Fogo & Gasolina

4 Parte I – Capítulo 04: Lek


_ Ei, Du...

Vitor, seu peguete quase fixo veio lhe puxando pelo braço após a cliente ir embora.

_ Quem é esse cara?

_ Que é isso, cara? – Du deu uma risada nervosa, soltando o seu braço em seguida. – É só um cara que eu conheci.

_ Esse playboy, Du? Conta outra! Onde que você conheceu ele?

Vitor era mais velho que Eduarda, loiro, olhos claros, bronzeado do sol carioca, forte por conta da academia excessiva e desejado por todas as vendedoras da loja. Ela nunca quis nada sério com ele, exatamente por esse motivo, apesar de nunca ter visto ele com outra mulher sabia que ele era aquele tipo de cara de pegar todas.

_ E eu lá te devo satisfação, cara? – ela respondeu com o jeito impulsivo.

_ Ah, qual é, Du!?

_ Qual é nada, Vitor. Me deixa em paz!

Eduarda foi atender o próximo cliente e parecia que aquela meia hora iria demorar uma eternidade. Ela não entendia porque se sentia tão ansiosa, talvez fosse o jeito que ele a olhou ou o perfume forte que ele usava ou até mesmo a voz e o sorriso de lado. Ela sentia que estava ferrada.

João Lucas estava sentado na praça de alimentação, tamborilava os dedos na mesa, olhava para o celular no centro dela. Clara tinha acabado de lhe enviar uma mensagem, seu pai estava atrás dele feito um louco. Ele não respondeu.

Olhou para o relógio e já era hora dela chegar, era só o que lhe faltava ela não parecer. Mas logo em seguida essa dúvida se dissipou. Lá vinha ela, passos decididos, o cabelo vermelho longo e o uniforme da loja.

_ E aí? – ela disse quando se sentou na cadeira na frente dele.

Ele pegou o celular e o guardou em um dos bolsos da jaqueta, e se dirigiu a ela com um sorriso.

_ E aí, Du?

_ Que tu quer de mim?

Ele riu do jeito dela. Se ela estava pensando que estava devendo algo pra ele, estava enganada. Os olhos bem delineados dela o encaravam e ele foi perdendo o riso aos poucos.

_ Qual é a tua cisma comigo, hein? Só queria bater um papo contigo. Te conhecer, ué. Que é que tem?

_ Por que um cara como você iria querer me conhecer? – ela cruzou os braços.

_ Para de complicar as coisas, Du. A gente não pode, sei lá... Ser amigos?

_ Ser amigos? – foi a vez de ela cair na risada.

_ Não tem nada demais nisso, cara. Tu tá metendo em galho em coisas nada a ver.

_ Eu? Ser tua amiga? Amiga do filho do... como é o nome mesmo? Encomendador.... Comendador, sei lá o quê.

_ Comendador. – ele riu.

_ Na boa, cara, nada a ver.

_ A gente pode tentar, o que tu acha?

Eduarda o observava com desconfiança, mas logo aquele olhar foi desmoronando quando ele lhe sorriu. Ela sabia que era loucura tentar, eles eram de mundos totalmente opostos. E além do mais, ele parecia ser um encrenqueiro de primeira, mas era uma proposta quase irresistível.

_ Se azedar, tu cai fora. Sem ressentimentos. Eu não guardo ressentimentos.

Ela queria dizer: Queria entender porque você quer ser meu amigo. Mas, ao invés disso, disse:

_ Tá.

_ Pra começar, a gente pode comer um lanche juntos. Eu to morto de fome.

_ Beleza. – ela sorriu.

João Lucas comprou dois lanches pra ele, com duas batatas fritas grandes, dois refrigerantes enormes e mais o sorvete. Ela podia não admitir, mas estava se divertindo com o jeito dele.

_ Então, Du-só-Du mesmo? Teu nome? – ele disse quando dava uma mordida no lanche.

Ele parecia ser um crianção.

_ Eduarda. – ela respondeu, pegando umas batatas fritas em seguida.

_ Eduarda, eu ia te perguntar... O que tu tava fazendo naquele lugar ontem... Mas ó... – ele colocou as mãos pra cima derrubando o molho do lanche no chão. – Se tu não quiser falar, beleza.

