Notas iniciais
É, era pra eu ter postado esse capítulo antes, mas eu dei uma enrolada e os dias não colaboraram..... Não é fácil atrasar um capítulo que já estava PRONTO......................................................... eh osso kkkkkkk Cheson'hamnida galeríssima Obrigada a todo mundo que está lendo. Como sempre digo vocês são demais, sempre me dando apoio! ♥ E vamos de capítulo novo!!!!

Recomeço tem sido uma palavra bastante presente na vida de Sara, assim como na vida de Grissom. Para os dois, aquela palavra ganhou um novo significado. Voltar a falar, a mover o corpo, a viver; virar a chave, mas ao mesmo tempo, retornar de onde se parou.

Em todo tempo ela estava junto dele, pronta para ajudá-lo ou estar presente como um apoio a mais. Passo a passo. No dia seguinte após a visita dos amigos ao seu quarto, Grissom iniciou o processo para recuperar seus movimentos; a terapia com a fala começaria depois. Para ele, ter que reaprender a executar simples movimentos assim como uma criança foi desgastante. Sua feição cabisbaixa não enganava Sara, sempre atenta a cada gesto, cada postura sua. Por mais que tentasse elevar a sua autoestima, somente ele sabia onde o calo doía mais, porém se recusava a entregar isto.

Quando saiu da cama pela primeira vez, Grissom teve de usar a cadeira de rodas. Seu corpo, pesado, não o deixava sequer mover as pernas direito por conta dos músculos atrofiados, dois pesos mortos. Parecia um cérebro ambulante, vivendo sem parte do corpo. Movimentar os membros inferiores eram uma luta cansativa.

Deixar a cama parcialmente não era total sinônimo de liberdade. Dentro de si, Grissom sentia-se preso.

Sara já pensava o contrário. Para ela, o fato de ter saído da cama pela primeira vez foi uma conquista. Grissom ficou em cima de uma cama por meses, todo pequeno progresso era uma vitória. Tudo o que vinha depois seria por conta do trabalho e dedicação.

— Como se sente agora que saiu da cama pela primeira vez? — perguntou a enfermeira logo após ele ter se instalado na cadeira de rodas.

O supervisor fez uma careta como quem dissesse "mais ou menos". Além de ser difícil usar a garganta para falar, Grissom não tinha vontade de responder usando a voz, mesmo que pudesse. A terapia com o fonoaudiólogo trabalhava suas cordas vocais com pequenos exercícios e, aos poucos, a capacidade de fala iria retornar. Os exames realizados anteriormente indicaram que não houve dano permanente em suas cordas vocais, porém Grissom queria se poupar. Não era uma experiência assustadora permanecer calado a maior parte do dia, afinal. Quanto menos usasse a voz, para ele, melhor seria.

Não queria se olhar no espelho. Sabia que ficou mais mago; a barba grande desalinhada e os cabelos desgrenhados o deixavam com uma aparência mais envelhecida. Temia ver seu próprio reflexo e não se reconhecer, imaginando que aquele não era realmente Gil Grissom, mas um outro homem, um desconhecido. Sem ânimo para se preocupar com tarefas simples, chegou a recusar a ajuda de sua noiva para barbeá-lo.

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E os dias iam passando.

Com o aval da enfermeira Wheeler após a sessão de fisioterapia, Sara e Grissom foram permitidos a percorrer uma área próxima ao quarto dele. Viram que seria bom para ele sair do quarto que não fosse para realizar algum exame ou terapia; uma tentativa de melhorar o humor abatido de Grissom.

— É bom sair um pouco da rotina às vezes. — Sara comentou enquanto o guiava pelo corredor. Na maior parte do tempo ele respondia com gestos ou língua de sinais que ela já conhecia.

Faltava pouco mais de uma hora para o lanche da tarde. Para Grissom, só de não precisar se alimentar por uma sonda e começar a comer alimentos leves tinha sido algo a se comemorar. Porém não estava satisfeito. Ele sabia que haviam etapas a serem cumpridas antes de ganhar alta, mas viver num ambiente semifechado começava a incomodá-lo; incrivelmente o homem que se acostumou a lugares rotineiros.

Sara já percebia que seu humor já não era o mesmo.

— Não era isso o que você queria, eu sei, mas nós estamos progredindo, não acha?

Se tinha algo do qual não podia reclamar naquele hospital era a presença de Sara; única ligação afetiva num ambiente desconhecido. Grissom se esforçava para transparecer que estava bem, que estava aguentando firme. A verdade era outra.

