Notas iniciais
Finalmente, a explicação das mil personalidades de Marina. hoho! Bem, teve muita gente que preveu esse desfeche, mas ele é só uma parte da história, mas não define ela toda, ok? Outra coisa, essa ideia foi inspirada no filme Remember Sunday. Só para constar. Bem, espero que gostem, vocês andam me surpreendendo com a aceitação do enredo. Fico tão feliz que você não tem a noção. Obrigada! Sempre! Música dica: Tough Love - Jessie Ware

Os pássaros estão cantando pela janela enquanto o Sol reflete no espelho do quarto. Era uma manhã calma, onde qualquer um se sentiria livremente á vontade para acordar. Mas Marina não.

O despertador toca, o ponteiro digital marca 8:00 am, em um pequeno barulho insuportável de despertador acompanhado do som ligado automaticamente do rádio naquela manhã – “Bom dia Rio de Janeiro, está uma linda manhã de Sol, vamos falar como está o trânsito essa manhã na rota oeste da Zona Sul...”. – Marina abre os olhos lentamente ao reparar o som em sua frente, seus olhos pareciam com um misto de susto e desorientação, até olhar o post-it azul em sua frente grudado no despertador: “Você está no Rio de Janeiro”.

Marina inclina o corpo de uma forma alarmada e observa seu próprio quarto hesitante, era como se tivesse vivendo uma enxaqueca eterna de não saber onde está, post-its de todas as cores estavam espalhados no quarto, caminhos de informações que pareciam nunca terem chegado até ela. Enquanto seus olhos ainda percorriam por todo lugar, foi parada por outra mensagem que se ocupava atrás do despertador com letras grandes facilmente visível. “Leia-me toda manhã”, estava escrito em uma pasta marrom. Marina puxou a pasta e abriu até chegar em seu interior, o lendo superficialmente. Fotos e informações eram degustadas aos poucos. Mexia em seu cabelo e se confortava nos travesseiros postos na cabeceira da cama da em forma que protegesse sua coluna. Em sua distração, a porta é aberta, fazendo os olhos atentos de Marina se desviarem em um susto. Vanessa sorri ao ver que Marina estava se protegendo como uma criança com o cobertor tampando quase todo seu rosto.

– Vanessa! – Marina pula da cama e vai em direção da ruiva com um abraço caloroso de alivio de se lembrar de alguém.

– Bom dia. – Vanessa devolve o abraço de forma carinhosa e um jeito sereno, mas logo se afasta da fotografa.

– O que estamos fazendo no Rio? – Marina caminhava com seu pijama de ceda preta enquanto olhava pela janela do quarto a vista da piscina.

– Que raro. – comenta Vanessa. – Você raramente não lê toda a pasta de informações antes de falar com alguém.

– É porque você entrou no quarto antes que terminasse. – disse Marina pensativa observando a pasta em sua mão já se sentando na cama junto a Vanessa.

– Raro também, porque você a devora isso antes que dê tempo de alguém entrar. – Vanessa passa mão no rosto de Marina que toca mão da ruiva fechando os olhos de forma aliviada.

– Pelo visto você sempre estará na minha mente. – Marina abre os olhos encarando as esmeraldas que eram os olhos de Vanessa que pareciam se machucar com o pequeno ato de demonstração afetiva. – Eu posso ter perdido minha memória, mas não esqueço feições. O que eu te fiz?

– Você não fez nada, o destino fez, mas como eu gostaria de um dia, só por um dia, fazer suas memórias serem só minhas. – comentou Vanessa se levantando da cama.
– Vou preparar um Café para nós e trate de ler suas memórias na pasta e no gravador.

– Gravador? – questiona Marina.

– Sim, gravador. – confirma Vanessa. – Está em cima da mesa, aquela caneta ali, por mais discreta que seja, é um gravador. – Vanessa aponta para caneta dourada em cima da mesa ao lado do computador.

