Flowers and Cigarettes
8 Pontos brilhantes no céu
Notas iniciais
8
Poseidon –
— Estou falando serio, para com isso! – ela diz, pulando do sofá e correndo em direção ao corredor.
— Qual é o problema? –eu pergunto seguindo-a.
— Eu não gosto! – ela responde, entrando no meu quarto. Coloco um pé na porta para impedir que ela se tranque dentro dele.
— Para de bobeira! – eu digo tentando empurra a porta.
— Poseidon não! – ela grita, mas está rindo. Ela não sabe o que faz, se ri ou se segura a porta.
— Para de frescura, já fiz isso um monte de vezes e você nunca percebe – eu digo.
Ela para de segurar a porta, abrindo-a de uma vez, seus olhos cinza me encaram denunciando sua irritação.
— Poseidon Jackson, você tira fotos de mim escondido? Que tipo de pervertido é você? – Atena me pergunta.
- Sorria – eu digo segurando a câmera e batendo mais uma foto dela.
— Me dá isso aqui! – ela diz, e agora e minha vez de correr.
Atena tenta pegar a câmera da minha mão, mas eu estico meu braço o máximo que consigo para deixa aquela câmera longe das mãos dela e acho engraço os pulinhos que ela dá na tentativa de tirar a câmera de mim. Reparo que há um espelho na parede do meu lado direito. Levo um susto ao ver a pessoa refletida. Um garoto. De 17 anos, sem fios brancos na cabeça nem cara de cansado. Sou eu. Mas me parece um estranho. Olho para Atena.
— O que foi? – ela pergunta.
Eu tento responder, mas de repente, a imagem treme, sai de foco, volta o foca e sai do foco novamente. Quando o foco volta, Atena sumiu não a vejo em lugar algum.
— Atena? – eu a chamo. A imagem treme três vezes seguidas.
— Apenas vá embora – ouço a voz de Atena. Ela está triste e com raiva, mas eu não consigo vê-la. Tudo sai de foco mais uma vez, e eu acordo.
Estou na minha cama que se mexe um pouco por causa do movimento do barco, estou ofegante e suando frio, meus olhos levam alguns instantes para se adaptar a luz. Que sonho foi esse?
O livro está caído no meu colo esperando para ser terminado, mas não consigo ler mais nada, não estou com cabeça para isso. Não estou com cabeça para nada.
Annabeth –
— Eu e você na minha casa depois da aula, topa? – Percy sussurra no meu ouvido. Estamos escondidos atrás do prédio principal, é tão bom sentir seu corpo perto do meu.
— Sim.. sim.. Não! Droga, não posso – eu respondo.
— O que? Por que? – ele pergunta se afastando de mim. Meu corpo imediatamente sente falta do calor do corpo de Percy, ele se afastou rápido demais, cedo demais, inesperadamente.
— Depois da aula eu tenho treino, e eu prometo para o meu avô que eu o ajudaria na loja e eu ainda quero ensaiar um pouco hoje – eu respondo.
— Treinar o que?
— Entrei para o time de vôlei. Rachel me convidou e eu aceitei.
- Não pode faltar? – ele se pergunta se aproximando de mim novamente. Ele começa a me olhar com aqueles olhos de cão abandonado e eu tenho vontade de ceder.
-
— Eu pos... não posso. – respondo. – Não seria justo com meu avô e nem certo com o resto do time. Entrei para o time agora, vai pegar mal se eu faltar agora.
— Tem certeza? – ele pergunta. Ele está tão perto, tão perto, me tentando, me fazendo ficar nervosa, ansiosa para ele acabar de ver com o resto de espaço entre nós. Mas ele não faz isso.
— Eu tenho que ir embora – eu consigo dizer.
— Você não quer ir – ele diz, é uma afirmação, não uma pergunta.
— Eu disse que eu tenho que ir, não que eu quero – eu digo, e dessa vez sou eu que se afasta dele, porque eu já sei que eu não o fizer agora, Percy vai me segurar aqui. – Tchau.