— Você tem progredido bem. Doutor Reed vem afirmando isso.

Grissom não reagiu. Pareceu não ter prestado atenção à pergunta ou ter ignorado de propósito.

Não haviam muitas pessoas na pequena ala de espera aonde chegaram. Estavam espalhadas; gente sentada em cadeiras de metal, focadas em seus próprios mundos ou em conversas pelo celular. Cinco pessoas ao todo: uma recepcionista; o zelador que acabara de limpar o piso branco quase reluzente; uma mulher falando no celular na última fileira de cadeiras; um homem sentado à primeira fila, de braços cruzados e feição nervosa e um senhor de idade em frente a uma janela à esquerda de Grissom e Sara. O supervisor tentou observar cada uma das figuras, buscando em si o que lhe faltava, o que havia neles o que tanto ansiava ter de volta. Continuava preso, sem perspectiva nenhuma de quando seria livre.

Os dois passaram uns vinte minutos fora. Fim de "passeio", o caminho de volta para o quarto seria tão semelhante como o caminho de ida: melancólico. Notando que Grissom parecia disperso demais, Sara tentou puxar assunto; fazer com que reagisse às suas palavras ou se distanciasse dos próprios limites.

— Eu imagino como se sente agora. Deve ter toda a vontade do mundo em sair deste lugar.

O supervisor se limitou a respirar fundo e lentamente.

— Há um tempo atrás eu só podia te ver desacordado numa cama. — Suas palavras saíram mais como um protesto escondido que uma tentativa de conforto.

Ele percebeu o tom abatido com o qual Sara falou e se sentiu mal. Sentiu-se um homem ingrato que nem reparava na dedicação da noiva em permanecer vinte quatro horas por dia no hospital para acompanhá-lo. Já havia se passado mais de duas semanas desde quando ele acordou do coma, só que ele não havia percebido que Sara esteve perto dele por muito mais tempo.

Grissom não se manifestou até o momento em que retornaram ao quarto. Ao notar que ela fechou a porta e se aproximou dele, o supervisor pediu desculpas em gesto de sinal. De vez em quando, decepcionado pela própria incapacidade, acabava descontando no primeiro que encontrava uma espécie de raiva sem sentido.

— Tá tudo bem. — Sara o levou para perto da cama, pensando em chamar pela enfermeira para colocá-lo de volta no leito. — Ninguém disse que seria um mar de rosas. Não dá para sorrir o dia todo.

Apesar de não conseguir manter uma conversa fluída com ela — Sara não tinha o domínio da ASL —, só de ouvir sua voz falando sobre qualquer coisa o deixava contente. Só de vê-la ao seu lado já era motivo para se alegrar. Ela deixou a recente nova vida em São Francisco e voltou por causa dele. Voltou para o lugar que decidiu deixar para trás apenas por ele. Não era qualquer um que fazia aquilo por amor, mas ela o fez. Talvez nunca tivesse percebido a dimensão do que foi a escolha de Sara. Ele, que passava por um período difícil sem a pessoa que amava por perto, de repente, via aquela mulher de novo todos os dias: antes de dormir e assim que acordava.

— Vou chamar a enfermeira pra te ajudar com a cama, tá bom?

Antes que ela desse um passo, Grissom a chamou usando a mão direita. Sara permaneceu no mesmo lugar imaginando que ele iria pedir alguma coisa. Para a sua surpresa, o supervisor pediu que se aproximasse. Em pouco tempo imaginou mil situações e quais decisões teria de tomar.

— Quer alguma coisa? — perguntou ao se caminhar para perto e se inclinar frente a ele.

Aquela foi a oportunidade para Grissom, que alcançou sua mão esquerda e a pressionou como se fosse a última e a única coisa a se agarrar antes do fim. Teve de lembrar a si mesmo que a mulher que amava estava bem ali. Mas e se ela fosse embora em breve? Seu lugar não era aqui, uma hora ela iria ter que deixar. Vegas de qualquer jeito ou poderia ter uma recaída. Tudo o que Grissom não iria querer. Mas o dia seria iminente.

Era o momento de fazer o que não pôde, e desta vez, fazer certo. Ele aspirou todo o ar que podia para seus pulmões. Contou com a própria força para usar a voz ou parte dela quando falou suas primeiras palavras após horas e horas em silêncio:

— Case comigo, Sara.

