For Grissom
21 Uma visita qualquer
Notas iniciais
Seria fácil dizer que em poucas semanas, meses, as coisas voltariam ao normal. Muito fácil falar.
Grissom passou por situações difíceis e até mesmo bizarras, porém a experiência de quase morte o fez enxergar a vida com outra perspectiva. Uma hora estava dentro de um carro e, de repente, sua mente apagou. Poderia estar morto. Sem chance de retornar, ver seu cachorro, descansar um pouco, ligar para a mulher que amava, quem sabe. Por pouco seria ele numa mesa do doutor Robbins, que lamentaria sua morte tão repentina ou talvez nem conseguisse executar a autópsia. Num dia de trabalho qualquer seria Grissom a pessoa chamada para periciar uma cena de crime na qual um homem teria sido baleado e morto. Se passar por vítima pela primeira vez foi uma experiência desgastante.
Criatura da noite como era conhecido, Grissom, ainda impossibilitado de trabalhar, pediu a Sara que o acompanhasse até o Laboratório para ver como as coisas estavam. Uma semana se completara desde que ganhou alta, tempo suficiente em sua opinião para pisar no Departamento de Criminalística. Avessa à ideia, ela não escondeu o desejo de mantê-lo em casa ou ao menos longe do Laboratório.
Após algumas pequenas discussões os dois entraram num consenso.
Ele cortou o cabelo com o barbeiro, amigo seu de anos. Fez questão de pedir à sua noiva que o ajudasse com a barba, não porque não conseguia se barbear; a verdade era que sentia falta daquelas mãos tocando em seu rosto, assim como foi no hospital. Sentir seu toque era um desejo de muito, muito tempo. Se soubesse que o beijo no Laboratório teria sido o "último", Grissom daria mais valor ao gesto do qual não conseguiu interpretar a tempo.
Os dois seguiram no carro dele. Era ela quem dirigia, aproveitando para matar a saudade do volante. Uma sensação boa e nostálgica passava pela ex-CSI, como se as boas lembranças dos tempos de perícia retornassem. Sentir a brisa quente de Vegas lhe fez bem, ao menos por um tempo. Tinha de pensar nas coisas boas do lugar para não sentir aquele vazio dentro de si novamente.
Grissom parecia disperso; não que isso fosse algo incomum no caso dele, mas naquela ocasião o supervisor se mostrava mais distante que de costume. Sara não sabia confirmar se ficou daquele jeito com o passar do tempo ou se ele realmente não estava bem. A verdade era que Grissom, de modo surdino, observava cada canto, cada detalhe do seu veículo na tentativa de recuperar os fragmentos perdidos de sua memória.
Queria não fazê-lo. Como vítima, quis se esquecer de parte dos eventos para dormir em paz sem acordar com sonhos estranhos sobre aquela noite. Apesar de manter um comportamento pacífico, sereno até, Grissom era pego por alterações no sono causado por aqueles sonhos. Nos primeiros dias após retornar para casa estes eram seus maiores problemas.
Como criminalista, queria se recordar de todo detalhe, o mínimo que fosse, desde o dia do crime até os dias anteriores para saber em que momento ele se descuidou e em como a situação teve seu desfecho. Era a primeira vez que entrara naquele carro há meses.
— Talvez a gente devesse ter vindo de táxi — comentou Sara ao perceber o comportamento demasiadamente peculiar do noivo.
— Hã? — Chacoalhando a cabeça umas duas vezes, Grissom se virou em sua direção.
— O carro. Pelo visto está te trazendo lembranças desagradáveis.
— Eu estou bem. — Ele falou baixo. — Só estou tentando me colo-
— Não, não. Nada disso. — Quando viu que Grissom começava a criar uma narrativa sobre se por de volta ao carro no dia do crime, ela tratou de interrompê-lo. — Nós combinamos de esquecer esse dia. Aquela noite já passou.
— Eu sei, querida. Mas... — O supervisor buscou palavras para se legitimar, porém não conseguia se exprimir direito. Para ele seria impossível de se esquecer tão facilmente dos minutos em que esteve a poucos passos da morte.
— Você ainda está se recuperando.
Se fosse traduzir em números, Grissom diria que estava 98% recuperado. Mas para ela, todo cuidado ainda era pouco até o dia em que ela o visse e tivesse certeza de que ele estava bem.
Aproveitando a pequena brecha, Sara conseguiu alcançar sua mão e a tocou gentilmente por alguns segundos. Seu toque, mesmo que breve, o fez repensar seu comportamento.
— Quanto menos se forçar, tentando se lembrar do que aconteceu, melhor — insistiu.
Após sentir aquele toque ele desistiu de tentar. Mil vezes melhor ouvir o sermão de Sara bem do seu lado que ouvir qualquer outra coisa a quilômetros de distância.
— Está bem...
Foram as únicas palavras que Grissom falou antes de voltar a ficar em silêncio. Por um breve momento ela quis ler sua mente para saber se ainda pensava naquela noite. Tudo para mantê-lo o mais longe possível de qualquer efeito negativo sobre seu psicológico, assim como ele tentou quando ela mesma foi uma vítima.
— Imagino que esteja louco para saber como andam as coisas no laboratório.
Visando suas próprias mãos enquanto a ouvia falar, Grissom se virou novamente para ela. Chegou a mover os lábios para respondê-la, mas hesitou no começo e só depois encontrou as palavras que achou certas.
— Só espero que esteja em ordem.
— Eles são grandinhos — brincou ela. — Não vão explodir o laboratório... de novo. — Ela tentou com todas as forças segurar o riso iminente.
