Fogo
7 Capítulo 7 – Jantar de noivado part. II
No capítulo anterior...
– Noivado? – perguntou, levemente desconfiada. O maldito Vinicius encarava-a de uma forma bastante bizarra: sem quaisquer emoção; sem mesmo escárnio! Aquilo a estava agoniando.
– Sim. – confirmou sua mãe, Catarina que de alguma forma, olhava-a como se tivesse acabado de matar seu cachorrinho de estimação. – O seu meu amor.
Apesar de não ter colocado nenhuma comida ou bebida na boca, Manuela acabou engasgando-se. A saliva ficou entalada na garganta e sua adorável irmãzinha, na tentativa de socorrê-la, acabou depositando uns murros em suas costas. Os olhos verdes esbugalharam-se tanto que por um momento, Vinni pensou que eles fossem saltar para fora.
– Como assim meu noivado? Isso é algum tipo de piada? É uma porra de um reality show? Que infernos está acontecendo aqui?
E agora...
– Por favor, Manuela. – Catarina lançou um olhar furioso e cheio de significados á filha. – Tenha modos, essa é uma ocasião muito importante para você e o Vinicius.
Ocasião importante para você e o papai, isso sim! Quis dizer a loira, mas apesar de estar cheia de ódio, não conseguiu.
Ela arqueou a sobrancelha e sorriu o sorriso mais falso e sarcástico que conseguiu. Ela estava magoada, furiosa e com vontade de quebrar tudo. Mas conhecia seu pai. Gustavo Lohmann não era conhecido por sua graça e misericórdia e normalmente, estas não eram palavras atribuídas a ele... Ela suspirou fundo, amaldiçoando-se por ter descido as escadas ao invés de pular a janela.
– Se serve de consolo. – Vinicius se pronunciou, aproximando-se perigosamente da garota. – Eu também não queria me casar com você. Mas acho que não tem jeito. – ele franziu o cenho. – Já está tudo decidido...
O sorriso falso alargou-se ainda mais e ela precisou contar até quinze para não voar no pescoço do desgraçado de cabelos loiros.
– Cala a porra da boca, antes que eu corte sua garganta com a faca! – rebateu ela, aos sussurros.
Vinni reprimiu o impulso de gargalhar. Adorava ver a loira tremendo de nervosismo, era incrivelmente prazeroso.
Embora o Albers estivesse odiando, com todas as forças a possibilidade de se casar com Manuela, não pôde deixar de deleitar-se com a idéia de infernizá-la ainda mais. Aquilo serviu como combustível para impulsionar seu brilhante e maquiavélico plano. Ah, aquela garota ia ter enfim o que merecia! Ele sorriu com escárnio, enquanto dava uma garfada na lagosta.
(...)
Duas horas e meios perdidas naquele estúpido jantar. A herdeira da família Lohmann estava puta da vida. E por quê não estaria? Seus pais planejavam sadicamente ferrar – ainda mais – a vida dela...E de um modo, aparentemente irreversível. Por mais que tramasse para dar fim á aquele casamento, e aquele maldito acordo sabia que de nada adiantaria. Seriam apenas tentativas frustradas.
Ela sequer esperou a sobremesa, estava zangada e chateada demais para pensar em comer. Enquanto subia (ou pulava) os degraus, pôde ouvir uma voz extremamente irritante soar atrás de si.
– Ódio dá câncer, menina.
Ela sabia que ele estaria sorrindo. Por isso, não se preocupou em virar para encará-lo. Continuou a subir os degraus, sem perceber que ele estava seguindo-a.
– Imbecil. – murmurou ela, com os punhos cerrados.
– Nervosinha. – Vinni replicou, aos risos. Manuela virou-se abruptamente para fitá-lo, os olhos esverdeados em chamas de puro e intenso ódio. – Sério Lohmann... – ele deu alguns passos para frente, ao que ela recuou alguns vários para trás. – Por que essa cara? Eu sei que você é secretamente apaixonada por mim, não precisa se dar ao trabalho de disfarçar. – e sorriu cinicamente.
Ela arregalou os orbes, estarrecida com as palavras proferidas por ele. Ficou encarando-o perplexa por alguns segundos, antes de explodir em gargalhadas estrondosas.
– Eu? – ela apontou para si, ainda rindo. – Apaixonada... Por você?!– limpou os orbes que estavam marejados. Aquele gracejo foi demais para ela. – Até parece. – continuou rindo. – Não conhecia esse seu lado piadista, amor.