Marina se levanta e vai curiosa em direção a caneta não percebendo a saída de Vanessa do quarto até ouvir o barulho da porta se fechando. Pegou a caneta na mão e a analisou cuidadosamente. Era uma caneta Gaia Alto luxo da Omas Foutain. A Caneta representava as maravilhas geométricas do mundo, absolutamente diferente das canetas que refletem a essência clássica da história. É totalmente banhada ao ouro com detalhes cinzas evidentes. A cor cinza do metal de que é feita, simboliza a viagem para o interior escuro da Terra. O corpo da caneta da cabeça aos pés, apresenta imagens esculpidas de aranhas gigantes, plantas carnívoras e animais aquáticos. A mistura de medo e admiração na gravação desses horrores fazia com que a caneta na mão de Marina fosse um modelo especifico diferente de uma variedade de coleção de canetas. Em um dos detalhes da caneta, havia um pequeno botão disfarçado, quase imperceptível, se não visto de perto com muito cuidado. Marina apertou o pequeno botão e assustou ao ouvir o som da própria voz surgindo da caneta.

“Antes que você faça qualquer gravação, certifique-se de ler toda pasta marrom. E depois que fizer isso, vá até seu computador. A senha dele é: solitude. Lá terá históricos de gravações de todos os dias marcadas por datas, horários e pessoas. Não se esqueça de anotar sua senha. Ela é trocada toda noite para que ninguém saiba sobre o que você pensa, diz ou quer fazer. Depois que passar suas gravações para o computador, lembre-se também de deixar uma mensagem parecida com essa para o outro dia, com a nova senha e com um monólogo parecido com este. Infelizmente, sua memória tem que ser registrada, por mais frustrante que isso seja. Você precisa viver”.

Marina ouviu a mensagem assustada. Ouviu mais algumas duas ou três vezes até tomar coragem de prosseguir com sua rotina. Nem acreditava que fazia isso todos os dias e pelo visto, já a algum tempo. As únicas memórias consideráveis que Marina conseguia se lembrar, era os da infância, adolescência e do chá da tarde em Paris com Vanessa enquanto elas se amavam a noite toda após uma cansativa exposição. Encostou-se novamente na cabeceira da cama e apanhou a pasta marrom e fielmente a leu como se ali existissem todas as verdades do mundo. De fato, as do mundo de Marina estavam resumidas todas ali, em palavras claras e diretas para que ela soubesse que existiu sim alguma vida, após o chá da tarde em Paris.

Uma lágrima descia em seu rosto. Muitas verdades relembradas como se não tivessem ocorridas. Ela e Vanessa não estavam mais juntas e fazia um tempo, assim como Paris. que havia ocorrido há um pouco mais de 1 ano. Marina segurava o nó na garganta atordoada até que olhou para o computador em sua frente. Levantou-se da cama e sentou na cadeira em frente ao computador. Seguiu as dicas de si mesma no dia anterior e ligou o computador se concentrando em sua tela inicial que pedia uma senha de entrada. Digitou com cuidado observando com aptidão o teclado em sua frente: solitude.

O iniciar do computador deu partida, quando se entrou no desktop, Marina reparou várias pastas com nome de meses do ano já passado. Abriu a pasta de Junho, o mês que estava, após olhar no celular, e olhou a mensagem gravada no dia anterior. Seus olhos ainda se inundavam com lágrimas que desciam lentamente pelo desenho de seu rosto. Clicou no play e se surpreendeu com o retorno de sua voz saindo pelas caixas de som do notebook em sua frente.

