Annabeth —

A voz de Bruce Springsteen soava alto no carro e minha mãe cantava com ele, a janela do carro estava aberta e o vento bagunçava seu cabelo e naquele momento, usando óculos escuros, com o cabelo bagunçado e sorrindo, minha mãe parecia feliz. Meu coração sentiu um pequeno conforto. Depois de meses de tristeza e solidão, agora minha sorria com a alma.

— Annie, estou tão ansiosa, estamos chegando – ela diz para mim, com uma mão no volante e a outra dando um aperto amigável na minha perna.

Apenas sorri de volta. Meu coração ainda está em Nova York, sentado em alguma calçada da Times Square, perdido e abandonado, mas aqui estou eu a caminho de uma pequena cidade litorânea, St. Carter, no estado do Maine. Segundo minha mãe, eu já estive lá algumas vezes, mas quando era bem pequena, e isso quer dizer que eu já não me lembro de nada. Mas eu quero algo para lembrar, eu também quero ter essa sensação de “retorno” que minha mãe está sentindo. Perguntei sobre como St. Carter é, esperando por algo que fizesse minha memoria entrar em ação, mas.... nada acontece.

Minha mãe acabou de se divorciar do seu segundo marido, o primeiro foi meu pai. Eric, o segundo marido, era um homem controlador, abusivo, nunca gostei dele e nunca entendi o que minha mãe, uma mulher independente, jovem e inteligente viu nele. Mas seja lá o que for, isso acabou. Involuntariamente coloco a mão no ombro direto, onde uma nova cicatriz repousa, sendo a prova de que isso acabou.

Atena –

Sinto minha barriga se revirar e não é somente de fome. O nervosismo e a ansiedade atacam minha barriga e minhas mãos quando vejo a placa: Bem-Vindo a St. Carter.

Bem-Vinda? Eu? Será?

Digo a mim mesma que já é hora de deixar isso para trás, tudo o que aconteceu, aconteceu a mais de 17 anos atrás, e além disso, eu não devo me apegar ao passado assim. Em uma tentativa de provar a mim mesma que estou pronta para voltar, assim que chego na cidade, em vez de ir direto para a casa dos meus pais, estaciono na Dickson’s, que para minha surpresa, continua do mesmo jeito.

— Que lugar é esse? – Annie pergunta, tirando os óculos escuros.

— Dickson’s é uma lanchonete que eu adorava vir quando eu morava aqui. E parece que nada mudou. – e de repente, eu já não sinto mais vontade de entrar, ficar observando de fora me satisfaz.

— Que legal, vamos entrar – diz Annie soltando o sinto de segurança.

— O que? Entrar? – eu repito.

— Sim, entrar. Estou com fome. – ela responde. Não tenho certeza se ela realmente está com fome ( ela comeu uma barra de chocolate, um pacote de salgadinhos e duas latas de refrigerante durante o caminho), mas não á duvidas que ela quer entrar. – Por que mãe? Algum problema?

Annabeth me lança seu olhar desafiador. Odeio quando ela faz isso.

— Seu avô está nos esperando... – eu começo, mas ela me interrompe.

— Não acho que ele vai se importar em esperar mais 15 minutos. – ela diz abrindo a porta. – Vem?

Sem outra opção, sai do carro me junto a ela. Annie dá um pequeno sorriso vitorioso. Um pequeno sino toca quando passamos pela porta, e mil e uma lembranças enchem minha cabeça, nem todas boas, e algumas, que levei anos para tirar da minha cabeça, voltam em segundos.

— Não acredito! Atena Maxwell! – diz uma mulher deixando uma bandeja cair no chão.

De repente todos na lanchonete se viram para mim.

— Não sabia que você era popular assim – fala Annabeth.

Mas não dou atenção, porque do outro lado da lanchonete, ele me olha, com aqueles mesmo olhos verdes que eu evitei por tanto tempo. Droga Annabeth, entrar aqui não foi uma boa ideia.

