Foi Só Um Sonho.
10 Primeiro dia.
Notas iniciais
A família toda estava reunida na mesa de jantar da casa de Helena, o café da manhã estava lindo, Rosa havia realmente caprichado, até Ricardo estava presente, o namorado da mãe de Clara. Ela chegou até a mesa e mirou o local em que se sentaria, que seria óbvio para qualquer um que visse que era ao lado de Cadu. Clara sentou ao lado do marido e escolheu um pão fresco que estava na tigela à sua frente. Todos conversavam animados, os diálogos variavam entre conversas matinais familiares e um ponto que incomodou Clara: a sexualidade de Marina.
Clara havia recém informado que começaria a trabalhar no estúdio de Marina. Cadu, enciumado, vivia dizendo a todos da preferência que Clara possuía por Marina, já que escolheu trabalhar no estúdio em vez de ficar em casa cuidando dele. Clara, aborrecida, repreendeu o marido pelas mentiras que soltava em seu nome. Porém, ela sabia ao lembrar rapidamente que meias verdades não são assim totalmente mentiras. Marina chamava sua atenção de maneiras que nem ela conseguiria explicar a si mesma.
Virgílio, que até então era discreto, se surpreendeu ao descobrir há opção sexual de Marina. Derrubou até o pão que segurava ao saber da notícia e comentou, despretensioso:
– Ela é mesmo... – disse Virgílio, tímido, como se perguntasse sobre um segredo. – homossexual? – cochichou.
– É sim. – disse Ricardo, se aconchegando ao lado de Chica e falando com muita naturalidade. – Eu sei que ela não parece, mas sei lá, faz tanto tempo que ela se assumiu que já virou costume para nós da família. Na verdade, nem ligamos. Marina é uma menina doce, sensitiva e muito talentosa, ela transparece muito bem isso nos trabalhos. Ser lésbica é apenas um detalhe para todo mundo, a não ser que a pessoa esteja interessada nela de outra maneira. – Ricardo deu uma risada após finalizar o discurso.
– Ela é tão bonita. – falava Cadu com a boca cheia enquanto passava geléia no pão. – Nem parece ser.
– Algumas pessoas não aparentam ser o que realmente são. – disse Juliana do outro lado da mesa olhando discretamente Clara e escondendo uma risada maléfica como se soubesse um grande segredo.
– Ai...– falou Clara, batendo as mãos na mesa ao se levantar. – Parou de falar dela, né gente? – disse ela, buscando a bolsa perto do sofá e voltando à mesa para finalizar a repressão. – A Marina é muito gente boa, parem de falar dela assim como se, sei lá, ser gay fosse errado. Ela será a minha chefa, também. Tentem, por favor, respeitá-la. Sem contar que ela também é minha amiga. – Clara, que já estava arrumada com um longo vestido floral de cores pastéis e uma jaqueta preta de couro que acentuava muito bem as curvas de seu corpo, combinados com lindos brincos grandes de cruz que deixavam sua aparência ainda mais bela, colocou a bolsa em seu ombro e terminou o discurso. – Agora eu tenho que ir, senão chegarei atrasada. Então tchau para vocês.
– Hmmmm, Assim serei trocado pela Marina. – disse Cadu, após receber um beijo de despedida da esposa. – Bom trabalho. – disse à Clara, que o olhava vorazmente após seu comentário infeliz. Observou a esposa fechar a porta do apartamento de Helena e voltou a falar com os familiares presentes.
Demorou alguns instantes para que Clara conseguisse achar um táxi no horário que havia saído para o estúdio de Marina. Quando o achou, pediu para que o motorista acelerasse para que assim, pudesse chegar na hora do trabalho. Encostou a cabeça no vidro do carro e ficou pensativa sobre a proposta rude de Marina. A ruiva, Vanessa, ligou no domingo para fechar os detalhes da contratação, mesmo sem Clara nem ter confirmar algo, mas parece que isso foi motivo suficiente para Marina pensar que era um sim. No momento em que Vanessa havia ligado, Clara estava de longe olhando Ivan montar um quebra-cabeça no chão, empolgado. Se alguém descobrisse que ela estava se prostituindo, mesmo que emocionalmente, a julgariam sem pudores para que ela fosse, de fato, atingida. Não confirmou a proposta por si mesma, mas pelo filho e marido.