Silêncio.

Os olhos da morena se arregalaram quase como na vez em que ouviu a notícia sobre o incidente com ele; desta vez não foi por um mau motivo, muito pelo contrário. Sua voz grave e um tanto rouca saiu quase irreconhecível. Falhou até, mas as palavras saíram de sua boca e somente isto importava.

Sara esboçou um sorriso incrédulo, totalmente pega de surpresa. A falha em seu dente, diastema, amoleceu ainda mais o coração endurecido de Grissom. Ele amava aquele sorriso que iluminava seu dia, uma das coisas que mais sentia falta. Ainda próxima, Sara visou seu rosto esperando por uma reação e tudo o que viu foi um olhar penetrante, buscando o dela. Não sabia se ficava mais comovida por ele ter falado ou pelo pedido em si.

— Olha só você, dizendo as primeiras palavras. — Sem jeito sobre o que responder, ela passou a mão por seu rosto. Tocada por uma curta e poderosa frase Sara sentia todo o orgulho do mundo.

Nada do que havia sido feito foi em vão. Pouco a pouco os resultados chegavam e se faziam evidentes.

— É claro! — Ela envolveu seu rosto com as mãos e o acariciou como adorava fazer. — É o que eu mais quero.

O sorriso, enfim, surgiu no rosto de Grissom. Ele queria fazer certo desta vez. Tudo para não errar de novo. Ele só a queria por perto, amá-la com todas as suas forças e poder chamá-la finalmente de "minha esposa".

Emocionada, ela beijou sua testa carinhosamente e o abraçou com cuidado. Ele se sentiu em casa ao receber aquele abraço. Fechou os olhos para se perder em seus braços.

— Quando isso aqui acabar nós vamos nos casar — disse ao encostar sua testa na dele. O sorriso dela ia de orelha a orelha.

Todos os dias quando acordava e não via a mulher por quem se apaixonou junto dele, era como sentir uma dor que o corroía por dentro. Sua luta diária, na qual sofria calado e ainda precisava transmitir aos outros que estava bem. Ouvir sua voz pelo telefone ou vê-la através de uma tela de computador não era a mesma coisa; nunca seria. Mas agora Sara estava bem à sua frente. Não havia palavras melhores a serem ditas do que aquelas. Algo preso em sua garganta há um bom tempo. Naquele instante, Grissom foi o homem mais feliz da Terra.

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No período que as visitas voltaram a ser permitidas, Grissom continuou recebendo seus amigos, mas desta vez em quantidade menor e por intervalos maiores. Sua recuperação trouxe grande alívio para eles, que logo o teriam por perto em breve, então já não era necessária uma presença constante no hospital. Melhor para o supervisor, acostumado a não receber aglomerações.

Catherine foi a visitante da vez. Aproveitou a saída do trabalho pós-turno para ver o amigo e saber como estava indo a recuperação. Após isso iria voltar descansar um pouco. Fazia tempo que não parava um pouco para respirar e recuperar o fôlego.

Ela tomou um banho no trabalho mesmo e trocou de roupas. Uma blusa branca de alça fina, calça jeans e um blazer carvão completavam seu look. Claro, arrumou-se como um pretexto de ir ver o namorado logo após sair do hospital.

— Ei, Cath, bom te ver.

Ao se encontrar com Catherine à entrada do quarto, as duas se cumprimentaram com um breve aceno. A recomendação era de que houvesse pouco contato físico entre visitantes entre acompanhantes, muito menos com os pacientes.

— Digo o mesmo. Como você está?

— Cansada, eu vou admitir. — Ela respondeu sorrindo. — Mas estou indo.

—Ah. — Mostrando-lhe o mesmo gesto, a morena balançou a cabeça.

— E o Gil?

— Bem... — Movendo os ombros para tentar relaxá-los, Sara encostou na parede adjacente à porta. Não olhou pelo vidro para saber se ele as observava. Ela recostou a cabeça na superfície dura e lisa, ajeitou o moletom cinza largo quase duas vezes maior que ela. Não era adepta aos ambientes frios; por pouco não utilizava uma calça mais fina por dentro da jeans para se aquecer mais. Mesmo estando a dias ali ela não se acostumava com a temperatura.

Ela suspirou brevemente. Achou que de sua boca saiu vapor.

— Na medida do possível.

Olhar cabisbaixo, postura retraída, demora em responder à pergunta. Sara não parecia bem, não podia enganá-la.

