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17 Já acabou, Jéssica?
Não consegui reunir coragem para ir às aulas. Eu não sei se Robb foi, mas se foi ele provavelmente deve pensar que sou um covarde. Contei tudo o que havia acontecido para Isaac, ele ficou apreensivo e disse que iria ficar de olho nos caras do time de futebol. Em uma lógica muito equivocada ele resolveu que deveria dormir aqui na minha casa para me proteger, até por que alguém viria na casa do Sheriff bater no filho dele. Acho que na verdade ele não gosta de dormir na casa dele sozinho, tem isso também, Isaac não estava mais na casa de Scott fazia um bom tempo. Agora ele prefere ficar na casa em que o pai batia nele e fazia outras coisas desumanas.
Snow ficou comigo o tempo todo (ele não teria outro lugar para ir). Assistimos Marley e eu enquanto Isaac ia para escola, chorei muito. Meu pai estava em Portland e eu não sabia muito mais do que isso. Antigamente ele sempre deixava pistas dos casos para que eu descobrisse algo sem que ele tivesse participado diretamente dessa descoberta, mas ultimamente ele anda cada vez mais reservado e pensativo. Sempre que eu perguntava algo relacionado sobre o assassinato de Mendy ele ficava sério e dizia que eu não deveria pensar nisso.
Não penso mais em Mendy com tristeza e todas essas coisas de luto, mas penso nela como um quebra-cabeça. Das poucas vezes em que pude conversar com Alaric, ele disse que eu deveria prestar atenção em tudo e em todos, principalmente nas pessoas que eu mais amo, pois quando se trata de amor nós ficamos cegos, ou seja, ele não sabe de nada!
Todas as tardes, Isaac chegava da escola faminto e reclamando de que era sem graça quando eu faltava. Ele pegava minha comida, meu cachorro e o controle da televisão. Uma desgraça esse loiro! Mas eu amava a amizade que tinha com ele.
— Isaac _ ele desviou os olhos da TV _ Uma vez você havia dito que quando terminasse o ensino médio era provável que você iria embora.
Ele engoliu o resto do bolo de chocolate e voltou à atenção para a série que nós estávamos assistindo.
— Não disse que seria “provável”, eu disse que vou!
Levantei as mãos em forma de rendição.
— Posso saber o motivo da sua ressalva? _ perguntou debochado.
— Não é uma ressalva e pode parar com o seu deboche _ respondi começando a me irritar.
— Ui, ela tá nervosa.
Bufei e Isaac riu.
— É só que... Bom, eu não... Eu não quero ficar sozinho _ expliquei baixinho.
Isaac parou de rir e me encarou.
— Está me pedindo para morar com você? O que vem depois? Um pedido de casamento?
Fiquei encarando Isaac sério. Ele parou de rir e ficou vermelho, ficamos assim por um bom tempo.
— Quer casar comigo? _ perguntei com a expressão mais séria da minha vida.
Ambos começamos a gargalhar tão alto que até o pobre Snow acordou e deu um pulinho de susto.
— Agora é sério, o que você acha de morar comigo quando eu for para Cambridge?
— E não era sério? Você partiu o meu coração! Tá, e onde fica Cambridge mesmo?
Isso é sério? Ele não sabia mesmo?
— Eu não sei e isso é muito sério. Até porque eu não sou obrigado a nada.
Fiquei olhando com cara de paisagem.
— Fica no Reino Unido _expliquei como se ele fosse uma criança retardada.
Ele arqueou a sobrancelha e assentiu. Esperei ele falar alguma coisa, mas...
— Não vai falar nada? _ perguntei impaciente.
— Você não viu que eu assenti com a cabeça? _ perguntou entediado _ Isso é um sim. Achou mesmo que você iria para o... Onde é mesmo?
— Reino Unido?
— Isso! Achou mesmo que você iria para o Reino Unido sem mim?
— Você sabe que o objetivo disso é que eu me livre de lobisomens e coisa sobrenaturais, não sabe? E você também sabe que meu pai não iria gostar muito disso, não sabe?
