Florestas de Outono
2 Capítulo 02
Acordou cedo como fazia como todos os dias. Nada mais agradava a Lilly do que aquele frio que faz nas primeiras horas da manhã. As amas do castelo desistiram há alguns bons anos de ajuda-la a se vestir e tomar banho pelas manhãs, ao contrário de sua irmã mais velha, Agnes, que era paparicada por todos.
Vestiu-se e penteou os cabelos às pressas. Não fazia questão de ficar bonita todos os dias como Agnes. Sua irmã, desde a infância, está sendo treinada para se tornar uma donzela notável para que, futuramente, casa-se com algum filho de um poderoso lorde ou até mesmo de um rei.
O maior desejo de Agnes era ser notada e casar-se com o príncipe Victor, filho do Rei Amyr do Reino Central. Lilly concordava que o príncipe era dotado de beleza ímpar e que todas as donzelas de qualquer canto de todo o Continente dariam tudo para casar com ele ou ter penas um simples beijo. Mas não Lilly.
Ele não vai voltar, pensava todas amanhã quando acordava e olhava sentada no parapeito da sacada do seu quarto. Há três anos esperava que Levi aparecesse, saindo da floresta, e corresse até o castelo e escalasse a até seu quarto. Ele não vai voltar.
Uma batida à porta de seu quarto fez Lilly voltar à realidade. Era Vanani, uma das amas do castelo.
– Lady Lilly, o Rei e a Rainha a aguardam para o café da manhã.
O Rei e Rainha, pensou Lilly com impaciência. Por que não simplesmente ‘’seus pais’’?
– Eu já estou indo – pegou uma fita vermelha, da mesma cor que seu vestido e abriu a porta.
Enquanto caminhava ao local em que estava sendo aguardada, acompanhada pela ama Vanani, amarrava seus compridos cabelos castanhos em um rabo-de-cavalo. Lilly tinha os olhos castanhos como os cabelos, a boca bem desenhada e um rosto delicado. Era de estatura mediana, magra, com seios pequenos.
– De nada adianta ser a primeira a levantar e todo dia termos que pedir por sua presença à mesa – disse secamente sua mãe, a Rainha Brigida, quando Lilly chegou o salão de jantar.
– Desculpe-me – respondeu Lilly de cabeça baixa enquanto sentava ao lado do pai.
Sua mãe era aquelas mulheres que quanto mais velhas, mais belas ficavam. Tinha os cabelos loiros escuros que começavam a ficar grisalhos e olhos cor de mel. Rainha Brigida nunca foi princesa, mas era filha de um dos mais ricos Lordes do Reino Leste. Era fria e seca muitas vezes, mas amava seu marido e seus filhos acima de qualquer coisa.
– Pare com isso, Brígida! – interveio seu pai, o Rei Belchior, e beijou a mão de Lilly – É aniversário dela!
Assim como Agnes estava ficando cada dia mais parecida com sua mãe, seu irmão Kiril, o filho primogênito, era uma versão mais jovem de seu pai. Ambos eram altos e fortes, com os meus olhos castanhos e determinados. Enquanto Kiril tinha belos cabelos lisos castanhos escuros, seu pai já os tinha completamente grisalhos.
– Olhe só para você, Lilly! Sempre atrasada para as refeições, sempre com os cabelos desarrumados e usando vestidos velhos. Desse jeito, nenhum príncipe ou lorde querer cortejá-la – disse Agnes cheia de si. Ela sabia que era bonita e que em breve seu pai arrumaria um casamento.
– Felizmente, Agnes, eu não sou como você – disse Lilly lançando um olhar ameaçador.
– É uma idiota que está há 3 anos esperando por alguém que morreu em batalha.
– Ele não morreu!
– Não comecem as duas a brigar logo cedo! – Kiril tentou gritar com a boca cheia de pão com manteiga.
Kiril foi armado cavaleiro aos 17 anos e aos 20 tornou-se Capitão da Guarda de seu pai e rei. Ele sempre demonstrou uma habilidade notável com a espada e em lutas corpo a corpo. Kiril nasceu para se tornar um cavaleiro, mas, apesar de ter que se manter sério e carrancudo em seu posto, com a família, principalmente com Lilly, era descontraído, gentil e brincalhão.
– Deixe sua irmã em paz, Agnes – Belchior foi ríspido com sua filha mais velha, mas se voltou para a mais nova e começou a falar gentilmente – Querida, você não pode esperar para sempre por aquele jovem cavaleiro. Sei que o amava e que ele também te amava, mas... – deu um suspiro e olhou para baio como se tentasse encontrar as palavras certas – é hora de encontrar um pretendente ao invés de ficar rejeitando todos os aqueles que vem cortejá-la.
– Papai, sabe que não quero me casar.
– E você sabe que o que você quer nunca acontecerá – Brigida disse seca com uma leve ameaça na voz.
Lilly se levantou abruptamente da cadeira.
– Eu não quero me casar! Eu não vou casar! Eu vou fazer aquilo que quero nem que seja a última coisa que eu faça!
