Foi Só Um Sonho.
8 Festa Beneficente
Notas iniciais
Ivan chegava na cozinha já pronto para ir no colégio quando ouve um som vindo da porta. Clara, que preparava seu lanche, franziu a testa e estranhou. Quem seria? Esse horário a maioria de pessoas que conhecia estariam ocupadas ou trabalhando. Ivan foi correndo até porta abrindo-a antes que Clara pudesse dizer algo. Achou por um momento que fosse Rosa, governanta da família desde que Clara morava em Goiânia. Porém, Rosa trabalhava na casa de Helena, mas acabava fazendo um bico ou outro na casa de todo mundo da família. Olhou no relógio e percebeu que ainda não era o horário combinado para Rosa chegar e levar Ivan para o colégio. Ao sair da bancada da cozinha, Clara foi até a porta junto a o filho e percebeu que o mesmo segurava um vestido preto aparentemente elegante e o principal: caro. Ivan sorriu e entregou o vestido a mãe e voltou para sala onde se distraia com um programa infantil matinal que passava toda manhã na televisão. Clara estranhou a encomenda e questionou o entregador.
– Moço, tem certeza que é aqui? – perguntou Clara para o porteiro.
– Clara Fernandes, certo? – disse o porteiro já sabendo da resposta óbvia.
– Mas gente... – Clara recolheu o vestido contra seu corpo e procurou algumas respostas que provavelmente existiriam no embrulho que o vestido se encontrava. – Bem, obrigada.
O porteiro se retirou enquanto Clara fechava a porta e observava o vestido em sua mão. Vasculhou-o um pouco mais quando finalmente encontrou dentro dele, um bilhete. Puxou-o e abriu calmamente devotando toda sua atenção totalmente a ele. “Vista isto as 13:00” estava escrito no bilhete assinado por Marina.
Clara observou novamente o vestido e cancelou sua concentração quando a campainha tocou novamente. Com um certo receio, Clara voltou a abrir a porta e para seu alivio desta vez, era Rosa. Rosa a abraçou com aquele sorriso extenso que ela mantinha desde que Clara havia a visto pela primeira vez, ainda quando muito jovem. Rosa entrou no apartamento e Clara no mesmo instante chamou por Ivan, que logo apareceu e recebeu a governanta maravilhosamente bem. Rosa recolheu os pertences necessários para garoto ir ao colégio e logo se retirou antes que atrasassem. Clara observou da porta a saída dos dois. Deu um segundo beijo no filho e o deixou partir rumo aos estudos.
Lá estava o vestido. Estendido no sofá encarando Clara como se fossem grandes atraídos ou grandes inimigos. Clara não entendia muito bem o que se passava com Marina e nem que tipo de relação elas estavam entrelaçando. Olhou para o ponteiro do relógio que marcava 12:30. Foi ao banheiro do meio, sem entrar na suíte para que não acordasse Cadu, que ainda estava dedicado ao grande repouso absoluto. Tomou seu banho rápido, entrou no quarto, pegou suas roupas intimas, as vestiu, foi ao banheiro na ponta dos pés, fechou a porta delicadamente, se olhou no espelho, se maquiou, voltou ao quarto nas pontas dos pés, abriu o armário, passou leves espirradas do seu perfume favorito, recolheu um salto preto com detalhes dourados que adorava, pegou seus acessórios favoritos, os colocou, saiu do quarto nas pontas dos pés ainda de roupas intimas, foi até a sala, vestiu o vestido, sentou no sofá e esperou. Clara fazia tudo como se fosse um robô que controlava os próximos pensamentos. Se não fizesse isso, Marina invadiria todas as partes da mente de Clara sem pensar duas vezes em ficar. Era um costume que Clara estava tentando assassinar faz um tempo.
O relógio marcava 13:00 em ponto. Não marcava nem 12:59 ou 13:01 e sim, 13:00 em ponto, quando o interfone do apartamento toca. Clara se levantou e foi até o barulho, silenciando-o ao atender. O porteiro informava que um táxi a esperava. Clara disse que estava indo e desligou o interfone pensativa. Foi até o quarto onde Cadu dormia pesadamente, observou, fechou a porta e foi até saída do apartamento.
Já no térreo, passou pelo porteiro, que não disfarçou seus olhares enquanto entrava no táxi. Clara cumprimentou o taxista que logo deu partida ao indefinido. Clara não fazia a mínima noção da onde estava indo. Mas sua curiosidade a causava chamas fortemente difíceis de serem controladas. Esse é o poder inconsciente que Marina causava em si, mas Clara sabia que não era especial por isso. Marina era basicamente inflamável e aparentemente podia alcançar qualquer um.
