Fogo Contra Fogo
13 Lagavulin
Notas iniciais
*Ponto de vista de Rod Dawes
Cheguei em casa mais tarde do que eu pretendia. Joguei meu paletó em uma poltrona perto da porta de entrada do meu apartamento, tirei os sapatos e afrouxei a gravata. Caminhei direto para o meu estoque de uísque, preparei uma pequena dose e bebi em um só gole. Suspirei sentindo o cansaço do dia sobre meus ombros e minha cabeça. Eu precisava de um cigarro. Peguei um cigarro no maço que eu havia deixado ali mesmo na estante e automaticamente tateei meu peito procurando pelo meu isqueiro e lembrei que eu já havia tirado o paletó. Revirei os olhos pela minha falta de atenção e fui até a poltrona.
Senti meu isqueiro no bolso interno e o peguei. Segurei o cigarro nos lábios e tentei acendê-lo. Nada aconteceu. Estranhei, já que o isqueiro era novo. Olhei para o objeto e vi que não era o meu. Era o isqueiro prateado daquela garota que eu conheci mais cedo, a Lori. Logo depois que ela foi embora, reparei que seu isqueiro estava no chão e o peguei na esperança de descobrir algo sobre ela com as digitais. Virei o objeto de um lado para o outro na minha mão, o brilho prateado dançando na superfície de metal e li as iniciais: A. H. Me perguntei quem seria aquela pessoa e resolvi investigar, por pura curiosidade. Achei meu isqueiro no outro bolso do paletó, acendi meu cigarro rapidamente e corri para o computador.
Enquanto meu notebook iniciava, desocupei minha mesa e fui até a cozinha procurando pó de café, uma colher pequena e um pincel fofinho que eu usava pra limpar minhas miniaturas colecionáveis de carros antigos. Levei tudo de volta para a mesa, digitei a senha no notebook e senti um pouco de calor, então tirei a gravata, depois a camisa e me concentrei no que ia fazer. Joguei um pouco do pó de café sobre o isqueiro usando a colher e com o pincel comecei a girá-lo com cuidado superficialmente no isqueiro, espanando com leveza. Aos poucos vi algumas digitais aparecerem com clareza. Notei que havia esquecido os adesivos e fui até meu quarto procurá-los sabendo que eu os deixava na gaveta da escrivaninha. Voltei rapidamente até a mesa onde eu estava e usei os adesivos para coletar as digitais. Consegui três e tinha a esperança de que pelo menos uma delas não fosse a minha própria. Eu havia tido o cuidado de pegar o isqueiro do chão com um lenço, mas me descuidei ao usar as mãos ao confundi-lo com o meu isqueiro há poucos minutos atrás.
Escaneei as digitais e usei o programa de identificação da polícia federal para identificar os donos das digitais. Bufei quando vi a combinação da primeira digital. Era a minha. Passei para a outra. Esperei, vendo várias fotos passarem rapidamente pela tela, a maioria das pessoas nas fotos eram mulheres, então imaginei que essa fosse a digital da garota que conheci. Alguma coisa nela me chamou atenção. Ela parecia estar numa situação difícil, com a aparência extremamente desleixada, mas não deixava de ser atraente. Eu tinha a ligeira impressão de conhecê-la de algum lugar, talvez em um dos meus casos, eu não tinha certeza. Mas eu iria descobrir assim que a digital dela fosse identificada. Bem na hora.
A foto dela apareceu no meu monitor e eu a reconheci imediatamente, apesar de que na foto ela estava loira. Li seu nome na ficha identificada, Loreanne Garrow. Agora eu sabia de onde a conhecia. Não havia antecedentes criminais em sua ficha, mas ela foi dada por desaparecida. Seus documentos não eram usados há quase dois anos, o que mascarava qualquer atividade. Lembro-me de tê-la visto em uma revista de lingeries femininas quando um dos meus colegas pedia minha ajuda para escolher um presente para a esposa. Continuei lendo a ficha dela e não achei nada ligado às iniciais no isqueiro.
