For All Time
6 A Garota Por Trás das Cartas
Notas iniciais
Joelce ofegou, sua respiração difícil. O que era suposto dizer? Os olhos negros de Michael a encaravam com descrença, deixando seus joelhos fracos. A verdade acabava de cair por terra, como deveria lidar com aquilo?
A tensão a impedia de mexer sequer um só músculo. Não, ela definitivamente não conseguia lidar com aquilo, com a forma como Michael a encarava, aquele sobrolho franzido, aqueles lábios trémulos sobre o que dizer.
Num impulso, virou-se para escapar, mas seu corpo foi eletrizado com o toque da mão masculina que a travou pelo pulso. Ela tremia por completo quando Jackson a voltou para si.
— Você... é você!
— Eu... eu o quê?
— Não adianta fazer-se de desentendida... é você... Foi você... você escreveu aqueles postais e deixou nas minhas coisas...
— Postais? Que postais? Eu não sei do que o professor está falando.
Michael baixou o rosto. Como nunca pensara que podia ser ela? Ela não era atirada como certas outras mas, num momento ele poderia ter considerado... como fora tão cego?
Levantando os olhos de volta, viu o homem que estivera sentado no banco com ela se afastar com o olhar neles, então voltou a olhar para ela.
Joelce não cabia em si de nervosismo e seus olhos começavam a se encher de lagrimas, e ele se perguntou por quê. Por quê era tão perturbante para ela que ele tivesse conhecimento dos seus sentimentos? Ela julgava que ele era impossível para ela?
— Professor... — ela começou, baixando os olhos quando ele intensificou o olhar no seu — Desculpa... desculpa pelas... cartas. Eu não deveria... eu sei o que deve pensar sobre tudo isso... eu não deveria ter feito aquilo, me desculpa.
— Garota, você não tem que...
— Eu não deveria, eu... me desculpa.
Michael abriu a boca para responder que não tinha que se desculpar, mas logo Joelce se soltou e, pasmado, ele a viu andar as pressas para ir embora de lá.
Não podia acreditar que era ela, ainda estava muito surpreso, por isso o choque o manteve quieto até que ela saiu de sua vista. Ela. Ela era sua admiradora secreta.
~*~
Quando chocou a cara contra seu travesseiro, Joelce apertou os olhos e ficou nessa posição enquanto os pensamentos voavam.
Sabia que era um erro desde que deixou a primeira carta, desde que deu importância ao primeiro sentimento que tivera por ele. Michael era impossivel para ela, mas mesmo assim ela deixou seu coração amá-lo, alimentou uma ilusão sobre sobre. O que iria fazer agora?
O que deveria ele pensar dela?
Droga, agora ele sabia dos seus sentimentos, e ela não se viva viver com aquilo.
O barulho na porta a fez virar o rosto e então avistar a grande sombra de tutor, pois seu quarto estava escuro e em contrapartida, o corredor iluminado.
— Duarte, está dormindo?
— Não, Quentin. — sentou-se, vendo-o se aproximar — Já voltou da festa?
— Sim, Mary não se sente muito bem. Você ficou bem? Jantou?
— Sim. — mentiu, pois não tinha o mínimo apetite.
— Ok, hora de dormir que amanhã tem aula cedo, feliz noite.
Joelce fechou os olhos quando ele depositou um beijo em sua testa, depois que ele foi voltou a deitar-se, mas dormir não seria fácil aquela noite. Ela tinha muito que pensar, e lembrar.
~*~
Michael sentou–se em sua cama descalçando os sapatos e levou as mãos aos botões da camisa enquanto olhava para o vazio pensativo. Não conseguia ainda se tocar do que estava a acontecer. Fora um tolo, tanto que não pensara nem um momento que sua admiradora secreta fosse... quem na verdade era.
Joelce Duarte, a finalista, que sentava sempre na carteira da frente nas suas aulas e o mirava com aqueles olhos banhados de preto tão observadores.
Era ela afinal, e não havia como definir o quão surpreso com aquilo estava. Não que já tivesse tido qualquer intenção com ela, longe dele pensar tal coisa sobre uma aluna. Bem, na verdade ficaria surpreso fosse quem fosse, essa história de admiradora secreta era estranha.
Uma vez deitada, pousou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. Como seria dali por diante? Perguntou-se, e fez uma careta para si mesmo. Ora, quem disse que alguma coisa mudaria?
