Fogo Contra Fogo
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Notas iniciais
*Ponto de vista da Lori
Nós passamos duas noites dentro de um quartinho alugado sobre um mercadinho de esquina numa cidadezinha esquecida no estado de West Virginia, chamada Grafton. Minhas costas e meu pescoço doíam por causa de um colchão mais duro do que o próprio chão. fora que passei horas em claro porque as molas da cama rangiam ao menor dos movimentos e eu preciso dizer que o Adam não gosta muito de ficar parado.
Para piorar minha situação, o Adam simplesmente apareceu em casa na nossa segunda noite trazendo sacolas de papel com coisas... suspeitas. Ele tinha um sorriso malicioso no rosto mais suspeito ainda, e eu, curiosa como sempre, quis saber o que tinha nas sacolas. Me arrependo terrivelmente de ter olhado. Ele havia me trazido uma mini saia de látex rosa, cor de goma de mascar, uma blusa verde tão transparente que eu poderia ficar sem ela, pois não faria diferença alguma. E para completar: uma peruca loira. A princípio, pensei que ele quisesse fazer algum tipo de joguinho erótico comigo, coisa que ele nunca demonstrou muito interesse. Quando perguntei, ele revirou os olhos e disse que aquilo serviria para algo maior. Ele queria um carro.
Depois de muita insistência e uma saudável discussão, Adam conseguiu me convencer a usar aquela roupa para conseguir roubar um carro. O sol do fim da tarde estava escaldante, e a peruca coçava de uma maneira surpreendente. Eu estava cada vez mais irritada e cada vez mais arrependida de ter aceitado aquilo. O Adam havia simplesmente dado sumiço à nossa moto e só Deus sabe quando ele a pegaria de volta.
Minha mala e a do Adam estavam amontoadas no chão perto da estrada. Apoiei a perna sobre uma das malas ressaltando minha quase nudez. Ajeitei o sutiã e um caminhoneiro buzinou para mim. Rolei os olhos praguejando contra o Adam na minha cabeça. Ele estava escondido perto de uma antiga loja que foi a falência, só me observando, esperando para fazer sua parte. Eu podia imaginar os pensamentos sujos e toda a diversão que se passava em seus olhos por me ver nessa situação, feito uma prostituta barata.
Fiz sinal novamente para os carros que passavam e sem muita espera, uma pickup Tundra azul petróleo estacionou no acostamento, bem na minha frente. A porta se abriu e eu joguei o cabelo para o lado, fazendo um sutil sinal para o Adam. Analisei bem o motorista. Era um rapaz jovem e bem apessoado. Devia ser uns três anos mais novo que eu, talvez uns vinte e três anos. Sorri para ele ao entrar na pickup e o vi umedecer os lábios ao olhar para meus seios. Segurei o riso.
"Muito obrigada." eu agradeci a ele com uma voz melosa e arrastada. "Você poderia me ajudar a pegar as malas?" perguntei, como se eu fosse o ser mais vulnerável da face da terra.
"Claro," ele respondeu sem rodeios e desceu a pickup. Desci logo atrás dele e vi que o Adam estava encostado ao lado da porta do passageiro, usando um bigode falso e o cabelo todo penteado para trás, grudento, cheio de gel. Novamente, segurei o riso. Quando desci, ele olhou para mim, fez um sinal com o polegar e o indicador que interpretei como sendo 'bom trabalho'. Ele piscou para mim e foi até o rapaz que já estava com as duas malas nas mãos.
"Quem é você?" perguntou o rapaz olhando para o Adam sem soltar as malas.
"Eu sou o dono da pickup." disse o Adam com naturalidade. "E você, quem é?"
"Como? Eu sou o dono da pickup!" gritou o rapaz com preocupação e um olhar perdido. Seus olhos dançavam, apontando para o Adam, para mim, depois para o Adam outra vez.
"Não. Não é mais." o Adam disse exibindo um sorriso cínico no rosto. Eu vi o espanto nos olhos do rapaz que deixou as malas caírem no chão, cada uma ao lado de seus pés. O Adam apontava uma arma para ele discretamente, e eu vi o rapaz recuando, um, dois, três passos.
"Tudo bem, cara. Tudo bem, é sua!" havia desespero na voz do rapaz. Ele ameaçou erguer as mãos em forma de rendição, mas não o fez. "As chaves estão na ignição, pode ir."
"Querida, pode conferir isso para mim?" pediu o Adam para mim, sem desviar os olhos de sua vítima.
Não respondi e fui olhar na pickup. Inclinei-me na janela aberta do carro e espiei lá dentro.
"Sim, estão aqui." eu disse a ele. O Adam permaneceu parado, assim como o rapaz assustado. Aproximei-me do rapaz e peguei minhas malas, nem tão pesadas assim. Sorri para ele sinceramente, dei um selinho nele e movi os lábios formando a palavra 'obrigada', mas sem produzir som algum.
Levei as malas até a pickup, joguei-as no banco de trás e esperei pelo Adam. Ele disse alguma coisa ao rapaz, que correu o mais rápido que ele podia. Logo, o Adam estava ao meu lado, girando a chave na ignição.
"Você foi ótima," disse ele para mim.
"Cale a boca..." eu disse retirando a peruca. Ele já havia começado a andar e também havia retirado seu bigode falso.
"Você parecia um cafetão com esse bigode." eu disse.
"Você quer que eu diga também com o que você está parecendo?" ele riu.
Estreitei os olhos para ele e fechei a cara.
"Relaxa, minha princesa." ele disse alisando minha perna, sem tirar os olhos da estrada.
Não respondi e deixei o silêncio amenizar as coisas durante um instante.
"Para onde estamos indo, afinal?" perguntei.
Ele ficou em silêncio e vi seu rosto ficar sério. Aguardei por um segundo.
"Adam...?" insisti.
"Nova York." respondeu ele com a voz baixa, os músculos do maxilar rígidos.
"Nova York?" gritei, mal acreditando no que acabara de ouvir. "Como assim Nova York, Adam? Como você pode fazer isso?"
"Lori, eu ia te contar, mas eu sabia que você não concordaria em voltar para lá."
"Ah, e por isso você decide me levar contra minha vontade?"
"Amor, entenda. O que eu arrumei lá é importante. Preciso ir..." seu tom era calmo, passivo, mas só contribuiu para me deixar mais irritada com ele.
"Que fosse sozinho!" gritei de maneira tão séria que ele olhou para mim. Ficamos nos encarando durante alguns instantes, e ele voltou a olhar para a estrada, mas dessa vez havia algo diferente.
Eu bufei e me encostei com força no banco de couro sintético. Cruzei os braços e foquei em olhar para o lado de fora que já escurecia. Mordi o lábio, segurando as palavras em minha boca. Tentei evitar um choro eminente, mas uma lágrima escapou, e essa lágrima puxou as outras. Não senti o Adam me tocar, nem ouvi sua voz tentando me tranquilizar. Ele devia estar muito confuso. Mas com certeza não tanto quanto eu. Eu estava com raiva e não sei onde essa raiva me levaria. Mas com certeza, não seria para Nova York.
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