— Tem alguma coisa pra me dizer antes da gente entrar? — Catherine sugeriu.

— Ele... o corpo dele está se recuperando bem. Não vai demorar muito até receber alta. A questão é que... — A hesitação de Sara era evidente. Não era seu desejo contar aos outros sobre o que ocorria com Grissom, com receio do que poderia acontecer depois. — Ele não se sente à vontade para falar.

— Imagino que isto seja normal, não? — Catherine não viu problema no que ouviu, mas o semblante fechado de Sara a intrigava. — Gil foi atingido na garganta, praticamente. Acho que até eu teria receio em falar.

— Talvez — respondeu Sara ao refletir nas palavras da amiga. — É que não é normal... para ele — disse. — O médico já confirmou que o Gil está bem, que as suas cordas vocais estão 100%. Mas... ele ainda se recusa a usar a voz.

Quando Catherine realmente entendeu o motivo do seu abatimento, a supervisora se comoveu pela amiga. Devia ser difícil lidar com uma situação daquela.

— Sinto muito, Sara. Pensa em fazer alguma coisa sobre isso?

Sorrindo torto, a morena balançou os ombros e se afastou da parede.

— Não sei, preciso de paciência. Não posso forçá-lo a nada.

— Vocês vão conseguir. — As palavras confiantes da supervisora talvez tenham surtido efeito em Sara, que já mostrava um semblante melhor.

— Obrigada. — Ela assentiu. O semblante foi mudando aos poucos para algo sério. — E, Catherine.

— Sim?

— Não conte aos outros, por favor — pediu com toda convicção possível. Sara só falou daquilo a Catherine porque sabia que, dentre todos eles, a supervisora era a pessoa mais próxima de Grissom. — Não quero que eles se sintam mal.

Catherine a fitou por alguns segundos antes de dar sua resposta.

— Está bem.

— Obrigada.

Sara deu a deixa e as duas entraram no quarto de Grissom. Encontraram o supervisor em sua cama, devidamente concentrado em sua revista de caça-palavras. A feição estressada indicava que ele não estava indo muito bem no passatempo.

Antes de se dirigir ao sofá, Sara fez uma careta para a amigam indicando-a para seguir em frente. Nem se preocupou em chamá-lo.

— Grissom! — Catherine chegou falando num tom audível para chamar sua atenção. Acenando para ele, a mulher se aproximou da cama.

O supervisor estava tão concentrado que se assustou com a voz alta de Catherine chamando por ele. Ele ajeitou os óculos descaídos no rosto e baixou a revista aos poucos para olhar na direção daquela voz. Percebendo que seu plano deu certo ela riu e parou bem ao seu lado.

— Ei, meu amigo. Como você está? — Ela tocou gentilmente em seu ombro. Esperou que recebesse uma resposta por voz, ainda que curta.

— Bem — respondeu, mas se utilizando dos lábios e não da voz. Seu olhar retornou quase que imediatamente para as palavras-cruzadas.

Impressionada, Catherine se virou para Sara, que prestando atenção na recente conversa, apenas balançou os ombros como se não pudesse fazer nada.

— Tem muito mais dessas lá fora — disse, referindo-se à revista. — Quando é que você vai sair daí, hein? — Ela brincou.

Voltando a encarar a amiga, Grissom, com seu olhar distante, moveu os ombros como se não soubesse responder. Quase igual ao gesto de Sara anteriormente.

— Vocês dois se merecem — disse ela após revirar os olhos. Coincidentemente Grissom e Sara trocaram olhares confusos, tentando entender o que Catherine quis dizer.

Grissom não esboçou interesse em manter uma conversa com Catherine. Sua revista lhe atraía mais. Vendo que não conseguiria mais nada com ele, Catherine acabou desistindo, resolvendo se juntar à Sara no sofá.

— Está com febre, Sara? — A supervisora pouco tinha reparado no grosso moletom que Sara vestia.

— Só morrendo de frio nesse hospital. Estou brigando com Sandy para aumentar a temperatura de vez em quando. — Sua resposta a fez rir. — Acho que frio não existe pra ele ali. — Ela apontou para Grissom.

— Depois dessa, Grissom vai ficar te devendo bastante.

Sara se limitou a sorrir e balançar a cabeça. Tirando o trabalho, não era uma pessoa de ficar pedindo favores, ainda mais se tratando do seu próprio noivo. O que tinha de ser acertado seria feito bem depois, quando ele deixasse o hospital e se instalasse novamente em casa.