_ Eu tava acompanhando uma amiga minha, ela era uma das dançarinas. Não é o tipo de lugar que eu gosto de dar um rolê, mas é melhor do ficar em casa...

Ela não sabia por que se sentia tão bem com ele. Porque estava falando daquelas coisas. Sentia que podia conversar sobre tudo com João Lucas que ele não a julgaria. E ela estava certa, afinal.

_ Ah, pode crer, concordo contigo. – ele assentiu, roubando umas batatas dela.

_ Ei, que é isso, lek!?

_ Lek? – ele comeu as batatas que tinha pego. – Curti, lek.

Eduarda ficou sem graça, ela chamava seus irmãos de “leques”, derivação de moleques.

_ Gostei do teu jeito, Eduarda. – ele sorriu e roubou mais batatas dela.

_ Ah, que é isso, lek! – ela riu e pegou algumas dele também.

Assim, eles não sabiam, mas ali estava surgindo uma amizade com um laço muito mais forte do que imaginavam.

João Lucas voltou para casa feliz com o feito, Eduarda agora seria uma pessoa com quem poderia contar. Ele passou seu telefone pra ela e não pediu o dela em troca. Sabia que ela ligaria. Não era pretensão, ele só sabia.

Ao chegar à casa dos Medeiros de Mendonça e Albuquerque ele estava mais relaxado, e pela primeira vez em meses não sentia vontade de sair de casa, só queria dormir. Após cumprimentar Silviano, o leal mordomo da família, ele começou a subir as escadas e...

_ Lucas! – ouviu seu pai lhe gritando.

José Alfredo estava sentado no sofá da sala, João Lucas ficou parado ali no meio da escada, já sabia que teria que ouvir poucas e boas pelos seus dias de farra.

_ Vem pra esse sofá agora, moleque. – ele disse, sério.

O rapaz desceu os degraus e se sentou no sofá, sem olhar para o rosto do pai. Se tinha uma coisa que ele detestava era ver o quanto o seu pai o desprezava por ser do jeito que era. Zé Alfredo encarou ao filho e ao ver o corte em seu rosto o segurou com as mãos, fazendo Lucas olhar em seus olhos.

_ Que é isso aqui, Lucas? – ele falou de forma enérgica. – Tu tá se metendo em brigas de novo?

Seu pai tinha o sangue quente dos nordestinos na veia e seu sotaque parecia ser mais acentuado quando estava nervoso.

_ Qual é, pai?

_ Qual é, pai? – Zé largou o rosto do rapaz. – Lucas, no que você tá se metendo, hein? Você vai acabar com a sua vida. Eu não tive filho pra isso, tu tá me ouvindo?

Aquela era a mesma ladainha de sempre, toda vez era a mesma coisa. Ele falava, João Lucas fingia que escutava e pronto.

_ Tu não falar nada?

Lucas abaixou a cabeça, era o que satisfazia o seu pai. Se ele não respondesse, mais rápida seria aquela conversa.

No entanto ele recebeu um tapa na orelha, João Lucas olhou assustado para seu pai.

_ Lucas, tu é mais do que isso! Você tem que parar com essa bobagem! – ele desviou os olhos de novo. — Olha pra mim! – o pai gritou.

O rapaz encarou o pai nos olhos e já tinha uma resposta na ponta da língua:

_ E pra que eu sirvo então, Comendador? Pra ficar igual urubu atrás de carniça como o Zé Pedro e a Clara disputando a herança daquela porcaria de Império?

_ Porcaria que te sustenta, moleque! Sustenta os teus caprichos! Eu quero ver quando eu cortar toda essa sua mordomia...

Lucas pensou que teria uma noite tranquila e estava enganado, o sangue lhe fervia nas veias. Ele levantou do sofá e começou a disparar as palavras para o seu pai em alto tom:

_ Corta essa merda, pai! Eu não to nem aí! Não to ligando pra essa porcaria de dinheiro, não. Eu tenho o meu! Que se fo...

_ LUCAS!

Maria Marta gritou ao descer as escadas. Era tudo que ele queria ser coagido pelos dois.

_ Pronto, era tudo o que eu queria!

Marta se aproximou do filho e tentou encostar em seu braço, mas ele se afastou.

_ Eu quero que se dane essa bosta de Império! Eu quero mais é que se dane! E quero que vocês me deixem em paz. – ele andou depressa até a porta.

