Foi Só Um Sonho.
11 Côns·ci·o
Notas iniciais
Cadu havia preparado o café da manhã, apesar de estar sobre observação médica, sempre desobedecia as ordens da Doutora Silvia. Clara, por usa vez, saia do quarto penteando o cabelo e conferindo a maquiagem no espelho do hall. Cumprimentou o Marido com um beijo breve em sua boca enquanto ele virava as panquecas na frigideira em um estilo Parisiense. Clara observa o marido e já solta um sermão em primeira mão.
– Cadu, você deveria estar descansando, você não ouviu a Doutora Silvia? – disse Clara sentando na cadeira da bancada da cozinha observando o Marido ser descuidado consigo mesmo.
– Aí amor, preparar um café da manhã para minha família não deveria ser um sinal de descuido, sim de cuidado. – Cadu dá seu largo sorriso encantador e coloca a panqueca que preparava com cuidado no prato com detalhes azuis ali perto e entrega para Clara, que olha com um olhar faminto o prato em sua frente. – Calma, não toca. – avisou Cadu impedindo que Clara desse a primeira garfada. Foi até um de seus potes de utensílios culinários e tirou um pote de mel e despejou sobre a panqueca e liberou enfim, sua degustação.
– Hmmmm... – pronunciou Clara mastigando a panqueca – Meu Deus Cadu, está maravilhoso! – Clara continuava a comer com ferocidade. – Eu e o Ivan estamos bem de Chef de cozinha.
– Sempre! – disse o Marido depositando outro beijo na boca da esposa.
– Bem, agora eu preciso ir. – avisa Clara interrompendo o beijo e afastando o rosto do Marido do seu e coletando sua bolsa na cadeira ao lado.
– Quando você vai parar de trabalhar naquele estúdio, hein? – disse Cadu encostado perto a pia enquanto observava Clara procurar a chave do carro.
– Cadu, não vamos entrar em mais uma discussão sobre isso, por favor! – anunciou Clara disparando um olhar severo.
– Como não vamos discutir sobre isso Clara? Se você faltasse um dia se quer naquele estúdio para fechar o contrato no Galpão do Laerte, que tem espaço por sinal, para abrir o bistrô, nós não precisaríamos ficar discutindo sobre isso. – Cadu dizia com a voz serena enquanto encara os olhares de desaprovação vindos de Clara. – Você só pensa em ficar perto daquela Marina.
– Cadu, eu não vou discutir com você isso agora! Eu estou indo trabalhar. – Clara diz depois de finalmente achar as chaves do carro atrás das almofadas no sofá.
– Eu marquei o fechamento do contrato para amanhã Clara. – solta Cadu.
– O QUE? – Clara que havia chegado até a porta virou-se com revolta até Cadu. – Como assim Carlos Eduardo? Você não podia ter feito isso sem ter me consultado antes, você está louco?
– Esse é o problema Clara, eu consultei você, várias vezes! – desabafa Cadu.
Com as vozes altas, Ivan chega até a sala com um olhar sonolento perguntando o que estava acontecendo para Clara e Cadu entrarem em mais uma discussão. Clara conforta o menino dizendo que está tudo bem e anuncia que vai trabalhar e que seu Tio Virgílio iria leva-lo ao colégio. Olha para trás e dá outro olhar de censura para Cadu avisando-o que quando chegasse em casa conversariam sobre a discussão. Saiu do apartamento e foi em direção ao seu carro.
O transito do Rio de Janeiro estava já um loucura desde o Leblon. Clara passava pela Lagoa Rodrigo de Freitas observando as pessoas andando com o pensamento longe. Não era só Cadu que a preocupava naquele momento. Marina também fazia uma grande parte da parcela dessa preocupação. Desde o acontecimento do toque, Marina e Clara não trocaram mais uma palavra se quer durante o último mês. Clara se confortava com a ausência progressiva da Fotógrafa trocando ideias com Flávia e Gisele, que sempre eram muito receptivas. Mas o que mais incomodava Clara, não era também apenas a ausência de Marina, mas o segredo que todos aparentavam manter ao redor dela. O óbvio seria achar que Marina fosse uma mulher complexa e cheia de mistérios, porém, vivenciando isso, Clara sentia um desconforto absurdo. Ela gostaria que Marina parece quieta com uma personalidade apenas. Aquela, que Clara se encantou na exposição.
