For Grissom
12 Um peso do tamanho do mundo sobre os nossos ombros
Notas iniciais
Engraçado dizer que em Las Vegas o tempo corria a passos de tartaruga e, ao mesmo tempo, mais rápido que um jaguar. Para alguns foi mais fácil encarar a situação do supervisor do turno da noite. O autor dos disparos, o ex sub-xerife Jeffrey McKeen foi indiciado e teve sua primeira audiência recentemente. Sara esteve presente, inclusive; assistindo, apenas, mas esteve. Viu seus ex colegas de trabalho e amigos darem seu depoimento com toda a precisão e frieza para que o júri e o juiz compreendessem o tipo de pessoa que McKeen era.
Por sorte o réu não mantinha contato direto com Sara. Atrás dele, não precisava encarar o rosto de McKeen e sentir o estômago embrulhar. Como o protocolo exigia, ela permaneceu quieta o tempo todo, mas estar em silêncio não significava estar com a mente livre. Por dentro queria se levantar dali e gritar na frente dele; gritar até perder a voz e o sentido. Se é que isso adiantaria. Todas as vezes em que ouvia sua voz sentia-se presa na noite em que Grissom foi baleado. Sequer esteve lá, mas era como se conseguisse se. Cada detalhe descrito, cada segundo de tensão; uma espectadora fantasma.
A audiência não decretou a pena definitiva de McKeen, mas já abria caminho para o que seria um longo tempo atrás das grades; sem possibilidade de fiança e possivelmente com a extensão da pena. O mínimo que poderiam fazer após o sub-xerife causar tanto sofrimento a ela e a tantas pessoas.
Faltava um dia para completar um mês da internação de Grissom, quase um mês. O coma induzido foi a melhor chance para o supervisor sobreviver aos ferimentos graves. Grissom passou por coisa pior no começo, mas ainda faltava um longo caminho, tanto que não haviam indícios de quando ele iria deixar o hospital. O que gerou uma brecha para alguns já começarem a desacreditar.
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Eram umas sete e quarenta da noite. Catherine foi à casa de Warrick para passar um tempo junto ele antes do turno da noite começar. O desejo inicial dos dois era de sair um pouco para descontrair e beberem alguma coisa, porém ainda era meio de semana e os dois corriam riscos de serem observados por olhares indesejados. A escolha ideal foi permanecer em casa.
No sofá, enrolados por um cobertor, os dois trocaram o som da conversa e das palavras pelos beijos e pelas carícias. Apesar do clima romântico eles não tinham certeza se aquilo realmente era um relacionamento, apenas que era bom demais desfrutar de momentos como aquele. Não era uma relação de dependência, mas preferiam estar juntos e sozinhos dentre muitas outras opções.
— Vai me deixar viciado — comentou ele rente aos lábios dela. Sem esperar a ruiva voltou a beijá-lo sem pressa.
A atração foi inevitável, foi apenas uma questão de tempo. Catherine e Warrick sabiam que não deviam fazer aquilo e já tiveram um exemplo de como as coisas poderiam dar errado num relacionamento entre colegas de trabalho. Sabiam, e de qualquer forma quiseram continuar.
— Eu não me importo — disse ela com um sorriso pretensioso.
A troca de beijos só não continuou por mais tempo porque o celular de Warrick tocou. Imaginando que fosse algo importante, como uma chamada para o trabalho, ele beijou Catherine uma última vez e pegou o celular no braço do sofá.
— Hã...? Tá... Alguma novidade...? Duas semanas... Tá, tá bom. Obrigado.
A ligação não levou muito tempo. Muito se deu por conta do que a pessoa quem o chamava falou mais. Warrick encerrou a chamada, deixou o celular no lugar de antes e se aproximou de Catherine. Não foi apenas um suspiro cansado que a fez perceber a mudança de postura nele.
— O que foi?
— Meu advogado. — Ele respondeu sem olhar para Catherine. — Disse que a audiência de custódia do Eli é daqui a duas semanas.
Por ter um nível de intimidade com Catherine maior do que com os outros, Warrick contou sobre o teste de paternidade e sobre sua luta para ter a guarda do filho. Era uma batalha silenciosa que ele enfrentava há um tempo; enfrentava e enfrentava sozinho. Não contou a ninguém, nem mesmo a Nick ou Greg. Chegou a cogitar Grissom, mas pensou demais e acabou mantendo para si.
— Se precisar que eu vá junto e testemunhe a seu favor não precisa pedir duas vezes. — Ela se ajeitou no sofá para observá-lo melhor.
— Obrigado...
