Fogo & Gasolina

5 Parte I – Capítulo 05: Vídeo Game


Eles não trocaram uma palavra enquanto Du corria para a porta da boate. Mas era tranquilizador ouvir a respiração dele do outro lado. Já Lucas do outro lado da linha ouvia os passos dela e a respiração ofegante. Ele estava pensando qual tinha sido a última vez que alguém tinha corrido atrás dele daquela forma.

Eduarda avistou o enorme carro parado na frente da Magnum e ao se aproximar os seguranças gritaram pra ela:

_ Avisa o playboy aí que a gente não tem a noite toda, não. Ou ele entra ou cai fora.

Ela nem respondeu, parou na janela do motorista e nada viu por conta do maldito insulfilm. Bateu no vidro.

_ Lucas! Ei, lek. Abre!

Ele levantou o rosto molhado e viu Eduarda na janela, ele limpou as lágrimas, desligou o celular e abriu o vidro.

_ Oi, lek. – ele lhe ofereceu um sorriso torto.

_ Tu quer me matar de susto, cara?

Ela sentia o corpo suado por ter corrido, a maquiagem dos olhos derretendo e o sorriso dele foi sumindo aos poucos. Ele tremia levemente.

_ Pula pro outro banco. – ela ordenou.

_ Quê?

_ Pula pro banco do carona. Ou tu tem condição de dirigir assim?

Lucas ficou impressionado com a determinação dela, mas apenas foi para o banco do carona, enquanto ela abria a porta e se sentava no banco do motorista.

Eduarda voltou a fechar o vidro e olhou Lucas. Ele parecia suar também e olhava para a porta da boate.

_ Você quer ficar ou ir embora?

Ela que não iria impedi-lo de nada.

_ Eu preciso ir embora.

Ela girou a chave na ignição do carro e colocou o cinto de segurança.

_ Coloca o cinto.

Ele colocou o cinto e se virou pra ela.

_ tem carteira?

Eduarda deu de ombros e respondeu:

_ Não.

Ela mal tinha acabado de fazer dezoito anos, não tinha onde cair morta, como iria tirar a carteira de motorista? Mas tinha aprendido a dirigir, assim como aprendido tudo na vida.

Lucas nem reparou se ela dirigia bem ou mal, ele só observava as ruas passarem. Se sentia mais calmo, menos ansioso. Ela também não o questionou, só dirigia sem rumo. Mas, cria de rua como é, ela tinha medo. Um carro daquele chamava a atenção.

_ Então, pra onde a gente vai? Se você não percebeu, lek, é tarde e esse carro é... Uma máquina.

_ Eu sei. – ele respondeu momentos depois.

_ Então...? – ela parou em um farol e olhou pra ele.

Lucas ainda observava a rua. Ela não sabia o que dizer, não o conhecia o suficiente para tal coisa.

_ Volta pra Copa. – ele disse. – Eu te guio o caminho.

_ Lek, se for pra voltar pra aquela boate...

_ Não. – ele interrompeu. – Não é pra lá.

Eduarda fez o retorno mais próximo e começou a dirigir de volta para Copacabana. Ela estava com medo de ser parada em alguma blitz, mas surpreendentemente não havia nenhuma. Ela também queria puxar algum assunto com ele, tentar saber o que se passava na cabeça dele. Mas as palavras não vieram.

Ele a foi guiando até chegar um prédio imenso, Eduarda sabia que ali ela nunca entraria pela porta da frente. Era um dos condomínios mais chiques e caros do bairro.

Quando os dois atravessaram a guarita e os seguranças nada questionaram ela teve a certeza que ali era a casa de João Lucas. E ela deu graças a Deus que ele tinha resolvido vir pra casa.

Eduarda estacionou a máquina na vaga indicada por ele, e tirou as chaves da ignição as deixando no painel.

_ Bom, tá entregue. Vai ficar de boa aí? Posso confiar? Ou vai sair vazado?

João Lucas acabou sorrindo do jeito dela. Ela tinha um jeito de moleque que o apelido de lek caia feito uma luva.

_ Vou ficar de boa. – ele respondeu.

_ Então, beleza. Fica na paz, lek.

_ Epa, não. Não vai embora não, Du.

Eduarda olhou pra ele e riu.

_ Ué.

_ Não, sério. Fica aqui. Sabe que eu adorei te conhecer? Queria conversar. – ele deu de ombros.

_ Conversar?

_ É. Seguinte, eu falo um pouco de mim, cê fala um pouco de você...

_ Qual é, Lucas? Tu quer mesmo ser meu... Amigo?

Ela realmente não acreditava que um cara como ele iria querer ser amigo dela.