Isaac me olhou com desdém.
— Ai, quanto drama! _ exclamou entediado _ Sei pai me ama e você já pode parar com o mimimi.
Nossa, desde que ele chegou só recebo patada. Hoje a criatura está azeda.
— Isaac, o que aconteceu? _ perguntei sério e preocupado.
Vi que ele ficou triste e com... Culpa?
— Eu meio que dei um soco na cara do Theo _ respondeu receoso.
— O que? _ gritei e pulei do sofá.
— Eu não podia simplesmente deixar isso passar. Você acredita que agora ele anda com os caras do time de futebol? _ Isaac parecia transtornado _ Eu não admito esse tipo de coisa!
Resolvi sentar e contar até dez.
— Você está bravo? _ Perguntou baixinho.
Tive que rir e muito. Isaac estava me encarando confuso. Só parei de rir quando já havia lágrimas nos meus olhos.
— É claro que não estou bravo _ expliquei enxugando as lágrimas _ Só fiquei preocupado... Ele te machucou?
Quem riu dessa vez foi o Isaac.
— Ele só deu conta do que aconteceu quando já estava no chão.
Não posso dizer que fiquei triste, mas também não fiquei feliz. Ele não tinha que bater no Theo, mas até que deve ter sido divertido. Isaac é inteligente, bonito e verdadeiro só queria saber por que eu não me apaixonei por ele. Dizem que a maioria das pessoas gosta de ficar com gente ruim.
Sentei no sofá e tentei prestar atenção na série, péssima ideia porque Isaac escolheu uma série de demônios*. Isso é tortura!
— Isaac? _ chamei.
Ele olhou com o canto dos olhos e disse “hm”.
— Por que eu não fiquei com você? Digo, por que eu não me apaixonei por você?
Ele me encarou sério e soltou uma daquelas bem fabulosas.
— A gente aceita o amor que acha que merece.
Não aguentei, tive que rir igual um cavalo.
— Eu já li o livro e assisti ao filme* _ revelei entre o riso _ Mas realmente, eu acho que mereço o amor do modelo* que faz os vídeos com a Lana, aquele gostoso cheio de tatuagens.
Dessa vez quem riu foi o Isaac.
— Acho que não daríamos certo como um casal, meu amor por você é como se fosse de irmão _ explicou.
— Irmão tipo Cersei e Jamie Lannister*? _ perguntei com o olhar cheio de segundas intenções.
Ele jogou uma almofada em mim e me chamou de idiota. Estou chateado.
— Isaac, você é o meu irmão.
— Eu vou chorar _ ele disse e fez um bico.
Joguei duas almofadas nele e voltamos a assistir a série. Ele voltou. Fiquei pensado no que ele disse sobre escolher o amor que pensamos merecer... Será que no meu interior eu realmente acredito que não mereço o amor do Derek? Só isso explicaria a minha recusa em relação aquele gostoso.
—___________________
Voltar para o meu inferno particular não foi tão difícil assim. Recebi alguns olhares demorados, mas até agora não fui agredido e nem nada do tipo. Se levarmos em conta que faz cinco minutos que eu cheguei não é tão animador assim. Meu armário não foi pichado, graças a Deus como diria a irmã Inês Brasil*. Mas havia uma carta dentro dele. Sem remetente e sem nada para identificar quem havia escrito. Abri o envelope e me deparei com um texto emocionante:
Querido Stiles,
Antigamente quando eu andava pelos corredores da escola era quase sempre muito fácil. Saia do buraco da minha casa e ia em direção à civilização, olhava para os lados estabelecendo o número de possíveis agressores que encontraria na escola. Eu me escondia em tudo, vestia roupas que eu não queria, falava de um jeito que eu não queria e pior, eu namorava uma garota sendo que eu queria namorar um garoto.
Sou gay e apenas gay! Nunca pensei que teria coragem de contar isso para alguém, mas estou contando para você e mais tarde contarei a minha família. Se eles não me aceitarem então é porque eles não me merecem. Não estou sendo idiota em dizer que sou a melhor pessoa do mundo, mas estou dizendo que mereço o amor daqueles que eu amo.