Além de ter o desejo de contar a Grissom, Warrick também queria que ele testemunhasse; afinal, foi o supervisor a sua maior inspiração de um pai. O pai que nunca teve e gostaria de ter.
— Você vai conseguir, Rick — afirmou ela. Anos de convivência com ele, não imaginava que o colega de trabalho pudesse ter um filho tão repentinamente, mas tinha certeza que seria um ótimo pai.
— Espero que sim. — Ele sorriu em brincadeira, vindo a olhar para a mulher ao seu lado.
Catherine o beijou mais uma vez na tentativa de melhorar seu humor. Ela passou a mão por seu rosto, acariciando-o lentamente e de modo que o companheiro fechou os olhos. Não muito tempo depois daquilo ela se afastou.
— Melhor eu voltar. Vou ver se está tudo bem com a Lindsey e minha mãe.
— Já? — Protestando, Warrick fez uma careta de quem não gostou.
— Você vai passar horas comigo no trabalho. — A ruiva brincou.
— Sabe que não é a mesma coisa.
— Vamos ter outras oportunidades. — Catherine aproveitou para roubar outro beijo.
— Tá, se eu não posso ficar mais tempo com você por aqui ao menos vou te dar uma carona. — Ele respondeu já retirando o cobertor de si.
— Claro, foi você quem me trouxe aqui. — Catherine brincou.
Foi uma decisão mútua entre os dois em não seguirem para o trabalho juntos, tampouco no mesmo carro. Discrição era a palavra-chave entre eles. Seus encontros geralmente aconteciam pouco tempo após o fim do turno ou pela noite.
Quando entraram no carro de Warrick, o CSI deu a partida e os dois seguiram adiante. Os primeiros três minutos foram marcados pelo silêncio. Catherine entrou num conflito. A mente começava a pensar na realidade à sua volta e a preocupação lhe voltou a fazer companhia. Ao passar pela porta da casa dele a supervisora tinha que se deparar com o mundo lá fora.
— Me deixa na casa do Grissom, por favor. Quero falar com a Sara.
Estranhando a mudança de rumo de Catherine, Warrick a visou rapidamente. Queria perguntar o motivo, mas não queria soar muito invasivo ou curioso.
— É sobre ele. — Ela completou, percebendo sua curiosidade.
Os dias passavam e falar sobre o supervisor começava a se tornar um tabu. O que eram antes palavras esperançosas e declarações positivas começavam a se tornar comentários duvidosos em certas bocas.
— Eu não fui vê-lo hoje — admitiu o CSI, aproveitando o assunto. Suas palavras saíram como uma confissão, um ato do qual devia se envergonhar.
— Eu também não fui. Apenas liguei para lá para saber de notícias.
— E aí?
— Nada novo. Ele tá se recuperando num ritmo bem lento.
— Só de ouvir que ele está se recuperando já é um alívio. Pra quem chegou no hospital daquele jeito...
— O problema é que este não é o ritmo que a gente espera, Rick...
— Eu só quero o ver o Gil levantando daquela cama e saindo de lá recuperado. O tempo... — Ele balançou a cabeça. — O tempo é o que menos importa.
— Falar é fácil. — A mulher sorriu. — Todo mundo quer uma fórmula mágica que faça o Grissom se recuperar em poucas horas.
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Sem saber se ela estaria em casa, Catherine tocou a campainha um tanto apreensiva. Se descobrisse que Sara não estava por lá ela voltaria para casa e permaneceria até a hora do trabalho. Ela chamou por uma vez e resolveu aguardar por alguns minutos antes de tentar novamente. Se não houvesse resposta então desistiria.
— Catherine? Oi! — Surpresa, Sara mostrou-lhe um semblante confuso logo depois de abrir a porta. Não esperava por ninguém naquele dia.
— Oi, Sara. Estou incomodando a essa hora?
— Não! Claro que não! — Ela se afastou para dar caminho à amiga. — Pode entrar.
Agradecendo com um sorriso gentil, Catherine entrou e foi levada por Sara até a sala de estar. A morena lhe ofereceu uma bebida para aquecer a garganta; para não soar direta ou intransigível demais, Catherine aceitou um copo de uísque.
— Eu acabei de jantar, mas posso te oferecer alguma coisa — disse ela ao se sentar no sofá ao lado dela.
— Não precisa. — A CSI tomou um pequeno gole, além da coragem para falar. — Eu vim aqui pra saber como você está.
— Ah é...? — Ruborizada pela resposta, Sara olhou para o lado e segurou firme o pequeno copo de vidro em suas mãos. Também aproveitou para fechar mais o roupão de seda florido que usava. — Eu... tô bem, sim. Obrigada por perguntar — respondeu. — E você?
