Fogo

8 Capítulo 8 – Reações


– Não! Não! – Alicia soluçava muito. – Eu quis. Eu quis e...Me desculpa! Eu sei que você odeia ele. Mas eu gosto dele. Eu gosto de verdade do Vinni. – dizia entre lágrimas.

Manuela não tinha uma resposta para aquilo, portanto limitou-se a abraçar a melhor amiga e deixar que esta chorasse em seu ombro. Queria dizer que ia ficar tudo bem, mas sabia que não ficaria. Porque Vinicius Albers era o ser mais repulsivo da face da terra e se soubesse da paixonite de Alicia, iria usá-la para atingir a loira. Ela entristeceu-se, verdadeiramente pela a amiga.

A vida era realmente irônica, pensou com desgosto. Há tantos caras no mundo e a patricinha foi se apaixonar justo por aquele que nunca poderia ter. Porque ele não era e nem nunca seria o tipo de cara que se limita a ficar com uma garota, podendo ter várias ao seu encalço.

(...)

Manuela enfiou a cara no travesseiro e gritou, enfurecida consigo mesma. Merda! Pensou a loira. Ela tinha deixado Vinicius beijar ela, sabendo que a melhor amiga era afim dele... E agora? Alicia nunca ia perdoar ela. E além do mais, tinha a história do casamento arranjado. Céus, ela estava frita.

Prendeu a respiração, jogando o travesseiro no chão e abrindo os olhos para fitar o teto. A melhor amiga nunca mais ia olhar na cara dela, ela seria obrigada a se casar com o infeliz do Albers e ainda tinha uma questão pendente sondando sua mente: O diário da Maria. Pensar nisso fez com que subitamente a loira se sentasse na cama, levantou o colchão rapidamente para dar uma conferida e acabou se deparando com um caderninho lilás. Revirou os olhos.

Maria é mesmo uma anta! Pensou envaidecida. Deve ter esquecido que o diário estava ali... Manu mordeu os lábios, enquanto pela centésima vez naquela maldita noite, a cena do beijo lhe vinha à cabeça...

Tratou de afastar aqueles pensamentos para o mais longe possível. Não podia ficar repassando aquela maldita cena ou acabaria enlouquecendo.

– Não adianta negar. Eu sei que você gostou loirinha. Argh! Argh!

– Maldito. – murmurou, levantando-se da cama apressadamente. Não podia ficar ali, temia que ele invadisse seu quarto ou qualquer coisa do gênero. Abriu o guarda-roupa e tirou de lá uma mochila pequena, algumas mudas de roupa e um pouco de dinheiro.

Precisava espairecer a cabeça, se divertir e ficar uns dias fora.

–--X---

O loiro soltou inúmeras pragas ao constatar o óbvio: Ela não estava no quarto e, desconfiava muito de que estivesse no andar debaixo da casa. Depois do beijo a loira ficou meio... Desesperada. Ele respirou fundo, crispando os próprios lábios. O quarto estava impregnado com o cheiro dela e isso fez com que seus lábios formigassem, com a lembrança da pele macia e tentadoramente cheirosa.

Merda de garota, pensou estressado. Passou as mãos pelos cabelos, virando-se para a janela. Tinha a ligeira impressão de que ela demoraria muito para voltar para a casa.

Foi quando sentiu algo vibrar incansavelmente dentro de seu bolso. Revirando os olhos, irritado, pegou-o e atendeu.

– Quem é?

– Ué, ta nervosinho? – era Will. O amigo riu. – Liguei só pra te dizer que o bagulho ta feito.

– Que bag.. – Vinni interrompeu-se no meio da frase.

Ele só podia estar se referindo a vingança contra a Lohmann. O marrento sorriu, pensando que toda aquela história estava se tornando cada vez mais terrivelmente interessante.

– Certo. ­– dissera, em meio a risadinhas. – Vou dar uma passadinha ai. Deixa a porta aberta.

E pelo mesmo lugar que entrou, saiu, bastante chateado com o fato da loira encontrar-se fora de seu alcance. Queria tirá-la de seu sistema precisava disso. E que forma melhor, do que dando um ultimo beijo na maldita? Praguejou a si próprio ao perceber a direção de seus pensamentos... Aquela loira era a tentação em forma de gente, não podia negar. Mas ainda sim era cretina, cínica, maluca, psicopata e vingativa. Ele não deveria se deixar abalar por causa de um simples beijo.

E ainda sim...

Suspirou fundo.

–--X---

Alicia estranhou o fato da melhor amiga não atender a nenhuma de suas chamadas. Tentou pelo menos umas quinze vezes consecutivas e em todas as vezes caíra na caixa postal. Ela estreitou os olhos, pensativa. Será que Manuela estava chateada com ela? A patricinha chutou o ar, nervosamente. Não era a intenção da morena chatear a melhor amiga, mas o que poderia fazer? Ela era irrevogavelmente apaixonada pelo Vinni. Nada, nem ninguém seria capaz de mudar isso.