Ele sentiu-se ofendido com as risadas profanas e visivelmente forçadas da garota, mas não deixou transparecer.
– Não precisa mais negar, Manu. Eu sei o quanto você me deseja. – avançou perigosamente em direção a garota, que voltou a recuar.
Assustada com a inesperada aproximação, ela deixou-se encostar na parede. Pronta para socá-lo, se fosse preciso. Ao ouvir as asneiras ditas por ele, a loira não conseguiu evitar as risadas.
– Nem se você fosse o ultimo cara no planeta, Albers. – seu olhar era tão gélido quanto o pólo norte.
– Ah é? – ele sorriu com malicia, aproximando-se cada vez mais do rosto dela. – Nós dois sabemos que isso não é verdade...
– Eu sei que você é um nojento! – explodiu, descontroladamente. – Sai daqui, seu desgraçado! – o empurrou com bastante força, fazendo-o cambalear para trás.
Não surgiu o efeito desejado por ela. Ao invés de se zangar, Vinni riu e riu tão alto que fez com que os ouvidos da jovem doessem fortemente.
– Por que está tão bravinha? Eu nem toquei em você... – ele fez uma pausa, sorrindo, voltando a se aproximar. – Ainda. – e dito isso, avançou rapidamente a puxando pelos braços.
– Me solta seu idiota. Me solta! – gritava ela, irritada, se debatendo nos braços dele. – É sério, Albers, se você não se afastar nos próximos dez segundos eu vou te castrar. – seu rosto estava vermelho em resultado a profunda raiva que sentia, e ela estava falando sério.
– Você fala demais, sabia? – ele ignorou-a piamente, cada vez mais tentado pelo maldito perfume que ela usava. Que porra era aquela? Morango com melancia? Ele podia sentir a boca salivando, em desejo. E sem mais, nem menos, a calou com um beijo.
Se não tivesse ao meu lado você
Que me dá tudo que eu preciso
Com você eu faço do inferno o paraíso
Com você eu faço do inferno o paraíso
Manuela arregalou os olhos ao sentir os lábios dele sob os seus e voltou a se debater, tentando se libertar daqueles braços fortes e daquela maldita boca. Ela tentou inúmeras vezes gritar, mas não conseguiu. Seu corpo traidor reagiu de uma maneira completamente inusitada ao beijo. A língua dele invadiu a sua boca sem permissão, explorando cada canto com uma fúria incontrolável. As mãos dele afrouxaram o aperto em seus pulsos e uma delas subiu até seus cabelos louros, puxando-os com vontade.
Vinicius nunca odiou tanto alguém como naquele estúpido momento. Ele só a beijou forçadamente para provar seu ponto, de que ela era incondicionalmente louca por ele... Não era para estar gostando daquilo. Caralho, pensou, sentindo os olhos fecharem-se involuntariamente. O gosto do beijo dela era diferente de tudo o que já havia provado antes. Era como chocolate branco com recheio, derretendo-se bem devagar em sua boca. Ele sentiu um arrepio percorrer por todo seu corpo e podia jurar, que ela sentia o mesmo.
Era uma sensação inesperada pelos dois. Tão inesperada quanto desgraçada... Agora o beijo era mais urgente, mais desesperador e intenso. As línguas chocavam-se com fúria, as respirações estavam alteradas e as mãos dele percorriam todo o corpo da loira, apalpando as costas e descendo até as nádegas, onde apertou com vontade. Ela por sua vez, travava uma luta interna entre interromper aquele beijo e socar a cara dele ou deixar-se render e ver onde ia parar.
– Gostosa... – murmurou Vinni, com a boca deslizando para o pescoço, dando pequenas mordiscadas.
A loira entrou em combustão. E podia apostar que sua calcinha, aquela altura do campeonato estaria molhada. Recuperando o pouco de juízo que ainda tinha, afastou-se mais do que depressa daquele beijo luxurioso. Sua respiração estava ofegante, os cabelos desgrenhados e seu rosto totalmente corado.
– Filho da puta. – exclamou entre dentes, estapeou a cara dele com força. – Nunca mais se aproxime de mim! – gritou, andando rapidamente em direção ao seu quarto.
– Não tente negar loirinha. – ele rebateu, respirando ofegante. – Eu sei que você gostou! – dissera em tom acusatório.