Grissom lhe lançou um olhar reprovador. Tanto ela, Greg, como outros membros do laboratório já correram riscos sérios anos atrás. Não era o tipo de coisa que ele gostaria de se lembrar.
— Você poderia ter se ferido seriamente naquela vez. — Ele falou num tom repreensivo, que a fez sorrir quase na mesma hora. — Você e Greg.
Até que ela tentou esconder os lábios se curvando, mas não conseguiu. Mesmo sem que manifestasse quaisquer atos (explícitos) de carinho com ela, pouco a pouco o supervisor mostrava seu zelo para com a subordinada. Zelo que ficou cada vez mais evidente para ela. Não poderia ser coincidência.
— Não foi nada grave comigo.
Desta vez a feição do homem se transformou em algo confuso. Nunca entendia o motivo de sua noiva amenizar certas situações.
— Mas poderia ser. — Ele retrucou. — Céus, e o Greg?
Sara teve de concordar que ele poderia ter se ferido gravemente. Para o alívio de todos, os dois ficaram bem ao final daquilo; o que lhes restou foi um pequeno trauma.
— O mais importante foi que todos nós ficamos bem.
A explosão na sala do Laboratório poderia ter sido uma tragédia. Pior que prejuízo econômico e material, perder vidas seria um golpe terrível demais para se superar. Algo impossível de se repor ou correr atrás. Graças a Deus não ocorreu nada pior com ela e Greg, pensou ele.
Fitando o para-brisa, Grissom buscou encontrar o reflexo de Sara. A mulher carregou por alguns segundos um semblante satisfeito, como se suas palavras fossem suficientes para encerrar aquele assunto. Ele tinha mais argumentos, sim, mas já deduzia uma resposta dela para todos eles.
— Você sempre esteve cuidando de todos nós — comentou ela, relembrando-se dos velhos tempos. Sorte a dela poder separar a boa época dos momentos ruins, na qual podia enxergar com quase 100% de clareza os dias em que ele, sem perceber, demonstrava gestos de afeto.
Por um tempo ela chegou a acreditar em seu desprezo, que na verdade a escolha de chamá-la para trabalhar em Vegas foi um erro. De alguma forma, percebia que Grissom a evitava em certas ocasiões e isso a deixava irritada. Ainda mais quando essas atitudes ocorriam “coincidentemente” após Sara tentar alguma aproximação entre eles.
— De mim, inclusive.
Grissom cuidou de cada um dos seus subordinados do seu próprio jeito; às vezes mais e às vezes menos explícito. Cuidou-lhes como se fossem membros de sua família.
— E ainda posso cuidar. — A resposta de Grissom foi quase imediata. Seu rosto ficou vermelho de timidez ao dizer aquilo. Ele mal pensou direito, foi como um mecanismo de defesa. — Eu sei que... poderia ter feito mais... muito mais... — falou reticente. — Mas... eu ainda... posso cuidar.
No rosto de Sara formou-se um sorriso tímido, mas orgulhoso. Não comentou, mas adorava quando o ouvia dizer estar disposto a se dedicar aos dois ou admitir que certas atitudes do passado não eram de seu aprouve.
— Eu sei que pode.
Ao menos ela ainda tinha fé nele, apesar de tudo que enfrentaram nos últimos tempos pensou ele. Nenhum dos dois poderia admitir antes do incidente que o relacionamento vinha bem. “Mal” era uma palavra forte demais, porém, “bem” não era a palavra certa. A frequência de suas conversas era pequena. Sara precisava de seu tempo, espaço; quis se esquecer por um instante de tudo que aconteceu em Las Vegas, exceto por uma pessoa. Ela o amava demais para simplesmente esquecê-lo e tentou trazê-lo ou ao menos persuadi-lo por uma visita. Sentia-se só algumas vezes e a solidão se explicava por si só: saudade dele.
— Obrigado, Sara. — Cruzando os dedos e baixando ligeiramente a cabeça, Grissom comentou em voz baixa. Parecia envergonhado por algo que fez ou que não fez. Talvez as duas coisas.
— Agradecendo pelo quê? — Arqueando a sobrancelha direita ela perguntou curiosa.
— Por... vir até Las Vegas.
— Gil...
— Você não tinha obrigação de vir. Você está fazendo um esforço enorme e... Deus...
As palavras de Grissom, acanhadas, soaram como uma confissão de culpa. Ora, Sara veio por sua causa. Sofrera um trauma em Las Vegas, lugar do qual foi chamada para justamente por ele para trabalhar. Grissom tentou não pensar naquilo, realmente tentou. Mas às vezes se pegava indagando a si mesmo sobre ser a pessoa que a trouxe à Nevada, lugar da qual ela encarou uma das piores experiências da vida e que quase a matou. Se não bastasse isso, ele sequer pisou seus pés uma única vez em São Francisco para vê-la pessoalmente. Ficou tão surpreso ao vê-la naquele quarto no Memorial que mal podia acreditar que era verdade.
— Gil...?
Ele se perdeu nas próprias lamentações.
— Hã? Eu... me desculpe. Fiquei... meio perdido enquanto... pensava. — Ele forçou um sorriso torto que apenas entregou seu estado de espírito naquele momento. Para um homem indiferente a sentir culpa, havia uma única exceção da qual o fazia se sentir o pior homem do mundo: a mulher que amava.
— Não foi culpa sua — respondeu ela como se soubesse ler seus pensamentos. Só de ouvir uma pequena frase de agradecimento, Sara podia deduzir o que ele queria realmente dizer.
Ele só queria vê-la feliz. Só queria ver aquele semblante alegre que fazia seu coração palpitar amores por ela. Grissom a queria bem, do melhor jeito possível e não importava como. Mas ele também tinha um desejo: queria ser feliz ao seu lado. Queria fazer valer a oportunidade de ter a única pessoa que amou por perto.
