For Grissom
20 Obrigado
Notas iniciais
— É estranho isso... Parece que a gente não tá vivendo isso.
Nick estava nas nuvens. Aquele dia finalmente chegou e a impressão que tinham era de não ser verdade. Seu sorriso característico contagiava seus colegas ao redor de um jeito tão natural que mal pareciam trabalhar num Departamento de Criminalística.
Grissom ganhou alta e deixaria o hospital na manhã seguinte. Era o suficiente para que a maior parte de sua equipe perdesse o foco no trabalho; bom e ruim ao mesmo tempo. Catherine precisou segurar as pontas ou teriam problemas futuros por causa disto. A notícia correu pelo laboratório como fogo em palha seca semelhantemente ao dia do crime. A euforia contida nos membros daquele lugar nem se comparava com a vez em que souberam do sucesso da cirurgia de remoção do projétil. Expectativa alta em torno da chegada do supervisor ao local de trabalho, ainda adiada por motivos óbvios.
Madrugada a dentro, Nick acabara de analisar fibras coletadas numa cena de crime próxima ao Lake Mead e retornou às pressas; apenas para terminar aquela etapa de trabalho o mais rápido possível. Queria ser um dos primeiros a recebê-lo ao deixar aquele quarto e faria de tudo para conseguir chegar a tempo.
— Calma aí, Nicky. — Catherine o freou assim que o viu passar depressa pelo corredor.
— Todos estão com o trabalho adianto. Sou eu quem tem que correr atrás! — Apesar da preocupação em suas palavras, Nick parecia descontraído.
— Vamos te esperar. Só não se apresse demais para não se meter em problemas depois.
— Eu sei é que... — O sorriso simpático de Nick foi desaparecendo aos poucos. — Nossa, o Gris passou por uma situação bem difícil. Imagino que ele deva estar eufórico em sair de lá — afirmou. — Sei como ele deve estar se sentindo.
As últimas palavras dele a pegaram de jeito. De vez em quando se esquecia que Nick tenha sido um dos mais afetados na equipe por tentativas de homicídio ou incidentes. Ele já sentiu na pele o medo da morte e já chegou a encará-la bem de perto. O texano queria recebê-lo, estar lá a tempo de qualquer jeito para abraçá-lo e dizer que o pesadelo havia passado, enfim. Foi assim quando Grissom o visitou no hospital após ser resgatado daquele caixão. O vínculo entre os dois se fortaleceu ainda mais.
— Temos alguma coisa semelhante agora. — Ele brincou, mas seu sorriso foi de melancolia.
— Vocês são resilientes. É muita coisa, Nick. — Catherine comentou para que ele sentisse orgulho.
— É... — Ele assentiu timidamente. — Talvez seja mesmo. — Disfarçando para não encerrar a conversa com um clima desagradável, Nick apontou para trás. — Vou terminar o trabalho aqui.
— Está bem.
Catherine viu o amigo se afastar e soltou um suspiro. Sentiu-se mal por ter se esquecido por um instante do que Nick passou há uns anos. Era ele a pessoa a ser resgatada e ele o amigo a ser recebido fora do hospital. Um pouco mais de empatia para com os seus era mais que aceitável, ainda mais com ele.
A notícia pegou os outros de surpresa, por mais que tivessem uma estimativa de que a saída de Grissom do hospital era próxima. Pensando que ele precisasse ficar mais algum tempo, saber sobre a alta hospitalar animou o espírito já revigorado deles. O selvagem comprometimento da equipe em terminar as tarefas o mais rápido possível foi um esforço em conjunto. Queriam todos estar lá presentes para dar boas-vindas a ele do "mundo de fora". Lembrar-se de que a chance de Grissom sair daquele estado era pequena deixava a notícia com um sabor mais doce ainda.
Quando tinha chance Catherine observava o comportamento de cada um. Pareciam uma entidade coletiva pensando no mesmo objetivo. Greg voltou a ser o Greg de sempre; sorrindo por mais vezes e agindo com paciência e descontração costumeiras. Warrick, o homem com quem compartilhava momentos de intimidade apresentava um comportamento completamente diferente dos últimos dias, semanas. Estava mais disposto a conversar mais, sorrir mais; até sua performance no trabalho melhorou.
E ela, tentando se manter firme para agir como uma âncora aos outros, mal percebeu que seu comportamento havia mudado nos últimos meses. Acompanhar a recuperação de Grissom foi o motivo que a fez deixar de se estressar tanto com o trabalho e os afazeres das novas funções como supervisora. Claro, o estresse não terminou e não iria terminar, porém, sentia-se mais apta a suportar tudo.
Poucas horas os separavam do encontro tão esperado.
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Parecia mentira, mas aquele dia realmente havia chegado.
— Está pronto para ir, senhor Grissom? — perguntou a enfermeira Wheeler ao brincar com ele. Acabara de chegar no quarto para se despedir dele e de Sara.
— Não sei se estou, senhorita Wheeler. — Ele respondeu enquanto ajeitava seu cardigan abacate preferido.
