Atena–

Acordo sobressaltada. Meu coração bate depressa demais, como se quisesse sair de dentro do meu peito. Minha respiração está acelerada como se não houvesse oxigênio o bastante no quarto. Me sinto frágil, indefesa, assustada. Estou com medo de que o sonho ainda não tenha acabado. Sonho. Foi um pesadelo.

Tinha começado bem. Bem demais. Eu, andando com aquele jovem quase 20 anos mais novo do que eu. De mãos dadas. Felizes. Eu esqueço do mundo toda vez que olhos em seus olhos. Verdes. Intensos. Brilhantes. Parece até uma cena de filme, estávamos correndo, tentando fugir da chuva, de mãos dadas. Sua mão me da segurança, eu gosto de segura-la. Paramos debaixo de uma grande e velha arvore. Acho que li algo sobre não se abrigar perto de arvore durante tempestades, mas não lembro o motivo.

– Você está com frio — ele diz.

– Não. — eu minto. — Estou bem. — meu corpo diz o contrario. Estou tremendo com as roupas e cabelo completamente molhados.

– Vem cá — ele diz me puxando para mais perto, me abraçando.

Me surpreendo ao sentir seu corpo tão quente contra o meu, congelado.

– Melhorou? — ele perguntou.

– Sim. Muito melhor — eu respondo. Estamos tão juntos, minha cabeça esta no seu peito e eu posso ouvir seu coração batendo. Acho tão injusto seu coração não bater de modo desregulado como o meu.

Lembrei porque se abrigar em arvores não é seguro. Raios. Trovões. Arvores os atraem.

E foi isso que aconteceu. Um raio atingiu uma arvore próxima da nossa, partindo-a no meio. Meu grito fica preso na minha garganta. Ele me segura mais forte, me protegendo. A arvore começa a pegar fogo, um tipo de fogo que a chuva não consegue lutar contra. Mas a parte ruim começa agora. O pesadelo começa agora.

Uma pessoa sai das chamas. É um homem. Ele é alto e magro, em boa forma para a idade, deve estar na casa dos 40. Eu o reconheço no momento que vejo seus olhos. Dourados. No fundo sei que seus olhos são âmbar tão claros, que parecem ser dourados.

– Atena querida, cheguei em má hora? — ele pergunta se aproximando de nós. -Quem é ele?

– Vai embora — é tudo que falo. Quero que ele suma, que ele desapareça, eu consigo sentir a maldade que vem dele, de dentro de sua alma. Isso me faz sentir enjoada. Doente.

– Você já foi mais carinhosa comigo — ele diz. Cronos diz. Eu o odeio. Eu o odeio.

– Fica longe — diz o jovem com que estou abraçada.

– Com licença, isso é uma conversa particular — Cronos diz, e atira nele.

O primeiro grito que ficou preso na minha garganta sai com duas vezes mais forte e alto. Quando vejo seu corpo no chão, eu o reconheço. Deus, como fui idiota. Como eu não percebi que era Poseidon? Um Poseidon jovem que minha mente tinha passado muito tempo decorando seu rosto e mais tempo ainda tentando apaga-lo.

Seus olhos verdes não brilham mais. Toda a cor sumiu, ele virou uma imagem cinza. Ele morreu. Vermelho não se mistura com verde, se sangue se destaca contra a grama verde. Seu sangue está nas minhas mãos, na minha roupa, em todo lugar. Ele morreu. Poseidon morreu. É minha culpa.

– Voltando ao assunto — diz Cronos como se nada anormal tivesse acontecido. — Ainda bem que eu te encontrei. Estava com saudades.

Poseidon morreu. Isso não podia ter acontecido. Parte da minha alma também morreu. Mas a parte sobrevivente está com raiva. Está odiando. Quer matar Cronos.

Ele vem na minha direção e tenta me abraça, mas eu me rebelo, me debato, chuto e grito. Eu sinto dor quando Cronos me toca. É como se minha pela queimasse.

– Atena, para que tudo isso? Esqueceu que somos casados? Lembra-se, vou estar na sua vida até que a morte nos separe...

Abandono minha cama, mas o fogo, sangue e dor não me deixaram. Estou assustada, com medo de que Cronos saia de um sombra e venha me perturbar. Ando pela casa e encontro Annabeth na sala de estar.

– Oi mãe — ela diz.