— E você? Vai voltar para o trabalho daqui a pouco?

— Não — falou aliviada. — Consegui uma folguinha. Vou aproveitar o quanto posso.

— Bem gentil da sua parte vir aqui.

— Não esquente com isso.

— E os outros, estão bem?

— Estão, sim. Sempre perguntam sobre você.

— Fico feliz em saber.

Receber a visita de alguém nos últimos dias estava sendo uma boa coisa para Sara. Com Grissom ainda indisponível para falar, ter a presença de seus amigos lhe proporcionava trocar mais de duas palavras e manter uma conversa. O tipo de conversa que infelizmente ainda não havia conseguido prosseguir com seu noivo.

Sara amou ter ouvido da boca dele um novo pedido de casamento, a única coisa que ele realmente falou desde aquele dia. Se pudesse trocar o pedido por ouvir sua voz com mais frequência ela o faria. Infelizmente.

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Dois dias se passaram.

O maior desafio de Grissom, no momento, era voltar a falar normalmente. Seu empecilho já não era mais a parte física; suas cordas vocais estavam 100%. O que o impedia de se expressar com a voz, simplesmente, era ele mesmo. Uma guerra psicológica dentro de si o fazia se questionar se realmente estava bem para usar a voz. De vem em quando se pegava tocando na região do ferimento em seu pescoço, agora coberto por uma fina camada de curativo. Perguntava a si mesmo se seu corpo estava se recuperando ou degenerando lentamente.

Falar, para ele, tornou-se um tabu. Seria tão mais fácil se comunicar usando língua de sinais e deixar que seu próprio corpo se recuperasse com o mínimo de esforço. Entretanto, nem todos ali sabiam ASL; o pouco que Sara sabia foi o que aprendeu pelo tempo convivido com ele.

Foi justamente por ela que Grissom lutava contra si mesmo. Se uma parte queria arriscar, dar o primeiro passo, a outra queria se manter na zona de conforto. Ele não tinha descanso.

— Sinta-se à vontade para falar quando estiver pronto — disse ela assim que o viu terminar de comer o lanche da tarde.

Grissom esperou ela trazer mais algum argumento para convencê-lo a usar a voz. Ao finalizar seu suco de laranja, o supervisor olhou para disfarçadamente para ela e então soltou um suspiro. Ele queria falar, mais para conversar com Sara e saber o que tem acontecido com ela. Perguntar sobre pequenas coisas, detalhes que ele adorava abordar. Porém, havia receio de não conseguir mais se expressar como antes. Talvez suas pregas vocais tivessem sido permanentemente danificadas e ninguém percebeu isto nos exames. Só de pedir Sara em casamento mais uma vez lhe foi exigido esforço. Para um homem de poucos receios, Grissom começava a duvidar de si mesmo.

Não que ele não quisesse falar. Grissom fazia todos os procedimentos recomendados pela enfermeira; bebia água toda hora, talvez nunca bebeu tanta água em sua vida em tão pouco tempo. No seu cardápio, maçãs amassadas viraram café da manhã e sobremesa obrigatória.

Sara pegou a bandeja e a deixou na mesa. Quieta, preferiu evitar o contato visual com ele, dando o tempo e espaço que ele queria. No fundo estava preocupada, não por seu estado de saúde físico, mas psicológico. Uma espécie de trauma que o deixava tenso sem que ninguém percebesse. Seu medo era de que Grissom se fechasse num mundo do qual seria difícil sair.

Quinze minutos se passaram. Minutos de um silêncio perturbador. Grissom respirou fundo, cerrou os punhos como se pegasse forças para si.

— Sara. — Ele falou, pigarreando um pouco para falar seu nome com clareza.

Após ficar por um bom tempo ouvindo sua própria voz, finalmente Sara pode escutar o som inconfundível que vinha da voz de seu noivo. Ela se virou para trás na mesma hora e foi ao seu encontro.

— Oi. O que foi?

Fazendo um esforço para sair daquela posição, Grissom afastou o lençol de suas pernas rapidamente e se moveu para deslizá-las para fora da cama. Queria fazer isso sem apoio algum.

— Calma. Era só ter pedido ajuda. — Ela o repreendeu.

Sua atitude a pegou de surpresa. Sara achou aquele movimento inesperado pura imprudência. Pareceu mais um "ato de rebeldia" que uma tentativa de se mover.