Era seu trabalho cuidar dos pacientes designados a ela, mas Wheeler sentiria falta daquela dupla e não se esqueceria disto. Ela, que já lidou com dezenas de outros pacientes, viu algum detalhe em particular do qual não sabia dizer que chamava sua atenção. Grissom era especial. Trouxe uma energia estranha que Sandy sentiria falta quando ele fosse embora.
— Não sabe, Gil? — Sara que terminava de guardar os pertences em sua mala, riu com a resposta insegura do noivo.
Os preparativos já estavam a postos. A última noite foi de pouco sono para Sara, que passou algum tempo acordada, olhando para a cama dele. Questionava-se em silêncio se Grissom também estaria dormindo ou pensando na manhã que viria.
Para falar a verdade eles pouco falaram sobre aquele isto nos dias anteriores. Tudo o que aparentemente precisava ser dito já foi feito e apenas a silenciosa expectativa consumava suas mentes. A de Sara, inclusive. Tentar ensair sua reação para aquele dia era diferente de vivenciá-lo. Quando a manhã finalmente chegou ela mal sabia o que fazer a não ser encarar Grissom com um semblante bobo e alegre.
— Eu... Fiquei aqui por tanto tempo que... me acostumei com o lugar.
— A gente sabe que isso não pode acontecer, Grissom. — Sandy o alertou, puxando de leve com as duas mãos o tecido da roupa dele enquanto o encarava de frente. — Vamos, você chegou até aqui pra ir embora! Olha só pra ela, já está quase te arrancando daqui. — A mulher brincou.
Grissom se virou para a direita, em direção a Sara, que no momento nem prestava mais atenção na conversa entre os dois. Seria egoísmo continuar pensando assim após presenciar tantos sacrifícios.
— Meu Deus! Se eu olhar para você por mais um dia vou mudar de profissão e começar a estudar insetos! — Wheeler ergueu os braços e encarou Sara, que não se conteve e riu após o comentário.
— Tenho certeza que não vai se arrepender — respondeu ele com sinceridade.
— Eu odeio insetos! — Ela ergueu as mãos. — Não se lembra?!
— São eles quem deveriam nutrir ódio por nós por tudo que já fizemos.
— O Grissom que eu conheço está de volta. — A morena não perdeu a oportunidade para brincar.
— Viu só? — A enfermeira apontou para ela ao falar com Grissom. — Já está bom! Vá logo embora!
Wheeler tinha uma personalidade forte e tratava seus pacientes com humor sarcástico. Todavia, sua relação com aqueles dois era mais aberta, mais pessoal. Tratava-os como membros da família ou amigos de longa data. Guardando o pensamento para si, tinha certeza que sentiria falta deles.
— Também sentiremos sua falta, senhorita Wheeler. Obrigado por tudo que fez. — Mostrando-lhe um semblante afável, ele respondeu com sinceridade. — Eu e Sara somos gratos a você e... a toda equipe médica.
— Vocês já nos agradeceram.
— Mas eu faço questão de agradecer novamente — afirmou. — Eu poderia estar morto se não fosse o empenho de vocês.
Mudando de feição de uma hora para outra, Wheeler caminhou dois passos para trás. Atordoada pela intensidade daquelas palavras, por mais que simples, ela respirou fundo para se recompor. A despedida começava a deixá-la emotiva, mesmo sendo uma pessoa que não se deixava levar por emoções.
— Não me façam chorar logo agora. Sério. — Ela protestou.
— Pode nos visitar sempre que quiser — disse Sara ao se aproximar de Grissom. As bolsas estavam prontas, bastava apenas sair do quarto e resolver os últimos detalhes. — Vai ser sempre bem-vinda.
— Só se esse aqui me prometer que não vai se envolver em problemas de novo.
— Bem... — Grissom pensou num argumento para a própria defesa, mas se reteve. Preferiu erguer os ombros.
— Volte pra casa e não apronte mais, ouviu? — A enfermeira o alertou de modo cômico.
Prestes a balbuciar a resposta, Grissom ameaçou gesticular com as mãos e soltou a resposta de repente:
— Eu!... Tenho de ir ao banheiro. — Depressa, ele e dirigiu ao cômodo e fechou a porta, quase batendo-a.
— Ele é assim mesmo. — Sara comentou ao observar a breve cena.
— Eu reparei.
Evitando que o período de silêncio entre as duas se estendesse, criando um clima estranho por ali, Sara tomou a palavra novamente.
— Obrigada pelo que fez. — A ex-CSI se aproximou dela.
— Também tenho que agradecer a você.
Intrigada pela resposta, ela fez uma cara de dúvida.
— Muitos dos pacientes tem uma chance de recuperação mais rápida quando estão acompanhados. Melhor ainda se forem pessoas próximas como você.
Era perceptível que o comportamento de Grissom mudou gradativamente desde o momento que acordou do coma e viu Sara pela primeira vez. Foram trabalhos de recuperação exaustivos que seriam piores caso Sara não estivesse por ali. Sandy não conhecia a história daquele relacionamento, o pouco que recebeu foram declarações curtas, muitas vezes desconexas de uma linha do tempo. Mas o que viu neles foi o bastante.
