taylor no quarto. Selena estava boquiaberta, olhos arregalados e com uma mão no peito. Taylor olhou pra ela divertida.
– Ahm... desculpe a bagunça. – fiz uma careta.
– Não, tudo bem, ér, sem problemas. – ela me olhava de cima a baixo – Não acha essa roupa curta demais? – apontou pra minha roupa.
– Não... quer dizer, é, mas as roupas delas não são tipo assim? – olhei pra meu próprio corpo vendo o que há de errado.
– É sim, Demi, ignore a Selena. – Taylor vinha até mim rindo – O que estava tentando? Já sabe o que vai fazer hoje?
– Na verdade não, estava tentando inventar algo.
Selena fechou a porta atrás dela e sentou na cama que havia afastado e ficou só olhando.
– Se quiser te ajudo.
– Quero sim – sorri.
Ficamos ali por volta de uma hora, até dar 10 para as 18h. Ela me ensinou bastante coisa, achei um tanto quanto estranho sua iniciativa, além disso, acho que foi quando mais ouvi sua voz a semana inteira. Ela era divertida e amiga, fofa. E muito flexível, devo dizer. Eu também era, mas não tanto quanto ela. Agradeci a ajuda, pus um tênis e descemos nós três para a quadra.
Encontrei Miley quando estava entrando na quadra e ela me deu um crachá com um número, que quando fosse chamado indicava que era minha vez. Puxou assunto enquanto esperava comigo a minha vez na arquibancada. Ela lembrava uma velha amiga minha, o jeito de falar e de gesticular pra enfatizar algo, e o rosto, aqueles olhos verdes, era toda parecida. Ela era engraçada; demos boas gargalhadas e isso espantou um pouco do nervosismo que eu estava. Um tempo depois me toquei de que não via Taylor e Selena desde que entrei na quadra. Claro que não entrariam ali. Meu número foi chamado e lá fui eu.
A audição foi boa, fiz tudo que aprendi com Taylor e inventei umas coisas quando esquecia um passo. Quando acabei, despedi-me de Miley. Ela me olhava tão atentamente, parecia me estudar, sempre querendo achar algo diferente, talvez um erro. Queria perguntar, mas estava exausta e precisava de um banho e cama.
– O resultado sai amanhã às 18h, vai estar no mural. Não se esqueça de checar. – disse com os olhos brilhando. Dava pra ver que ela adorava isso – Ah, e você foi ótima.
– Obrigada. – sorri.
Diziam que herdei o talento de minha mãe, que foi líder de torcida quando nova, mas não sei se depois de tanto tempo eu conseguiria voltar a ser tão boa quanto era. Bom, agora era só esperar o resultado. Se me saí bem ou não, eu não faço a menor ideia. Enferrujada do jeito que estou, espero pelo menos não ter ido tão mal.
Já estava escuro quando abri a porta de saída da quadra, alguns postes de luz estavam acesos e a luz da lua ajudava a clarear, dava uma cena linda. Não havia mais quase ninguém ali. Passei pela porta de entrada avistando o balcão da mulher rabugenta e caminhei direto para as escadas. Meu corpo todo doía e minhas pernas estavam moles de tanto exercício num dia só depois de anos praticamente apenas sentada ou deitada. Em pensar que amanhã teria o dia livre apenas para terminar os milhares de deveres que passaram para semana que vem, mais os trabalhos extras que passaram pra recuperar as notas do semestre passado (pois o ano letivo começou em setembro quando eu ainda nem sonhava em vir pra cá), mais os da primeira semana depois do recesso do Natal e Ano Novo que faltei (pois só no sábado passado Patrick decidiu que me matricularia aqui e a fez no mesmo dia). Minha vontade de fazê-los era mínima, queria apenas deitar agora e dormir até domingo. Precisava que isso passasse amanhã, pois só tinha um mês pra entregar tudo, ou seja, até meados de fevereiro.
– Selena, você e Taylor sumiram – comentei quando entrei no quarto depois de subir as escadas e passar pelos corredores escuros em que as luzes acendiam por sensor quando alguém passava por eles.
Ela não disse nada, estava deitava da cama com o rosto imerso numa pilha de papéis que lia séria e concentrada, fazendo anotações vez ou outra.
Sabia por que não estava falando comigo, então ignorei o gelo desnecessário, revirei os olhos e fui para o banho. Não queria me aborrecer com Selena, seria tolice. Amanhã conversaríamos e ficaria tudo bem.
Ao sair do banheiro de pijama vi Selena com sua guitarra no colo passando os dedos pelas cordas de leve sem fazer som algum.
– Você toca?