Sem se dar conta, já havia chegado ao estúdio de Marina. Pagou o taxista, desceu do carro e foi à porta de entrada tocar a campainha. Sem muita demora, a porta foi aberta violentamente, gerando um desconforto momentâneo em Clara ao olhar o rosto de Vanessa, que parecia julgá-la por completo. A ruiva, com seu jeito enigmático, pediu para que Clara entrasse, lembrando-a de que estava atrasada. Clara olhou para seu relógio de pulso e se assustou com o horário, estava 15 minutos atrasada. Culpou o taxista, depois o trânsito e finalmente aceitou que a culpa era dela mesma. Desculpou-se e quando menos percebeu já estavam abrindo a porta do estúdio. Vanessa a abriu com violência e pediu com descaso para que Clara a fechasse ao passar. Ela o fez sem questionar a grosseria, pois estava muito cedo para se irritar, e observou Vanessa descendo alguns degraus em direção ao que parecia ser uma cozinha e gritando ao alto:
– Marina! O seu brinquedo novo chegou!
Marina que parecia estar em algum quarto no andar de cima, foi rapidamente até os degraus da escada no andar superior do estúdio e se colocou a descê-los, já discutindo com Vanessa.
– Você não é capaz de se conter? – Marina surgiu e repreendeu Vanessa prontamente, sem esconder a reprovação. – Eu sinceramente não sei mais o que esperar da sua parte, isso foi tão desnecessário que eu me envergonho ao tomar consciência de que estou corrigindo uma suposta adulta. Se bem que, aparentemente, não enxergo diferença entre sua maturidade e a de uma criança, pois ambas ainda exigem monitoramento.
Vanessa se limitou a ignorar Marina e se virou para dar continuidade aos seus afazeres.
– Eu apenas espero que isso não se repita. – terminou Marina, em tom firme e intimidador. – Ou você verá quem eu chamarei de meu brinquedo.
Marina transitou tão rápido entre a expressão de fúria e alegria quando se dirigiu à Clara que, se esta cena fosse gravada em slow motion e Full HD, renderia uma excepcional tomada cinematográfica.
– Clarinha! Eu sabia que a veria aqui. Que bom que fez a escolha certa. – disse Marina, se aproximando de Clara. – Agora é irreversível. – riu. – Vou te apresentar às meninas, elas estão tão ansiosas quanto eu com a sua chegada.
– Foi quase uma intimidação. – comentou Clara observando Marina. Ela estava com seus cabelos jogados de lado, seu óculos de grau e uma vestido folgadinho bege e seu batom vermelho. Marina estava sempre apostando e looks monocromáticos, que por sinal, ficavam ótimos nela.
Marina guiou Clara em direção à área externa, onde estavam duas mulheres acompanhadas de Vanessa, que não hesitou em transparecer seu descontentamento. Clara ficou observando mais uma vez atentamente, a área externa da casa. Era enorme e absurdamente encantador, Clara, toda vez que olhava a vista, se sentia muito próxima de um paraíso tropical.
– Gente! Conheçam a Clara. – disse Marina, dando início à introdução. – Eu sei, ela é melhor ainda de perto. – finalizou, sorrindo para Clara.
– Olá! – disse Gisele, empolgada, estendendo a mão para Clara. – A gente ouviu falar bastante de você. Prazer, Gisele. – disse a menina em sua frente.
Gisele era simples e muito sorridente, usava um macacão jardineira jeans, que caia muito bem seu corpo, acompanhado de uma blusa branca lisa. Era magra como um palito, mas possuía um sorriso cativante. Havia nela ou nos olhos dela, algo que fazia qualquer um se sentir bem com sua presença. Aproximou-se de Clara e lhe deu um agradável abraço de recepção. Seus cabelos eram castanhos e longos. Ela usava uma franja reta que combinava muito com seu aspecto jovial.