Ela gostava dele. Certo, e então? Nada. Apenas nada. As coisas prosseguiriam normalmente. Ele agiria com naturalidade, ela não tinha nada a esperar dele, nem podia. Até que seus sentimentos passassem.
~*~
Assim que o carro parou no estacionamento colegial, Joelce retirou o cinto e saiu, endireitando sua bolsa no ombro e olhando para o tutor que descia do outro lado. Estava um dia frio, por isso ela vestia uma camisola púrpura justa que marcava sua barriga e cintura pequena, jeans apertados e ténis All Star.
Afastou alguns fios do cabelo castanho que tocavam nos olhos devido a ventania e estreitou os olhos de sombra escura vendo Quentin chegar até ela. Muito charmoso com sua grande estrutura numa camisola branca e jeans creme, com a mão no bolso. Ele certamente tinha muita atenção feminina.
— Trate de tirar sua cabecinha da lua, Duarte! — ele brincou com o seu nariz, e a envolveu com um braço quando começaram a andar.
— Como assim?
— Você não disse nada o caminho todo e não cantou nenhuma música do Evanescence que eu coloquei, isso não é normal.
Joelce abriu a boca para argumentar, até que viu o homem que vinha do estabelecimento. Michael.
Este que também a viu, e por um instantes as sobrancelhas escuras se contraíram, mas ele tratou de as suavizar e agir normalmente, como se as lembranças da revelação da noite passada não estivessem rondando sua cabeça agora.
E ele tinha que estar tão perfeito? Joelce reclamou em silêncio com o destino, pois ele usava justo uma camisola de pescoço fechado, azul-ferrete, calças escuras e um casaco.
— Bom dia. — Michael cumprimentou ao passar por eles que responderam em uníssono, e Joelce baixou o rosto tensa.
— Tens aula com ele hoje, não?
Levantou os olhos para Quentin, que a encarava de uma forma estranha. A pergunta em seus olhos parecia outra.
— Sim. — lançou um olhar discreto para trás, vendo-o chegar até o Citroen C4 Picasso que destrancava, então voltou o olhar para frente, pegando o tutor a encará-la — O quê?
— O que há entre você e o Jackson?
— Como assim?
— A forma como olha para ele.
— Eu olho normal. — disse recomeçando a andar e puxou o telefone — Olha, estou atrasando para a primeira aula. Até depois!
Quentin ficou parado enquanto ela se adiantava para dentro, antes de abanar a cabeça com um sorriso e fazer o mesmo. Precisaria ser cego para não perceber o que estava acontecendo. Quanto ao professor não sabia, mas ela certamente estava apaixonada.
De qualquer forma, esperava que o sentimento não fosse retribuído. Não tinha o direito de meter-se, mas seu papel era certificar-se de que ela tinha um bom desempenho académico e um ambiente escolar saudável. Isso definitivamente não incluía um romance com um professor!
~*~
A garota mordeu o lábio de nervosismo.
O que ela queria na verdade era sumir naquele momento, mas se encontrava a caminho daquela sala, e seu coração palpitava forte. Bem, sempre fora muito boa a fingir que não sentia algo quando sentia, então só tinha que decidir, por isso exalou profundamente e continuou a rota.
Quando atravessou a porta tratou de ignorá-lo e ir direito para sua carteira sentar, pois ele estava ligeiramente afastado, e ela entrou com mais colegas, mas Michael a seguiu com o olhar, enquanto se encostava em sua mesa, vendo todos os restantes alunos se organizarem.
— Bom dia, turma. — cumprimentou geral.
— Bom dia, Stor.
Houve um coro em resposta, mas ele viu que Joelce se limitava a mexer na mochila, contudo virou-se para o quadro e começou sua aula.
— Hoje vamos falar sobre a Topografia Inglêsa. Alguém sabe me dizer do que se trata?
Durante toda a aula, Joelce notavelmente evitou olhar para ele. A garota estava sempre com o olhar de lado enquanto ele explicava, hora no caderno, hora no vazio, hora no telefone espreitando as horas, o que quase o fez chamá-la atenção, mas por algum motivo ele próprio não conseguia lhe dirigir a palavra.
Entretanto, num momento, consciente de que a situação em causa não deveria corromper o seu desempenho como professor, ganhou coragem de chamá-la e fazer uma pergunta respetiva a aula. Sua resposta o deixou mais calmo, demonstrando que ela estava a entender, só a evitar o contato visual, portanto a deixou em paz.