Percy –

Foi ideia do meu pai tomar café da manhã no Dickson’s, e eu não faço nenhuma objeção já tenho algumas coisas para fazer na cidade. Meu pai sempre conta alguma historia de quando ele era jovem quando vamos ao Dickson’s e dessa vez não seria diferente. Enquanto espero meu pedido chegar, olho no meu celular e vejo que recebi duas mensagens de Nico. Meu pedido chega e resolvo olhar as mensagens depois de comer.

O bacon do Dickson’s era simplesmente o melhor, e quanto comemos, meu pai conta sobre a vez que ficou de suspensão por ter trocado a fita de historia sobre a guerra civil por um filme pornô. Eu já estou engasgando com a comida.

— Então a professora tentou tirar o filme, e a risada da classe se misturava com os gemidos da atriz, e umas vinte pessoas de outra sala pararam para o que estavam acontecendo, ai... – ele para de falar. O sino da porta tocou e meu pai para de falar, me viro para ver quem entrou e vejo duas mulheres desconhecidas.

— Não acredito! Atena Maxwell! – diz a Sr. Kellys derrubando sua bandeja.

— Nem eu – meu pai sussurra, falando consigo mesmo.

Uma das mulheres, a mais velha, tem o cabelo escuro e comprido preso em um rabo-de-cavalo, ela usa um vestido branco com flores vermelhas. Parece nervosa. A garota ao seu lado é sua filha. Sei disso porque ela é a copia da mais velha, só que em uma versão loira, mais jovem e um pouco mais relaxada. Seu cabelo é loiro com cachos, mas são seus olhos que me chamam a atenção. São cinza, como uma tempestade. Ela usa jeans e uma camisa simples e parece despreocupada.

Ela fala algo para a mãe, que não presta atenção porque está olhando para a minha mesa, especificamente para o meu pai.

— Você as conhece? – eu pergunto, mas sou ignorado.

— Já venho filho – meu pai diz se levantando. Não sei o que ele pensou, mas por nada nesse mundo eu ia ficar sentando olhando ele de longe, então me levantei o acompanhei.

Meu pai parece estranho, é como se ele estive em uma luta interna, seus passos são hesitantes, e isso é tão estranho para mim pois nunca o vi assim. Finalmente chegamos até elas.

— Atena, quanto tempo, não é? – meu pai fala, voltando ao normal, de um modo descontraído.

— Olá Poseidon – ela responde educadamente e aperta a mão do meu pai.

— Visitando? – ele pergunta.

Olho para a garota e me surpreendo ao perceber que ela já estava me olhando. Não. Ela está me analisando. Depois seus olhos pulam para meu pai.

— Na verdade, vamos ficar – a garota responde. Ela uma cabeça menor do que eu, sua voz é firme e um pouco alegre.

— Ficar? – meu pai repete. – Você deve ser Annalisa, certo?

— Annabeth – as duas falam ao mesmo tempo.

— Sim, claro. Annabeth. Esse é Percy, meu filho.

Trocamos um rápido “oi” e mais nada. Olhei mais uma vez para Atena, ela não me era estranha.

— Vamos sentar filha? – pergunta Atena para Annabeth. – Foi bom te ver Poseidon.

Atena e sua filha se sentam o mais distante possível de nós e algo me diz que não é por acaso. Voltamos para nossa mesa, mas a comida já está fria.

— De onde conhece ela? – pergunto.

— Do passado – ele responde.

Me viro mais uma vez para olha-las e a garota, Annabeth, faz a mesma coisa ao mesmo tempo. Um pouco envergonhado e confuso, me viro para minha mesa novamente.

— Elas parecem legais – eu comento.

— Você ainda vai aprender tanta coisa nessa vida Percy – meu pai diz, com seu tom paternal. – Nem tudo que reluz é ouro filho. Vamos embora, não estou mais com fome.