Foi Só Um Sonho.
15 90 Dias.
Notas iniciais
Três meses. Faziam exatos três meses contados no calendário de Clara. Não via Marina há 90 dias e 2160 horas, mas em todos esses dias, horas e segundos, Marina era seu primeiro pensamento de manhã. Marina e o beijo que selava aquele afeto interno, cheio de dúvidas loucas que extravasavam para todos os cantos de seu corpo.
As coisas no Bistrot estavam uma loucura. A estreia tinha sido um sucesso, a comida possuía um toque peculiar das receitas de Cadu, tudo estava exatamente como ele planejou. Menos para Clara. Ela passava mais tempo no Bistrot do que em casa. Via o Ivan apenas a noite e evitava o Marido. Não sabia exatamente porque, mesmo que no fundo soubesse mais do que ninguém.
O beijo que torturou suas estruturas era tão presente que quase a impedia de fazer qualquer outra coisa. Enquanto atendia uma das mesas, sua mente se distraia entre o pedido, a entrega do cardápio e os lábios de Marina. Com o Cadu ainda doente, sua vinda ali não era tão frequente, ainda mais porque Dra. Silvia havia pedido para que ele continuasse a descansar e que fosse no Bistrot apenas duas vezes por semana para ver como estava os negócios.
Em sua cabeça, as horas eram intermináveis mais ao mesmo tempo muito aliciante. Sabia que evitaria os problemas enquanto permanecesse fora de casa, mas os problemas, não se alterariam sozinhos enquanto continuasse a fugir deles. Enquanto arrumava algumas mesas viu seu celular vibrar no bolso. Se afastou dos funcionários que atendiam dedicadamente cada mesa ali e observou na tela do celular uma mensagem de Gisele.
“Clara, me ligue, preciso falar com você. – Gisele”
Antes de fazer qualquer coisa, Clara procurou o número de Gisele em seus contatos e ligou de imediato. Temeu por segundos, que poderia ter ocorrido alguma coisa com Marina.
O som da chamada do outro lado da linha parecia eterno até que recebeu uma resposta com a voz doce de Gisele.
– Alô? – disse Gisele.
– Oi Gisele, é Clara, recebi sua mensagem, aconteceu alguma coisa? – disse Clara apreensiva.
– Não, não aconteceu nada demais. – comentou Gisele aliviando os sentimentos de tortura de Clara. – Só que precisamos entregar tua Carteira de Trabalho, ela está aqui faz um tempo já.
– Verdade. – disse Clara rindo de forma sem graça. Havia esquecido completamente de encerrar os fins burocráticos com o estúdio de Marina. – Posso ir busca-la quando?
– Bem, hoje estamos tranquilas, a Marina terminou a pouco um ensaio para uma revista e temos um tempinho para descansar, está ocupada? – Gisele tocará seu nome. Clara suspirou ao lembrar da pessoa que o possuía.
– Não. – mentiu.
– Então poderia vir aqui, posso te esperar hoje? – afirmou Gisele.
– Estou saindo daqui dez minutos. – Clara tentava esconder a vontade de estar lá na voz, mas não foi muito eficiente.
– Certo. – Gisele dizia em um tom de risada. – Ficarei te esperando, então, até daqui a pouco.
– Até logo. – disse Clara encerrando a ligação e guardando o celular no bolso da calça novamente.
Clara olhou para a movimentação do Bistrot e suspirou dando graças a Deus que era começo da semana e que Ritinha provavelmente conseguiria dar conta do movimento junto com os outros funcionários enquanto estivesse fora. Foi até a moça e afirmou que iria sair para resolver alguns problemas mas que logo voltaria. Não sabia se voltaria logo, de fato, mas sabia a necessidade de ir. Buscou por sua bolsa e se retirou do Bistrot.
O Caminho até Santa Tereza como de costume estava um caos, ainda era o meio da tarde, mas no Rio de Janeiro não possuía horário exato para ser um inferno no transito. Cruzou a cidade pensativa. Não ousou perguntar se Marina estava ou não no estúdio para Gisele. No fundo, seu desejo maior daquele dia era que ela estivesse sentada na beira da piscina como uma boa sereia que é, enquanto tentava fugir do trabalho que Vanessa sempre se encarregava de trazer. Enquanto pensava nos detalhes de Marina, seu rosto mantinha curvas lindas na boca. Curvas em que vários estudiosos chamariam de: Sorriso.
Estacionou na frente do estúdio com o carro e desligou o motor. Conferiu no mínimo três vezes se seu cabelo, se sua pele se ela em geral estava apresentável. Um nervosismo que a consumia em que ela sabia o resultado. Desceu do carro e travou as portas com o alarme. Foi até a porta e anunciou que havia chegado. Não demorou muito até que Gisele a recebesse. Envolveu Clara em um abraço sincero onde apresentavam vários vestígios de saudade.