Sinto muito se não posso (e nem quero) dizer o meu nome, mas obrigado por me trazer um pouco de coragem, eu sei que o que vem pela frente não será fácil, mas eu também sei que não estarei sozinho.
Eu vi o que você fez pelo garoto no vestiário, você é meu herói!
De seu futuro amigo.
PUTA QUE PARIU! Estou até sem palavras para descrever o quanto isso foi incrível. Nunca pensei que seria útil ou faria bem a alguém.
Abri um sorriso e senti a confiança voltar. Se alguém tem tanta coragem de escrever uma carta dessas porque eu não teria coragem de enfrentar uns idiotas homofobicos?
Guardei a carta na minha bolsa e peguei meu material da primeira aula. Acho até que seria gentil com a professora de matemática. Estava tão feliz que quase não senti a porta do meu armário ser fechada com força. Quase. Suspirei com tédio e me virei bem devagar para ver quem era o ser empacando a minha vida.
Era o Scott. Af!
— Estou terminando com você _ ele disse decidido.
— Terminando o que exatamente? _ perguntei confuso.
— Nossa relação! Você só anda com o Isaac e quando não está com ele é com aqueles seus amigos estranhos e afeminados.
Amigos estranhos e afeminados? Quem? Será que são os amigos da Mendy?
Ele revirou os olhos. Eu odeio que revirem os olhos pra mim.
— Os japinhas e aquela tal de Cristina...
— É X-tina e eles são coreanos _ expliquei.
— Que seja! Você me trocou, eu sei que não tenho sido presente e tudo mais, só que você tem que entender que eu tenho uma bagagem sobrenatural muito grande, eu tenho um pack muito grande! _ Ele praticamente gritou.
— Já acabou, Jéssica?* _ perguntei com deboche.
Ele até que tentou parecer assustador, mas não deu certo. A verdade é que Scott ama esses memes e ainda tem a audácia de jurar de pé junto que não é gay ou bi... Não sei o que ele é também.
— Eu te odeio.
— Você me ama e vai dormir na minha casa hoje. Temos que aproveitar que o meu maravilhoso pai está em uma investigação.
Comecei a andar em direção a sala com Scott do meu lado com sua famosa cara de What.
— Vamos jogar videogame? _ perguntou.
Parei bruscamente e segurei nos ombros dele.
— Meu querido padawan*, vamos dar uma festa! Garotas de biquíni, Mc Brinquedo no máximo, drogas e orgias, o que você acha? _ sugeri.
O retardado me encarou com surpresa. Será possível que ele realmente teria acreditado na minha sugestão?
— Não seja burro! É brincadeira.
Ele demorou uns cinco segundo para captar essa informação.
— Nossa, por um segundo eu acreditei mesmo.
Apenas balancei a cabeça e fomos juntos até a sala. A primeira aula dele seria de biologia junto de Lydia e Kira. Lydia! Tem o baile de alguma coisa pra ir. Tenho que ver a data disso.
Algumas pessoas ficaram me encarando quando entrei e sentei no meu lugar. Peguei o meu caderno e resolvi escrever uma resposta para a carta anônima. Só de lembrar da carta eu já fico com um sorriso idiota no rosto. Estava prestes a escrever quando: Theo! Bem roteiro de filme ruim, eu sei.
Não é possível que ele tenha tanta cara de pau de pensar em sentar perto de mim. Ele simplesmente fingiu que eu não estava dizendo que mataria ele com o olhar. Mas é um desgraçado mesmo. Theo sentou na cadeira atrás de mim como se fosse o dono da porra do mundo!
A merda do perfume sensual dele estava invadindo o meu espaço. Hoje eu mato um!
— Bom dia _ sussurrou bem pertinho da minha orelha.
Fique todo arrepiado.
Virei o corpo lentamente e olhei no fundo daqueles olhos maravilhosos.
— Vai tomar no cu!
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