Annabeth –

Agora estou deitada na minha cama no meu novo quarto na casa do meu avô. É um quarto simples, com as paredes brancas, um guarda-roupas de madeira em uma parede, a cama com estrutura de metal pintada de branco e um criado mudo. Caixas com minhas coisas estão no chão, ainda intocadas. Não estou realmente com vontade de arrumar minhas coisas, porque no fundo, lá no fundo, eu tenho um pouco de esperança que minha mãe entre agora mesmo e diga que ela mudou de ideia e que vamos voltar para Nova Iorque. Preciso de uma estante para meus livros, e uma escrivaninha e essas paredes brancas me incomodam, me sinto dentro de um hospital.

Minha mãe se recusa a falar comigo sobre a cena no Dickson’s, sobre Poseidon e filho Percy. Eu percebi que ele afetou ela, minha mãe não conseguiu disfarçar isso. Percy olhou para a nossa pouco antes de ir embora. Ele é alto, com o cabelo escuro e bagunçado e seus olhos são tipo uau. Verdes, brilhantes e vibrantes. Ele parece ser simpático, eu queria ter tido a chance de conversar com ele, ele poderia ser amigo, e nesse momento, seria muito bom ter um.

Cansada de ficar dentro do quarto olhando para o teto, vou para a cozinha onde minha mãe e meu avô estão conversando e rindo.

— Então Annie, já está arrumando suas coisas? – pergunta meu avô.

— Estou indo aos poucos – eu respondo.

— Você ainda nem abriu as caixas não é? – diz minha mãe.

— É – eu respondo e sinceramente, nem quero saber como ela sabe disso.

— Vamos visitar a loja do seu avô? – minha mãe pergunta.

— Aposto que você nunca viu flores tão lindas como aquelas – completa meu avô. Ele é dono da maior e única floricultura da cidade

— Claro, por que não? – eu digo. Sair de casa parece uma boa opção.

Minha mãe pegou as chaves do carro e saímos. St. Carter é um lugar bonito com uma praia, é simples e cativante, também calmo, e isso me incomoda um pouco. Sou tão acostumada aos caos sonoro de Nova Iorque, a agitação, a pressa que essa cidadezinha parece um pais diferente para mim.

O carro parou na frente de uma loja feita de blocos de pedra cinza e fria, do lado de fora mesas de diferentes tamanhos continham vasos com diversas flores. As flores estavam colocadas de acordo com suas cores, formando um arco-íris, e aquilo era lindo. As cores se destacam contra o cinza da parede. Acima da porta dupla de vidra está uma placa de madeira grande escrito “Little Paradise”.

— O nome é perfeito- eu digo para ninguém especial. Como eu nunca vim a esse lugar?

Meu avô e minha mãe passam na minha frente, entrando na loja. Dentro da loja acontece uma pequena agitação, com alguns funcionários, usando uma camisa laranja, andando de um lado para o outro cuidando das flores e clientes escolhendo. A loja por dentro é tão linda por dentro quanto por fora, é uma grande mistura de cores e cheiros, eu não sabia que existem tantos tipos diferentes de flores.

— Zeus! Você finalmente chegou – exclama uma mulher, ela vem na nossa direção e eu logo a conheço. Hera. A esposa/sócia do meu avô. Na verdade, eles não eram casados, mas eu sempre digo que eles são casados porque namoram a mais de dez anos. Wow, Zeus está enrolando Hera a dez anos e ela continua com ele.

— Dia movimentado – meu avô fala olhando ao redor. – Olha quem eu trouxe – então ele aponta para minha mãe.

Hera fica sem expressão. Ela não gosta muito da minha mãe, e tudo bem, minha mãe também não é a maior fã dela.

— Olá Atena – Hera diz com educação e até dá um abraço na minha mãe. – E Annabeth.

— Oi – eu digo.

— Alguém viu Luke? – pergunta uma garota. Ela tem a minha altura, tem o cabelo preto, curto e repicado, seus olhos são incríveis, azul-escuro, intensos. Ela exagerou um pouco no delineador.

— Ele foi fazer uma entrega Thalia – responde Hera.

- Faz quase meia hora, aonde ele foi entregar isso? Na Groelândia?

— Thalia, vem aqui – chama Zeus.

Thalia se arrasta até nós. Ela me encara com todo seu estilo punk.

— Você não conhece minha filha e minha neta – meu avô fala. – Atena e Annabeth.

— E ai – diz Thalia.

— Sabe Thalia, Annabeth vai estudar na mesma escola que você, e ela é nova na cidade, acho que você seria uma boa companheira para ela – diz meu avô.

— Vou ganhar um aumento para fazer isso? – Thalia pergunta.

— Podemos conversar sobre isso – responde Zeus.

— Bem-vinda a cidade – Thalia me diz, com aquilo que eu acho que é um sorriso, e volta ao trabalho.

Minha mãe, meu avô e Hera começam a conversar sobre alguém que eu não conheço, e isso cria uma ponte sobre um monte de pessoas que eu não conheço. Resolvo sair da loja para respirar um pouco de ar sem polén.

Quando chego na porta, duas abelhas começam a redor tento espanta-las, mas só as aproxima.