O taxista parou na frente de um restaurante elegante. E declarou sua chegada. Clara perguntou quanto foi a corrida e logo foi cortada pelo motorista dizendo que já havia sido paga. Um hostess logo veio até a porta do táxi e abriu ajudando Clara a descer. Guiou-a até a entrada do restaurante e perguntou se havia alguma reserva em teu nome. Clara disse que não e que estava ali por uma amiga. O hotess, que era belo, loiro e com olhos azuis cativantes, perguntou o nome da amiga. Clara então, disse o nome que corria os cantos da sua mente dia e noite. Marina Meirelles, declarou a dona de casa que logo foi guiada até a mesa onde a fotografa se encontrava.
Olhou a de longe, estava de costas. Sua presença parecia chamar mais atenção do que qualquer rosto que Clara podia enxergar no caminho até a mesa. Antes que Marina percebesse sua chegada Clara percebeu que alguns olhares pousavam sobre a Marina. Ela era o tipo de pessoa que ofuscava os lugares mais sombrios que qualquer pessoa pudesse tentar enxergar com as pupilas já dilatadas. Marina desperta a curiosidade alheia pelo tamanho mistério que se encontra em seus olhares analíticos, como o olho, que tudo vê. É, ela era um talento nato, um talento nato para loucura. Mas parecia se dedicar as coisas, nem que fossem tarefas simples. Clara chegou até a mesa, com suas borboletas não entendíveis no estômago e sentou se deparando com um delicado sorriso misterioso de Marina, que antes que soltasse um som, serviu a Clara, uma xicara de chá. Clara gostava do prazer de comer com outra pessoa que não fosse Cadu, fazia um tempo que não tinha um amiga, assim, tão próxima. Ela fazia com que ela se sentisse mais próxima da pessoa que fora pouco tempo antes, era um porção de pessoas em uma só. Apesar de tudo, Clara se sentia mais próxima, que fosse apenas de uma colher de chá, daquilo que seu coração desejava. Marina estava com um vestido marrom soltinho e um salto simples e seus lábios vermelhos. Impecável, como sempre.
– Olá. – Clara quebrou o gelo entre as duas.
– Que bom que veio. – comentou Marina soltando um sorriso receptivo enquanto chamava o garçom.
– É, um pedido bem inusitado, confesso. – disse Clara ainda se acostumando com a situação quando o garçom chega a mesa.
– Eu quero a vileta e a moça uma salada niçoise. – disse Marina para o garçom entregando a ele o cardápio, o que logo fez Clara franzir o cenho depois do garçom se retirar.
– Eu posso pedir minha própria comida. – disse Clara meio constrangida. – Eu digo algumas palavra, a comida vem, é como mágica.
– Eu pensei que gostasse de salada niçoise. – disse Marina tomando um gole do chá.
– Eu gosto. – disse Clara respirando olhando Marina e analisando seu jeito confiante. – Talvez seja o jeito que nos conhecemos. – comentou Clara sem jeito. – O vestido, o táxi, provavelmente este almoço... – Clara respirou. – Parece que ainda está me pagando.
– Eu não vejo problema em te dar um presente, principalmente se ele fica maravilhoso em você. – Marina observa Clara sorridente. – Não vejo mal em mimar você. – Marina fitou o fundo dos olhos de Clara. – Tenho ingressos para uma peça as 19:00 hoje. Vou mandar lhe buscar.
– Você não está entendendo. – Clara passa a mãos pelos cabelos e observa mais uma vez a calma de Marina e seu batom vermelho. – Você me solicita e parece que eu não posso negar.
– Deve ser porque eu estou usando o poder da mente. – falou Marina, descontraindo os apurados medos de Clara, que tomava vez ou outra o chá em sua frente suspirando ao ouvir uma resposta – Clara, ninguém está forçando você a ficar comigo. – completa Marina quando o garçom chega com os pratos depositando-os em suas posições para que fossem devorados.
– Tudo bem... – Clara tomou coragem e iniciou. – Eu tenho que preparar os preparativos da festa a fantasia beneficente, então não, eu não posso ir ao teatro com você.
– Viu, você acabou de dizer não. – Marina disse levantando as sobrancelhas aparentemente conformada. – Não foi tão difícil, foi?