— Estou bem. Melhor em saber que você tem conseguido se manter por aqui.
— Meu trabalho se resumiu a uma tela de computador e uma câmera. — A ex-CSI assentiu.
— Que bom. — Catherine fez uma breve pausa e, após tomar mais um pouco de sua bebida, continuou: — Soube que visitou o Gil hoje.
— É... tenho feito isso todos os dias.
A mulher ruiva tomou um breve suspiro e então terminou de beber o restante do uísque. Não era algo fácil de se dizer. Não era como perguntar sobre seu dia a dia ou sobre o trabalho. Simplesmente estava de frente a uma pessoa que não via há um bom tempo, amiga sua, prestes a tocar num assunto delicado.
— Sara, vai fazer um mês que o Gil tá no hospital.
O pior de tudo é que Sara já esperava ouvir algo semelhante. Não havia motivo mais forte para Catherine deslocar até sua casa. Com um olhar baixo, ela concordou e esperou que a amiga continuasse.
— Ele está se recuperando, a gente sabe disso, mas... quando isso vai acontecer é uma incógnita. — Catherine não podia negar, era um fato. Doloroso, porém verdadeiro.
— O que quer dizer com isso, Cath? — Sara a encarou nos olhos pela primeira vez naquela conversa.
— Não seria uma boa você... voltar pra Califórnia e continuar sua vida?
Franzindo a testa por ouvir a sugestão inesperada, Sara permaneceu calada sem saber o que responder. De tantas perguntas que imaginou, ouvir algo tão direto a pegou de surpresa. Era o tipo de coisa que ouviria da boca de Grissom, inclusive, não de outra pessoa.
— O que disse? — Ela a questionou, completamente incrédula. Sua voz emanava hesitação e ao mesmo tempo indignação.
— Estou dizendo que não dá para saber quando o Grissom vai se recuperar. — Catherine tentou se explicar da forma menos invasiva possível. — Você agora tem uma vida fora daqui. — Explicou a CSI apontando para a amiga. — Tem um emprego, tem uma casa lá. Uma hora, infelizmente... vão cobrar isso de você.
— Ir embora e deixar o Gil aqui? — A voz quase falhou. Se por um lado entendia o quanto Catherine se preocupava com seu bem-estar, por outro, continuava a não aceitar a sua ideia. Não se conformava.
— Eu percebi que você tem sofrido aqui. Não só por ele, mas por este lugar. — Catherine ergueu as mãos para mostrar o local à sua volta.
Sara desviou o foco de Catherine. Pressionou o copo em sua mão e, por instinto, acabou se levantando. Não podia taxar a declaração de Catherine como uma inverdade porque não era. O ambiente que Vegas lhe proporcionava era pesado, remetia-lhe turbulências passadas e uma sensação fria de solidão.
Ela balançou a cabeça.
— Imagino que tenha vindo me perguntar isto já sabendo a resposta. — Sara não hesitou ao falar, como se já gravasse as palavras antes mesmo de Catherine chegar — Me peça qualquer coisa, menos para deixar o homem que eu amo para trás.
Catherine até ameaçou se levantar assim como ela, porém apenas mudou sua posição no sofá e deixou o copo no chão, ao seu lado esquerdo.
— Me dói dizer isso pra você, Sara, mas talvez seja o melhor a se fazer. — A supervisora deu de ombros, ainda convicta de sua posição.
A morena cogitou dizer algo em resposta, mas apenas pegou o copo dela no chão e, junto do seu, os levou para a cozinha. Nesse meio tempo pensou em responder mil coisas, dentre elas, palavras das quais iria se arrepender e, provavelmente, rachar o relacionamento entre as duas. Pensou em pedir para que Catherine fosse embora ou que parasse de tentar convencê-la do contrário. O silêncio por fim lhe falou mais alto.
Ao ver a amiga seguir para a cozinha, Catherine decidiu permanecer onde estava. Pensou, pensou e pensou; acabou se levantando para ir atrás dela.
— Achou que eu ia embora, não é? — perguntou ao ver Sara de frente para a pia.
— Eu não achei nada.
Catherine se aproximou dela e, ao analisá-la de cima a baixo, reparou que Sara não chegou a lavar os copos usados, deixando-os somente dentro da pia. A ruiva cruzou os braços e se posicionou na parede ao lado da entrada. Apenas esperava a deixa da mulher à sua frente para tomar sua decisão e sair dali.