– Nossa, que saudade de você. – disse Gisele.
– Eu também estou. – disse Clara ainda em seus braços quando finalmente se desgrudaram.
– Vamos, entre. – Gisele deu passagem para que Clara adentrasse para o interior do Estúdio.
Caminharam discutindo coisas banais como o desenvolvimento do Bistrot, a saúde do Cadu e o aprendizado do Ivan no colégio. Derivados assuntos até entrarmos no estúdio. Clara ao atravessar a porta de entrada, sentiu seu coração bater em um ritmo descompassado, parecia que aquele lugar mantinha alguma coisa dela que só era possível sentir quando ela voltava a pisar lá. Sorriu para Flávia que veio dar um grande abraço em Clara. Antes de fazer isso, era possível ver sua aproximação com Vanessa, que por sinal, cumprimentou Clara da maneira mais seca que poderia encontrar.
Gisele não demorou muito e buscou em uma das gavetas ali perto a carteira de trabalho de Clara. Retirou ela e a entregou.
– Aqui está. – disse Gisele soltando um largo sorriso. – Estava bem protegida.
– Ah... – Clara riu. – Que bom que cuidaram dela por mim, eu havia me esquecido completamente.
– Imaginamos. – riu. – Bem, de qualquer coisa, a Marina enrolaria para te entregar.
– Porque? – ressentiu Clara assinando os papéis de demissão.
– Toda vez que pensei em te ligar para pedir para você assinar sua demissão ela me dizia para fazer isso depois de três meses caso você não há buscasse. – começou Gisele. – Mas depois de um tempo, descobri que era para você receber seguro desemprego.
– Não acredito. – Clara botou as mãos na cintura e escorou em uma das paredes ali perto, parecia não acreditar no que acabará de escutar. – Ela não pode ter feito isso.
– Pois fez. – Gisele sorriu sem graça. Clara não sabia se ela imaginava ou sabia das cosias que se passavam entre ela e Marina, mas nunca forçava a barra para saber. – Antes que vá embora de novo, assine para mim. – Mostrou a folha da carteira de trabalho em que Clara deveria assinar e assim ela o fez.
– Bem, agora acabou mesmo. – era possível ver um certo tom de tristeza na voz de Gisele.
– Eu me segurei muito para fazer isso, mas eu não consigo. – iniciou Clara. – Mas não posso deixar de perguntar, onde está a Marina?
– No escritório da piscina. – disse Gisele surpresa com a pergunta.
– Posso vê-la? – Clara ressentiu em perguntar, mas as palavras simplesmente saíram. – Para... Agradece-la.
– Claro, fiquei a vontade Clara. – Gisele sorria.
Clara passou pela cozinha e caminhou devagar até o escritório da piscina. Suspirou e interpretou sozinha diversas vezes nesse período como arranjaria a maneira certa de dizer a Marina obrigada pelo o que fez, com a história de esperar três meses para que ela recebesse seguro desemprego. Tomou coragem e deu singelos dois toques na porta de Marina, que não dava sinal de vida. Tentou então, mais uma vez. Deu mais dois toques na porta, quando aí, finalmente, ouviu respostas em forma de barulhos se aproximarem.
Marina abriu a porta com um livro na mão e o óculos no rosto. Estava lendo algo, que pelo visto, não movia sua atenção. Demorou alguns segundos para que ela percebesse que quem estava na porta era Clara. Quando se deu conta, seus olhos ficaram fixos, sua atenção, dada antes exclusivamente para o livro, já não eram mais evidentes. Agora tudo que Marina conseguia olhar era para Clara, também imóvel em sua frente.
– Clara... – disse sem jeito.
– Eu vim te agradecer pelo o que... – Clara iniciou um dialogo mais se perdeu enquanto Marina tirava um mexa do cabelo que tampava um pouco do seu rosto. – Posso entrar?
– Pod.. pode. – disse Marina aparentemente nervosa.
Marina deu passagem para que Clara entrasse e fechou a porta. Clara não sabia muito bem o que estava fazendo ali ou talvez sabia, mas não possuía coragem suficiente para dizer o seu objetivo em voz alta, até mesmo para ela mesma. Marina se afastou e se encostou na parede ali perto enquanto Clara fazia o mesmo, só que se encostava na porta. Mirou Marina por um tempo e finalmente se pronunciou.
– Eu não consigo olhar para o Cadu da mesma forma. – disse Clara mirando o chão. – Eu passei 90 dias pintando seu retrato na parede do meu subconsciente. Você me parecia tão viva em cada lembrança que eu me pegava torturando há mim, imaginando você em todos os detalhes, Marina. – seus olhos agora estavam lacrimejados. – Eu queria tanto aceitar isso, vir aqui e te abraçar e dizer que tudo irá ficar bem, mas eu não posso, eu não tenho capacidade de jogar tudo para o alto como se não existissem pessoas que se prejudicariam muito com a existência do nosso... – Clara ressentiu.
