Fogo Contra Fogo
14 Saudade e sedução
Notas iniciais
*Ponto de vista do Adam
Cheguei ao Luxure sentindo-me um estranho. Fazia mais de dois anos que eu não aparecia por lá. Muita coisa havia mudado desde que eu parei de frequentar o clube de strip. Passei pela multidão indo direto ao meu objetivo e não pretendia olhar para os lados. Várias dançarinas me abordaram puxando minhas roupas, oferecendo-me bebidas e exibindo seus decotes. Há dois anos, eu confesso que aproveitaria bem esse tipo de atenção, mas agora, ainda era difícil convencer a mim mesmo que eu estava solteiro. A ideia ainda me parecia estranha.
Passei por um corredor mal iluminado que levava até uma escadaria, indo para cima. No topo da escada, havia um segurança armado, de cara fechada e com uma tatuagem religiosa que cobria toda a superfície de sua cabeça raspada. Ele olhou para mim como se desejasse quebrar todos os ossos do meu corpo. Típico. Ignorei-o descaradamente e avancei em direção à porta que ele protegia. Imediatamente ele esticou o enorme braço criando uma barreira entre a porta e eu.
"Senha." disse ele, forçando sua voz mais intimidadora.
Eu ri silenciosa e debochadamente.
"Isso é ridículo." comentei e tentei avançar mais uma vez.
De novo ele me impediu, mas desta vez ele me empurrou um passo para trás. Aquele cara me olhava de um jeito sério, mas eu vi o entretenimento por trás de seus olhos. Ele estava se divertindo e também estava começando a testar minha paciência limitada.
"Senha." ele repetiu feito uma cadela treinada pra latir.
"A senha vai ser o meu punho na tua cara se não me deixar passar." cuspi cada palavra com profundo desprezo e afronta.
Ele se irritou e levantou a mão cerrada em um punho na minha direção, pronto para me acertar. Assim como ele, eu estava armado, mas seria muita apelação da minha parte se eu usasse algo além de minhas mãos para acabar com aquela carinha de mau. Desafiei-o com o olhar e com um sorriso preparando-me para desviar do primeiro golpe, quando de repente a porta se abriu e Chad apareceu interrompendo nosso momento romântico. Quebra-clima, pensei.
"Adam, o que está fazendo aqui fora?" perguntou Chad alternando sua linha de visão de mim para o segurança, do segurança para mim. "Silas, deixe-o entrar." ordenou.
O segurança abaixou a mão e me mostrou um sorriso perigoso. Retribuí. Ele fez um sinal que dizia que eu precisava ser revistado. Revirei os olhos, mas não fiz qualquer recusa. Afastei os braços e as pernas enquanto ele me tateava em mais lugares do que eu esperava. Ou ele realmente estava fazendo um serviço geral, ou esse cara levou nossa brincadeira anterior muito a sério. Por fim ele tirou de mim a minha pistola e a minha faca. Sorri para mim mesmo quando vi que ele não havia encontrado meu canivete russo. Presente da mamãe. Quando ele confiscou minhas armas, olhei para Chad, que encolheu os ombros deliberadamente.
"Você não vai precisar disso, estamos entre amigos." ele disse. Cruzei os braços em protesto. "Você pode pegá-las de volta na saída."
Chad me deu dois tapinhas amistosos no braço e me conduziu para dentro deixando Silas para trás em seu posto. E com minhas armas.
Entramos numa sala grande e especialmente decorada. As paredes vermelhas e a iluminação fraca davam ao lugar um clima quente e sensual. Uma das paredes, na extremidade do salão, era inteiramente feita de vidro com vista panorâmica para todo o clube. Percebi que o local era à prova de som quando Chad fechou a porta e a música agitada do clube deu lugar para uma música ambiente, mais lenta e tocada por um saxofone.