Estacionando o carro na frente do estúdio, Clara desce e vai em direção a entrada quando percebe Flávia e Gisele saindo.
– Bom dia meninas! – diz Clara trocando beijo no rosto com Flávia e Gisele.
– Bom dia Clara! – diz as duas ao mesmo tempo.
– Não vão ficar para elaboração da nova campanha? – perguntou Clara com feições de preocupação. Sempre que não tinha Gisele, conversava com Flávia e vice-versa, mas nunca teve que lidar ficar no estúdio só com a Marina e Vanessa.
– Não se preocupe. – disse Gisele rindo percebendo a feição de preocupação de Clara. – Voltaremos logo.
– E a Vanessa está dormindo. – disse Flávia soltando uma breve risada acompanhada de sua voz roca.
– Mas Flávinha... – Gisele mudou a feição como se tivesse lembrado de algo. – A Marina já acordou?
– Não prestei atenção, mas também não ouvi nenhum barulho do quarto. – Flávia demonstrava preocupação. – Devo ficar e você vai?
– Gente, calma! Qual o problema dela estar dormindo? – Clara sorri sem graça sem entender o motivo da preocupação. – Sem contar que sou quase uma pluma, quase nunca faço barulho. Se não fosse conversar com vocês lá dentro, provavelmente nem notariam a minha presença.
– O contratante pediu a presença de duas e já estamos atrasadas, vamos ter que arriscar. – comentou Gisele baixo para Flávia fazendo Clara quase não escutar o que diziam.
– Gente. – dessa vez Clara conseguia a atenção das duas. – Eu não vou acordar a Marina, eu garanto isso a vocês.
– Você promete que não irá subir no segundo andar até a Vanessa descer com a Marina? – disse Gisele segurando a mão de Clara como se pedisse algo muito importante.
– É óbvio que sim. – disse Clara.
– Obrigada! – falou Gisele demonstrando um alivio quando o táxi que as duas esperavam chega. – É que a Marina tem um sono muito leve.
– Meninas, se ela tem algo com a Vanessa, eu não me importo, a vida é delas. – disse Clara tentando esconder o descontentamento com a situação.
– Ela não tem mais nada com a Vanessa. – disse Flávia direta.
– Precisamos ir. – anunciou Gisele se despedindo de Clara, junto a Flávia. Entraram no táxi e seguiram de acordo com seu destino.
Elas mentiram. Era óbvio e resplandecente, Clara só não entendia o porque. Os mistérios novamente, algo que se infiltrava lentamente em seu consciente. A mania de acreditar que a todo momento, alguma coisa estava acontecendo, e que aquela coisa, afetaria de maneira significativa o comportamento nem um pouco convencional de Marina.
Clara entrou no estúdio e foi direto para sua mesa, sentou na cadeira vermelha e começou a catalogar algumas das fotos que Marina havia feito em um dos seus projetos criativos. Ao mesmo tempo que analisava as fotos, sorria inconscientemente. Era lindo ver o olhar sensitivo dela pelas coisas da vida. O projeto que catalogava, era o retrato da evolução dos videogames a partir dos seus controles. As imagens iam do Teletenis de 1983, até o PSVita, em 2013. Sem esquecer os clássicos, como o Atari, Mastersystem, Super Nintendo, Mega Drive, Playstation, entre outros. Clara imaginou como Ivan iria ficar feliz de poder jogar cada uma desses videogames e de como o foco da Marina não era também, exclusivamente as mulheres. O que por algum motivo desconhecido, aliviava Clara.