Nem mesmo ele com suas infinitas babaquices. Ela decidiu que o melhor a se fazer era conversar com a loira. Talvez, se explicasse seu ponto a outra deixasse sua chateação de lado. Ou talvez a estapeasse e gritasse dizendo que ela era louca. Ou pior ainda: Talvez Manuela fosse gargalhar, dar um tapinha em seu ombro e dizer “o que a bebida não faz a gente falar”. Era uma possibilidade interessante e bem desejosa pela morena, que estava desesperada.

– Ai migs. Precisamos conversar. – sussurrou, saindo da cama e pegando a bolsinha em cima da sua cabeceira.

–--X---

Maria gritou tão alto que muito provavelmente os chineses conseguiriam ouvi-la. Seu grito era enfurecido e incontestavelmente ameaçador. Seu rosto estava vermelho de raiva e os dentes estavam trincados, rangendo, chocando-se um contra o outro.

Seu diário. Seu tão precioso e querido diário estava com orelha nas folhas, como se alguém tivesse lido-o e esquecido-se por completo de que não se deveria fazer aquilo. E as suas reações começaram a variar, conforme os segundos iam se passando. Primeiro ela ficou muito, muito brava. Como o Hulk e Hércules, saiu quebrando tudo a sua volta e gritando horríveis palavrões, prometendo matar o infeliz que tivesse lido aquilo. Depois ela ficou ansiosa, tremula e visivelmente assustada com a possibilidade de alguém ter lido aquelas confissões e por fim... Ela rendeu-se ao pessimismo supremo: ao choro brando, ao terror incalculável de alguém ter lido aquilo.

– Não... Não. – sussurrava para si, com lágrimas transbordando desenfreadamente por seu rosto. Naquelas páginas haviam diversas revelações: de quando perdeu a virgindade com Pablo, da vez em que jogou milkshake em Gabriel Albers e...

Da sua quedinha pelo professor de espanhol, que resultava em poemas bem sensuais a respeito do dito cujo. Ela jogou inúmeras maldições, enquanto chorava desconcertadamente. Sua vida estava acabada. Aquilo, sem sombra de duvidas ia parar no facebook..

– Não. Não. – repetiu entre soluços. Aquilo não podia acontecer, droga!

Ela estava fudida. Aquele era seu fim. Se seus pais soubessem que ela é afim de caras mais velhos, provavelmente a mandariam para um estúpido convento!

(Dois dias depois)

Vinni estava tão emputecido quanto apreensivo. Fazia quarenta e oito horas desde que vira Manuela e aquilo estava deixando-o bastante nervoso. Todavia, decidiu que não deveria se preocupar. Primeiro porque ela não era problema dele e, segundo porque ela já era bastante grandinha. Sabia se defender... Ou era nisso em que ele queria acreditar.

As coisas estavam indo bem, tirando o fato de que seus pais e os da Manuela acreditavam na possibilidade da maluca ter fugido de casa para não se casar com ele. Isso realmente o abalou. Não porque ele gostasse dela, nem nada do gênero. Mas aquela maldita e inesperada fuga ia fazer com que os planos dele fossem por água abaixo e... Droga! Ele realmente estava afim de infernizá-la.

– E ai cara? – William andava despreocupadamente pelos corredores.

– E ai? – devolveu Vinni, distraidamente.

– Você não sabe o que eu... – Will se interrompeu no meio da frase ao perceber a cara do amigo. – Que que foi? Por que ta com essa cara? – arqueou a sobrancelha, curioso.

– Nada. – apressou-se em dizer, adentrando a sala de aula. Se contasse ao amigo sobre o beijo na Barbie gótica, nunca seria deixado em paz. E no momento, ele já tinha muita coisa com que lidar...

Assim que adentrou a sala de aula, teve uma grande surpresa: Manuela, sentada devidamente em seu lugar... Vestida de uma maneira bem diferente do que o de costume. Ele franziu o cenho.

Manuela estava devidamente sentada em seu lugar, com fones de ouvido e os cabelos amarrados em um rabo de cavalo alto. A calça jeans, já desgastada pelo tempo, ficava bem colada e a blusa...

– Quem vê assim pensa que é intelectual. – dissera, arrancando um dos fones da garota, que ergueu os olhos para encará-lo.

Surpreendentemente, a garota parecia mais ansiosa do que jamais estivera na vida. Ela revirou os olhos com a aproximação dele.

– O que você quer, Albers?

– Onde é que você estava guria? Teus pais estavam me enchendo o saco. – cuspiu a primeira mentira que passou por sua cabeça.

A loira é claro, não acreditou nas palavras dele até porque já tinha mandando um sms pra mãe avisando que passaria um ou dois dias fora. Mas ela resolveu entrar no joguinho dele.

– Eu já falei com eles, não se preocupe. Ainda não será fichado na polícia como seqüestrador. – sorriu com ironia. Ele revirou olhos.

– Nós precisamos conversar. – disse ele, a encarando seriamente.

– Não precisamos não. – replicou a garota, estando ciente de que atrás a melhor amiga observava a cena.

Vinni sorriu cinicamente e se afastou. Só depois a loira compreendeu; ele estava sendo imperativo, logo, não recebia um não como resposta. Suspirou fundo. O dia já não começou bem...