Ali estavam todos os atuantes que fariam parte do assalto organizado por Chad. De acordo com ele, aquele seria o último de sua longa e respeitável carreira. Contando comigo, éramos cinco ladrões no total. Mark estava sentado em uma poltrona branca com dossel acompanhado por duas mulheres que não usavam nada além de calcinhas. Ele me observava com cautela. Eu costumava fazer o mesmo. No meio em que eu vivia, não se podia confiar em ninguém, mas quando se tratava de um assassino frio como Mark, o cuidado devia ser um pouco maior. JoJo estava na mesa de sinuca jogando uma partida com Melina, uma jovem, loira, sexy e famosa golpista. Na minha opinião, aquela garota era uma das melhores entre nós.
Melina percebeu que eu a admirava e olhou para mim enquanto dava a volta na mesa, mas não interrompeu seu jogo. Ela se concentrou em sua jogada e se posicionou inclinando-se lentamente contra a mesa para dar a tacada. Ela estava de costas para mim e achei que ela se colocou naquela posição propositalmente, apenas para me provocar. Funcionou. E foi desconcertante. Após encaçapar duas bolas, ouvi JoJo xingar alguma coisa e a irritação trouxe à tona o sotaque de sua língua natal. Melina olhou para mim por cima do ombro, sorrindo. Deu uma piscadela e voltou ao jogo.
"Ela é uma beleza, não é?" disse Chad com sua risada rouca e arrastada em meu ouvido. "Essa garota é uma valiosa obra de arte."
Assenti em concordância, porém mal prestei atenção nas palavras de Chad. Tudo o que eu fiz foi observá-la. O jeito astuto que se movia, a forma que jogava o cabelo loiro. A Lori estava loira quando nos conhecemos. Sorri com a lembrança das nossas primeiras aventuras. Como quando eu a ensinei a se defender de pessoas maiores e mais fortes que ela. Ela me distraía e provocava o tempo inteiro, sempre se achando a mais esperta. Ou quando eu a ensinei a usar uma arma. Dei a ela um revólver de presente naquele dia. Levou quase uma semana inteira para tentar convencê-la de que o revólver seria mais vantajoso para ela, mas ela teimava e sempre queria usar minhas pistolas.
Meus pensamentos se desfizeram como a fumaça do charuto do Mark quando Melina acenou para mim. Uma sensação estranha percorreu pelo meu corpo. Eu não devia estar pensando na Lori. Acabou. Uma hora ou outra aquilo iria acontecer e eu sabia disso desde o início. Eu não pretendia voltar atrás. Caminhei até Melina com meu melhor sorriso.
"Uma partidinha?" perguntou ela estendendo um dos tacos para mim, o que JoJo havia usado.
"Tem certeza?" perguntei pegando o taco de sua mão. "Se eu jogo é pra ganhar."
Eu estava parado bem atrás dela, meu corpo quase tocando o seu. Ela se virou de frente para mim sem alterar a distância entre nós e me mostrou seu sorriso mais atrevido por baixo dos lábios rosados.
"Eu gosto de desafios." declarou. "E também gosto de apostas. Que tal isso? Se você ganhar, eu te acompanho num drinque. Se eu ganhar, você me acompanha em dois drinques."
Eu ri da sugestão dela. De fato ela era uma boa golpista.
"Acho justo. Aceito a aposta." eu disse pousando a mão discretamente na curva acentuada da cintura dela.
Ela sorriu e aproximou seu rosto do meu, até estarmos separados por uma mísera respiração. A boca dela era uma distração absurda. Achei que ela fosse me beijar e eu já estava me preparando para sentir o sabor daquele batom, mas ao contrário do que pensava, ela tirou minha mão de sua cintura e seus lábios se moveram em palavras:
"Guarda pra depois do segundo drinque." ela disse num sussurro particular.
Soltei a respiração quando Melina se afastou e deixei escapar a sombra de um riso enquanto ela se preparava para a primeira tacada. A bola branca bateu na vermelha que entrou direto na caçapa. Observei a mesa preparando-me para a partida de sinuca mais erótica da minha vida.
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