Wheeler não diria aquilo, até porque foi um assunto que achou melhor não espalhar. Era o período em que ele voltou a falar e seus movimentos físicos estavam quase normalizados. Numa das noites em que ficou de plantão, a enfermeira visitou o quarto para saber se Grissom estava bem. Encontrou meia-luz no cômodo na luminária ao lado da cama, Sara dormindo no sofá e ele deitado na cama, mas acordado.
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— Ainda não dormiu, senhor Grissom?
Ele não respondeu. Variava entre olhar para o alto e para o lado, em direção a Sara.
— O que foi? Precisa de alguma coisa? — sussurrou, alto o bastante para que ele pudesse ouvi-la.
A feição séria, até mesmo abatida de Grissom a fazia se questionar se ele realmente estava bem. O problema era que ele continuava sem responder.
Antes que Wheeler, angustiada, pudesse lhe perguntar novamente, Grissom se manifestou:
— Eu não a via há muito tempo — respondeu baixo. Faltou pouco para ela não conseguir entender suas palavras.
— Ela não vai embora de repente. Não se preocupe. — A enfermeira argumentou, torcendo para que ele não continuasse daquele jeito.
O olhar que Grissom lançou a ela foi do tipo que a enfermeira não iria se esquecer. Era uma mistura de medo e ansiedade, como se suas palavras tivessem engatilhado uma reação adversa nele.
Todavia, assim como surgiu, aquela feição desapareceu de repente. Parecia mais calmo, aparentemente.
— Será que... ela não está sentindo frio?
Wheeler olhou Sara que parecia dormir tranquilamente e sem sinal de que sentia frio. Quando encarou Grissom, a enfermeira chegou a sorrir por achar o comentário engraçado. Grissom tratava Sara com mais prioridade que ele próprio.
— Acho que tem mais uma coberta no armário. — Ela falou baixo e deu de ombros. — Mas eu não me arrisco acordá-la e ouvir reclamação. Vou por a culpa em você.
Sem poder revidar o olhar tristonho que Grissom lançou a ela, Wheeler procurou por um cobertor no armário e o pegou, deixando-o no sofá-cama, aos pés de Sara.
— Obrigado — disse ele quando Wheeler se aproximou. Grissom continuava fitando Sara por algumas vezes, mas por menos tempo.
— Você a ama, não é?
Visando a mulher ao seu lado com uma expressão confusa, Grissom não sabia como responder a uma pergunta simples. Não sabia interpretá-la, na verdade. e por isso se manteve em silêncio.
— Não precisa responder. Dá para notar. — Ela lhe mostrou um semblante amigável.
Sem reposta, Wheeler achou que a conversa se deu por encerrada. Bastava uma deixa para ela sair do quarto.
— Vamos nos casar.
Bastante surpresa, Wheeler arqueou as sobrancelhas e sorriu empolgada.
— Ah é? Parabéns! — Ela queria falar mais alto, mas corria o risco de acordar Sara. Então sussurrou como se estivesse prestes a gritar.
Apesar da reação contente da enfermeira, Grissom mal mudou de expressão. Limitou-se a sorrir de lado, timidamente, como forma de agradecimento.
— Não conte isto a ninguém, eu lhe peço.
Não convinha a Sandy questioná-lo sobre o motivo de manter aquela breve conversa entre eles.
— Pode deixar.
— Obrigado.
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— Eu não podia ficar em São Francisco sabendo que ele estava aqui. — Sara respondeu ao olhar para a porta brevemente.
— Você foi parte importante nisso. — Sandy afirmou e em seguida caminhou até sua direção para falar-lhe mais baixo. — Aproveitem o máximo vocês dois. O senhor Grissom sobreviveu aos disparos numa situação em que havia pouquíssimas chances de sobreviver. Poderia, inclusive, ter perdido parte dos movimentos do corpo, mas agora ele anda normalmente. É incrível isso.
Sara já imaginava isso, mas ouvir diretamente de alguém do hospital tinha um peso maior. Ela não o perdeu por muito pouco.
— Ele nasceu de novo, praticamente. É hora de comemorar uma vida nova. — A enfermeira completou.
Sara não discordou de nada do que ouviu. Não havia nada de errado ou equivocado nas palavras de Wheeler. Parecia até que a enfermeira os conhecia há anos. Sem que nenhuma das duas falasse, as mulheres trocaram um breve abraço singelo.
— Vou falar com o Reed para terminarmos aqui.
Quando Grissom voltou, Wheeler já não estava mais por ali. Questionando-se o porquê, Sara lhe explicou o motivo de sua saída.
— Ela é uma boa pessoa. — Grissom comentou enquanto olhava para a porta. Pensou em se sentar na cama novamente, mas em breve nem estaria mais ali. Acostumou-se com a rotina.
— Gente como ela nos faz esquecer de que estamos num hospital. — Ela respondeu enquanto se aproximava dele.
Tocando em seu braço de modo gentil, Sara encarou Grissom com um sorriso de orelha a orelha ao vê-la frente a frente.
— Dá para acreditar, Gil? — O entusiasmo era evidente em sua voz.
— Não. — Ele respondeu com o mesmo sorriso bobo.
Se pudesse ficaria um bom tempo fitando aquele rosto alegre. Nada poderia apagar aquele momento; nem a fragilidade no corpo dele (que se recuperava aos poucos) e nem o tempo que os dois ficaram naquele hospital.