– É bom abraçar alguém de vez em quando. – disse Gisele após se desprender de Clara. – Não temos muito esse costume porque a Marina não gosta muito de contato físico e nós acabamos nos acostumando a ficar sem também. – finaliza dando uma breve risada tímida.
– É verdade. – afirmou Flavinha. – Seja bem-vinda, é um imenso prazer conhecê-la. Eu sou a Flávia. – agora era vez de Flavinha dar um abraço em Clara, deixando Marina ainda mais sem jeito.
– Aí prima, sua bandida, pare de entregar os meus maus costumes. – disse Marina dando um breve tapinha no ombro de Gisele — E, bem, aquela ali é a Vanessa, né? – disse Marina, rindo ironicamente e pousando a mão sobre o ombro de Clara. – Essa será a sua equipe de trabalho. Gisele é a minha prima, Flavinha trabalha no atendimento e a Vanessa é, infelizmente, a minha sócia e cuida do financeiro. Você ficará encarregada de catalogar as fotografias aqui do estúdio, bem, isso você já sabe. As meninas lhe ajudarão com o que for necessário. – finalizou Marina, acariciando o ombro de Clara discretamente chamando atenção dos olhos de Vanessa. Clara sorriu e iniciou uma dialogo com Flávia e Gisele, que pareciam animadas em receber uma nova pessoa no estúdio. Marina logo se distanciou para que pudessem se sentir a vontade e conversarem com Clara sobre assuntos distintos e para que a apresentassem melhor o estúdio. Marina se distanciou e caminhou em direção a área interna do estúdio, quando foi abordada por Vanessa.
– O que você está fazendo? – disse Vanessa com a voz de desaprovação. – Porque trouxe essa Dona de Casa para trabalhar aqui?
– Oi? – ironizou Marina. – Eu escolho quem trabalha aqui e quem não trabalha, esqueceu? – Marina deu uma risada. – Ela vai catalogar as fotos para mim, você viu o tanto de foto sem catalogo que temos? Preciso arrumar isso. – sorriu.
– Marina me engana que eu gosto. – disse Vanessa dando outra risada para o alto. – Você não pediu nenhum desses seus encontros esquisitos desde que você me fez eu fazer aquela reserva no museu e ainda contratou esse mulher, assim, de repente para catalogar todas as suas fotos. Ela nem tem experiência nisso, Marina.
– Eu estou dando a oportunidade dela ter. – rebateu Marina.
– Eu não acredito que está interessada nela Marina, não acredito mesmo. – Vanessa balançava a cabeça demonstrando ainda mais desaprovação. – Maldita hora que te apresentei essa mulher naquela exposição.
– Sem amargura Vanessa. – dessa vez era Marina quem repreendia Vanessa. – Eu quero que ela seja bem recebida e que não fique recebendo provocações tua, você me entendeu?
– Era só o que me faltava. – Vanessa interpretou novamente o ar irônico. – Defende, defende mesmo a princesa Clarinha, Marina. – se indignou. – Só não esquece que ela tem Marido e filho e que nesse espaço não cabe um romance lésbico com uma fotografa despretensiosa que pretende destruir o modelo de família.
– Larga de ser uma... – Marina se irrita com Vanessa quando vê uma voz interrompendo a desavença.
– Desculpem, estou atrapalhando? – comentou Clara de forma tímida, já se afastando ao perceber o clima complicado.
– Jamais, Cla-ri-nha. – provoca Vanessa. – Pelo visto, você nunca vai. – Vanessa mira um olhar descontente para Marina e Clara e se desloca para onde estão Flávia e Gisele.
– Que abusada! – indagou Marina.
– Acho que ela não gostou nenhum pouco de mim. – Clara ainda parecia estar tímida.
– E isso é possível? – Marina sorriu desfiando o sorriso de Clara ficar contido.