– Oi. — eu digo me sentando ao seu lado no sofá. — Também sem sono?

– Pois é — ela responde. Ainda é muito cedo, o sol nem nasceu ainda. — Mãe, você chorou de novo?

Passo a mão no rosto e sinto que está molhada, o pesadelo me fez chorar e nem percebi.

– Foi só um sonha ruim. Já acabou.

Annabeth -

Meu corpo congela no momento em que vejo minha mãe entrando na sala de estar. Fazia menos de 10 minutos que Percy tinha me deixado na porta de casa. Não quero nem pensar no que minha faria se descobrisse onde eu estava. Mas meu medo e receio morre quando vejo melhor minha mãe e percebo que ela está chorando. Ela nunca me fala o motivo. Isso me irrita, me sinto frustrada, como se não fosse boa o bastante para ela compartilhar o que está acontecendo.

Foi a segunda noite que passei com Percy, hoje a noite seu pai volta. É estranho estar perto de Percy e não beija-lo, mas quando digo “estranho” digo no bom sentido. É legal ficar sentado com ele no sofá assistindo filmes, conversar e rir, como amigos, apenas amigos e não amigos-coloridos. Parece que nos damos melhor como “apenas amigos” do que como “amigos-coloridos”. Estar com Percy me faz perder o medo do mundo. Me faz sentir que posso fazer tudo, falar tudo.

Sento com minha mãe no sofá, nenhuma de nós está com vontade de ver televisão, então ficamos olhando para a janela esperando o sol aparecer. É bom ficar em silêncio algum tempo. Somente com seus pensamentos rodando dentro da sua cabeça.

Não sei exatamente quando eu cai no sono novamente, mas pareceu que foi por tão pouco tempo, 5 minutos. Mas foram por quase 2 horas. Meu avó estranhou quando entrou na sala e encontrou eu minha mãe deitadas no sofá dormindo, mas não comentou nada.

Mesmo não tendo dormido direito, me arrumei e fui para a escola. Minha mãe não falou muito comigo até o momento em que sai de casa, eu já não sabia o que fazer. Mas tudo bem, se ela queria ter os segredos dela, eu também teria os meus. Pouco antes de chegar na escola, um carro para ao meu lado, e eu sei quem está dentro dele. Abro a porta e entro no carro, não consigo segurar o sorriso ao ver Percy sorrindo para mim.

– Bom dia –eu digo.

– De fato, é um bom dia – ele diz. – Como foi sua noite? Dormiu bem? – ele pergunta, como se tivesse esquecido que menos de 4 horas atrás, eu estava com ele.

– Sim, na verdade muito bem. Passei a noite com um cara. Jogamos um pouco de videogames, comemos besteiras.

– É mesmo? Como é esse cara?

– Como ele é? Ah... ele é legal.

– Só legal?

– É engraçado também.

– Só isso? Ele não é... sei lá... bonitão?

– Ok, Percy, você está forçando demais – eu disse rindo.

– Não precisa dizer, eu sei que sou – ele respondeu, convencido.

– Nossa, que bem você não é nem um pouco convencido, né? – eu disse.

– Acho que posso convencer você também – ele disse então me puxou e me beijou.

Por alguns minutos, enquanto conversávamos, eu tinha esquecido que éramos “amigos coloridos”, então quando ele me beijou eu levei um leve susto. Fazia um bom tempo que não fazíamos isso. E eu não conseguia lembro o motivo.

– Acho que ainda não estou completamente convencida – eu disse, e dessa vez, eu o beijei. Eu gostava do modo como ele me segurava, cada vez mais perto, firmemente,eu podia sentir seu cheiro e depois de passar tanto tempo com ele, isso já era familiar e beija-lo era tão incrível.

– Meu pai volta para casa hoje – ele disse se separando de mim.

– Oh – foi tudo o que eu disse.

– Eu queria te agradecer por ter me ficado comigo esses dias. Você não precisava ter feito isso.

– Eu sei. Mas eu quis. Você é meu único amigo aqui, ainda estou conhecendo os outros, e é isso que amigos fazem.

– Você é uma boa amiga.

– Você também.

– Mas eu tenho admitir que eu estava realmente curtindo ser seu “amigo colorido” alguns minutos atrás – ele sorriu, e eu nem preciso dizer o que aconteceu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.