Depois de um longo período concentrada no trabalho e sem nenhuma presença, tanto de Vanessa quanto de Marina, Clara se levantou e foi até a cozinha preparar um xícara de café. Por mais que o trabalho ocupasse bastante sua cabeça e como havia pegado o jeito na hora de catalogar as imagens, Marina insistia em permanecer de modo discretos nos mil pensamentos por segundo de Clara. Enquanto se distraia nela mesma, ouve um barulho forte vindo do chão. A xícara de café havia se espatifado no chão. O seu olhar preocupado tomava conta de todo ambiente. Não pelo preço da xícara, que de fato parecia ser um pouco cara, como todos os objetos que se tinham dentro do estúdio, mas pelo barulho. Clara puxou para si a primeira vassoura e pá que encontrou em sua frente e recolheu todos os estilhaços e jogou no lixo, mas seu temor aconteceu. Um grito alto vem do andar de cima, e de mil quilômetros de distancia, Clara o reconheceria. Era Marina eufórica no segundo andar.
Clara largou tudo que tinha na mão e correu até o começo da escada quando se lembrou do prometido há Gisele. “Você promete que não irá subir no segundo andar até a Vanessa descer com a Marina?” ecoou em sua cabeça. Clara se viu presa por uma promessa e do anseio maior que alma de ver o que havia acontecido e se estava tudo bem. Quando uma sombra aparece alguns degraus a cima.
Marina observava Clara com um rosto assustado. Estava com um baby-doll preta de ceda Bélgica e com o cabelo um pouco bagunçado, totalmente diferente do costume. Desceu alguns degraus da escada e se aproximou um pouco de Clara. Olhou em seus olhos encantada, como se fosse a primeira vez que a visse.
– Que barulho foi esse? – disse Marina observando o estúdio, como se fosse algo esplendecente.
– Desculpa Marina, acho que te assustei. – Clara olhava a forma de como Marina aparentava estar doce. – Derrubei a xicara de Café sem querer e fiz esse barulho.
– Você é... – Marina se aproximou bruscamente de Clara colocando a mão em seu queixo e o virando contra luz, dando um pequeno susto em Clara. – Linda. A luz cai muito bem em seu rosto.
– Obri..gada. – disse Clara sem jeito. Marina parecia novamente, ser outra pessoa.
– Como se chama? – perguntou Marina.
Antes que Clara pudesse responder algo Vanessa apareceu na entrada da escada no segundo andar. Seu rosto ficou pálido e nervoso, desceu a escada com uma velocidade absurda. Pegou Marina pelos braços e disse em um tom baixo que ainda foi possível ser ouvido por Clara.
– Você não leu seus recados essa manhã? – disse Vanessa baixo para Marina que ainda permanecia serena.
– Não precisa ficar com ciúmes Van, meu coração é teu. – Marina abraça a assistente que parece sofrer com o abraço.
– Ok Marina, agora sobe no primeiro quarto a esquerda depois do fim da escada e me espera sentada.
– Com roupa? – Marina sorri de jeito sensual atraindo um olhar de censura para Clara que não sabia o que estava acontecendo.
– Apenas vá. – disse Vanessa.
Marina subiu as escada de um jeito jovial e observando o estúdio com cautela mais uma vez até sumir da visão de Clara e Vanessa.
– O que você está fazendo aqui tão cedo? – disse Vanessa com um tom de voz rude afrontando Clara.
– Trabalhando Vanessa, o que você acha que eu estava fazendo? Pedi para Gisele para vir de manhã já que não poderia vir de tarde pelas próximas semanas. – Clara ainda estava visivelmente sentida com que acabará de ver. Então Vanessa e Marina realmente estavam juntas, por isso Marina havia a ignorado no último mês.
– Não fale mais com a Marina enquanto não me ver com ela de manhã, você entendeu. – Vanessa encara Clara.
– Pode contar comigo. – responde Clara no mesmo tom.
Gisele e Flávia abrem a porta do estúdio e percebem o clima vindo de Clara e Vanessa e logo questionam.
– Meninas! – Gisele anda rapidamente e fica entre as duas. – O que aconteceu?
– Marina acordou primeiro que eu e encontrou a Clara. – disse Vanessa.
– Por livre espontânea vontade? – disse Flávia surpresa. – Ela disse teu nome Clara? – Questionou.
– Não. – Clara ainda estava confusa mas não tirou tempo para pensar no acontecimento. Estava muito ocupada querendo dar um soco em Vanessa inconscientemente.
– Ela disse o que? – perguntou Gisele.
– Disse... – Clara corou por um segundo ao se lembrar.
Disse que eu era linda.
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