— Ah! Quase me esqueci! — Ansiosa, Sara levou a mão a testa como algo de extrema importância tivesse fugido de sua mente. Seu comportamento o deixou em alerta, mas ele não se manifestou, apenas esperou por seu movimento.
Sara deu meia-volta e foi encontro de uma das bolsas já fechadas. Procurou por um objeto em particular e voltou para perto de Grissom antes que ele pensasse no motivo que a fez mudar de expressão rapidamente.
— Aqui. — Sem pestanejar, Sara envolveu o pescoço dele com um cachecol preto de lã. Não poupou esforços para enrolá-lo bem. — Não saia daqui sem isto. Vai te proteger, tá bom?
Enquanto falava, Sara ajeitava o cachecol de modo que o deixasse confortável e, ao mesmo tempo, seguro. Aproveitou para espanar a poeira por sua roupa, perdendo-se no meio de tantos devaneios.
— Pronto. Melhor assim. Não queremos que você... pegue um resfriado, não é? — A morena deu algumas batidinhas em seu peito e mostrou-lhe um sorriso torto.
Surpreso, Grissom visou a peça de vestuário envolta em seu pescoço. Era agosto, verão, e a manhã começava a entrar em seu pico; a temperatura iria aumentar em breve e o ar condicionado causava uma falsa sensação de tempo frio. Mas havia algo naquele gesto preocupado que o desmontou de vez.
— Sara. — Grissom segurou-a pelos pulsos gentilmente e buscou atrair a atenção dela para seus olhos.
— O que? Não... gostou do cachecol? Ou... — Ela olhou para o lado em busca de uma resposta. — Acha que não é necessário...?
— Ficou perfeito.
Ele ergueu suas mãos e as beijou sem pressa. Cobriu-as e logo entrelaçou seus dedos junto aos dela. Se não fosse por ela, sua história naquele quarto de hospital teria sido diferente. Com um desfecho positivo, mas melancólico.
— Obrigado, querida. — O supervisor trocou suas mãos pela cintura. Gestos um pouco mais íntimos entre os dois eram evitados por ali. Mas desta vez ele fez questão de abraçá-la daquela forma. — Obrigado por... cuidar de mim.
Suas testas se tocaram aos poucos e ele fechou os olhos por instinto. Um silêncio tranquilizador tomou conta do quarto e os dois, munidos de extremo carinho, encontraram-se num beijo acalentador. Nada combinado, seus corpos chamavam um ao outro sem precisar de palavras ou até mesmo gestos. Nenhum outro beijo foi tão mais emocionante, tão apaixonado e tão simbólico quanto aquele. Curto, mas o suficiente.
— Eu não iria deixar você aqui. — Focando em seus olhos azuis, ela sabia que poderia se perder facilmente neles. — Nunca.
Ela poderia ter voltado para São Francisco até receber a notícia de que ele saiu do coma ou ganhou alta. Poderia ter voltado com a rotina normalmente, dizendo a si mesma que ele ficaria bem. Poderia ter optado por várias outras opções que não fosse permanecer naquele hospital. Mas ela ficou do lado dele o tempo todo. Grissom sequer poderia imaginar receber tanto amor de uma pessoa.
— Vamos? — sugeriu ela. Seus rostos estavam bem próximos, quase rentes um ao outro. Não era desejo
— Claro.
Contrariando a sugestão dela, Grissom preferiu carregar sua própria bolsa; nem mesmo ela conseguiria fazê-lo mudar de opinião. Mal podia imaginar como seria seus primeiros passos fora daquele ambiente pela primeira vez em meses. Uma mistura de nervosismo, dúvida e curiosidade pairavam sobre ele.
Assim que saíram do quarto e chegaram à parte final do corredor até a recepção, os dois se depararam com uma surpresa. Cercados por um corredor humano, Grissom e Sara se viram envoltos por uma equipe de médicos e enfermeiros; dentre eles, a enfermeira Wheeler e o doutor Reed, mais próximos deles.
— O que é isso? — perguntou em voz baixa para sua noiva. Voz baixa e inquieta.
— Eles cuidaram de você, Gil. — Ela respondeu tocando em suas costas gentilmente.
— Nem todos estão aqui. — Reed tomou o passo a frente para falar com eles. — Alguns estão de plantão no momento e não puderam te receber. Mas disseram que estão muito contentes pela sua recuperação, senhor Grissom. Todos nós estamos.
Ainda se mostrando surpreso, Grissom acabou visando Sandy, que estava ao lado do médico. Ela ostentava um sorriso orgulhoso, assim como os outros atrás dela.
— Você conseguiu. — A enfermeira comentou; sorrindo, mas falando com seriedade. — Olha só para você. Está de pé, bem na nossa frente e agora vai para casa. Nasceu de novo, senhor Grissom. — Ela assentiu.
— Sandy tem razão — completou o médico. — O senhor passou por cirurgias de alta complexidade, todas um sucesso. Temos orgulho em ter feito parte da equipe.
— Eu... eu não sei o que dizer. Eu... — Grissom olhou para a noiva na esperança de encontrar uma saída. Encontrou sorrindo e assentindo para que ele dissesse o que realmente estava sentindo, apesar de não ser uma tarefa simples para ele. — Obrigado. Muito obrigado. A todos vocês.