Pego minha mochila e saio. Por incrível que pareça, essa coisa de amizade colorida está funcionando muito bem para mim, os amigos de Percy agora estão começando a ser meus amigos. Quando Rachel me chamou para fazer parte do time de vôlei, quase chorei de emoção (ok, não foi bem assim).
*~~*
Estou cansada. Muito cansada. O treino do vôlei foi muito puxado e trabalhar na loja também não foi nada fácil. Quem diria que trabalhar com flores seria tão cansativo. E nem tive tento de ensaiar.
— Sua mãe falou comigo – Thalia diz, estamos em uma das estufas arrumando as coisas, preparando para fechar.
— Falou o que? – eu pergunto sem muito interesse.
— Se você gostou da festa na praia semana passada – Thalia responde.
— O que você respondeu? – eu pergunto tentando permanecer calma.
— Que você pareceu gostar bastante.
— Você falou alguma coisa sobre Percy?
— Não. Devia?
— Não! Quer dizer... não... Não teria problema se você tivesse falado sobre ele, mas que bom que você não falou.
— O que há entre você e ele?
— Ele é meu amigo.
— Seu amigo? Eu vi vocês dois dançando naquela festa, não pareciam ser amigos.
— Luke é seu amigo?
— Claro que é.
— Bem, eu vi vocês se agarrando na estufa outro dia, vocês não pareciam ser amigos.
Thalia me encarrou com seus olhos azul-elétrico, eu não sabia se era uma ameaça ou se ela apenas com raiva.
— Eu não contei para ninguém – eu digo. – Nem pretendia.
— Bom mesmo.
— Então você e Luke...?
-A gente fica as vezes...
— Ah ta...
— Você e Percy?
— Amigos. Apenas amigos.
— Ta bom, acredito. Você não precisa me dizer a verdade, não sou sua amiga nem nada.
— Poderíamos ser amigas – eu comento. Já acabamos de arrumar tudo e caminhamos para fora da estufa.
— É.. poderíamos – Thalia diz pensativa. – Eu tenho que ir para casa agora. Tchau.
— Eu também, tchau.
Antes de sair Thalia pega me celular sem nenhum aviso e grava seu número nele, acho que isso quer dizer que ela quer ser minha amiga. A maioria dos funcionários já tinha ido embora, minha mãe já tinha ido para casa a uma hora atrás.
— Ai que fome! – eu falo em voz para ninguém em particular.
— Vamos comer alguma coisa? – diz Luke do lado. Nem o percebi ali.
— Claro – minha fome responde por mim, nem penso antes de falar. Mas não há nenhum problema em sair para comer alguma coisa com Luke, já que ele é meu amigo.
— Vamos Annabeth, vou te levar para comer a melhor pizza da cidade – ele diz me pegando pelo braço.
Depois de avisar meu avô e pegar minhas coisas, saio com Luke. Acho que é a primeira vez que eu reparo como a cidade é de noite. Vários postes antigos iluminam a rua e as casa e comércios, das quais grande parte ainda são de tijolos vermelhos ou cinzas expostos. É tão bonito. É a primeira vez que a tranquilidade da cidade não me incomoda. Acho que estou me adaptando.
Conversar com Luke é fácil, é como se fossemos amigos a muito tempo. É simples. Os assuntos surgem um atrás do outro e quando menos percebo, trocamos um olhar e começamos a rir sem motivo. Na pizzaria, pegamos uma mesa do lado de fora porque essa é uma noite quente e abafada. Luke me faz rir e engasgar com o refrigerante e sujar minha camisa. Em uma situação normal, eu estaria envergonha e me sentindo idiota por já ser tão velha e ainda me sujar quando como fora, mas isso não aconteceu. A pizza é muito boa e nem vejo o tempo passar.
— Já está ficando tarde – Luke comenta.
— Preciso dormir, preciso da minha cama – eu digo levantando. Luke me ignora quando eu lhe entrego parte do dinheiro, ele simplesmente me deixa porta parada com cara de pastel, e vai pagar a contar sozinho.