– Amor. – Marina a interrompeu. – Eu consigo dizer se você não consegue. – seu olhar era sereno. – Clara, você para mim é um privilégio. Se você está aqui, parada alguns metros de distância de mim, é porque você sabe que não é ignorando o que você sente que irá fazer tudo o que você nutriu desaparecer. – Marina se segurava, ou segurava algo dentro dela, como se não pudesse deixar escapar. – Sua partida me doeu tanto quanto um coração quebrado. Na verdade, qualquer ida tua me dói. Não me desse a garganta tanto sentimento bonito louco para sair. Mas... – Marina suspirou. – Você consegue me enxergar?
– Marina, o problema é esse. – Clara levantará o rosto agora dedicada, como se o que fosse dizer, fosse definitivo. – Há única coisa que eu estou conseguindo enxergar é você. Eu não estou conseguindo manter o foco em nada que não seja seus olhos que me devoram, seja perto, seja longe.
Marina se aproximou de Clara que ainda deixava algumas lágrimas escorrer. Passou sua mão delicadamente em uma das gotas que percorriam o desenho de seu rosto. Clara analisava com cuidado os detalhes do rosto de Marina. Não conseguiam quebrar o contato visual. Algo sempre as moviam para perto. Talvez, fosse a vontade.
– Engraçado... – disse Marina. – Amanheci maluca, quase arranhando as paredes, arrancando os cabelos, tudo em uma proporção desalinhada – Marina parecia querer chorar, mas aclamava uma guerra consigo mesma para que isso não acontecesse. – Quis fugir e percebi que não tem lugar, se não tem você. No caminho da padaria, pensei que te quero infinitamente feliz. – sorriu e riu como se fosse de si mesma. – Pedi aos deuses que seja comigo.
– Por Favor, não me diz isso. – Clara deixava as lágrimas caírem. – Eu não posso ter mais motivos para iniciar isso.
– Do que você tem medo, Clara? – Marina passou a mão em seu rosto o aproximando cada vez mais. – O que teme?
– Eu temo te amar. – disse Clara olhando fixamente a boca de Marina que apesar de todo o sofrimento aparente da situação, soltou um largo sorriso.
– Eu gostaria de ser exorcizada pela água benta desse olhar infinito. – seu rosto foi se aproximando ainda mais no de Clara. – Que bom é ser fotografada pela retina dos seus olhos lindos. Clara, você não deve temer o que sente. O medo é o coração do amor.
Clara selou os lábios de Marina com tanta rapidez que demonstrou em segundos a urgência do que sentia. A fotografa demorou alguns segundos para perceber que Clara havia domado seu medo e apostado em sua coragem. Sua língua pedia autorização para compartilhar uma visita em todos os cantos. Deliciavam-se do compartilhamento de saliva como se quisessem se embriagar delas mesmas. Marina tinha receio em trazer o corpo de Clara por perto, pois sabia que estava lidando com um borboleta que poderia voar dali a qualquer momento. Clara, por outro lado, sentia em suas mãos os fios escuros de Marina passando pelo vão de seus dedos com um imensurável intensidade. Quando Clara se deu conta do que estava fazendo, parou o beijo bruscamente e se afastou de Marina rapidamente. Só que dessa vez não partiu, não saiu correndo como o de costume. Marina olhava para ela ainda tentando recuperar o fôlego que havia dado a Clara.
– Você precisa parar com essa mania de querer fugir de mim. – disse Marina ainda ofegante.
– Isso é errado Marina, eu não posso fazer isso, eu tenho Marido e filho... – disse Clara passando a mão no cabelo e olhando a vista pela janela do escritório.
– Eu não estou dizendo que é certo Clara... – disse Marina se aproximando novamente. – Estamos em uma relação delicada, eu sei das coisas que você está passando com o Cadu e o emocional do Ivan vendo o pai precisar de um coração, eu entendo tudo isso. – Marina suspirou. – Mas pelo o que eu consigo... – Deu uma pequena pausa e continuou. – relembrar... Você gosta de mim e isso é evidente toda vez que você me beija Clara, então não adianta mais fugir do que já está enfincado aqui. – Marina pousa a palma na mão no peito de Clara indicando o coração. – Daqui, ninguém me tira.
– Talvez seja um crescimento anormal de células. – disse Clara procurando uma justificativa. – Como uma falta de controle que vai dominando todo o corpo. uma doença, um erro genético. Crescimento anormal de células, mais conhecido como câncer. O amor talvez seja um câncer.
– Tenho uma teoria melhor. – disse Marina se aproximando de Clara dando um beijo rápido em sua boca.
– Janta comigo.
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