_ Você pensou que era zueira, Eduarda? Claro que eu quero, pô. Eu te salvei aquele dia e você me salvou hoje. Estamos quites, beleza?

Então, eles tinham chegado ao ponto que ela queria escutar. Não entendia porque, mas ela tinha aquela vontade de afastá-lo das coisas ruins que lhe aconteciam. Queria entender porque ele tinha se rebaixado tanto pra chegar naquele mundo. Ele parecia ter tudo nas palmas das mãos.

_ Eu te salvei?

Lucas se sentou de lado no banco para observar Du e ela fez o mesmo. Mesmo na luz fraca do estacionamento ele conseguia ver os detalhes dela, os olhos grandes, os lábios bem definidos e o nariz com um piercing, que ele só tinha percebido agora.

_ Salvou. Eu ia... É... – ele não conseguia dizer em voz alta, parecia horrível.

_ Usar drogas. Eu sei. Eu percebi como você tava na boate aquele dia. Eu conheço... – ela sentiu a frase morrer quando o olhar dele tinha se tornado esperançoso. – Eu não uso, é...Conheço gente que usa.

_ Ah. Então, sabe como é difícil de admitir isso, né? Toda vez que eu tenho uma treta aqui em casa, eu sinto essa angústia, essa agonia, sabe?

_ Tô ligada.

_ E quando eu... – Lucas ponderou como estava sendo ruim admitir tudo aquilo. – Eu me sinto diferente, bem...

_ E um valentão, né? – ela sacaneou e ele riu. O curativo ainda na sobrancelha chamou a atenção dela.

_ Pois é. E pela primeira vez, eu tive como fugir disso. Obrigado por... Ter me ligado na hora exata. Parece que tu leu a minha mente, lek.

_ Qual é, foi nada.

Ela queria dizer que tinha ligado porque agora ele era uma das únicas pessoas que tinha. Mas ficou na dela, achou cedo demais.

_ Tu e seus pais brigam muito, é? – ela perguntou.

_ Todos os dias. É tipo um inferno.

Eduarda encontrou um ponto em comum com ele. Entendeu porque ele não parava em casa.

_ Sei como é.

_ Também rola muita briga na sua casa?

_ Ô... – ela afirmou. – Mas, deixa quieto. É bom eu voltar pra casa, tá ficando tarde.

_ Tu quer voltar pra casa mesmo, Eduarda?

Como todo pedido que ele fazia, Eduarda ficou surpresa. Ela tinha deixado bem claro de que ela não era uma qualquer e que não estava afim dele. Essa última parte ela fingia muito bem. E tinha um tom diferente quando ele falava Eduarda que a deixava estranha por dentro. Era como se tivesse derretido algo.

_ Claro, lek. Tá maluco? – ela foi decidida, mas riu com o nervosismo da situação.

_ Você joga vídeo game?

Du se lembrou dos irmãos que se amontoavam em cima de um console velho da Playstation para jogar. Um presente que ela tinha comprado pra eles a poucas semanas, com o seu primeiro salário. E ela amava se sentar com eles e disputar os jogos.

_ Jogo. – ela sorriu.

_ A gente pode subir e jogar, não pode?

Eduarda ficou encarando Lucas por alguns segundos, analisando sua expressão. Ela estava insegura de ter que ir para a casa dele, se sentia mal só de estar na garagem daquele lugar, imagina nos andares acima.

_ Sem segundas intenções, eu juro!

Ele cruzou os dedos indicadores na frente do rosto e os beijou para enfatizar o seu juramento.

_ Tá, beleza.

Por um momento, Lucas queria desfazer aquele juramento. Ele não era de ferro e Eduarda era uma mulher muito bonita. Apesar de se esconder naquelas roupas largas e no jeito de menino, ela era muito atraente. Se ele não tivesse feito aquele compromisso, com certeza, a tinha agarrado nos seus braços. Ficava imaginando como a pele dela iria se destacar sobre a sua, aquela porcelana, imaginava como seria beijar os lábios dela. Queria se sentir seguro o tempo todo, se sentir confiante e bem, como se sentia ao estar ao lado dela.

Mas era bem capaz de Eduarda o capar se ele fizesse isso.

Mal sabia ele, que no fundo, ela imaginava a mesma coisa.

Notas finais
E aí, pessoal? Como está sendo esse início de 2015? Por aqui tá ótimo, veio cheio de inspiração para esse casal lindo. E as visualizações só aumentam, o que me deixa cada vez mais feliz. Muito obrigada. Sem muito o que falar hoje hahahaha Qualquer coisa, me chamem lá no twitter: @garotadeontem
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!