— Vamos embora – ele diz como se nada tivesse acontecido.
— Luke eu...
— Eu te convidei para jantar, eu pago a conta. Esse é o certo.
— Ok, da próxima vez, eu pago – eu rebato. Somos amigos, não tem nada de errado em dividirmos a conta.
— Ótimo, não vou deixar você esquecer isso – ele fala.
Percy –
Três vezes na semana, eu trabalho no supermercado da cidade. Como Annabeth estava ocupada e eu não tinha nada melhor para fazer o resto do dia, então eu fui trabalhar.
Voltando para casa, decido que seria interessante passar na Little Paradise de surpresa para ver Annabeth, mas a encontro antes de chegar lá. Em uma pizzaria. Com Luke.
Eles estão conversando e rindo. Toda vez que eu os vejo, eles estão rindo. O que há de tão engraçado? Annabeth está feliz, está tranquila. Isso me incomoda. Não é ciúmes nem nada do tipo.
Uma pequena parte de mim se sente estressado, se sente deixado de lado. Parte de mim sente que Annabeth escolheu sair com Luke do que ficar comigo. Mas eu sei que não é verdade. Eu sei que não é bem assim.
Somos amigos que ficamos as vezes. Somos essa babaquice de “amigos coloridos”, Annabeth é minha amiga. É também é amiga de outras pessoas, e além disso, Luke trabalha com ela, são colegas de trabalho, e é normal colegas de trabalho saírem para comer.
E mesmo com todos esses argumentos, meu incomodo não vai embora. Tento me distrair, pensando em outras coisas, acendi um cigarro e continuei a ir para casa.
Mas assim que entrei em casa, peguei a chave do carro e saio de novo. E quando percebo, estou na porta da casa de Annabeth. Por que estou aqui? Porque quero falar com ela. Falar o que? Sei lá, qualquer coisa.
Saio do carro e penso em um modo de chamar sua atenção. Apenas uma janela está acessa e eu me arrisco jogando uma pedrinha nela. Demora quase 2 minutos até Annabeth aparecer na janela.
— Percy? – ela diz ao me ver. – O que está fazendo aqui? – ela pergunta movimentando a boca sem fazer som.
— Quero falar com você – eu respondo do mesmo jeito, sem fazer som.
— O que?
— Quero falar com você! – eu digo mais alto.
— Cala a boca! – ela diz alto também.
— Vem aqui! – eu a chamo.
— Droga, ta bom. Espera ai – ela diz, saindo da janela.
Logo depois ela aparece na porta da frente, ela usa pantufas cor-de-rosa, uma camisa duas vezes maior do que ela e um shorts do Pooh. Ela anda na minha direção, está irritada e confusa.
— O que você quer? – ela pergunta.
— Quero falar com você – eu digo pela terceira vez.
— Sabia que existe uma coisa chamada celular? As pessoas se comunicam usando isso.
— Desculpa, mas que queria conversar com você pessoalmente.
— Falar o que?
Não respondo. Falar o que?
— Vamos dar um volta? – eu pergunto apontando para o carro.
— Percy, já é tarde. Estou cansada pra caramba e eu não quero nem pensar no que minha mãe vai fazer se te encontrar aqui.
— Então é melhor a gente ir logo – eu falo abrindo a porta do carro. Por algum motivo, eu sei que ela não vai dizer não e Annabeth não me decepciona. Ela hesita, olha para a porta de sua casa, e então entra no carro.
— Aconteceu alguma coisa? – ela pergunta.
— Não. Quando eu estava voltando para casa eu vi você. Com Luke.
— Era sobre isso que você queria falar? – ela pergunta.
— Vocês estavam se divertindo.
— Percy, tem algum problema eu sair com Luke? Ou com qualquer outro garoto?
— Não. Não, de jeito nenhum. Eu só... é que... Eu te convidei para passar o dia comigo na minha casa, mas você escolheu jantar com Luke.