— Não foi fácil voltar até aqui. — A ex-CSI falou em voz baixa.
— Eu nunca duvidei disso.
— Por meus pés em Vegas me trouxe boas lembranças, para falar a verdade. — Assentiu. —Só que... eu não consigo mais me imaginar aqui... vivendo aqui... muito menos trabalhando no laboratório.
Aos poucos a CSI resolveu se aproximar da amiga. A passos discretos, Catherine caminhou até a ilha e parou por lá.
— Vocês são meus amigos e eu nunca vou me esquecer disso. Mas não me leve a mal... Eu vim por causa dele.
Catherine pensou em falar alguma coisa acerca do que ouviu, porém baixou o olhar como quem entendesse a decisão final de Sara. A morena soltou um breve suspiro, e então se virou finalmente na direção dela.
— Não sabe o quanto seria difícil eu voltar à Califórnia e... saber que eu teria de vir ao velório dele. — Sara negou por diversas vezes. — Eu não iria aguentar.
A feição em seu rosto combinava com as palavras abatidas. Sara não queria dizer aquilo, nem em seus piores pensamentos, mas existia a possibilidade. Saber que Grissom não resistiu a quilômetros de distância seria para ela muito mais doloroso.
— Imagino como deve estar sendo difícil.
Sara não confirmou e tampouco discordou de Catherine. Ao invés disso iniciou outra discussão.
— Sabia que eu me encontrei com a mãe do Gil esses dias?
Catherine manteve o foco na amiga para que continuasse.
— Ela o visitou pela primeira vez, então resolvi lhe fazer companhia, ser um apoio. — Ela suspirou, seu olhar cabisbaixo já predizia que as coisas não saíram tão bem. — A senhora Grissom veio junto de um amigo que também era tradutor de língua de sinais.
— Eu soube pelo médico. Não consegui me encontrar com ela, infelizmente.
— Betty é uma mulher adorável, um pouco dura às vezes... — A morena sorriu após falar aquilo. — Mas tem um coração grande. Infelizmente eu não sei conversar em sinais direito... precisei de uma ajuda.
— Imagino o quanto deve ter sido difícil.
— Não tanto quanto foi vê-la encarar o filho entubado.
Ao olhar para o chão, Sara se recordava dos momentos em que se encontrou com a senhora Grissom. Apesar de não vê-la por um tempo o reencontro não foi dos melhores; foi desconfortável, na verdade, como se Sara tivesse parte naquela história mesmo sem um pingo de culpa sequer.
Betty permaneceu de pé enquanto olhava Grissom. O amigo ficou um pouco distante em respeito, pronto para traduzir o que ela dissesse. Mas a senhora de idade moveu suas mãos apenas para tocar no braço dele. Próxima a entrada Sara nunca soube o que ela fez na verdade. Ouviu que Betty chorou timidamente enquanto passava a mão pela testa do filho.
Se tinha uma coisa da qual Sara não iria se esquecer foi no momento em que Betty se afastou da cama e foi ao seu encontro. Ela segurou firme suas mãos e, com os olhos avermelhados, encarou os seus. A senhora de idade, passou o polegar por seu dorso e então abraçou Sara.
— Eu disse a ela que tenho visitado o Gil todos os dias. Que tenho feito de tudo para me certificar que ele ficaria bem. Não sabia o que dizer direito...
— Não precisa se sentir mal por isso.
A morena abriu um breve sorrisinho, mas não daqueles no qual a pessoa se mostrava melhor.
— Queria ter dito muita coisa a ela, mas o máximo que consegui foi tentar me segurar para não chorar também.
— Sinto muito.
— Eu... não vou mentir pra você dizendo que estou bem. Mas eu prefiro estar perto dele, do lado dele. — Após alguns segundos de pausa, Sara se apoiou sobre a bancada. — Se eu tiver problema com dinheiro vou dar um jeito. O pessoal no meu trabalho tem me dado apoio.
Apesar de seus esforços, Catherine notou que Sara não iria sair de Vegas de forma alguma, por mais que pudesse encarar todo tipo de adversidade. Não tinha jeito, Sara era uma mulher durona e sabia se virar.
— Sou muito grata pelo que você tem feito, Cath. Não só por mim, mas pelo Gil.
— Não sei o que eu fiz por vocês. — Ela replicou sorrindo de maneira saudável.
— É só olhar a sua volta e se perguntar por que está aqui.
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Dia seguinte. A rotina de Sara era esta: ir ao Memorial no intuito de visitar seu noivo ainda em coma.