– Como você consegue ser tão desagradável e tão encantadora ao mesmo tempo? – Clara franziu o cenho em análise. – Ainda lembro-me do gosto amargo do teu nome em minha boca seca tentando entender suas facetas, mas desisto. – Clara estende a mão como se tivesse se entregando a algo. – Eu vivo em ambiente e você em outro, não quero contato direto com você Marina.
– Mas foi você que estabilizou ter um contato ruim. – disse Marina. – Eu jamais fiz algo, das coisas que eu fiz, para te provocar ou te deixar descontente. – lamentou.
– Você sabe o que eu fez e eu também. – Clara lançou um olhar de desaprovação. – Não quero entrar em detalhes, porque eu sou apenas uma funcionaria e você minha chefa. Tudo, estritamente profissional.
– Você está se demonstrando mais complicada do que eu imaginava. – lamentou Marina posando a palma da mão na testa, depois mirando um olhar sedutor em Clara. – Então venha, vou te mostrar as fotos.
Marina convidou Clara para entrar novamente na área interna do estúdio e assim, Clara seguiu. Entraram e Marina logo apresentou a ela, sua nova mesa de trabalho. Não era nada formal, parecia ser a única mesa perto dos equipamentos de fotografia. Sobre a mesa, haviam vários catálogos de fotos que continham a assinatura de Marina. Clara observou com cuidado cada foto e se viu encantada com a percepção que Marina demonstrava ao capturar algo com a lente. Sentou-se em uma cadeira, ao convite de Marina, e começou a explorar as imagens em sua frente. Marina explicou com detalhes como gostaria que fossem os catálogos fazendo Clara entender bem o que ela queria. Porém, houve um momento que chamou atenção de Clara a deixando pensativa em relação à Marina.
– Essa aqui é uma das minhas expressões artísticas favoritas. – disse Marina apontando para um dos catálogos em sua frente.
– O que é? – Clara percebia o detalhe que todas as mulheres pareciam tristes vestidas com camisetas e as segurando de uma forma intensa.
– É um ensaio de mulheres usando roupas de suas antigas paixões. – Marina flexionou o corpo atrás de Clara, que estava sentada na cadeira em sua frente e tocou sua mão de forma despretensiosa levando seu indicador até pousar em uma das fotos. Clara conseguia sentir o perfume de Marina de perto, pela primeira vez. – Grande parte das memórias que temos das pessoas com quem nos relacionamos está presente em objetos que, muitas vezes, são as únicas recordações que restaram. – Marina pousou o indicador de Clara na foto de Vanessa que parecia estar usando uma camiseta também, com o rosto triste. – Diferentes sentimentos são mostrados nessa série de fotos que eu nomeio como “Lovers Shirts”, elas vestem camisetas de sua paixão mais memorável. Sejam elas homem ou mulheres. – ainda sem perceber, Marina tocou ainda mais a mão parada de Clara em cima da foto de Vanessa, fazendo-a reparar e lembrar que Marina não gostava de contato físico, mas ainda sim se sentia a vontade para tocá-la. – Os retratos capturam mulheres em um estado psicológico alterado, além de representarem um sentimento em comum no rosto de todas elas: de um amor que foi perdido.
– De quem é a blusa que Vanessa está usando? – perguntou Clara discretamente para que Marina não percebesse que sua própria mão estava sobreposta a dela. Mas foi falho.
– Minha. – Marina observou a própria mão em cima da mão de Clara e trocou rapidamente a feição de alegre para uma reflexiva. Retirou a mão com rapidez logo após concentrar um breve período a observando por cima da mão da Dona de Casa. Se afastou de Clara ainda sem jeito, como se algo tivesse a afetado.
– Está tudo bem Marina. – disse Clara vendo Marina se afastar subindo as escadas do estúdio ali perto. – Marina... – tentou Clara mais um vez, mas não obteve sucesso.
Clara passou o dia todo sem ver Marina e se perguntando o porquê dá atitude da fotografa. Lembrou que mesmo no encontro no quarto 504, Marina não havia tocado sua mão. O máximo que faziam, eram beijos de comprimento no rosto, por pura formalidade. Mas teria tempo para descobrir.
Muito tempo.
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