Preparando-se para a despedida, Reed estendeu a mão para Grissom. Desatento, foi pego de surpresa, mas logo retribuiu o gesto e os dois trocaram um forte aperto de mão. Após o médico se despedir de Sara, foi a vez da enfermeira Wheeler. Ela falou com Sara primeiro e depois com o supervisor.
— Vá para casa, senhor Grissom. Tem muito para aproveitar ainda — declarou, devidamente emocionada.
— Você é uma boa amiga, senhorita Wheeler. — Ele assentiu. — Só precisa dar uma chance aos insetos.
Ela deixou escapar uma risada espontânea antes de afastar sua mão dele. Grissom era um dos pacientes que do qual a enfermeira não iria se esquecer. Mesmo não sendo carismático, sorridente na maior parte do tempo ou uma pessoa extrovertida, Wheeler tinha certeza de que ganhou uma nova amizade.
— Nunca vai me convencer, senhor Grissom. Melhor desistir.
Wheeler deu espaço para que eles passassem. O corredor humano ficou a posto e, no momento em que os dois começaram a caminhar, a equipe de médicos e enfermeiros começou a aplaudir Grissom. Morrendo de vergonha, supervisor não parou de andar porque Sara o convenceu a prosseguir. Ainda assim, mesmo acanhado por receber aquelas homenagens, aparentando nervosismo — o que em parte era verdade —, por ele dentro se encontrava feliz, empolgado por finalmente ir embora do hospital; recuperado daqueles ferimentos e sem sequelas. Que presente melhor poderia receber depois de três meses internado?
Grissom e Sara resolveram as últimas pendências antes de saírem definitivamente do hospital. Nenhuma espera seria demais para quem passou tanto tempo numa cama. Talvez tenha sido a primeira vez que o viu tão contente naquele hospital. Ela o entendia completamente, qualquer um ficaria sorrindo na posição dele.
— Pronto para respirar o ar de Las Vegas? — Sara perguntou antes de atravessarem a entrada do estacionamento.
— Só vou saber se estou pronto quando respirar o ar seco e poluído desta cidade. — Ele brincou.
— Seu bom humor está de volta, pelo visto.
Estacionamento. Sara indicou com o dedo o caminho que deveriam seguir para chegarem até o carro com o qual iriam embora para casa.
— Olha só quem já está entre nós!
A voz inconfundível da supervisora assistente pegou Grissom de surpresa, que parou de andar no meio do caminho. Logo, várias figuras que utilizavam alguns veículos como esconderijos apareceram e Grissom viu cercado por elas.
— O-o que é- Meu Deus!
— Melhor aqui do que em casa. — Sara falou discretamente e próximo a ele. Grissom não era habituado e tampouco acostumado em receber surpresas, por isso ficou sem graça. — Agora sorria.
— Você sabia?! — Perguntou entredentes, ainda chocado com a surpresa.
Antes que ela pudesse responder, Grissom viu seus amigos se aproximarem cada vez mais. Catherine, Nick, Greg e Warrick. Estavam todos por perto, inclusive Brass e o doutor Robbins.
— Deus! — Ele exclamou, agora rindo incrédulo pelo que estava vendo. — Vocês todos vieram!
— Achou que a gente iria ficar de fora, Gil? — Catherine respondeu.
A maioria riu da resposta da supervisora, exceto por Grissom, que continuava abismado com a surpresa repentina. Segunda surpresa, agora.
— Deem espaço para esse velho aqui — falou a voz masculina entre eles. Era Robbins, que, valendo-se de suas muletas, se aproximou de Grissom para ser o primeiro a cumprimentá-lo com havia dito aos outros anteriormente. Sem hesitar o supervisor e o médico-legista trocaram um abraço caloroso. — Oi, meu amigo. Me desculpe por não te visitar mais vezes.
— Não se preocupe com isso, Al. Fico feliz que veio.
— Eu não ia perder uma oportunidade como essa. Bem-vindo de volta! — Ele falou ao término do abraço.
— Obrigado.
Catherine veio em seguida e fez o mesmo com Grissom, que já se preparava para uma série de outros abraços. Mesmo não habituado a este tipo de coisa, não podia rejeitar todo aquele gesto de carinho.
— Sentimos sua falta. — Respeitando os limites que podia, Catherine fez questão de lhe dar um abraço apertado. Mal conseguia acreditar que vivenciava aquele dia. Depois de presenciar o amigo entubado por semanas, meses praticamente, ela o abraçava do lado de fora daquele quarto, daquele hospital. — Deus, você está aqui com a gente. Conseguiu sobreviver àquele inferno.
Aquelas palavras o tocaram, ainda mais se tratando de Catherine. Mal poderia imaginar como foi a pressão que ela teve de carregar de uma hora para outra. Assumir um novo cargo de repente e ter que enfrentar situações adversas e comentários negativos sobre sua atuação não era para qualquer um. Grissom nunca se preocupou realmente se seus subordinados e amigos conseguiriam se sair bem ou não no Laboratório porque sabia que Catherine era uma líder nata.