Ela permaneceu de pé, atenta a cada movimento seu e pronta para reagir caso fosse necessário. O que antes aparentou ser uma tentativa de forçar o corpo além do que foi recomendado se tornou em um semblante triste e uma postura abatida.

Ah, Gil.

Grissom se inclinou um pouco para frente e observou a pulseira colocada em seu braço esquerdo. Por cinco segundos ficou naquela posição até que esticou o mesmo braço em direção ao espaço vazio deixado ao seu lado. Seu intuito era chamá-la para se sentar junto dele.

— Gil, eu não... Não é bom que-

Ela parou de falar no momento em que o supervisor a fitou diretamente. Quase impossível escapar daquele olhar incisivo; ela mesma não pôde escapar, não daquela vez.

— Tá. Tá bom. — Sara recuou, sabendo que ele daria um jeito ou outro de conseguir o que desejava. Receosa, sentou-se ao seu lado, bem no ponto onde ele havia indicado anteriormente. Após isso visou a porta para saber se não havia olhares inesperados, que os pegasse de surpresa. Ela inclinou a cabeça para perto de Grissom de modo que ele não precisasse falar tão alto. — O que foi?

Grissom virou o rosto para ela enquanto contorcia os dedos das mãos. Falar era um desafio, desafio que mexia com a sua mente. Mas desta vez ele estava em segurança; ela estava por perto e não havia com o que se preocupar. Ao menos era assim que ele pensava.

Ele umedeceu os lábios vagarosamente. Nunca se sentiu tão inseguro desde a vez em que recobrou a consciência. Voltou a olhar para as mãos retraídas.

— Estou com medo.

O supervisor falou tão baixo que ela não o ouviu por pouco. Suas palavras a tocaram de modo que ela ficou sem reação. Poucas eram as vezes em que o via se sentir tão frágil. Mal podia imaginar o quanto ele sofria sem dizer uma palavra.

Aos poucos, Sara pegou sua mão e entrelaçou seus dedos com carinho. Sabia que dizer que tudo ficaria bem não adiantava; não adiantava com ela, que já sentiu na pele quase todo tipo de dor, então não devia adiantar para ele também. Não falou.

Ela pressionou sua mão para ele soubesse que não estava sozinho. Cobriu-a por cima e se achegou ao noivo, descansando a cabeça em seu braço. Queria ter uma “fórmula mágica” para eliminar os seus medos ou a dor que estivesse sentindo. Não imaginava que seu problema fosse tão sensível.

— Todos nós levamos nosso próprio tempo para se recuperar de um trauma. Eu demorei a me acostumar em ficar sozinha no escuro. Até as noites chuvosas me davam calafrios. — Sara disse, na tentativa de que suas palavras lhe servissem de exemplo. — Você sabe disso, esteve ao meu lado aquele tempo todo.

O semblante de Grissom pareceu se entristecer ainda mais. Ele presenciou as pequenas "situações incômodas" que a atingiam certas vezes. Sensações de que poderia ser atacada a qualquer momento ou levada de volta para debaixo daquele carro sem ter chance de sair como da outra vez. Foram pesadelos e noites mal dormidas. Grissom não a deixou em nenhum instante e foi seu ombro amigo na luta para se recuperar.

— Estou me recuperando. É um processo — disse ela novamente. — E sei que você também está.

Grissom manteve a cabeça baixa. Ameaçou respirar fundo, mas acabou se retraindo.

— Não vou te forçar a nada, ninguém aqui vai fazer isso. Você acabou de sair do... impossível. Eu compreendo que ainda esteja em dúvida ou que sinta medo. Mas saiba que nós estamos do seu lado.

Ela ficou quieta, tentando imaginar o que Grissom pensava após ouvi-la. Repousou novamente a cabeça sobre seu braço e, fechando os olhos, agradeceu novamente por tê-lo bem ao seu lado.

— Eu não vou enganar você dizendo que não sinto falta de ouvir sua voz. — Ainda de olhos fechados ela sorriu. — Não acha que isso também me atraiu em São Francisco?

Curioso por suas palavras, Grissom a encarou diretamente. Percebendo aquilo, Sara abriu os olhos e os dois se encontraram. O brilho nos seus olhos evidenciava a felicidade que ele sentiu ao ouvir aquilo.

— Sério? — Ele sussurrou meio sem jeito.

— Acha que eu iria mentir, Gil?