Antes de fechar a porta, ele pode ouvir sua mãe gritando o seu nome e seu pai gritando aqueles palavrões em inglês com sotaque nordestino: Shit!

Ele saiu do estacionamento do prédio a milhão, o rádio no último volume. Tudo o que sentia era uma raiva sem controle. Também não sabia quando tudo tinha se transformado naquele sentimento.

Lucas se lembrava de amar os pais mais do que tudo, e de repente, a adolescência tinha lhe trazido uma perspectiva diferente daqueles que antes eram os heróis da sua vida.

Talvez, tenha sido quando ele percebeu o quanto a mãe amava José Pedro e quanto o pai era apegado na princesa Clara. Apesar de ser o caçula, ele foi o menos mimado do trio de irmãos, na verdade, ele era o menos em tudo. O menos notado, o menos preferido, e o menos amado. Pelo menos, era o que ele achava.

Ele pisou no acelerador feito um louco e estacionou em frente ao seu destino: a Magnum. Só quando desligou o rádio que ouviu o celular tocar.

Du tinha acabado de sair do shopping, era tarde, mas nem tanto. Ela sabia que ele iria estar acordado. Ela mal o conhecera e já estava pensando em ligar pra ele, em falar com ele. Pela primeira vez na vida, ela tinha alguém pra ligar. E não hesitou quando discou o número dele no celular.

_ Alô?

Era mesmo o telefone dele. Era a voz dele. Pelo menos, ele não tava brincando, tinha passado o número certo.

_ Lucas? – ela quis confirmar.

_ Du?

_ É, sou eu, só queria te confirmar meu número e tal.

Dentro do carro, João Lucas, que ainda tremia, encostou a cabeça no volante e respirou fundo.

_ Tu tá bem, lek?

Du parou de andar no meio da calçada que dava para o seu ponto de ônibus ao ouvir a respiração pesada dele. Será que ele estava tendo alguma crise?

_ Lek? – ela perguntou de novo.

O coração dela parecia estar imerso em um balde de gelo. Ela nunca tinha passado por uma situação assim.

_ É sério, me responde, Lucas. Eu to...

_ Du... – ele falou e o coração dela voltou a bater – Eu to prestes a cometer uma merda. Tu pode me ajudar?

Eduarda não via, mas Lucas tinha lágrimas nos olhos e as sentia escorrer pelo rosto. Ele não queria mais aquela vida, como o seu pai dizia. Não queria mais se envolver naquele submundo, ele só queria um pouco de paz. Ele não queria mais estragar os seus dias. Sentia que eram tão poucos. Ás vezes, ele tinha uma vontade súbita de morrer, como tinha sentido minutos atrás, e era nesses momentos que precisava de ajuda.

_ Por favor, lek... – ele suplicou.

Em meio às lágrimas, sorriu com o apelido que eles tinham se nomeado.

_ Onde você tá?

Ela não questionou os porquês, nem as causas ou os fatos. Du só iria ao encontro dele, e salvaria pelo menos uma noite da vida dele. Longe daquelas porcarias, longe daquilo que o destruiria.

_ Na porta da Magnum.

_ Eu to perto. Já, já, eu chego aí.

Ela começou a correr, atravessando as ruas com o menor cuidado, ainda ouvia a respiração dele na linha.

_ Aí, lek. Não desliga, não. Eu to chegando.

Notas finais
Só queria comentar que eu morri com essa última cena do capítulo. É meio bobo, mas quando eu me dou conta já estou nesse momento tão fofo que eu não consigo me controlar. Espero que vocês tenham curtido o capítulo, leks! hahahaha Acredito que esse é o último capítulo antes de 2015, então desejo a todos que me leem: Um feliz ano novo com muita prosperidade, felicidade, paz, amor, e tudo que há de melhor. E desejo mais cenas Lucadu para esse fandom lindo que me recebeu de braços abertos. Eu adoro ler os comentários tanto aqui, quanto no twitter. Muito obrigada por tudo! Vocês são incríveis! Caso alguém tenha curiosidade, eu escrevi essa parte final do capítulo ouvindo a música My Heart do Paramore. Achei muito apropriada para o momento. Quem quiser procurar a música e a tradução não vai se decepcionar. Até o próximo capítulo, até 2015, meus leks!