Flormosura
1 Flormosura Californ

12 de agosto de 2000 e como presente de aniversário, ganhei uma mudança para a Califórnia. Que bacana. Abri os olhos, e para variar, não vi nada, minha cara tava coberta por meus cabelos. Levantei as costas e o olhei no relógio, no criado-mudo. Eram 7:52. Minha mãe gritou:
– Vamos, Jullia ! De pé ! Temos que terminar de encaixotar as coisas, me ajuda aqui !
– To iiiindo ! — resmunguei. Vesti uma bermuda jeans, um chinelo e uma regata com estampa de camuflagem. Desci as escadas, pensando no sufoco que seria mudar de cidade, e ter de deixar Emilly aqui na Flórida. Cambaleei até a cozinha, sentei na cadeira e soltei a cabeça na mesa, tentando dormir ali mesmo.
– Levanta, sua preguiçosa ! — brincou minha mãe, enquanto enrolava uns copos dentro de um jornal e colocava-o na caixa. Levantei a cabeça e comecei a acompanhá-la.
– Qual a expectativa ?
– Ah mãe, sei lá. Eu curto tanto a Flórida que nunca pensei como seria me mudar daqui. Nunca quis mudar.
– Filha, eu não posso viver aqui, não mais. O aluguel é caro, sr. Phillips cobra mil dólares. Eu não tenho condições de bancar os seus estudos, a sua faculdade. Entende ? — é claro que eu entendia. Apenas assenti. Enrolei o último copo no jornal, e fechei a última caixa. Eram quase 8 horas, o caminhão de mudanças chegaria às 8:20. Fui para o meu quarto, que estava vazio. Minha mãe havia separado esse conjunto para mim quando eu acordasse, sim, para poder guardar o resto das roupas. Sentei no canto do quarto, no chão duro, e tirei o celular com o fone do bolso. Dei play na Last Nite, dos Strokes, e entrei na internet para falar com Emily. Ela me chamou para ir ao cinema, eu, ela, e o namorado dela, que eu não sabia o nome, mas mesmo assim não gostava daquele sujeito. Respondi que não, que eu não tinha dinheiro para bancar meu ingresso nem o lanche. Esperei ela responder, e recebi um: " Você tá louca ? Quem disse que você vai se bancar ? Eu que te convidei, eu que vou pagar ! ", se for assim, tudo bem. Aceitei. Já haviam se passado 4 músicas, e eu nem percebi. Corri para a sala, abri a porta, e entrei no caminhão, que estava buzinando. O cara arrancou com tudo. Aquele era o pior momento da minha vida. Comecei a pensar em Emily. Nos meus livros. Na Filosofia, que era minha matéria favorita. Pensei nas fotografias, que eram minhas paixões. Nas minhas músicas. Comecei a pensar em Jake, o rapaz que vivia me zoando por eu ser muito branca, e viver de batom escuro. Mas eu não ligava, até achava bom. Agora que estou me mudando, a vida dele acabou. Ele dedica seu tempo precioso para mim, mas agora, ele se ferrou, porquê não há mais ninguém para ele atormentar. Se passaram 2 horas, e eu olhei para minha mãe, que respondeu com um gesto positivo, respondendo meu olhar com " estamos quase chegando ". Mais meia hora, e minhas músicas haviam se repetido 2 vezes. Lembrei agora mesmo do cinema, de que eu não iria poder ir. Liguei para Emily enquanto descia do caminhão e ajudava a abir as portas traseiras.
– Como assim você não vai ? Você vai sim, Jullia ! — indignava-se ela.
– Ah Emily, não rola ! Sério, eu disse que eu ia porquê estava alucinada com essa história da mudança. Foi mal. E fala para o seu namorado que eu mandei ele se foder. — ela riu.
– Oh, oh, oh, calma lá ! — brincava ela.
– Preciso desligar agora, depois eu ligo e te conto como está essa merda de cidade. Beijão ! — me despedi, e desliguei.
Ajudei minha mãe a desfazer as caixas, a montar o guarda-roupa, o armário e a cama. É. É isso, Vida nova, merda nova. Tomara que essa merda nova não me decepcione, se não eu fujo de casa e corro lá para a Emily.
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Depois de tudo feito, tudo desfeito, fui para a cozinha com a alça da câmera Lomo 7 apoiada no ombro. Sentei na cadeira, de frente para a mesa, e apoiei a lateral do rosto nas mãos. Lembrei-me agora mesmo que meu caderno de Química havia ficado com Kane, o garoto que eu achava bonitinho, mas mal sabia da minha existência. Fiquei apavorada. Soltei as mãos do rosto e bati-as na mesa, assustando minha mãe. Levante num impulso, arregalei os olhos e comecei a andar em círculos.
– Filha, é algo com a escola né ? — perguntou ela, sem se preocupar, lavando a louça.
– Sim, mãe ! É ! Meu caderno de Química ficou com o Kane — falei alto — , o carinha que eu acho bonito — dessa vez, resmungando, só para mim.
– Lembra daquela miséria que nós vivemos em 97 ? Você sugeriu o início de uma poupança, e eu fiz essa poupança. Eu te dou o dinheiro, você pega um ônibus, pega lá o seu caderno com esse garoto e volta, pode ser ? — minha expressão de preocupação e desespero se desfez ali mesmo. Suspirei, aliviada, e joguei meus braços por cima dos ombros dela.
– Obrigada, mãe.
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Sentei no sofá e esperei ela voltar do banco. Quando chegou, me entregou um envelope, e me deu um beijo na testa. Vesti um cardigã, e sai. Comprei a passagem, esperei o ônibus, entrei, e lá fui eu, viajar horas, por causa de um caderno. Um mísero caderno.
Quando cheguei, desci do ônibus com a Lomo 21 na alça do ombro esquerdo. Parei em uma vitrine e fotografei algumas garrafas de vinho. Depois era só colocar uns efeitos, e pronto. Coloquei meu óculos redondo de sol, e caminhei até o meu ex-colégio. Já estava na hora da saída, o portão ainda estava fechado. Uma mulher o abriu, e o pessoal começou a sair. Cacei Kane com o olhar, e vi ele sair. Sair com uma garota, que também não sabia o nome. Eles sussurravam e conversavam, até que ele seu um selinho nela. Merda. Desviei o olhar. Ele me viu, e veio até mim.
– E aí Ju ! Essa é minha namorada, Ellie. Ellie, essa é uma colega. — não to com tempo para a presentações, Kane.
– É, bacana, bacana, mas é " ex-colega " — corrigi -, já pode devolver o meu caderno ? — como assim namorada ? Não acredito !
– Ah, sim, sim, só um momento. — ele soltou uma alça da bolsa, virou-a de lado e tirou meu caderno de lá.
– Valeu. — respondi e dei as costas. Enquanto eu dava passos apressados, para sair dali, o mais rápido possível, ergui os óculos e limpei uma lágrima que caia. Olhei para trás e não vi mais ninguém, comecei a correr. Namorada ? Justo o Kane ?
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