— Estou vindo por você. Eu quero que isto seja especial, sem ressentimentos.
Engolindo em seco, Grissom desejou com todas as suas forças não sentir mais pesar por aquilo. Tinha de ficar feliz, menos que isso seria egoísmo seu. Porém, uma pequena parte dentro dele não aprovava isto; era contra a vinda de Sara. Seu amor por ela o fazia querer protegê-la das memórias ruins, da dor que sentiu em seu sequestro. A última coisa que Grissom gostaria era de ser o causador de um gatilho nela.
Sim. Ele a amava demais e só queria vê-la feliz, não importava como. Mas para que isto acontecesse era preciso tomar um passo adiante. Só não sabia se tinha a coragem necessária para fazê-lo.
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Faltava pouco para o turno da noite começar, porém a maioria deles se encontrava trabalhando. Quem não estava por lá estaria em casa a descanso ou resolvendo assuntos relacionados ao trabalho.
Ao chegar à recepção uma onda de vergonha atingiu Grissom, assim como em sua saída do hospital. Logo reconhecido por colegas de trabalho ou conhecidos que passavam perto, o rosto do supervisor gelou quando ouvia em voz alta todas aquelas pessoas chamando por ele como se fosse uma estrela de cinema. O que seria uma visita breve ao Departamento de Criminalística se tornou numa visita de "celebridade". Ele odiava ser o centro das atenções.
Assim que bateu seu olhar no supervisor, Judy deixou seu balcão para abraçá-lo. Mais baixa que ele, a recepcionista teve de se erguer na ponta dos pés para conseguir abraçar Grissom da melhor forma, transformando o gesto numa cena engraçada.
Sendo ainda um homem de expressar pouco afeto, Grissom não pôde escapar nem se quisesse. Não naqueles dias.
— Que bom que está bem, senhor Grissom! — Júbilo era a palavra para descrever Judy naquela hora. O afeto que sentia pelo supervisor era como de um membro de sua família.
— Não precisa me chamar de senhor, Judy. — Ele respondeu ao se afastar do abraço. — Você sabe disso. E... obrigado.
— É o hábito. — Brincando, a mulher retornou ao seu local de trabalho. — Sentimos sua falta por aqui.
Enquanto a ouvia falar, o supervisor observou o local em volta. Não percebeu nada diferente como havia imaginado. Parecia ser o dia seguinte daquela noite. Parando para pensar, nunca se pegou quieto num canto para realmente observar, como um mero espectador em vez de um dos protagonistas. Ver o mundo por outros olhos estava sendo uma experiência interessante.
— Hum... — Grunhindo como se tivesse prestado atenção (o que não aconteceu), Grissom voltou a encarar Judy. Ele arqueou as sobrancelhas de modo pensativo a tentar se lembrar de tudo que a mulher acabara de lhe falar.
— Não conte a ninguém, mas até o Ecklie comentava de você. Parecia sentir sua falta. — Ela murmurou a última frase.
— Ah é? — O sorriso presunçoso de Grissom indicou que ele gostou do que ouviu.
— Ele é o sub-xerife agora — comentou Sara. — Agora anda pouco por aqui.
— Oh. Eu me esqueci — lamentou. — Uma pena.
— Parece que foi o senhor que sentiu a falta dele também. — A recepcionista brincou, gargalhando logo após falar. Grissom semicerrou os olhos como quem não gostasse muito do comentário, porém ficou por ali apenas. Não respondeu.
Judy aproveitou para cumprimentar Sara com o mesmo abraço. Chegou a se esquecer por um instante de que ela não trabalhava mais ali. A mente lhe pregou uma peça e a recepcionista quase deixa escapar.
— Que bom que veio, Sara! Estava sentindo sua falta.
Sara se limitou a responder com um sorriso tímido. Pega de surpresa ela não esperava receber atenção como Grissom vinha recebendo. Sentiu-se alegre bem lá no fundo.
— Obrigada, Judy. De verdade. — Ela acenou com a cabeça, ainda meio sem jeito. Esperou um pouco e ao notar que não havia mais assunto palpável entre eles, tomou a deixa: — Vamos? — Sorrindo, ela o pegou gentilmente pelo braço para que viesse junto.
Após se despedirem de Judy, os dois caminharam por mais alguns passos até ela voltou a falar:
— Você queria que ele estivesse aqui, te recebendo de braços abertos, não é? — provocou-o.
— Não vou afirmar, mas confesso que gostaria de ver a reação dele ao me encontrar por aqui.
Rindo pelo comentário, Sara pressionou seu braço ainda envolto por ela de modo carinhoso. Chegou a se esquecer que, tempos atrás, o Laboratório de Criminalística seria o último lugar a demonstrar um gesto parecido. Sentiu-se livre, não haviam mais cordas ou correntes que a prendiam ali ou seu relacionamento com Grissom. Desprendida de qualquer protocolo ou segredo.
No meio do caminho os dois logo se encontraram com mais um conhecido. Ou melhor, foi ele quem se encontrou com eles. Carregando um sorriso de orelha a orelha, Hodges, que os viu de longe pelo vidro transparente, deixou seu posto rapidamente e correu para se por à frente deles.
— Grissom! — O técnico o cumprimentou, fazendo questão de falar seu nome em alta voz. Vendo Sara ele apenas acenou com a cabeça. — Grissom! É um grande prazer tê-lo aqui novamente — disse ele antes de abraçá-lo por impulso. Isso fez com que Grissom e Sara se separassem quase de repente.