— Eu... também senti falta de vocês — respondeu com um semblante alegre quando os dois se afastaram. — Não senti mais porque me visitavam quase todos os dias. — Alfinetou.
— Lindsey queria estar aqui. — A filha de Catherine estava longe, já na faculdade, e por ficou impossibilitada de ir a Vegas. — Ela não vê a hora de falar com você. Está morrendo de saudade.
— Que bom. Espero falar com ela em breve.
Nick foi o próximo a abraçar Grissom e não poupou a profundidade do gesto. Era o que mais queria fazer. O texano entendia muito bem a sensação de se encontrar desorientado, perdido, de encontro com a morte. A vitória de Grissom era a sua vitória. Foi a melhor notícia que Nick recebeu nos últimos tempos.
O abraço foi tão forte que Grissom sentiu a pressão de seus braços. Ele não gostou, mas não fez transparecer muito.
— Perdeu peso, hein? — brincou.
— Quer que eu te mostre como? — Grissom retrucou após se afastarem, o que fez o texano recuar em defensiva.
Greg veio em seguida, disse algumas palavras a ele sobre a saudade que Grissom deixou neles. Brass, à espera, se aproximou do supervisor e não poupou esforços em apertar sua mão e abraçá-lo com vontade. Ver seu amigo de anos e anos de pé, em sua frente e fora daquele quarto era uma das maiores vitórias que recebeu em sua vida.
— Bem-vindo de volta, meu amigo. — O detetive deu leve batidinhas em suas costas.
— Obrigado, Greggo.
— Não assuste a gente de novo.
— Vou tentar.
Por fim, Warrick se aproximou de Grissom. Finalmente aquele dia chegou e o perito se viu perdido e sem ter o que dizer mais uma vez. Estava emocionado, aquilo era nítido. Vê-lo fora de uma cama, não mais debilitado pelos remédios foi um presente vindo dos céus.
Timidamente, Warrick ensaiou dizer algumas palavras. Enrolou-se de início, mas seguiu em frente:
— Oi, Griss... — Ele visou o chão rapidamente para se recompor. — Que bom que você já está de volta.
Notando o comportamento incomum do amigo, Grissom sorriu e o chamou para perto gesticulando com a mão. Eles se abraçaram fortemente, um gesto que valeu ainda mais que o primeiro abraço que os dois trocaram no quarto de hospital.
— Acabou, Warrick. — Grissom falou baixo, na esperança que o perito já tivesse superado o trauma. — Acabou.
Suas palavras, mesmo simples, tocaram Warrick de modo intenso. As noites turbulentas, a culpa que ele mesmo trouxe para si, os problemas e questionamentos acabaram. O dia dezessete de maio também havia acabado.
Grissom começava a sentir o efeito da recepção calorosa. Ficou sem jeito, emocionado, sem saber como se portar. Sara prestava atenção nele o tempo todo, sempre alerta para ver como ele reagiria naqueles minutos seguintes. Talvez nunca tinha presenciado uma cena como aquela, na qual Grissom era o centro das atenções sobre algo não relacionado ao trabalho.
— Estou sem palavras. — O supervisor comentou ao gesticular com a mão direita. — Vocês...
— Achamos que você poderia não gostar da surpresa. — Greg explicou.
— Posso dizer que fiquei bem surpreso, Greg. — Ele respondeu brincando, fazendo os outros rirem. Aproveitou para encarar o rosto de cada um. Cada sorriso o fazia se sentir cada vez mais abraçado. Não imaginava ser "digno" o suficiente de receber boas-vindas do mundo de fora daquele jeito. Simples, mas o suficiente para tocá-lo. — Mas não precisam me olhar com esses semblantes chocados. Eu estou bem.
— É que... — Greg, um tanto tímido, tomou a palavra. — Você estando de pé bem na nossa frente pareceu algo... impossível.
Em coma por boa parte do tempo da internação, o supervisor não tinha ideia de quanto seu estado era grave. Grissom precisou se colocar no lugar dos outros para tentar compreender a dimensão daquela frase. Que por muito pouco ele poderia estar numa sala de autópsia. Na sala do doutor Robbins, seu amigo, que no momento estava à sua frente. Greg resumiu o que todos os outros pensavam.
— Me desculpem. Não quis assustar vocês. — Ele mostrou um sorriso torto. Sara já estava acostumada com o tipo de resposta e nem reagiu.
— Imagine se quisesse. — Catherine retrucou num tom descontraído. Após tocar em seu ombro uma última vez, ela continuou. A gente queria ficar mais tempo com você, mas nós temos que voltar ao trabalho — disse com a voz extremamente abatida. — Fizemos uma operação para que todos estivessem com o trabalho adiantado só para ganhar um tempo de folga e vir aqui te ver.
— Catherine. — Grissom falou preocupado. Teve receio que seus amigos fossem prejudicados pelo que fizeram.
— O trabalho pode esperar, sim. Tem sempre alguém que pode assumir alguma coisa lá. Uma vida é insubstituível. — Catherine não poupou as palavras e isto foi suficiente para o supervisor.
— Não achou que a gente ia perder esse momento, achou? — Warrick o questionou.
— Mal passou pela minha cabeça. — Ele respondeu, sendo confortado por Sara, que tocou em seu braço gentilmente. — Muito obrigado.