Resolvi arriscar a terceira e última digital. Era uma digital diferente, pois o programa já teria reconhecido caso fosse minha ou da Loreanne. Enquanto eu aguardava identificação, ouvi minha campainha tocar. Olhei para o relógio no meu pulso, onze e vinte da noite. Eu não fazia ideia de quem poderia ser. Fui até a porta e abri, sem olhar pelo olho mágico. Olhei para a figura na minha frente de cima a baixo e não consegui abafar um suspiro.
"Não vai me convidar para entrar?" perguntou Nicole Fernandez, do setor dos arquivos não oficiais. Ela sorria sugestivamente par mim, seu rosto iluminado. Cachos escuros e modelados caíam soltos e avolumados para um lado do seu rosto. Ela usava um vestido preto, decotado e bem justo. Não era vulgar, apenas elegante, além de muito sexy. Ela parecia mais alta do que o normal, o que liguei aos saltos que prontamente imaginei caídos no chão do meu quarto juntamente com o vestido e o que quer que ela estivesse usando por baixo.
"Como não?" sorri para ela e dei passagem para que ela entrasse no meu apartamento. Ela entrou e eu acompanhei seu rebolado passando a língua no meu lábio inferior, ainda com o pensamento anterior pairando na minha mente. Ela olhou para mim, como se esperasse algo. Limpei a garganta. "Você está linda." eu disse e ela pareceu satisfeita com o comentário. "Qual é a ocasião?"
"Eu marquei de sair com algumas amigas, mas por alguma razão, todas elas resolveram ir acompanhadas e se esqueceram de me avisar." Ela rolou os olhos negros e deu de ombros.
"Está esperando que eu te acompanhe?" perguntei. Ela se aproximou colocando ambas as mãos no meu peito e as deslizou para cima, até alcançar meu pescoço e enroscou os dedos no meu cabelo.
"Se você quiser, pode se juntar a eles." Ela disse aproximando o rosto do meu e senti a respiração dela tocar minha boca. "Mas eu estava pensando. Já que estamos aqui, poderíamos aproveitar o tempo de um jeito mais reservado, mais confortável..." A proximidade dela só me fez sentir mais calor e eu percebi que tirar a camisa não foi o suficiente.
Inclinei-me para tentar beijá-la, mas ela virou o rosto e sorriu para mim. Não entendi por que ela fez isso, então apenas reagi encarando-a.
"Você ainda me deve um drinque." ela disse erguendo uma sobrancelha.
"Bem lembrado." Sorri para ela e concordei. Voltei para o meu estoque de uísque e procurei pelo Lagavulin 15 anos. Servi dois copos e me virei para fazer um comentário quando a vi encarando a tela do meu computador.
"Quem é Adam Hastings?" ela perguntou apontando para a página aberta. "É alguém envolvido no caso em que está trabalhando?"
"O que?" O nome me pegou de surpresa. Corri para perto dela e olhei bem para a tela. A foto dele estava bem estampada, na minha frente. Sim, era ele mesmo. Sua ficha era extensa e eu já a conhecia de ponta à ponta. A.H. Adam Hastings. Ele era suspeito de inúmeros crimes que eu não consegui encerrar e também era dono daquele isqueiro. Passei cinco anos tentando chegar nesse homem e agora eu tinha acesso a uma vantagem. Tudo o que eu precisava fazer era encontrar Loreanne.
"Rodney?" Nicole me chamou. "Tudo bem? Você está... sorrindo."
Olhei para ela, meu sorriso se alargou mais ainda. Fechei o notebook e entreguei a ela a pequena taça de uísque.
"Um brinde a esta noite." propus.
"Posso saber o motivo?" perguntou ela tilintando sua taça na minha.
"Eu sinto que as coisas vão ficar cada vez melhores..." bebemos nossas taças rapidamente e quando ela pousou o copo vazio sobre a mesa, fiz o mesmo e puxei ela para mim roubando-lhe um longo e ardente beijo com sabor de Lagavulin.
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