— Está bem, Hodges. — Grissom falou com certa dificuldade após sentir que ele começava a apertá-lo.
Hodges se afastou dele assim que o ouviu, dando um passo para trás e erguendo ligeiramente as mãos tentando se livrar de alguma culpa. Ficou envergonhado de início, mas não se arrependeu de tê-lo feito.
— Eu... — Hesitando ao responder o técnico, Grissom visou sua noiva rapidamente, buscando uma saída fácil. Tudo o que recebeu foi um aceno breve para continuar. — Agradeço pelo... carinho.
— Particularmente eu achava que não iríamos conseguir fazer muito sem você. — Pensativo, David tocou no queixo. — Mas... até que progredimos em alguma coisa. Com dificuldade, claro, mas conseguimos.
— Então quer dizer que vocês não precisam mais de mim. — O supervisor esboçou um sorriso e gesticulou com a mão para que Sara viesse com ele o mais rápido possível.
— Não! Eu não quis dizer isso! Eu só- — Quando Hodges deu meia-volta para tentar se explicar já era tarde demais. Grissom e Sara já estavam longe.
O casal parecia ser apenas dois turistas que conheciam o ambiente de trabalho do Laboratório. Grissom tentava dar atenção para algum detalhe novo, que deixou escapar durante o tempo que ficou internado. Ao mesmo tempo que visava o local, Sara também observava seu noivo que parecia uma criança tentando explorar o mundo da sua própria maneira. Imaginou a falta que o trabalho fez a ele e que em breve gostaria de voltar à ação. Trabalho que ela deixou há tempos e que não possuía desejo de voltar; assim como aquela cidade que, de uma forma ou de outra, ainda se apresentava como um ambiente hostil a ela.
Não muito distante do local aonde se encontraram com Hodges, Henry, Wendy, Archie e Mandy vieram ao seu encontro quando o avistaram passar por perto. Logo manifestaram seu descontentamento com o técnico por ter se “adiantado” para falar com Grissom primeiro.
— Se dependesse dele a gente nem ia saber que você chegou — comentou Henry logo após o abraçar tão de repente quando David o fez. O próprio deveria repreender a si mesmo por não ter previsto uma atitude como aquela.
— Não estaria surpreso se isto acontecesse. — Grissom retrucou sarcasticamente.
Sem chance de recusar os futuros abraços vindos de seus subordinados, tudo que restou a Grissom foi esperar o inevitável. Mesmo desconfortável ele não deixou se mostrar, tentou parecer relaxado; porém sentiu que sua cota de interação social chegara próxima do fim e ele mal falara com todos.
Cada um falou um pouco sobre a falta que sentia por ele, nada muito distante do que já ouviu. Todavia, como aquele era um dia especial — a primeira vez que pôs seus pés no Laboratório — Grissom não tinha mais nada a fazer senão aceitar toda forma de carinho.
Warrick foi a próxima pessoa que se encontrou com os dois. O perito fez questão de largar o que estava fazendo por causa daquele encontro. Chegou a tomar uma ducha rápida no vestiário para se livrar de quaisquer impurezas que devia ter adquirido na cena do crime. Ao se encontrar com ele, abraçou-o respeitosamente e deu dois tapinhas em suas costas. Também cumprimentou Sara com um aceno discreto, mas o suficiente para expressar seu afeto.
— Gris, você tá ótimo!
— Não precisa mentir. — Ele zombou. — Sei que estou pálido, mais magro e mais frágil fisicamente. Bem... nada com que eu não consiga lidar.
Atordoado pela resposta direta, Warrick fitou Sara no intuito de saber se ela ficou tão perplexo quanto ele. Ela apenas riu discretamente já imaginando um tipo de resposta não convencional.
— E você? Como vai?
— Bem. Muito bem — respondeu em assertiva e carregando um semblante jovial no rosto. — Melhor agora depois de uma maratona por aqui e por ver vocês dois.
— Está de saída?
Grissom não deixou a pergunta escapar ao perceber nos pequenos detalhes que ele havia tomado banho e penteado os cabelos úmidos e recém penteados.
— Não, é que... — Rindo breve e espontaneamente, Warrick levou a mão à nuca buscando se explicar. — Voltei de uma zona de guerra — brincou, recebendo uma feição simpática do supervisor.
A conversa entre eles três não durou muito tempo. Warrick precisava tocar com o trabalho e Grissom sabia disso. Não queria ser o motivo de seu atraso e por isso achou melhor encerrar-se por ali, mas não antes de lhe perguntar uma última coisa:
— Quando poderei conhecê-lo? — questionou-lhe acerca de Eli, torcendo que fosse o mais breve possível.
— Bem... — O perito levou a mão à nuca e a coçou. — Eu falei com a Tina, quero trazê-lo nessa semana ainda. Estamos conversando.
— Não vejo a hora de conhecê-lo.
As palavras do amigo tocaram Warrick, que riu por timidez. Sempre que pensou em contar sobre seu “pequeno segredo” a alguém de dentro do círculo de amizades, ele não podia sequer imaginar como cada um iria reagir. A maior surpresa foi o rosto pasmo de Grissom no hospital ao saber de Eli.
— Mais uma coisa. Sabe aonde Catherine está? — Grissom perguntou.
— Na sala dela, mas por pouco tempo. Deve sair à campo daqui a pouco.
— E os outros?
— Ahn... — O CSI pensou por alguns segundos. — Greg tá no vestiário e o Nick ainda tá numa ocorrência. Ele sabe que vocês estão aqui, mas não sabe que horas vai voltar.