Por mais que Clara custasse a aceitar que escolha de Marina havia sido genuína, a salada estava maravilhosa e surpreendente boa. Cadu, apesar de chefe de cozinha, não faria uma salada tão gostosa quanto aquela que Clara aprofundava em sua boca. Marina puxava assuntos diversos envolvendo Clara em um dialogo confortável e natural. Comentavam sobre o transito, a Copa e outros derivados. Marina se mostrou surpresa e curiosa ao descobrir que Clara possuía Ivan. Não pareceu se incomodar com a existência do garoto, pelo contrario, agradou muito aparentemente. Depois do satisfatório almoço, Marina anunciou que precisava ir embora. Chamou o garçom e pediu para trazer a maquina de cartão de crédito até a mesa. Clara se ofereceu para ajudar a pagar a conta, mas a resposta apesar de óbvia, parecia que ainda precisava ser ouvida. Marina negou a ajuda na conta e fazia questão de pagar todo o almoço, já que afinal, foi ela que convidou a dona de casa para este encontro, um tanto inesperado, como a mesma já havia dito.
As duas se deslocaram para fora do restaurante enquanto esperavam um táxi. Quando o primeiro táxi chegou, Marina se colocou em frente a Clara e abriu a porta de trás para que Clara entrasse e pelo vidro aberto do passageiro deu ao motorista dinheiro suficiente para Clara dar uma volta de táxi por Rio de Janeiro inteiro.
– Não precisa. – disse Clara ao ver que Marina não ouvira direito Clara no sentido de não querer mais seu dinheiro de formas mais discretas possíveis.
– Clara, por favor. – pediu Marina. – Eu tirei você, do conforto da tua casa, fiz você atravessar os congestionamentos mais chatos do Rio de Janeiro, o mínimo que posso fazer é poupar o teu dinheiro. Não acredite que o fato de eu querer que você chegue bem casa pode ser uma ofensa. – Marina respirou. – Porque será uma para mim, se não aceitar.
– Tudo bem... – disse Clara com tom de desistência. – Na próxima vez, eu pago um jantar. – Clara sorriu timidamente. – Não prometo ser em um lugar tão chic quanto esse, mas será tão bom quanto.
– O que vale é a companhia. – Marina sorriu fechando a porta do taxista observando Clara apenas pelo vidro.
O taxista deu partida novamente, a distância entre Marina e o restaurante e o táxi e Clara passaram a ser mais distantes de acordo que a quilometragem aumentava no ponteiro do carro. A visão de Clara foi ver as pessoas e suas vidas cotidianas. Passou a refletir sobre a própria vida que em anos, não estava tão interessante ao ponto de arrancar de si mesma, inúmeros transes que sua mente entrava. Suspiros foram dados com muita intensidade toda vez que o pensamento ecoava o nome de Marina. Pegava-se policiando com a situação. Se incomodava em pensar tão carinhosamente bem de alguém daquela forma, que não fosse seu Marido. Ao longo de sua vida dócil, Clara, impressiona o quão cuidadosa e terna é com o Cadu, como nunca se esquece dele, como dá atenção a suas pequenas vitórias, pequenas conquistas pessoais, seus despertares, a cada coisa que ele pensa e sente. Clara vive com a sensação de que está sempre amando e apreciando Cadu, por isso as vezes se sente um pouco menos culpada em pensar tanto em Marina. Ela ocupa sua mente, enquanto Cadu está sólido em teu coração. Mas a curiosidade, ah, ela transborda.
O dia já havia se acabado e todos na casa de Clara estavam empolgados com a festa beneficente de Cadu. Ivan estava vestido como uma pirata. Vestia um calça solta preta, uma bota um tanto longa, uma faixa vermelha amarrada na cintura, uma blusa branca folgada, um tapa olho e um chapéu. Cadu olhava a cena do filho contente, enquanto Clara observava os dois falando sobre jogos de vídeo games que Clara tão pouco entendia. Foi até o meio da sala e se apresentou para os dois, que olhavam para ela de forma encantada. Tanto Ivan quanto Cadu, pareciam estar orgulhosos de conhecer e conviver com alguém tão imensamente encantadora todos os dias.
Clara parecia uma princesa, usava um coque no cabelo que era acompanhado de um vestido azul bebê o que dava a entender perfeitamente o quão princesa ela aparentava ser. Os detalhes brilhosos na fantasia, dava a ela um charme dificilmente não notável. Seu salto era transparente. Cadu sorria feito um bobo aliviado. Ela não precisava ser achada. Seu príncipe, era ele. Clara buscou a câmera fotográfica e tirou uma “selfie” com a família. Pela porta, entrou Rosa novamente para que ficasse com Cadu, que não podia ir em sua própria festa.
– Que bom que Rosa já chegou. – comentou Clara ao lado do Marido.
– Acho que é a única festa que o convidado principal não vai. – comenta Cadu com um tom de voz tristonho.