– Toco. – ainda olhava o instrumento em seu colo – Tinha uma banda com meus amigos. Mas nos separamos quando vim pra cá. – respirou fundo e soltou o ar lentamente — Trouxe a guitarra comigo, mas não adiantou de nada. Não dá pra fazer carreira solo com isso.
– Mamãe me ensinava piano quando era criança.
– Adoro piano. – sorriu – Queria aprender um dia. – pela primeira vez desde que voltei ela olhou pra mim e agradeci mentalmente por ela não deixar que o assunto morresse.
– Posso te ensinar o que sei quando tivermos um por perto. – ofereci, mesmo sabendo que nunca chegaria esse dia.
– Você foi bem na audição hoje. – sua mudança drástica de assunto deu-me certeza do quanto ela queria chegar neste. Sabia que era uma ponte para poder falar, ou reclamar, da Cyrus.
– Obrigada. – apaguei a luz do quarto deixando apenas o abajur do lado de Selena aceso. Comecei a puxar a colcha estampada que cobria a minha cama, deitei cobrindo-me com ela. Afofei o travesseiro e acomodei-me na deliciosa e aconchegante cama da qual tanto precisava.
– Demi, o que voc...
– Selena, escute, se não gosta da Miley por ter machucado Taylor, isso não tem nada a ver comigo. – disse irritada, sabendo que começaria esse assunto – Eu não tenho tempo para isso, Selly, a vida que eu levo não é tão simples quanto a de vocês que é dilacerada por um amor não correspondido ou coisas do gênero. Tenho outras coisas para me concentrar e...
– Eu só ia te perguntar – disse num tom grave para interromper-me, depois voltou ao normal – se ainda estava de pé o plano da sala de informática. – Ela puxou a cordinha do abajur que logo apagou, deixou a guitarra no chão, deitou e virou-se para o outro lado. – Informe-me quando terminar o discurso do quanto sua vida é difícil e dos seus problemas particulares e da sua falta de tempo para se importar com coisas fúteis como o amor, mas... não o faça agora. Se não se importa, vou dormir.
– Argh, desculpe – não fazia sentido dizer isso, não me desculpava de nada. Ela não sabia nada da minha vida e estava julgando sem saber o que se passa, isso não é justo! – Olha, eu não quero brigar com você, tá bem? O que eu quero dizer é que eu não vou cair nos joguinhos da Miley. Já entendi que ela quebrou o coração da Taylor, mas isso não quer dizer que vá acontecer o mesmo comigo por ser amiga dela.
– É amiga dela? Já chama até pelo nome, não é...
– Bem, não sei... acho que não ainda. Mas não vai me proibir se eu quiser, vai?
– Não. – suspirou – Ok, me desculpa também. Não devia ter feito isso. – admitiu.
O silêncio caiu sobre nós de novo. Era muito fácil isso acontecer entre a gente e estava ficando constrangedor e incômodo, até porque nenhuma de nós dormiu, sabia disso, uma esperava a outra dizer algo que acabasse com o clima ruim.
– Está de pé. – eu disse.
– Legal. – ela entendeu logo. Mesmo não enxergando por causa do escuro, pude perceber que disse sorrindo – Boa noite, Dems.
– Boa noite, Selly.
Eu sabia que o dia que teria de revelar algumas coisas a ela não estava longe, assim como o dia que eu teria informações da minha família. Estava tudo muito próximo, mais do que eu imaginava, e isso me assustava. Esse ano faria dez anos que não tenho informação alguma delas, e pensar que em alguns poucos dias eu talvez conseguisse saber a localidade delas, quem sabe onde mamãe e Dallas trabalham, uma foto, ou simplesmente que estão bem, vivendo felizes. Qualquer coisa valia. E não estava muito longe disso, afinal, era quase impossível hoje em dia não ter nada a respeito de qualquer coisa que esteja procurando na internet. Pensando bem, não havia cogitado a possibilidade até agora de não haver nada sobre elas lá. Será que deixariam informações sobre elas assim expostas para o mundo ver quando poderiam estar sendo procuradas pelos capangas de Patrick?
Meu coração pareceu parar por um segundo e o medo invadiu-me. Começou a passar tudo muito rápido pela minha mente. E se não conseguisse saber nada delas? O que faria? Eu tinha um plano perfeito, tinha toda certeza do mundo que encontraria de primeira tudo que precisava, fugiria do internato por um dia, iria até a casa delas e a partir daí o destino resolvia. Em nenhum momento imaginei que pudesse falhar qualquer parte do plano antes de encontra-las. Percebi o quão infantil, sonhador e falho era esse plano.
Todo sono que tinha foi embora, agora não conseguia parar de pensar em outras formas de chegar ao meu objetivo. Seria uma longa noite.
Notas finais
E creio que vá demorar um pouco pra mudar o POV.
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