— Certo. Obrigado. — Fazendo um gesto positivo com a cabeça, Grissom se despediu do amigo, deixando-o seguir seu caminho. Sara fez o mesmo e o casal continuou com o pequeno "tour" pelo Laboratório.
Perto de chegarem ao vestiário, Sara diminuiu o passo e acabou parando de caminhar.
— Vou falar com o Greg, você vem? — Sara disse a ele.
— Tudo... bem para você? — Seu tom de voz saiu receoso. Ele não podia sondar sua mente para saber se ela estava bem, se realmente queria ficar ali por mais tempo. Seu desejo era de ficar por perto caso algo acontecesse.
— Vou ficar bem, não se preocupe. — Sara respondeu com um sorriso acolhedor.
Grissom não se opôs abertamente, mas no fundo sentiu receio. A última vez em que se separaram naquele laboratório, ele nunca mais a viu e sentia um peso enorme em seu peito.
— Tá tudo bem. — Reforçando suas palavras, ela tocou em seu braço discreta, mas carinhosamente.
— Tá bom. — Assentiu ao concordar, enfim, com sua decisão. — Vou falar com Catherine e depois nos encontramos.
Ele não pôde deixar, mesmo sem querer, de observá-la mudar de direção. Foi um impulso espontâneo, talvez um mecanismo de defesa de seu inconsciente que agiu quando ele viu Sara se afastar dele; não muito diferente como da última vez.
O supervisor buscou encontrar Catherine, que para sua surpresa se encontrava na própria sala em vez da sala do supervisor chefe. Vendo que a porta estava fechada e as persianas suspensas, Grissom deu uma espiada através do vidro para saber se ela ainda estava lá. Quando percebeu sua presença, Grissom permaneceu naquela posição até o momento em que foi visto. Com um semblante surpreso ela o chamou para entrar.
— Ei, Gil! — Quando o supervisor entrou, Catherine se levantou num pulo para recebê-lo assim que se aproximou dela. Os dois trocaram um forte abraço. Senti-lo sobre seus braços foi uma sensação de ser libertar de um peso angustiante. Ela sussurrou algumas palavras sobre sua alegria em vê-lo no Laboratório pela primeira vez antes de se afastarem. Depois, apontou para uma cadeira próxima de sua mesa.
— Por que não fez uso da sala do supervisor chefe enquanto eu estava fora? — perguntou por curiosidade ao apontar para trás.
— Obviamente, porque eu não sou a supervisora. — Ela se recostou na borda lateral da mesa e o respondeu carregando um sorriso presunçoso. Cruzou os braços e então se virou na direção dele. — E que diferença faz uma sala para outra, Gil?
Não era a resposta que Grissom desejava receber, mas que de alguma forma sabia que iria ouvir. Ele uniu os dedos das mãos como se estivesse pensando no que falar, mas na verdade ficou se habituando novamente ao local.
— Tá sentindo dor ainda? — Catherine puxou assunto para que o clima entre eles não ficasse muito seco.
— Estou tomando o medicamento indicado na receita médica.
— Não foi isso que eu perguntei. — Ela rebateu de modo repreensivo. Pareceu ter recebido o “troco” nele ao ter recebido o mesmo tipo de resposta.
O supervisor ergueu as mãos sem ter uma resposta pronta. Em vez disso, suspirou baixo e olhou ao seu redor por um instante.
— Sentir dores no processo de recuperação é absolutamente normal. Por isso estou tomando o medicamento.
— Não deixe de falar o que sente quando estiver em cima da hora. — Catherine o repreendeu novamente. — Fale quando realmente sentir algo.
— ...eu estou falando. — Grissom respondeu timidamente. Chegou a sorrir um sorriso torto e um pouco cansado. — Não precisa se preocupar comigo.
— Eu me preocupo com você há tanto tempo que nem me lembro. — Ela caçoou, rindo logo em seguida. Ela afastou os braços para se apoiar na própria mesa. — O que posso fazer? Você não colabora!
O supervisor ameaçou rir, soltando um breve som de concordância com a amiga. Balançou a cabeça e permaneceu em silêncio a esperar o que mais Catherine tinha para lhe dizer.
— Imagino que esteja em boas mãos agora... de novo.
O sorriso bobo de Grissom falou por si só. Ele tocou no pescoço e alcançou a região do disparo. Acabou criando a mania de tocar naquela área específica, mas não sabia o porquê.
— Ela... tem cuidado muito bem de mim. Não sei o que faria caso estivesse longe. — Grissom engoliu em seco.
Catherine não precisava de muito para reparar o quanto seu comportamento havia mudado após a partida de Sara. Estar junto dela recuperou sua autoestima, a parte dentro de si que ansiava por estar perto da mulher que amava. Nem o homem mais fechado do Departamento de Criminalística conseguia disfarçar a "perda" nos últimos tempos.
— Não sei se sabe. Tentei chamá-la para trabalhar aqui enquanto você estava em coma. Ela não aceitou.
Grissom não afirmou a ela se sabia ou não daquilo, a expressão inalterada do supervisor não indicou alguma coisa.
— Sara teve seus motivos de ir embora e eu os respeito totalmente.
Catherine fez um gesto positivo com a cabeça como se tivesse entendido.
— Minha... alegria é saber que ela veio por minha causa.
— Que tipo de pessoa se desloca por milhares de quilômetros a um lugar hostil se não for por alguém que ama? — Vindo a se afastar da mesa, Catherine fez seu retorno à cadeira e se sentou. Não ficaria por muito tempo ali, todavia.
Grissom preferiu o silêncio. Quis disfarçar que sentiu certo desconforto ao ouvir um comentário sobre seu relacionamento com Sara. Nunca teve o costume de falar sobre isto abertamente e não seria agora o momento de falar em sua opinião.