Manuela não respondeu, ao invés disso bateu a porta com força em sua cara e trancou-a apressadamente, com as mãos tremulas. Temendo que o próprio adentrasse seu quarto e tentasse mais alguma coisa.
Do lado de fora do quarto, Vinicius tinha um sorriso pretensioso nos lábios e um brilho selvagem nos olhos. O beijo dela era desgraçadamente bom. Talvez, aquele casamento arranjado não fosse ser assim tão ruim...
Mulher, cê sabe o que eu vou te dizer
Os seus problema, a gente tem que resolver
Mas deixa pra amanhã, deixa pra amanhã
Porque hoje eu vou te fazer
Mulher, cê sabe o que eu vou te dizer
Os seus problema, a gente tem que resolver
Mas deixa pra amanhã
Porque hoje eu vou te fazer mulher
(...)
– Idiota. Estúpido! – murmurava a loira entre dentes, encolhendo-se no colchão agarrada á um travesseiro.
Seu corpo ainda estava tremulo e sua boca, maldita e traidora, formigava com a lembrança do contato dos lábios dele...Como um cara tão frio podia ser tão quente? A loira soltou inúmeras pragas, pensando nas conseqüências que o casamento trariam. Ela conhecia Vinni bem o suficiente para saber de três coisas
– Ele não ia deixá-la em paz após aquele beijo. Ia perturbá-la e esfregar na cara dela o quanto ela havia gostado...
– Provavelmente contaria a todos, fazendo com que os rumores da suposta paixonite secreta dela fossem reais. E assim, a vida social dela ia sofrer uma guinada indesejada.
– Ele ia fazer aquilo de novo. E ela não tinha muita certeza, se iria impedi-lo.
Quanto tempo faz?
Não importa mais
Você é meu vicio
Assumo e digo mais
Nada teria valor
Se não tivesse ao meu lado você
Que me dá tudo que eu preciso
Com você eu faço do inferno o paraíso
– Merda! – murmurou, enrolando-se com o cobertor.
(...)
Vinni foi embora todo sorridente, sentindo-se inacreditavelmente bem. Quem diria que a louca beijasse tão bem? Foi preciso apenas de um beijo, para que o corpo dele incendiasse...
– Vinicius? – sua mãe o olhou, desconfiada. – Você está bem?
– Estou sim mãe. – ele respondeu prontamente. Pensando em como seria quando se casasse com a loirinha. Talvez, ele pudesse tirar vantagem da situação. Não era uma má idéia. Obrigou-se a dar atenção a própria mãe, tarefa pouco difícil já que ao fechar os olhos, a imagem da loira descompassada e acanhada vinha á sua mente, o deixando excitadíssimo. – Por que a pergunta? – lançou a Eleanor um olhar curioso.
– Você ficou quieto durante todo o jantar e, depois que foi atrás da Lohmann voltou com um sorrisinho muito suspeito. Aconteceu alguma coisa? – indagou com uma sobrancelha arqueada.
– Nada que a senhora deva saber. – ele sorriu ainda mais, levantando-se do sofá e marchando em direção as escadas. – Mas não se preocupe, mãe,não foi nada de grave.
Ela olhou-o cheia de duvidas e suspeitas, mas preferiu ficar quieta.
Ela tem estilo pra fazer você pirar
Não é dessas garotas que só pensam em gastar
Ela sabe o que quer, o que é bom ou não é
Não é só o vestido que monta a mulher
Salto alto é legal, um acessório é normal
Mas sem graça se todas se vestem igual
Adentrou o quarto, com a cabeça nas nuvens e os olhos imediatamente buscaram a janela do outro lado. Bateu a porta com força e rapidamente, apressou-se até seu destino desejado. Surpreendeu-se ao perceber que, ao contrário dele, Manuela não estava muito disposta a repetir a dose. As janelas estavam fechadas e com uma horrenda cortina vermelha, que ele nunca vira antes. Ele franziu o cenho.
Ela estava evitando-o? O beijo tinha sido tão ruim ao ponto dela... Não, não podia ser isso. Ela havia entregado-se deliberadamente aos toques e beijos dele. Ela gostou tanto quanto ele, delirou tanto quanto ele. Ele sabia disso.
Mas, então, por que infernos ela havia decidido – pela primeira vez em anos – fechar a porra da janela? Ele estreitou os olhos, cheios das hipóteses.
Definitivamente, isso não vai ficar assim. Pensou, ponderando se devia ou não invadir sorrateiramente o quarto da garota.
Fale com o autor