— Pesquizem sobre os temas que passei, vamos abordar na proxima aula. Estão dispensados. — mal o disse, a viu pegar suas coisas e ser a primeira a deixar a turma.
Por partes quis chamá–la assim que passou perto de sua mesa, mas simplesmente arrumou suas coisas também enquanto os restantes alunos se retiravam, então saiu.
~*~
Joelce andava pela calçada no final da tarde, afastando constantemente o cabelo do rosto que esvoaçava com a ventania enquanto mexia em seu celular, até que parou precisando atravessar a estrada.
Assim começou a fazê-lo, abrindo a bolsa e colocando o telefone num gesto rápido, mas ao voltar a erguer o olhar logo se jogou para trás quando um carro em alta velocidade cruzava a estrada.
Tamanha a velocidade que acabou perdendo o equilíbrio e caindo no asfalto, ao tempo em que o carro fez uma freada brusca e parou logo afrente.
— Ai! — gemeu sentindo uma dor aguda no pé direito, mas começou a erguer-se e a sacudir a calça, enquanto o condutor do carro se aproximava em passos.
— Você está bem?
Não, você não poderia dirigir mais devagar?
Se repreendendo de resmungar, ela decidiu bancar a durona.
— Sim, eu... — ao levantar os olhos, ela ficou gelada dando de caras com o homem... aquele homem que fazia borboletas voarem dentro do seu estômago.
Este também ficou surpreso ao reconhecê–la, então os dois levaram uns minutos só a se concentrarem, até que ela articulou:
— Estou bem.
— Me desculpe, acho que eu estava muito depressa. Você deveria ter mais atenção na estrada...
— É, eu sei... é que eu estava com pressa para pegar um taxi.
— Só agora sais do colégio?
— É... estava num grupo de estudo. — respondeu. Não se considerava exatamente um grupo de estudo quando ela estava estudando afastada de todos, mas achou o melhor a dizer.
— Vai para casa?
— Sim.
— Posso levar-te?
Joelce o encarou admirada. Não estava chovendo, mas ele a estava oferecendo uma carona de novo, e aquilo a emocionou. No entanto, uma imagem do acontecimento da noite anterior cruzou sua memória e ela balançou a cabeça instintivamente.
— Não precisa se incomodar, professor.
— Se estou me oferecendo para levar você é porque não me incomodo, não acha?
Michael estava sério, muito sério, então ela o encarou com os olhos tremeluzentes. Ele estava bravo? Por que? Oh, céus, ele com certeza queria falar sobre ontem, queria lhe dar uma bronca, era melhor fugir, ou não?
Fugir até quando?
— Ta... certo. — disse, e andou logo atrás dele, até que chegaram no carro, onde ela o olhou abrir a porta para si.
— Obrigada. — deu um sorriso nervoso para ele e subiu.
~*~
Eu não conheço mais sua face, ou sinto seu toque que eu adoro...
Eu não conheço mais sua face, isso é só um lugar que eu estou procurando
Joelce prestava atenção na letra da musica “We Might As Well Be Strangers” do Keane que tocava no carro, preenchendo o silêncio que ela e o condutor ao seu lado deixavam se propagar. A música era um contraste ao ambiente, romântica, flutuante, enquanto eles estavam tensos, contidos, silenciosos.
Aquilo estava a matá-la!
Michael conhecia os seus sentimentos agora, e possivelmente lembrava da noite passada agora que a levava para casa. O que estaria a pensar? Por que não dizia nada? Ela queria que ele dissesse?
Com um suspiro, admitiu que não. Era melhor assim. Mas, céus, ela queria se enterrar de tanto nervosismo. Ele deveria achar tão ridículos seus sentimentos, deveria achar que ela era pouco demais para ele.
Bem que nós poderiamos ser desconhecidos, em outra cidade
Bem que nós poderiamos viver em outro mundo
Bem que poderiamos, bem que poderiamos...
Quando o Citroen C4 Picasso parou, Joelce sentiu um certo alívio e também uma tristeza. Entretanto, olhou para o dia escurecido lá fora, enquanto endireitava a bolsa no seu ombro, e sem lançar o olhar para ele tirou o cinto, abrindo a porta enquanto dizia:
— Obrigada por me trazer, professor Michael.
— Espere!
Ela ouviu, mal botou um pé para fora, então voltou a posição inicial, fechando a porta.