“Você não deveria estar chorando. Eu sei que está, porque foi minha reação deste dia que acordei, que quando você estiver ouvindo essa mensagem, será o seu dia anterior. Eu sei que tudo isso pode parecer loucura ou impossível de continuar, mas você nem achará isso por muito tempo. O lado bom de ter uma memória falha é que a dor não é eterna. Mas existe o detalhe, que ninguém será memorável o suficiente para você lembrar no outro dia. E isso que nos mata, Marina de amanhã. A possibilidade de conhecer alguém incrível e não poder dar continuidade a isso, porque você não se lembrará. Vou te dar explicações simples do que você terá que fazer hoje, não é complicado. Sua rotina, diariamente, nos últimos 2 anos foi: pesquisar referencias e inspirações na internet, imprimir o link e elaborar uma ideia. Eu sei que parece muito complicado, mas para nós o dia fica diferente todos os dias. E não adianta achar que não dormir resolverá isso, você já tentou, várias vezes, se ouvir alguns áudios nosso, você verá o quão frustrante isso foi também. A exposição que você está trabalhando agora é um ensaio inspirado em pesadelos infantis. Não se preocupe, você já reuniu as informações das crianças. Foi duro, porque você se lembrou da sua mãe e chorou, porque a morte dela não pode ser apagada toda manhã e isso também te preocupa, mas também não deveria. As ideias estão separadas no andar inferior do estúdio. Vanessa pode te ajudar com isso. Aliás, não beije a Vanessa. Vocês não namoraram mais. Se você parar para l as outras informações, irá ver que não. Então, tome um banho, vista ume roupa linda e um Oxford confortável e vá até lá fazer essa exposição dar certo. Bem, como você leu na pasta marrom, já sabe que a Gisele a Flavinha e Vanessa sabem do seu “pequeno problema”, então não precisa se preocupar com elas. Você ainda continua amiga dos mesmos rostos. Mas existe alguém. O nome dela é Clara. Eu não preciso te dizer como ela é. Eu percebi que eu nunca precisei. Você consegue enxergar ela todos os dias. Na verdade, ela é sua batalha, seu desfecho. Você perde para ela quase todos os dias. Ontem ela te encontrou sem memória, você flertou com a Vanessa na frente dela. E ela parecia não reconhecer você da mesma forma que você não reconheceu ela. Mas você a elogiou. Existe gravações dos seus encontros com ela, ouça sempre toda manhã, está no iPod ao lado, junto a pasta vermelha, a pasta vermelha é a dela. Você pode ter a emoção de vê-la pela primeira vez todos os dias ou de olhar a foto dela na pasta ao lado. Marina de hoje, evite falar com ela, para não se envolver. Ela tem Marido e filho e você, bem, você não tem nada todos dias e tem sempre que recomeçar tudo de novo. As luzes da cidade brilham por ela. O que faz do inferno o inferno não é o calor insuportável, os gritos, os demônios se arrastando pelo fogo, isso é muito bom, perto da Terra. O inferno é a repetição. De uma coisa insuportável ou comum, mas o inferno é somente a repetição. Acordar todos os dias com o mesmo medo, ir dormir todas as noites com a certeza óbvia de que o próximo dia será absolutamente igual ao último. Todas as manhãs pensar que a má fase vai passar, e todas as noites ter certeza que não. O inferno é se perguntar todos os dias o que aconteceria se tivesse dito, se tivesse feito, se tivesse tido coragem, se. O inferno é chorar todos os dias pela mesma dor, sentir a mesma falta, o mesmo vazio infinito como o espaço. Se o diabo existir, e for esperto, vai pegar os piores momentos da sua vida, as piores esperas, e repetir infinitamente. Infinitamente a fila do banco, o enterro da sua mãe, o medo de um estupro, o amor forjado, a frustração. Infinitamente os dias iguais, esquecíveis, as repetidas promessas de fim de ano, iguais e rasas. Verás em milhões de ângulos e tons diferentes os olhos dela, sem que possa se lembrar deles. E isso pode ser facilmente um inferno para você. Eu sei, eu também preferiria o fogo”.

Após ler a própria mensagem Marina arregala os olhos surpresa com tantas confissões. Passa a explorar suas memórias, ouve mais mensagens, sobre trabalho, dia, pessoas. Se surpreende com a forma que lida todos os dias com as mesmas situações, sem dar na pinta que tem um falha na memória.

Vanessa abre a porta, se depara com Marina pronta terminando de passar seu batom vermelho na boca. Analisa a fotografa e enquanto coloca a bandeja com o café da manhã na cama. Se aproxima em passos largos e discretos sendo orientada pelo perfume de Marina. Os olhos de Marina encarava os de Vanessa, que sentia, mais uma vez, o sentimento de perda, de saber que a Marina que a amou acorda todos os dias mas se recorda que não há ama da mesma forma mais.

– Você se lembrou? – questionou Vanessa.

– De tudo. – responde Marina com firmeza.



Notas finais
haha, esperava isso? Me conta vai! E ah, obrigada! Por ter chegado até aqui e se estiver encantada com o que leu, me toca mais ainda. Aliás, estou aceitando Recomendações, haha! Mentira, dá quem quer, lindas!