A conversa que teve com Catherine horas atrás permeou sua mente e não a deixava. Mesmo convicta ao declarar sua permanência em Vegas, haviam momentos de conflito para a ex-CSI. Parte de sua vida "parou no tempo" após se mudar temporariamente. Tendo seu trabalho reduzido, não possuía mais a liberdade para fazer sua pesquisa, presa a uma tela de computador. Não podia respirar o ar e a brisa única que apenas a Califórnia lhe proporcionava, assim como também voltou a ficar longe da mãe. Ao deixar Las Vegas um de seus objetivos era consertar um relacionamento rachado com Laura. E estava conseguindo; a passos lentos, mas estava conseguindo. Era um sacrifício que fazia por ele, por eles dois.
Ao se aproximar da cama Sara não falou com ele, diferente do que vinha fazendo. O silêncio foi sua única voz, a que falou mais alto. Ela o observou com total atenção a fim de saber se havia alguma diferença, o mínimo detalhe sequer. A barba e o cabelo cresceram mais; Sara até queria ajudá-lo com isso, cortar seu cabelo e barbeá-lo, porém na condição em que Grissom se encontrava seria possível.
Sara se sentou na cadeira ao lado. Continuou quieta por um tempo até que resolveu falar:
— Oi, Gil — disse, forçando a si um sorriso. — Espero que esteja descansando bem por aqui... vamos ter muito a conversar depois.
A morena olhou para a janela. Como sempre, as persianas se mantinham erguidas em caso de algum imprevisto acontecer, os funcionários atentarem para o quarto. Ela se virou para o noivo e se recostou na cadeira.
— Sabe... eu me lembro quando fui resgatada naquele deserto. Todo mundo praticamente saiu em busca para me achar. — Sara deixou escapar uma risada, que foi se apagando aos poucos. — Algumas coisas se apagaram da mente, mas você não. Eu não vou me esquecer de ter visto seu nome naquele colete e então... visto o seu rosto e sua mão segurando a minha.
Ao olhar para o alto recordando-se daqueles momentos, Sara brigou consigo mesma quando sentiu seus olhos ameaçando lacrimejarem. Ela engoliu em seco e respirou fundo.
— Você não saiu de perto de mim... eu não me lembro de uma única vez que não tenha te visto por perto. Os médicos me disseram que tiveram de brigar com você para ficar do lado de fora do quarto às vezes.
A risada saiu de modo espontâneo. Lembrar-se daquilo foi um remédio para o clima tristonho naquele quarto.
— Também me lembro que você fazia de tudo para ficar mais tempo comigo. Quase se complicou no trabalho por isso. — Ela olhou para a mão dele. — Eu nunca te vi priorizar outra coisa que não fosse o trabalho, mas você fez.
Grissom usava suas folgas acumuladas para ficar junto de Sara em seu período de recuperação após seu resgate no deserto. Só não foram dias difíceis para Sara porque ele esteve por perto, seja para ajudá-la com tarefas simples ou lhe dando conforto e amparo. A impressão que teve foi de que seu relacionamento com o supervisor se fortaleceu ainda mais.
— Se estivesse acordado você pediria para que eu retornasse. Conheço você muito bem. Agora... me pergunte isso, pergunte se eu gostaria de voltar agora. — A mulher respirou fundo. — Eu não quero deixar o homem que eu amo aqui, mesmo que os outros estejam por perto. Eu não quero te deixar.
Se perguntasse a ela, ou melhor, se Grissom perguntasse a ela se estava sofrendo enquanto permanecia em Las Vegas, talvez a resposta de Sara "não". Talvez disfarçaria e nem responderia.
— O que faria se estivesse no meu lugar?
Ela pensou bem, juntou as mãos e cruzou seus dedos num gesto involuntário. Ficou um bom tempo olhando para o homem deitado.
— Se eu passasse um mês, um ano em coma, você viria me ver todos os dias, Gil? — Seus olhos ansiosos, brilhavam desesperados por uma resposta. — Pegaria a minha mão e diria que sente a minha falta?
Sara não queria chorar, mas ao reparar nos aparatos que o cercavam, uma sensação de impotência invadia seu corpo e mente. Um desespero que vinha sem avisar, atormentando-a com a possibilidade de que Grissom não fosse mais sair daquela cama.
— Por favor, Gilbert. — Seus olhos, já vermelhos, começavam a lacrimejar. Era difícil conter suas emoções, ainda que respirasse fundo e dissesse a si mesma para manter o foco. — Volte pra mim.
Ela não teria coragem de voltar. Custou-lhe muito fazer isso da primeira vez; uma segunda seria doloroso demais.
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