— Como vocês... têm se saído por aqui? — disfarçou, olhando para o lado por um instante.
Catherine sorriu quando notou sua reação característica a um assunto do qual não se sentia à vontade. Sabia que não iria conseguir mais nada na conversa anterior então achou melhor seguir seu fluxo.
— Não faz muito tempo que a gente saiu de uma avalanche de casos e já nos deparamos com outra onda. Las Vegas não para. — A supervisora brincou. — Parece que desde quando você ficou de molho os casos aumentaram. Eu mesma vou sair daqui a pouco para saber do resultado de DNA de uma bituca de cigarro que tem mais de dez anos de vida.
— Quando os gatos saem...
— Vai falando assim. Você olha o departamento agora que está tudo mais tranquilo. — Apontando para o lado de fora, Catherine falou com ironia. Se Grissom soubesse das situações absurdas que eles tiveram de enfrentar nos últimos tempos com certeza daria um jeito de sair do hospital.
— Eu tenho certeza que vocês reagiram da melhor forma.
— Sério? Sem nenhuma perguntinha com segundas intenções? Nada sobre algum prejuízo no Departamento?
— Catherine... — Sem resposta para lhe dar ele apenas ergueu as mãos. Não esperava ser confrontado com aquele tipo de pergunta.
— Já temos um gostinho de um novo Grissom se aproximando? — Catherine não perdeu a oportunidade de alfinetá-lo de forma saudável.
— Não sei do que está falando — respondeu desdenhoso.
Ao pegar um porta-retrato virado para ela, Grissom observou Catherine e sua filha pousando para a foto. Não esboçou reação, mas ficou encarando a imagem por alguns segundos.
— Lindsey. Como está?
— Bem. Melhor agora depois de ver você fora daquele quarto.
Um tímido sorriso se formou no rosto dele. Grissom não era do tipo a se dar bem com crianças ou jovens, mas a filha de sua amiga era uma das poucas exceções. Queria vê-la, mas sabia que seu desejo era uma tarefa difícil de se realizar. Lindsey, agora na faculdade, estava distante de Vegas estudando em seu ano letivo.
O supervisor assentiu ao entender a resposta.
— Peça para vir me ver quando for possível — pediu.
— Pode deixar que eu vou.
O semblante alegre foi sua forma de agradecê-la. Enfim, ele deixou o porta-retrato exatamente na posição em que se encontrava.
— Pelo visto... vocês têm feito um ótimo trabalho.
— Quem te contou isso? — Mudando de feição de uma hora para outra, a desconfiança de Catherine era evidente.
Grissom apenas riu e balançou a cabeça, disfarçando para não ter que lhe responder.
— Se segurar as pontas aqui e ficar agindo feito loucos é um ótimo trabalho, então sim, estamos fazendo um ótimo trabalho. — Catherine não poupou o sarcasmo em sua voz.
— É muito bom saber disso. Meus serviços aqui não têm sido necessários. — Ele ergueu as mãos, ostentando um semblante orgulhoso.
Ela franziu as sobrancelhas brevemente ao notar — ou achar que notou — segundas intenções em suas palavras. Imaginou que fosse apenas coisa de sua cabeça.
— Você é que pensa. — A supervisora-assistente riu por um instante. — Sabe que eles ainda pensaram em te substituir? Eles ainda estão com a ideia, caso você leve mais tempo para voltar. Estão me cobrando toda hora o dia que você vai retornar.
— Não estou preocupado com isso, se vão me substituir ou não. — Ele deu de ombros. — Estou me sentindo muito bem do jeito que me encontro.
O semblante descontraído de Catherine foi mudando aos poucos. Não se sentiu confortável com a resposta de Grissom porque imaginou um homem louco para voltar ao trabalho.
— Gil? Tem certeza de que está bem mesmo? — Ela brincou, mas no fundo tinha seus pingos de dúvida.
— Eu estou bem. — Ele ergueu a mão. — Talvez nunca estive tão bem quanto agora.
Silêncio na sala. Catherine foi pega numa posição da qual não esperava estar. Grissom e trabalho era uma dupla inseparável, ou ao menos pensava assim. Imaginava seu amigo doido para saber quando poderia retornar ao turno da noite, mas encontrou-o com um pensamento diferente.
— Graças a vocês eu pude me recuperar da melhor forma possível. Eu só tenho a agradecer.
Havia sinceridade em seu discurso, porém havia certa melancolia, um detalhe que Catherine estava curiosa para desvendar.
— Agradeço a você, principalmente, por ter mantido a equipe unida.
O sorriso de Catherine foi por incredulidade. Considerou as palavras de seu amigo carinhosas, mas ainda achava que havia mais do que um "obrigado".
— Você nem sabe como as coisas aconteceram aqui.
— Não preciso saber. Confio em você o suficiente para saber que ficaram bem. — Ele gesticulou com ambas as mãos. — Preciso admitir que... antes de chegar aqui eu tive minhas dúvidas, mas quando vi o rosto de vocês... a maioria de vocês... todo meu receio se foi.
— Ah, Gil. Tem que parar de se iludir. — Havia zombaria em seu tom de voz. — Acha mesmo que este Departamento ficou às mil maravilhas?
— Por que fala como se estivesse depreciando seu trabalho?
As palavras, mesmo ditas de um jeito curioso e terno, atingiram-na com força. Catherine não era assim; não era desta forma que ela gostaria de contar a ele como as coisas foram no trabalho. Porém algo nele a incomodava e lhe causava certo “medo”.