— Vamos ter tempo de comemorar com o Gil depois. Agora temos que ir — Catherine anunciou aos outros e depois se virou para Grissom, que recebeu uma resposta ambígua.
Apesar dos protestos eles sabiam que não era possível ficar mais tempo ali ou o trabalho no laboratório iria atrasar. Antes de irem embora cada um voltou a cumprimentá-lo, mas desta vez num tom de despedida. Apertos de mão e abraços tomaram conta da reunião novamente, e Grissom, cheio de paciência que talvez nunca teve, recebeu cada um como se fosse a primeira vez. Não podia recusar todo o gesto de carinho que recebeu, talvez numa outra oportunidade, pensou em tom de brincadeira.
Sobrou apenas o capitão Brass, um pouco disperso da maioria. Apenas esperava que os outros fossem embora para se manifestar.
— Agora que eles já estão indo é minha vez de fazer alguma coisa. — Brass mal esperou que Grissom reagisse e tomou a bolsa dele que se encontrava no chão.
— O que está fazendo, Jim?
— Vou levar vocês pra casa, oras! — O detetive respondeu do jeito turrão de quase sempre. — O que, achou que você iria dirigir o carro? — Ele foi sarcástico.
— Não... eu... o que houve com o meu carro, a propósito?
— Quer mesmo saber? — Brass retrucou lhe lançando um semblante receoso. Vendo aquilo Grissom já imaginou diversos cenários e dentre eles o seu carro desmontado por completo. Seu veículo foi uma cena de crime e como o protocolo mandava, teria de ser revirado quase que completamente.
— Não. — O supervisor ergueu a mão direita em derrota.
— Então vamos logo. Se a gente demorar mais vou mandar você me pagar a hora extra.
— Não seja tão duro com ele, Brass. — Sara interveio, mas carregando um sorriso saudável no rosto. Ela aproveitou para pegar a sua bolsa e os três seguiram na direção que o policial seguia. — O Gil acabou de sair do hospital.
— Já me acostumei com ele aqui fora — brincou ao se encaminhar até o seu Ford Taurus azul. Ele abriu o porta malas, deixou a bolsa de Grissom ali e guardou a de Sara, também.
Os três entraram no carro a pedido do detetive. No banco de trás, Grissom soltou um suspiro para descansar. Ainda em "choque" aos poucos ele administrava tudo que acabava de receber. Notando seu comportamento, Sara se inclinou para perto dele e perguntou se estava tudo bem.
— Eu acho que... todas estas... homenagens não são para tanto.
— Não está falando sério — Brass o interrompeu. — Está, Gil?
— Estou. Não vejo o porquê fazerem tudo isso por minha causa.
— Nós quase perdemos um membro da família. Por isso estamos comemorando. — Brass foi incisivo.
O capitão já tinha dado a partida no carro enquanto iniciavam aquela conversa. Desarmado de alguma resposta, Grissom preferiu se manter em silêncio e observar a velha nova paisagem à sua volta antes de chegar em casa. O mundo visto por uma janela ou na tela da TV não eram suficientes para ele.
Ao baixar as janelas o cheiro de dióxido de carbono invadiu suas narinas. Foi então que percebeu que seu corpo, aos poucos, começava a se acostumar com o ambiente costumeiro de Vegas. Ele realmente estava fora daquele quarto. Acabara de ver seus amigos e estava indo para casa. Aquela madrugada parecia apenas um sonho.
Os primeiros metros foram de pura calmaria, até que uma série de buzinadas ao redor assustou o supervisor. Em choque, inclinou-se para mais perto da janela para saber o motivo dos sons repentinos. Os sons barulhentos vinham de vários carros, dentre eles, alguns do departamento de polícia. A impressão que Grissom teve foi de que fizeram isso no momento em que eles passavam por perto.
— É isso mesmo que você tá pensando, Gil. — Percebendo a estranheza do amigo ao olhar para fora, o detetive tratou de sanar sua dúvida. Sua voz descontraída já dizia muito. — Suas boas-vindas da Corporação.
Visando Brass enquanto ele falava, Grissom voltou a olhar pela janela (as duas, no caso) e continuava incrédulo. Carros e mais carros enfileirados paralelamente buzinando e motoristas e caronas gritando palavras que ele mal pode entender, imaginando que fossem coisas boas por conta do sorriso estampado em seus rostos.
— Meu Deus, Jim... o que você fez... — disse ainda em choque.
— Vocês estavam demorando demais! Tive que apressar ou esses aí iriam se encrencar depois caso não voltassem para a patrulha.
— Acho que nunca mais vou sair de casa. — O supervisor levou a mão à testa ao retornar à posição original no banco. — Deus...
— Não seja exagerado, Gil! — O detetive olhou para trás por um instante.
— Exagerado? Quem aqui está sendo exagerado? — Ele exclamou. — Por Deus, Jim, você moveu meio batalhão por minha causa!
Assim como ele, Sara também assistia a homenagem pela janela boquiaberta. Não sabia ao certo o que Brass havia preparado, mas tinha em mente que ele faria algo especial do jeito dele. Imaginando desde o início que Grissom não se sentiria muito confortável, Sara, pelo contrário, gostou da surpresa extravagante. Mais pelo contexto que ela envolvia do que a própria homenagem em si.
