Foi Só Um Sonho.
5 Glenfarclas 1955
Notas iniciais
Mariana ficou paralisada, imóvel, como se tivesse sido pega petrificada em seu pequeno sujo segredo. Clara observou a fotografa quase derrubar o copo de Whisky em sua mão e rapidamente apoiou seu corpo por cima da deslumbrante mesa com vários aperitivos que as separavam e invadiu seu espaço segurando o copo o impedindo de se espatifar no chão. Um clima estava no ar. Marina não parecia muito alegre de ter visto Clara e ao mesmo tempo deslumbrada com a visita da mulher que prendeu sua atenção a noite inteira em sua exposição no Rio de Janeiro. Clara observou atentamente cada movimento que Marina poderia pensar em fazer. Marina também estava em um vestido preto, só que nela, tudo parecia delicado. Seus lábios possuíam a mesma cor avermelhada de quando Clara a viu pela primeira vez. Era como se fosse sua marca registrada. Sua maquiagem estava um pouco mais pesada e seu cabelo estava solto também, fazendo breves ondulados nas pontas. Seus olhos de urso a devoravam inculcada com sua presença.
– Que sorte a sua. – comentou Marina desviando de imediato seus olhos de Clara. – Vai tomar comigo um Glenfarclas 1955. – disse Marina sensualmente desgostando o whisky.
– Hm... – Clara ficou sem jeito porque não sabia exatamente ao que Marina estava se referindo, quando deduziu ser o Whisky ao ver Marina servindo um copo e entregando a ela.
– Espero que goste. – disse Marina levantando o copo simbolizando um “brinde”.
– Maravilhoso! – falou Clara após experimentar o whisky. – Ele tem um sabor peculiar, uma delicia e olha que eu não sou muito fã de whisky. – dizia Clara animada desmanchando a cara de seriedade de Marina que parecia se perder em qual sentimentos ela escolheria para viver naquele momento com Clara dentro dela.
– Está garrafa vale mais de mil dólares. – Marina parecia estar com um ar de arrependimento por exatamente nada. – É realmente muita sorte.
Clara deu dessa vez, um olhar mais sério para Marina que parecia estar elaborando um plano perfeito em sua cabeça toda vez que dava um gole no maldito whisky que a tinha encantado. Marina observava o comportamento de Clara e se colocava em postura sempre que algo dela a alertava de parar o que ela estivesse fazendo, seja lá o que estiver fazendo. Marina logo puxou um assunto que dessa vez não fosse ela parecendo egocêntrica. Falou de Londres e como sentia falta do frio londrino. Clara estava tentando entender o que estava acontecendo a todo momento que via que os olhos de Marina não eram exatamente os olhos que a viu de surpresa quando se encontraram novamente. “Ela estava a pagando para ser egocêntrica? Mas ela não precisa disso, as pessoas ouviriam ela ser egocêntrica o tempo todo sem se preocupar com o tempo” se perguntou Clara enquanto Marina enchia um pouco mais seu copo com o tão caro whisky.
Mariana olhou para sua gafava que já estava vazia com seus olhos confusos. Marina em segundo algum pediu para Clara tocar sua mão. Era como se aquele dinheiro no envelope vermelho não tivesse mais fazendo sentido algum. Clara não tinha tomado nem dois goles do whisky. Mas via Marina não ser a pessoa que ela idealizou de desmanchar em questão de segundos. Quando Marina interrompeu tudo, com um olhar devorador para Clara, que por um momento se confundia com o tanto de “eus” que Marina possuía e de como eles o enganaria fácil.
– Então vamos fazer o que veio fazer aqui? – disse Marina com a voz meio embriagada.
– Sim...? – Clara estava confusa e lembrou dos conselhos de Juliana: Ela só precisa dar sentimentos emocionais, sentar aqui e fingir que estão se apaixonando por eles. – Marina... – disse Clara encaminhando suas mãos até as de Marina, que as tirou rapidamente do encontro das mãos da Dona de casa. Clara não entendeu e percebeu Mariana se levantando indo em direção da cama, como era um loft, não possua paredes que dividissem a casa, tudo ali ocorria sem segredos.
Marina foi em direção de um dos armários. Correu a porta e dentro dele, buscou arduamente o que queria encontrar. Clara continuava sentada observando as atitudes de Marina. O fato de não saber o que está acontecendo estava sendo sufocante para Clara.
Marina encontrou o que procurava, seus olhos diziam isso. Pegou do armário uma Mini Doll em renda tomara que caia com saia da cor preta bem ajustada em um cabide e no outro cabide um sutiã em tule, renda e strass acompanhado de uma tanga em tule e Cinta-liga com renda estreita e fita trançada na traseira e jogou em cima da cama fazendo Clara observar a cena com estranheza.
– Já que veio aqui pelo Sexo, vamos direto ao assunto! – Marina se encostava em uma das portas do armário quando via Clara se aproximando para crer realmente que aquela cena estava acontecendo. – Não é isso que você quer? Consolar uma pessoa aparentemente acompanhada da solidão de todas as formas possíveis? – Marina suspirou tentando encontrar forças e ao mesmo tempo mantendo a postura que até então, tinha desprivilegiado Clara. – Somente coisas sagradas valem a pena ser tocadas, hoje as pessoas temem suas paixões. Ensinamos o temor desde o berço. – Marina se aproximou de Clara que penetrava seus olhos com fúria, por poucos segundos não os devoravam. – Tememos a Deus ou pior ainda, temer escândalos. Fomos ensinados a nos se acovardar em auto-negação. A verdade, Clara, é que todo impulso que reprimimos nos envenena.