— Sim?
— Você pode ao menos olhar para mim?
Ela se sentiu mais nervosa, mas foi virando o rosto devagar, até que o encarou completamente, seu coração disparando. Os olhos de Michael estavam tão sérios quanto ela vira anteriormente, só que agora estavam mais proximos, e tudo em si tremeu.
O que será que ele pensava ao concentrá-la?
— Por quê você tem vergonha do que sente por mim? — Michael perguntou de repente, sua voz soando séria.
Joelce levou tempo a assimilar que ele realmente tinha perguntado aquilo, então franziu a testa e desviou o olhar.
— Não tenho vergonha, eu apenas...
— Por quê não me olha nos olhos? Por quê não me diz de cara as coisas que escreveu naquelas cartas?
— Eu... — seus labios tremeram — O professor deve me achar ridícula, deve...
— Por quê não me pergunta o que acho ou não antes de tirar suas conclusões? Você não sabe o que se passa dentro de mim, e não deve adivinhar, você não é boa nisso.
Oh! Joelce o encarou surpresa. Ela não era? Ele não achava ridícula? Bem, o que achava então? Era suposto ela perguntar, portanto suspirou e por mais que quis, não voltou a virar o rosto.
— Não estou tentando adivinhar... — sua voz ficou mais baixa — É obvio que o professor ontem ficou decepcionado quando soube que era eu e...
— Decepcionado? — ele a cortou — Essa definitivamente não é a palavra. E você não deveria ter ido embora tão covardemente, deveria ter me encarado e falado comigo.
— Professor, eu sei que...
— Você não sabe de nada, deixa de pensar que sabe, garota, porque você não sabe. Sim, eu não pensei que fosse você em momento algum, sim, eu fiquei muito surpreso, mais ainda pela
forma como descobri... mas isso não significa que eu tenha ficado decepcionado.
Joelce tremeu com os olhos dele segurando os seus, então curvou o rosto por um instante.
— Professor...
— Não, Joelce. Nesse momento não sou seu professor.
Ao ouvi–lo, Joelce voltou–lhe os olhos, e logo paralizou vendo–o mais proximo, o suficiente para que ela arfasse e se sentisse mais invadida por seu aroma, seu rosto estava ali, seus olhos a encarando, sua mão subindo para seu rosto.
Santo Deus!
Como um íman, ela se viu ser atraída para ele. Dizer que ela o queria era pouco, era mais do que querer. Baixando os olhos para seus labios, a vontade de beijá-los era como uma necessidade vital, e agora que ele estava tão próximo.
Michael igualmente olhava para os lábios dela, então moveu a outra mão, lenta, encontrando a face dela, assim que se inclinou vendo os olhos dela se fundirem no embalo do seu toque, seus lábios prestes a alcançarem os dela quando uma luz cegante focou–os.
A luz atacou sem piedade e eles afastaram–se imediatamente, olhando para frente ao perceberem que era um carro chegando... Um Range Rover, como definiram quando as luzes baixaram.
— Quentin!
Michael olhou de relance a garota murmurar, então o olhar dela virou para o seu. Os dois estavam sem jeito e tensos, então Joelce deu um suspiro e abriu a porta.
Assim que saiu, viu-o fazer o mesmo, e parou cruzando os braços enquanto o homem grande e a loira extravagante desciam do outro carro.
Mordeu o lábio ao ver Michael parar ao seu lado, tão alto, tão elegante, tão lindo, tão... procurou se concentrar, afinal Quentin e Mary acabavam de chegar até eles.
— Boa... noite. — Quentin cumprimentou alternando o olhar entre um e outro, enquanto Mary o fez mais brevemente e com um sorriso.
Eles responderam em uníssono.
— Boa noite.
— Eu vim trazer a Joelce. — adiantou Michael
— Okay. — Quentin assentiu para ele, seriamente.
Michael virou–se então para Joelce, que ainda mordia o lábio, e deu um sorriso de constrangimento.
— Estás entregue.
— Obrigada, professor.
— Adeus. — ele acenou sem jeito para Mary e Quentin, que retribuíram enquanto a loira o reparava começar a andar com um olhar intrigado.
Joelce girou o olhar para vê-lo entrar no carro e partir, então olhando para o tutor e a namorada nada disse, simplesmente passou-os entrando em casa. Se conhecia Quentin, ele não iria falar a respeito, não agora.
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