Annabeth começou a rir olhando para mim. Olhei feio para ela porque não pude evitar. O que é tão engraçado?
— Qual é a graça?
— Você com ciúmes ou algo do tipo? – ela pergunta segurando a risada.
— O QUE? Eu com ciúmes? Isso é uma piada? Faça-me o favor Annabeth, que coisa mais sem noção.
O incomodo que eu senti não é ciúmes. Certo? Quer dizer, se fosse ciúmes, o que não é o caso, eu saberia. E só para repetir: esse não é caso. Por que ela sempre sorri quando está com Luke? O que existe de tão interessante nele? Eu nunca percebi nada. Nenhum atrativo em especial. Tudo bem que eu já vi mais um garota babando por ele uma vez ou outra no corredor, mas isso não é grande coisa. Sou muito mais legal do que Luke. Não entendo por que Annabeth escolheria ele a mim, mas agora chamar isso de ciúmes? Já é demais.
— Ok. Ok. Não é ciúmes, eu acredito. Mas eu acho que você deve saber que estávamos fechando a loja e ele me chamou para comer alguma coisa. Só isso.
— Isso não me importa.
— Foi você que começou a falar sobre isso!
— Chegamos – eu digo mudando de assunto.
— É a sua casa – ela fala ao sair do carro. – Percy por que você me trouxe aqui?
— Eu quero te mostrar uma coisa.
Pego a mão de Annabeth e a faço me seguir. Passamos reto pela minha casa, indo direto para os fundos. Subimos o pequeno monte de areia e continuamos andando até encontrar as primeiras arvores.
— Confia em mim? – eu pergunto.
— Eu.. é... sim. Acho que sim – ela responde.
— Fecha os olhos então – eu digo. – É um tipo de surpresa.
— Tudo bem – ela diz fechando os olhos.
Eu vou guiando-a pelo caminho, sempre verificando se ela continua de olhos fechados. Ela segura forte minha mão e hesita um pouco a cada passo.
— Pode abrir os olhos – eu digo.
Annabeth –
Quando eu abro os olhos não percebo nada em especial. O solo é gramado e existem arvores ao redor, e a lua ilumina tudo. Então eu vejo um ponto brilhante perto de uma arvore. Primeiro penso que é algo da minha imaginação. Mas o ponto se multiplica, e mais uma vez e quando vejo estou cercada por vários pontos brilhantes.
Vagalumes.
Vários deles. Eles vem de todos os lados, eu simplesmente não acredito nos meus olhos, é...
— Incrivel – eu falo em voz baixa. – Percy, é lindo – eu me viro na sua direção. Ele está um pouco afastado só me observando.
Os vagalumes iluminam o mundo. Então eu tenho um flash. Alguma coisa na minha cabeça também se ilumina.
— Percy, eu já vi isso – eu digo me aproximando dele. – Uma vez, quando eu era bem pequena, eu vi esses vagalumes. Na primeira vez que eu vim aqui! Eu lembro!
— Esses vagalumes aparecem raramente, duas vezes por anos, e as vezes nem aparecem. É a primeira vez que eu vejo tantos.
Eu sento na grama, olhando para o céu. Confundir os vagalumes com as estrelas é tão fácil. Percy senta do meu lado, e lentamente deitamos na grama.
— Quantas pessoas no mundo têm a chance de ver algo assim? – eu pergunto.
— Poucas.
— Obrigada por me mostrar isso.
— De nada.
Ficamos em silêncio apenas olhando para os vagalumes e as estrelas.
— Percy?
— Sim?
— Onde está seu pai?
— No mar. Por três dias.
— Você está sozinho?
— Sim.
— Você foi me buscar porque não quer ficar sozinho?
— Acho que sim.
— Você me quer aqui como amiga ou como amiga colorida.
— Tanto faz.
— Essa resposta não vale.
— Quero como as duas – ele responde virando a cabeça na minha direção, me olhando.
— Tudo bem. Não vou te deixar sozinha. Como amiga – eu respondo.
— Que bom. Fico feliz por não estar sozinho.
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