— Eu não quis dizer isso — respondeu suspirando. Ela tocou na testa por um instante e moveu os ombros. Até chegou a se levantar novamente para se recostar na mesa; semelhantemente à posição anterior. — A verdade é que nós seguramos as pontas por aqui. Por sua causa ficamos um pouco abalados, sim. Quem não ia ficar? Mas acho que nesse período ficamos mais próximos... O grupo se fechou e seguimos em frente.
Grissom curvou os lábios num sorriso orgulhoso. Uma de suas maiores preocupações enquanto seguia na recuperação era o estado mental de seus amigos, sua família. Era o que ansiava ouvir desde quando pisou no Laboratório: que sua família se saiu bem no tempo em que esteve fora. Que seu incidente não foi um fator que prejudicasse o trabalho deles e, principalmente, que seus amigos se mantiveram firmes apesar das dificuldades. Seu pensamento de outrora estava enganado: não eram dependentes dele.
— Obrigado, Catherine. — Grissom a visou bem nos olhos para dizer aquelas palavras. Mais que uma colega de trabalho, Catherine era sua melhor amiga, uma irmã, na verdade. Boa parte do que acontecia no Laboratório era discutido entre eles e quase nada escapava de suas bocas durante uma conversa.
— Nós somos família. Cuidamos dos nossos.
Um período de silêncio tomou a sala. Talvez fosse a dúvida do que falar ou fazer em seguida. Grissom não queria dar o pontapé, poucas vezes o fazia. Decidiu esperar por ela. Se Catherine achasse que a conversa deveria se encerrar, então seria desse jeito. Porém ela voltou a falar novamente:
— Que tal passar na sua sala? — sugeriu animada. — Deixaram uma tonelada de correspondências pra você. Acho que tem gente que pensa que você morreu e deixaram homenagens por lá. A sala está pior que antes.
— Pior do que antes? — Com um rosto confuso ele a questionou. Não havia entendido aonde ela queria chega.
— Esquece — respondeu rindo e já fazendo seu caminho para fora da sala. Querendo ou não, Grissom não teve escolha e precisou segui-la.
Mesmo sabendo que o caminho até sua sala era questão de alguns metros, Grissom não deixou de espiar os corredores em busca de Sara. Não sabia se ainda conversava com Greg ou com outras pessoas e sequer fazia ideia se ela ainda se encontrava no vestiário. Ele não iria se intrometer, mas não negou que gostaria de sua companhia.
Chave em mãos, Catherine destrancou a porta e acendeu as luzes. Ao adentrar na sala uma sensação nostálgica invadiu o corpo de Grissom. A sensação que teve era de não pisar naquela sala há anos. Tudo estava no lugar, exceto pelas dezenas de correspondências e caixas que tomavam conta de sua mesa, cadeira e chão ao redor. Um sorrisinho se formou em seu rosto. Aquela era sua segunda casa, não havia como ficar feliz em voltar até ali.
Sem pressa, ele tocou com a ponta dos dedos na borda minimamente empoeirada de sua mesa. Visou as correspondências de modo breve. Sabia que alguma hora teria de lidar com tudo aquilo, mas não seria naquele momento.
— E ainda queria que eu ficasse aqui. — Dando de ombros, Catherine falou sarcástica.
— Ah... — Grissom suspirou. — Até eu terminar de ver tudo isso já se passaram mais três meses.
— Vai se acostumando. — Aproveitando que ele estava por ali, Catherine pegou um envelope levemente rechonchudo e o analisou superficialmente.
— Fizeram testes para saber se não há alguma bomba ou veneno? — perguntou ele enquanto rodeava sua mesa.
Grissom falou no momento em que a ela chacoalhava de leve o pacote que pegara. Quando ouviu aquilo ela parou no mesmo instante e mudou sua feição para algo confuso.
— Se quisessem você morto tentariam alguma coisa no hospital. E além do mais, quem mandaria alguma bomba... veneno, sei lá o quê para um homem “morto”?
A resposta de Catherine atraiu a atenção dele, que semicerrou os olhos a pensar no que acabara de receber. Não a respondeu.
Os dois ficaram ali por mais alguns minutos. Aproveitaram para conversar um pouco mais, valendo-se de todo assunto que surgia em suas cabeças. Fizeram piada com as correspondências, com a loucura dos últimos tempos somada à ausência de Grissom e as trocas de comandos. De tantas piadas que ambos não contariam na presença de outros, Catherine não se permitiu fazer uma: como seria o futuro com a perda de seu amigo. Era sua maior e talvez única exceção que faria naquela conversa. A dor foi intensa e voltaria a machucar se falasse sobre algo que graças a Deus não aconteceu.
O tempo da conversa terminou quando uma figura parada atrás da porta a fez desviar a atenção de Grissom. Ao ver o homem do lado de fora, Catherine fez uma careta e encarou Grissom para que ele se tocasse e olhasse para a entrada da sala. Quando ele o fez, voltou a olhar para Catherine com uma expressão surpresa.
Antes que ela desse o aval, o homem abriu a porta e não fez cerimônia ao se aproximar dos dois.
— Grissom. Parece que já está de volta. — A voz do novo sub-xerife era impossível de não reconhecer.
Grissom, que deixou as correspondências em cima da cadeira frente à mesa para se sentar, virou o rosto para ele apenas quando percebeu que se encontrava a poucos menos de um metro de distância.
— Conrad! — O supervisor forçou um sorriso. Ele se apoiou sobre os joelhos como impulso para se levantar e se pôs frente ao homem calvo.
— Como soube que eu estava aqui hoje? — Grissom perguntou enquanto estendia a mão para cumprimentá-lo.