— Mas que droga, saiam daqui – eu digo, mas sou ignorada.

E por culpa das abelhas, eu acabo coberta de terra. Distraída com elas não vi que na minha frente vinha uma pessoa carregando um saco pesado de terra. Resultado? O obvio. Eu esbarrei na pessoa, caio no chão e fiquei toda suja de terra porque o saco rasgou. Só para constar: terra tem um gosto horrível.

— Nossa, você se machucou? – alguém pergunta, me pegando pelo braço e me colocando de pé. Estou um pouco tonta, mas ilesa.

— Hum.. não. Estou bem – eu digo olhando para a pessoa.

Ele é garoto, mais velho do que eu, olhos azuis e cabelo loiro, cor de areia. Bonito. Muito. Ele tem uma cicatriz do lado direito do rosto. Ele me olha preocupado.

— Annie! – minha mãe aparece.

— Luke, o que é isso? – pergunta Hera.

— Foi minha culpa – eu respondo.

— Não a culpa foi minha – diz o garoto, Luke. – Eu devia ter prestado atenção.

— Não. Minha culpa. Culpa das abelhas na verdade.

— Foi um acidente, nenhum dos dois é culpado – diz Zeus.

— Jeito caloroso de dar as boas-vindas Luke – diz Thalia, que está atrás de Zeus.

— Quieta Thalia – Luke responde. – Me desculpe – ele diz para mim.

— Tudo bem, é só terra – eu digo jogando o cabelo para frente, e quantidade de terra que sai dele dá para começar uma plantação de milho. Ok, exagerei, mesmo assim, ainda sim é muita terra.

Otimo primeiro dia em St. Carter, me pergunto como será o resto do ano.

Poseidon –

Ela continua a mesma. O modo de andar, de falar, de sorrir. Ainda me pergunto se é algum tipo de sonho e que a qualquer momento eu vou acordar e perceber que ela não voltou. Não seria a primeira vez.

— Poseidon! – Dionísio me chama, me trazendo para a realidade. E nesse momento a realidade se resume a isso: quatro caras de meia idade na sala de estar bebendo cerveja e vejo o jogo de futebol.

— O que você andou fumando? – pergunta Hefesto. – Você está perdido hoje.

Considero se devo ou não contar para eles. Dionísio, Hefesto e Ares são meu amigos próximos. E conhecem Atena.

— É mulher, tenho certeza – diz Ares, sem tirar os olhos da tela e bebe um gole de cerveja.

— Então Poseidon, quem é a da vez? – pergunta Hefesto, sem dar muita atenção.

Me afundo no sofá e fico olhando para minha camisa havaiana. São meus amigos, e eles vão saber de qualquer jeito, então não faz diferença nenhuma.

— Atena Maxwell voltou para a cidade – eu digo, mas minhas palavras são abafadas pelos gritos dos meus companheiros que xingam o juiz.

E um minuto depois silêncio. Todos olham para mim. Ares colocou a televisão no mudo.

— Ele acabou de dizer Atena Maxwell? – pergunta Ares para Hefesto.

— Tenho quase certeza que sim – responde Dionísio.

— É, é isso mesmo, vocês me ouviram, Atena Maxwell voltou. – eu repito.

— Como você sabe? Quem te contou? – pergunta Hefesto.

— Eu a encontrei no Dickson’s. Eu estava lá com Percy, calmamente comendo meu café da manhã e de repente ela entra.

— Certeza de que era ela? – pergunta Dionísio com sua taça de vinho na mão.

— Eu falei com ela. – eu digo sem olhar para eles.

— Falou com ela? – os três repetem. Isso já está ficando ridículo.

— Sim. Parece que ela voltou para ficar.

— Ela te contou isso?

— A filha dela?

— A garota é a copia da mãe, versão loira – eu digo.

— E como você está? – pergunta Hefesto.

— Bem, por que? – eu digo, me fazendo de idiota, eu sei o que ele quer dizer.

— Esse é o meu garoto, deixando o passado para trás. – diz Ares dando um tapinha no meu ombro.

Voltamos ao jogo, faço possível para não pensar em Atena. Ela tinha ficado longe dos meus pensamentos por tantos anos, mas nos poucos minutos que falei conversei com ela, foram o bastante para ela criar residência na minha cabeça.

— Então... – começou Ares. – como ela está?

— Quem?

— Atena.

- O que você quer dizer? – pergunto.

— Fisicamente – ele responde e eu finalmente entendo o que ele quer dizer. Seguro o impulso de dar um soco em seu braço e me volto para a televisão.

— Aceitável – eu respondo. Não vou dar o gosto de falar que ela está linda, especialmente para Ares, que é um grande canalha.

O assunto acaba e não falamos mais nada além de palavrões até o jogo acabar. O time de Dionísio ganhou, e isso quer dizer que ele ganhou a aposta. Fico 50 dólares mais pobre.

— Não faça essa cara de triste, sei que você tem outro motivo para sorrir – diz Dionísio quando me aproximo com o dinheiro. Ele fala de Atena.

— Não sei o que você está pensando, mas não vai acontecer. – eu digo lhe entregando o dinheiro.

— Aposto o dobro que vai – ele desafia.