– Com licença – era a voz da ama mais velha do castelo, Nuccia. Ela já estava lá antes mesmo do Rei Belchior nascer. Kiril fazia inúmeras piadinhas sobre a idade dela. Algumas eram um tanto ofensivas, mas Lilly sempre achava graça. – Chegaram cartas à Vossa Graça.
Brígida esticou a mão para pegar as cartas. A primeira estava lacrada com cera amarela e com um desenho da águia-de-pedra, símbolo dos Reis do Reino Oeste. A segunda continha o lacre em cera branca gravada com o desenho da harpia. Era remetida do Reino Central. A rainha abriu ambas as cartas com ansiedade e leu-as rapidamente e mal conseguia conter o sorriso que se formou em seu rosto.
– Eles aceitaram.
– Quem aceitou o que, mamãe? – perguntou Kiril assim que terminou de engolir o que mastigava. Não só ele, mas todos à mesa olhavam para Brigida curiosos e receosos
– O casamento! Os Reis do Oeste e do Reino Central concordaram em casar seus filhos com nossos filhos, Belchior, meu querido!
Enquanto Brigida não parava de ler as cartas, feliz demais para dar continuidade à notícia, os olhos de Agnes brilhavam. Era nítida a sua ansiedade em saber quem seria seu futuro marido. Era questão de tempo até isso acontecer, pensava Lilly.
Apesar de se sentir feliz pela irmã, Lilly se sentia apreensiva. A mãe não precisava dizer que um dos filhos era Agnes, mas quem seria o outro, ninguém sabia. Poderia ser Kiril, Lilly ou até o pequeno Finn, seu irmão caçula, quando tivesse idade para o casamento. Tomara que não seja eu.
– Fale logo, mulher! Quais dos nossos filhos são? – Belchior era o mais impaciente de todos.
A rainha se levantou e juntou as mãos para dar a notícia.
– Há algumas semanas enviei uma carta para cada Rei. Os Reis dos Reinos do Sul e do Norte não pronunciaram-se, por tanto, devemos consideram que eles não tem interesse.
– Disso já sabemos, mamãe. Apenas diga logo o que tem nessas cartas! – Agnes estava afoita e batia palmas.
– Bom, o Rei Casper, nosso Rei do Rei Oeste, disse que não maior honra em unir nossas famílias pelo casamento entre seu filho, o Príncipe Sebastian, e nossa amada filha, Agnes.
Agnes estava cheia de alegria. Seu sonho de se casar estava perto e seria com ninguém menos que Príncipe Sebastian. Ele era elegante, sempre muito bem vestido e tinha os olhos azuis e cabelos castanhos avermelhados. Não era um exímio cavaleiro, mas era inteligente e um grande estrategista.
Kiril, que estava sentado ao lado de Lilly, segurou sua mão e a olhou com um olhar que dizia: “não se preocupe, vai dar tudo certo”. Lilly apertou a mão de seu irmão e acenou afirmativamente com a cabeça.
– E também recebemos uma carta do Reino Central. O Rei Amir disse que concorda em casar seu filho, o Príncipe Victor, com nossa Lilly.
Aquelas palavras chegaram a Lilly da mesma forma que um soco na boca do estômago. Kiril fez menção de abraça-la para confortá-la, mas Lilly se esquivou e levantou. Como poderia casar com o irmão daquele que tanto amava e ainda ama?
– Pois responda que não caso. E você não pode me obrigar!
Ao dar as costas para se retirar, Lilly trombou com a ama Vanani. Ela estava ofegante de tanto correr e trazia um bilhete para Lilly.
– Mandaram-me entregar para você o mais rápido possível, princesa.
Lilly reconhecia aquela letra, principalmente a forma da escrita do autor do bilhete, que dizia:
Não estou mais suportando essas saudades que estou sentindo. Encontre-me no nosso lugar de sempre. Tenho uma surpresa.
Seu,
V.
O bilhete trouxe uma alegria momentânea e fez Lilly sorrir. Disfarçou o choque que ainda sentia da notícia de sua mãe. Lilly dobrou o bilhete e se pôs a correr.
– Aonde vai, Lilly?! – berrou sua mãe, furiosa.
Saiu correndo sem olhar para trás, segurando as lágrimas. Não posso chorar, não vou chorar. Tenho que ser forte. Subiu para seu quarto e pegou dentro de seu baú um estojo que continhas algumas facas. Pegou uma capa e a vestiu. Em seguida foi para a sacada e começou a descer com cuidado, se agarrando e firmando os pés na árvore trepadeira que cobria algumas partes das paredes externas do castelo.
Seguiu em direção ao bosque. Ia se adentrando cada vez mais funda na floresta, seguindo uma trilha que raras pessoas conheciam. Era uma caminhada um pouco longa, mas Lilly não se importava. Quando chegou ao riacho, começou a atravessá-lo sem se importar em molhar a barra do vestido e da capa.
Ao cruzar o riacho, Lilly estava na Floresta de Outono. Era uma floresta sagrada e mágica para aqueles que moravam no Reino do Leste. Um lugar puro e belo, onde nenhum demônio sequer tentou entrar.
Lilly olhou para Albrech, a árvore sagrada que tinha mais de mil anos. E, sentado sob essa enorme árvore, lá estava ele.
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