– Ei. – Clara segura o queixo de Cadu e o levanta para que olhem seus olhos. Que mais do que nunca, demonstravam a maior sinceridade que Clara conseguia arrancar de si. – Eu vou te deixar informado de cada detalhe da festa que você vai se sentir como se estivesse lá. Então, não fique triste, por favor!
– Eu sei mor, desculpa. – lamentou Cadu. – É que eu queria estar com a minha família.
– Nós sempre estaremos aqui. – Clara toca a palma da mão no lado esquerdo do peito de Cadu. – Não se esqueça disso.
Deu um beijo sincero no Marido, não muito demorado, porque precisava partir para festa. Agradeceu Rosa e partiu com Ivan para Casa de Leilões. Ela espero o elevador ainda afundada de pensamentos. Parecia algo que a consumia. Chegou com Ivan a casa de leilões e se dirigiu até onde os familiares estavam. Ivan logo se adentrou na festa a caça de outras crianças para que pudesse passar a festa brincando. Nem uma criança gosta de passar uma noite solitário ao lado dos adultos, só quem foi criança sabe disso.
Clara andava de um lado para outro na Casa de Leilão, a festa estava cheia e as pessoas pareciam estar em uma noite de gala. As mulheres vestiam roupas de princesa e os homens pareciam elegantes príncipes que desfilavam pelo centro do lugar segurando os seus respectivos Martines. Estavam todos fantasiados. Todos sorriam formalmente. Tudo pela elegância de estar ajudando um cara que está precisando de um coração novo. Assinavam seus cheques e depositavam na tesouraria que Helena havia feito as pressas em uma estrutura montável e protegida na entrada da Casa. Por mais que Cadu não estivesse presente, para contemplar a grande festa em sua homenagem, Clara o mantinha informado tirando fotos das pessoas e da decoração da festa e mandava por celular para que ele visse como as pessoas se importavam com ele. – mesmo a maioria ter vindo por causa do vinho e de peças raras que seriam leiloadas por preços interessantes.
Helena deixou Virgílio na tesouraria e foi ao encontro de Clara, que se divertia olhando as mais diversas fantasias que existiam no local. Helena observou a irmã empolgada com o evento e sorriu ao perceber que ela olhava o grande painel de led no no centro da festa em que as pessoas poderiam mandar mensagens de força para o Cadu. Incrível ideia retirada dos poderes da internet. Clara sorriu ao perceber a presença da irmã e a cumprimentou com alegria. Helena estava vestida com um vestido preto brilhante como de uma princesa má da Disney.
– Mamãe trouxe o namorado dela. – disse Helena. – Finalmente ele se separou da mulher dela, ela está tão feliz.
– Aí, eu imagino demais. – diz Clara. – Ela merecia está felicidade.
– Uma pena Cadu não estar aqui. – disse Helena para Clara, que parecia estar avoada.
– Nem me lembre irmã. – lamentou tristonha Clara. – Ele gostaria muito de estar aqui, acompanhando tudo que estão fazendo por ele.
– Você anda meio avoada, meio pensativa demais. – comentou Helena. – Aconteceu alguma coisa?
– Todo dia acontece alguma coisa não é irmã? – disse Clara olhando para taça de vinho agora em sua mão, que pegou quando um garçom passava ali perto. – Eu tenho que lidar com isso e mais vários pensamentos em minha cabeça. – olhou para céu do lugar esperando encontrar alguma estrela sobre o teto. – O pior de ter alguém que você ama morrendo é que você chega a pensar como seria sua vida sem essa pessoa. E isso, mata.
– Eu não faço ideia de como seja perder alguém que você ama por uma doença tão cruel quanto essa, mas... – Helena começa um dialogo com Clara quando percebe que a mesma se vê sorrindo encantada e boba para a direção contraria de Helena, que vira para observar, também a vista que Clara se via presa. O telão de LED, que até então, recebia várias mensagens de apoio de Cadu, recebia dessa vez, uma mensagem destinada a Clara escrito “Desculpe-me por trata-la como uma princesa, Clara”. – Parece que chamou atenção de alguém. – disse Helena sorrindo.
Lá estava ela, com o celular na mão, alguns metros de distância atrás de Clara, chamando atenção por onde passava. Se aproximava em passos lentos, quase inexistentes, mas que por algum motivo, chegava cada vez mais perto de onde Clara estava. Usava um fantasia peculiar, não acreditava no que via. Helena se retirou para sua caçada a uma bebida, enquanto Clara ainda recebia o impacto da chegada de Marina.
Marina estava vestida com uma fantasia de Barril. Estava descalça, sem nada. O cabelo continuava lindo e até sua boca havia perdido o tom avermelhado que sempre a acompanhava. Clara franziu o cenho e sorriu sem entender, mas por algum motivo sua presença havia calado a solidão que sentia na festa.