Marina parou de imediato quando acabou o discurso difamatório contra Clara. Seus olhos estavam tristes e mais solitários do que o comum. Ao mesmo tempo que encarava em cima da cama a lingerie, sentia na palma da mão por fora do vestido, seu coração sendo encorajado a ter uma breve carreira pelo mundo.
Clara, que até então não dizia nada, apenas observou a tentativa de Marina de explorar as bravatas que a assombrava naquele momento. Por mais que Clara seja também uma mulher confusa e complicada, deixou Marina se perder em seus próprios sentimentos, observando a sua tentativa de se comunicar. Não queria parecer instável.
– Quando eu a vi na exposição e mais ainda agora, que estou diante de você, sinto-me aterrorizada e mortificada com todo o seu brilho. – Clara se viu surpresa com a declaração de Marina, que até alguns instantes, parecia muito contraditória. Era como se varias Marinas estivessem brigando entre si para uma se sobressair melhor com o sentimento que gostaria de mostrar, e continuou. – Que a solidão está me corroendo é um fato especifico das uma e mil pessoas que vivem em mim. – esclareceu. – E hoje que eu te vi de novo, e não pensei que gostaria de tocar apenas a suas mãos, e sim que queria tocar seu rosto foi um avanço inesperado não desejado e assombroso que se nasceu e se mantém dentro de mim.
Clara se levantou e com a palma da mão e tocou o rosto de Marina. Foi um intenso tapa chegando em sua face, tapa tão intensamente dado, que incentivou o rosto de Marina a ficar avermelhado. – sua pele era esbranquiçada demais para deixar o inconveniente momento apenas para a memória. Clara se afastou de Marina e passou a mão nos cabelos e começou a breve caminhada de um lado para outro do ambiente enquanto dizia com a voz intensificada, uma espécime de sermão.
– Sabe qual é o seu problema? O seu maior problema. – Clara pausou a caminhada e encarou Marina atentamente. – Se não for o seu principal problema? – Marina observava ainda digerindo o tapa que havia recebido. – Você tem tudo o que quiser. Você tem tanta coisa que até paga para ter coisas que você pode ter com facilidade. Deve existir mais de mil pessoas que gostariam de tocar sua mão, teu rosto, você. Mas você quer a sensação de não ter isso, de tanto que você tem. – Clara sorri para cima como se tivesse ouvido uma notícia irônica. – Caramba, você é tão egocêntrica que transforma até a suas múltiplas personalidades em um reflexo pessoal do que você é. – Clara solta um olhar indignado e piedoso para Marina. – A vida não é apenas a sua conta bancária, Marina, e eu francamente gostaria de ter presenciado o personagem que eu conheci naquela exposição, hoje também. Eu não preciso do teu dinheiro. – disse com a voz decidida. – Você perde a graça de se criar um personagem, Marina, quando você mostra antes do final, quem você é.
Marina ficou sentada na cama encarando o chão enquanto o sermão de Clara lhe dava outro tapa no rosto. Clara observou que a doce mulher delicada e seus intensos lábios vermelhos não voltariam a lhe encarar novamente. Sua mão ainda estava pousada sobre o local onde o tapa foi recebido. Clara andou em direção da porta e puxou com força sua bolsa e voltou a olha para trás, enviando para Marina, suas últimas palavras antes de fria despedida.
– Eu nunca fiz isto antes, sabe? De ficar com outras pessoas, de tocar alguém que não fosse meu Marido. Já que chegamos até ele, esse é um dos motivos que eu estou aqui, mas não vou te dar detalhes irrelevantes. – Clara se encostou na porta da saída ainda observando Marina. –Eu sei que tem gente que faz isso por sexo, minha tia, a que me incentivou a fazer isso, me disse. Mas este outro lado, o lado do emocional, me comoveu bastante. E eu vim aqui, para te ajudar a ver a vida de forma mais bela, mesmo que de mentirinha. Por um segundo achei que poderíamos ser, sei lá, verdade.
Marina observou o reflexo da porta se bater, iniciando a saída de Clara. Seus olhos, um pouco lacrimejados, se arregalaram de forma discreta ao ouvir as últimas palavras da dona de casa. Se levantou rapidamente da cama, a qual estava sentada e procurou desesperadamente o celular pelo Loft. Sua cabeça estava pesada mais seus olhos enxergaram o celular dourado em um dos criados mudos perto da saída, onde reparou que o envelope vermelho do lado esquerdo da porta continuava intacto. Discou o número de Vanessa e ouvia as chamadas de forma apreensiva.
– Diz para mim que estava brincando. – soltou Marina ao ouvir o “alô” da ruíva do outro lado da linha.
– Olá, boa noite para você também. – ironizou Vanessa. – Brincando sobre o que Marina?
– Sobre isso de que chamaria uma P.E.C em qualquer um dos meus encontros de P.E. – dizia Marina aflita.
– Marina, eu estava brincando. – riu Vanessa do outro lado da linha não sabendo a proporção que situação tomara. – Eu sei que falei que chamaria uma P.E.C para você hoje, mas era brincadeira Marina, eu jamais iria te proporcionar o sexo de outra pessoa assim tão facilmente né. – O outro lado telefone de Marina estava mudo.
Marina desligou o celular sem avisar Vanessa e se encostou na porta em que Clara havia saído e se viu descendo encostada na mesma até alcançar o chão, abraçando os próprios joelhos. Estava inconformada com tanta injustiça cometida no nome de Clara, que ela mesma havia difamado. Seus olhos estavam arrependidos. As mãos percorriam os próprios cabelos, quando observou de longe um flyer jogado no chão, pediu por pensamento que fosse algo importante para que fizesse Clara voltar. Se debruçou um pouco e com um mínimo esforço alcançou o flyer caído. “Leilão Beneficente para Cadu”. Esperou mais um tempo. Tempo suficiente para saber
que...
Clara não voltou.
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