O sorriso estampado no rosto do supervisor foi se apagando pouco tempo depois, o que a obrigou a continuar mantendo seu humor o mais alto que conseguia.

— Eu só não gostava de ouvir quando me acordava na cama, dizendo que já estava na hora de sair. — Sara brincou, fazendo-o rir.

Era tudo o que mais gostaria de ver. Ao deixá-lo curtir o breve momento de descontração, pensou no que dizer em seguida para motivá-lo a largar o medo. Algo que não o tirasse da zona de conforto de uma vez, mas o suficiente para despertá-lo.

Sara ergueu a mão entrelaçada e a beijou com feição.

— Obrigado por... vir — sussurrou o supervisor. Uma mistura de timidez e vergonha lhe faziam frente. Vergonha porque, de certa forma, foi o motivo para que Sara deixasse a Califórnia e retornasse ao lugar que trouxe terríveis experiências em sua vida. Por outro lado, não queria outra coisa senão sua companhia.

— Vai ficar tudo bem.

Buscando se achegar ainda mais, Grissom deixou-se inclinar mais até que chegou ao colo de Sara, onde repousou sua cabeça e fechou os olhos. Poucas atitudes acalmavam seu espírito; repousar-se sobre ela era uma delas. Por alguns segundos sentiu que ela nunca foi embora, que sua noiva sempre esteve por perto.

Ele sorriu ao apreciar aquele momento. Valia ouro, não trocaria aquilo por nada.

— Ficar nesta posição não vai te incomodar?

Ele fez que não com a cabeça. Claro, não perderia a oportunidade de receber carinho dela, nem que fosse por pouco tempo. Chegaria uma hora em que seu corpo iria clamar para sair daquela posição, mas até lá ele teria aproveitado o momento único.

— Está bem. — Vendo a atitude meio impulsiva dele, Sara deixou um sorriso escapar. Mantendo-se quieta, preferiu aproveitar o momento, talvez a primeira e única vez na qual ele realmente se sentiu em paz. — Eu te amo — falou enquanto passava a mão por seus cabelos. Falou com toda a sinceridade que podia, uma declaração que puxou de dentro do peito.

Fique comigo, pensava Grissom, sem coragem suficiente para dizer a ela. Temia acordar um dia e não ver mais a mulher que amava. Queria que esse "ficar" fosse para sempre, assim como a sensação de que as carícias dela não fosse acabar. Seus medos se aumentavam. Ele não queria perdê-la de novo. Seria perder parte de si e se sentir vazio novamente.

Não me deixe de novo, pensava ele. Por favor.

Com calma, Grissom buscou alcançar a mão dela. Em pouco tempo ele teve o que desejava. Sara deixou de acariciar seu rosto para envolver sua mão quente apesar da baixa temperatura no quarto.

Há pouco tempo a única coisa que ela podia fazer era segurar sua mão e assisti-lo numa cama, desacordado. Agora, Grissom repousava em seu colo e lhe desabafava seus medos. Não era o que Sara realmente gostaria: ver seu noivo se sentindo incapacitado de seguir em frente, mas seu alívio era de ter o homem que amava se recuperando. Sabia que aquela fase iria passar.

Ela também sabia que Grissom não iria voltar a falar de repente, num passe de mágica. Seria um processo. Era como destrancar um baú e encontrar outro, também trancado.

— Se não fizer por você, então... faça por mim.

Àquela altura, serem pegos por estar violando alguma recomendação já não faria diferença para eles; principalmente para ela, que por muito pouco não o perdeu para sempre.

Por ela, Grissom faria um esforço. Deixaria sua zona de conforto de lado. Ganhou a chance de recomeçar a vida e desta vez seria diferente.

Notas finais
Sabe aquelas coisa que você vê que é triste e animador ao mesmo tempo? Então foi esse capítulo aí. Eu tô vendo muito dorama coreano então estou sendo muito influenciada. Não se surpreendam se eu aparecer com uma fic GSR inspirada em um k-drama. A propósito: vejam Mr Sunshine e Crash Landing on You >>>>>>>>>>>>>>>> Eu tenho que cumprir uma cota de angst nesta fanfic, não pode ser 100% feliz o tempo todo. É, pessoal, de volta ao planejamento. Tenho nem o que falar sobre GSR, sou suspeita pra falar desse shipkkkkkk Muito obrigada a todos que estão lendo, vocês são incríveis!!! Um grande beijo e até o próximo capítulo!!! ♥ ♥