Nem mesmo uma homenagem do prefeito ou do governador o deixaria tão atordoado quanto a que estava recebendo. Aquilo só reforçava sua aversão em ser o centro das atenções.
— Como acha que vou aparecer no Laboratório depois disso?
— Como você sempre faz.
Antes que pudesse rebatê-lo novamente, Grissom sentiu um leve toque em sua mão. Era Sara que, em silêncio, pediu que relevasse. Não era comum que Brass demonstrava afeto da forma que demonstrou. Na verdade, nunca o viu agir assim, ainda mais com Grissom.
Foi só notar seu olhar caridoso que o coração do supervisor amoleceu.
— Ok. — Ele respirou fundo. Por várias vezes. — Eu agradeço pelo carinho, Jim. Não esperava receber tanto.
— Agora sim! — O policial riu alto. Aproveitou para visar o amigo pelo retrovisor. — Seu carro está restaurado, Gil — disse ele, desta vez num tom mais ameno.
— O quê?
— Achei que ia guardar a surpresa, Brass. — Sara já sabia do destino do carro, mas imaginou que o capitão fosse segurar um pouco mais a notícia.
— Olha só para cara dele. Mais triste que um filhote abandonado. — Ele zombou da feição abatida do amigo ao visá-lo pelo retrovisor.
— O que mais vocês aprontaram para mim? — Suas palavras saíram como uma súplica.
Novamente ele sentiu um toque em seu braço. Ele encarou Sara e encontrou com a mesma postura conciliadora de antes. Não queria que houvesse um choque entre eles para estragar todo aquele momento.
O supervisor tomou um longo suspiro antes de voltar a falar.
— Tá bom. Obrigado, meu amigo. Só não... me assuste de novo, está bem?
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— Feliz com a surpresa? — Ao chegarem à porta do condomínio, Brass o ajudou com as malas, tirando-as do carro. Bem que ele gostaria de ficar, mas teoricamente ainda estava em seu turno e precisava retornar logo ao trabalho.
— Se eu estou feliz? — Grissom aumentou o tom de voz. — Eu não tenho palavras para me expressar!
O capitão se limitou a sorrir de lado e balançar a cabeça pelo humor sarcástico do amigo.
— Esse dia demorou, hein, meu amigo?
Grissom permaneceu em silêncio, vendo que Brass não estava mais sorrindo, sequer mostrando um semblante alegre. Parecia comovido.
— Mas chegou.
— Chegou. — Ele repetiu.
— Vou falar já que você está bem agora. — O policial ergueu os braços em desistênca. — Por um tempo eu achei que você não sairia mais daquela cama. — Emocionado pelas próprias palavras, Brass tomou um suspiro para terminar de falar. — Muito obrigado por calar minha boca.
— Jim... — A pior coisa desses últimos tempos para Grissom era levar seus amigos a emoções extremas. Já perdeu as contas de quantos rostos avermelhados pelo choro já encontrou.
Com a mão direita, o supervisor chamou o amigo para perto. Para quem já distribuiu abraços naquela manhã, mais um, ainda mais em seu melhor amigo, não seria o fim do mundo para um homem fechado como Grissom. O capitão recusou a chamada de início, mas vendo de quem se tratava, Brass não teve outra escolha senão aceitar. Ele deu um passo a frente e o abraçou de modo tímido, porém suas emoções não o limitaram àquele simples gesto, que se tornou mais forte.
— Deixe que gente como eu fique na linha de frente. — Ele comentou, mesmo sabendo de todo o contexto do crime.
— Você não é invencível, Jim. — O supervisor respondeu. — Ainda precisamos de você vivo. — Desta vez suas palavras saíram mais leves que as primeiras.
Brass deu alguns tapinhas em suas costas. Tanto tempo trabalhando juntos e cada vez mais ele tinha certeza que o turno da noite estava em boas mãos.
— Vá descansar. Já teve seus cinco minutos de fama — disse o capitão ao se afastar.
— Minutos ou horas? — Grissom rebateu, de volta com o bom humor. Esperou por alguns segundos até voltar a falar novamente. — Obrigado, Jim. Obrigado pela homenagem. Eu não merecia tanto.
— Você é da família. E gente da família merece todo respeito possível.
Os três se despediram ao término do momento comovente. Brass deu a partida no carro e foi embora. O que restou foi o "vazio" deixado pelos outros. Foi como se Grissom, um ser naturalmente antissocial tivesse se acostumado com a companhia de seus amigos.
— Eu estou de volta. — Grissom declarou sem ainda acreditar por completo. Ele pegou a bolsa do chão, pronto para entrar. — Eu estou de volta... Deus... foi a noite mais longa da minha vida. — Ele desabafou junto de um suspiro.
Ao se deparar com a realidade, Grissom se sentiu um pouco perdido, sem saber por onde começar ou por onde retomar com a vida. As boas-vindas cessaram e logo ele teria de encarar o mundo real.
Estando ao seu lado, Sara pegou sua mão direita e a pressionou gentilmente, despertando-o de seus pensamentos.
— Mas agora acabou.
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