– Marina, o que você está fazendo aqui? – disse Clara observando ainda a fantasia da fotógrafa. – Vestida como se fosse pular nas Cataratas do Niágara? – soltava Clara uma risada tímida.
– Venho até você, como uma mulher que não tem nada. – diz Marina abrindo os braços para que Clara pudesse ver. – Se o problema para você é o dinheiro, nunca vou deixar que isso nos atrapalhe de novo. – Marina dá um sorriso quase irresistível que faz Clara olhar como uma boba e se distrai dele voltando a se policiar, quando a questão é consciência.
– Bem, – Clara ainda continuava sorrindo. – Isso é amável mas não sei se é possível.
– Clara, eu não posso mudar quem eu sou. – Marina morde os lábios tentando convencer a mulher em sua frente. – Eu sou uma moça rica, eu compro as coisas, ás vezes eu esqueço que eu não posso comprar as pessoas. – Marina se aproximou de Clara e olhou no fundo de seus olhos. – Sei que nos conhecemos melhor de uma forma que a deixa desconfortável, mas eu gosto muito de você e quero ser sua amiga. Talvez possamos tentar de novo.
– Sem que eu fique a sua disposição? – Clara sorriu ao olhar o sorriso sem jeito de Marina. – Só duas pessoas vivendo suas vidas?
– Fechado, desde que não envolva dinheiro. – disse Marina cruzando os braços e olhando a festa.
– Então combinado. – disse Clara sorridente indo em direção de Marina e abraçando-a. Marina abriu seus olhos de maneira surpresa. Clara encostou sua cabeça em seus ombro e envolveu seus braços pelo pescoço da fotógrafa, que inconscientemente, envolveu seus braços na cintura de Clara, e suspirou em seus ouvidos, fazendo Clara lembrar que Marina não é grande fã de contato físico. – Desculpa... – disse Clara sem jeito.
– Tudo bem... – Marina parecia estar respirando um pouco mais ofegante que o normal, o abraço foi realmente uma surpresa para ela. – É que eu não... –parecia difícil para Marina conseguir se concentrar. – Eu não sou acostumada com grandes contatos físicos assim, tão envolventes.
Antes que Clara e Marina pudessem seguir o dialogo, agora renovado, Chica, mãe de Clara, se aproxima das meninas com o novo namorado, Ricardo, um piloto de avião, charmoso e elegante, a qual Chica fazia questão de desfilar pela Casa de Leilões de mão dada.
– Clara minha filha. – disse Chica interrompendo o momento das duas. – Já te apresentei o Ricardo?
– Marina? – disse Ricardo.
– Tio! – esbanjou Marina abraçando o tio que não via a muito tempo. Clara estranhou a coincidência e também se questionou, porque abraçava outras pessoas com essa facilidade e para Marina abraça-la era sempre mais custoso.
– Vocês se conhecem? – questionou Clara surpresa.
– Ele é meu tio. – disse Marina sorridente, parecia gostar bastante do tio.
– Ela é minha sobrinha querida. – disse Ricardo, dessa vez para Chica.
– Bem, mãe, não cheguei a te apresentar ainda, está é Marina. – disse Clara apresentando Marina a mãe.
– Olá. – Chica e Marina trocaram beijos em forma de cumprimento. – Que fantasia peculiar, você não é a fotografa é?
– Sou sim. – disse Marina soltando um sorriso tímido e passando a mão pelo cabelo. – Essa fantasia serve para me lembrar que a simplicidade é algo nobre.
– Marina sempre poética. – Ricardo dá um largo sorriso ao se referir a sobrinha.
A noite se prosseguiu assim, todos se conhecendo e conhecendo novos acontecimentos. O leilão foi feito arrecadando para Cadu uma quantia favorável aparentemente, para conseguir a quantia que precisava para o transplante quando conseguisse o órgão desejado. Todos estavam contente com o resultado. Marina passou a maior parte da festa com o tio, mas de ora ou outra reparava os olhares desviados de Clara até ela, o que a fazia soltar alguns sorrisos distantes. A festa já estava acabando e Clara estava encostada na saída da Casa de Leilões se despedindo dos convidados. Marina estava indo embora com Ricardo, quando foi em direção de Clara para se despedir.
– Nos vemos em breve. – disparou Clara.
– Mas breve do que você imagina. – sorriu Marina.
– Como você sabe? – questionou Clara.
– Porque eu sei que vou estar na tua cabecinha quando for dormir, Clarinha.
Foi a primeira vez que Marina referiu o nome de Clara no diminutivo.
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