— Não sabia. Vim aqui para resolver algumas questões e me disseram que estava por perto. — Ecklie retribuiu o gesto e os dois trocaram um aperto de mãos decente.
— Diga-me quem foi a pessoa para eu me resolver com ela depois. — Grissom brincou sem tirar o sorriso presunçoso.
— Parece que os dois precisam de um tempo a sós. — Catherine, que havia se recostado na mesa, aproveitou a deixa para sair da sala e não ter que encarar alguma conversa maçante com o novo sub-xerife. Só teria pena de Grissom, possivelmente preso a ele por uns bons minutos.
— Eu já estava de saída. — Sem visá-la, Grissom ergueu a mão esquerda, no intuito de impedi-la. Quando finalmente pôs seu olhar nela, apresentou-lhe um sorriso tímido e assentiu. — Vamos?
— Tenho de voltar ao trabalho, mas você sabe que pode falar comigo se precisar. — Catherine lhe entregou a chave da sala.
— Obrigado, Cath.
Ecklie, que estava sobrando na conversa, os acompanhou até o lado de fora.
— E cuide-se, Gil. — Ela piscou brevemente em sua direção antes de tomar seu caminho e murmurou: — Boa sorte.
Antes Ecklie que desse conta do que estava acontecendo ele viu Grissom a dois passos para longe dele. Irritado, ele o alcançou em pouco tempo após apertar o passo.
— Oh, eu não sabia que queria falar comigo. — Grissom respondeu inocentemente, mas sem um pingo de culpa. Sua resposta fez o sub-xerife revirar os olhos.
Sem indicar para onde ia, Grissom seguiu até a sala de descanso sem se importar com o homem que vinha ao seu lado. Não foi para encontrar um lugar vazio, mas para tomar alguma coisa; café estava fora de questão. Sara queria que ele fizesse uso das horas da madrugada para descansar.
— Pelo visto já estava caçando algum trabalho para fazer. — Sugeriu o sub-xerife.
— Na verdade, não. — Ao pegar um refrigerante na máquina de bebidas, Grissom respondeu logo após tomar um gole. — Queria vê-los. Saber como estavam por aqui.
— E encontrou o que buscava?
— E o que eu buscava? — O supervisor deu de ombros, vindo a se sentar em uma das cadeiras em volta da mesa. Não fez cerimônia para convidá-lo a se juntar a ele, mas mesmo assim Ecklie se sentou numa cadeira próxima.
— E eu vou saber? — retrucou sarcasticamente, fazendo o supervisor sorrir de lado. — Onde está Sara? Ela veio com você?
— Está em algum lugar daqui conversando com alguém... — respondeu, focando no refrigerante em sua mão.
Ecklie acabava se arrependendo em quase todas as vezes que pedia por respostas mais lógicas dele. Não tinha certeza se era o jeito de Grissom em responder ou se fazia aquilo de propósito.
— Parabéns por sua promoção. — Virando-se enfim ao novo sub-xerife, Grissom lhe mostrou um sorriso amigável.
— Ah. — Conrad não pareceu acreditar em sua sinceridade de início, mas aceitou a congratulação. — Obrigado. — Ele ficou em silêncio antes de voltar a falar no intuito de estudá-lo. — McKeen vai pegar prisão perpétua, caso queira saber.
— Agradeço por ter me contado, mas este já não é um assunto que eu quero comentar.
Em todo o tempo que Grissom ficou no hospital, Ecklie foi visitá-lo duas vezes no máximo. Vê-lo entubado, sem a menor ideia de quando ou se ele iria sair daquela cama foram cenas fortes de se administrar. Na maior parte das vezes não foi por causa do trabalho e o outro motivo foi porque não tinha vontade de ver o supervisor daquele jeito. Sabia que veria a mesma coisa no dia seguinte e nos dias seguintes.
— Não quer, mas é necessário saber. Nunca se sabe quando podem te convocar para depor.
— O que iriam querer com um homem baleado duas vezes? — Ele ironizou. — Não me lembro de praticamente nada, Conrad.
— Imagino. Mas não vamos deixar você passar por esse show de novo. Vamos fazer o possível. — O sub-xerife falou convicto. — De qualquer forma... — argumentou gesticulando com a mão direita. — Fique atento.
— Obrigado. — Grissom não duvidou dele. Sabia que Ecklie sabia falar sério quando o assunto pedia por isso. — O que me dá alívio é saber que ele vai pagar por seus crimes.
— Que bom que se recuperou.
Grissom assentiu em gesto de agradecimento.
— Soube que estavam querendo efetivar Catherine como supervisora-chefe.
Arqueando uma sobrancelha, o sub-xerife parecia surpreso com o comentário repentino. Achava que o assunto tinha sido esquecido no momento em que Grissom pisou no Laboratório pela primeira vez desde quando se recuperou.
— Infelizmente tivemos de pensar no que fazer num futuro sem você, Grissom — explicou. — Estavam me pressionando para tomar uma decisão, mas tentei adiar o máximo possível.
— Não estou chateado. E não culpo você. — Grissom tratou de ressaltar sua serenidade ao falar sobre aquilo.
— Isso é bom. — Ecklie foi sarcástico. — Agora que já está melhor, bem... podemos esquecer essa história.
Quando encarou Grissom nos olhos, percebeu certa hesitação seguida de dúvida.
— Catherine já atua como supervisora-chefe há três meses, Ecklie — argumentou. — E Nick? Tem se saído muito bem, trabalhando num cargo que foi entregue de surpresa para ele. — Grissom deu de ombros. — Para quê mudar as posições novamente?
— O que está dizendo? — O sub-xerife soltou uma risada incrédula.
— Acho que você me entendeu bem.
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