Florestas de Outono
3 Capítulo 03
Para Kat, nunca houve jornada mais dolorosa e difícil. Ela falhou com a missão, deixou seu parceiro morrer e seu estoque de comida estava no fim. Robert ficará furioso comigo.
Após o demônio desaparecer diante de seus olhos, Kat buscou em suas coisas um cobertor e enrolou o corpo e a cabeça de Randall e pôs em cima de um dos cavalos que estava amarrado a uma árvore um pouco distante dali.
Pobrezinhos, pensou Kat. Ela amava animais e tentava imaginar como os cavalos estavam se sentindo ali sozinhos sabendo que demônios poderiam aparecer a qualquer momento.
Kat odiava ficar sozinha. Não por medo, pois sabia se virar sozinha em qualquer situação, por mais difícil que fosse. Ela teve que aprender. Kat veio de uma família humilde que morava nos campos das Terras do Oeste. Tudo o que comiam era plantado, criado, colhido, abatido e cozinhado por eles mesmo.
Seus pais eram um casal extremamente feliz. Kat nunca ouviu eles brigando, ficando tristes um com o outro ou magoados. Mesmo com todas as dificuldades, eles se amavam e sempre enfrentavam tudo juntos. Kat achava que o amor e aquilo que eles passaram antes de morarem lá eram o que os mantinham tão unidos.
O pai de Kat era o filho de um pobre fazendeiro das Terras do Oeste. Já sua mãe era a filha de um rico comerciante das Terras Centrais. Sabendo que não teria muita perspectiva se continuasse na fazenda, o pai de Kat resolveu tentar a sorte em outro lugar. Foi quando chegou ao centro comercial das Terras Centrais e lá encontrou uma jovem de cabelos loiros e olhos azuis, tão linda. Quando finalmente a conquistou, ela saia escondida à noite para se encontrar com ele. Porém, um dia, o pai dela descobriu que estava grávida e, antes que qualquer tragédia acontecesse, ambos fugiram.
Passaram a tocar a vida de forma simples, Kat e seus pais. Até o dia em que tudo mudou. Kat estava colhendo algumas frutas na floresta ali perto quando demônios apareceram e destruíram a pequena fazenda e a casa em que moravam. Não deixaram pedra sobre pedra. Quando retornou, encontrou tudo destruído e seus pais mortos de forma brutal.
Após enterrá-los, ajoelhou-se e começou a lembrar de todos os bons momentos. Foi quando Robert apareceu e a levou consigo.
Kat ficou pensando em todas essas coisas até chegar ao lago onde havia encontrado o esquilo antes. Amarrou os cavalos em uma árvore e pegou o corpo de Randall. Deitou-o perto do lago, colocou suas armas de lado e pegou em suas coisas uma pequena caixinha que continha algumas coisas que poderiam fazer toda a diferença em uma missão se alguém se machucasse. Não posso voltar com Randall assim.
Kat prendeu seus cabelos loiros em um coque e pegou na caixinha uma agulha curva e linha de sutura. Se segurou ao máximo para não chorar, mas não teve como. Enquanto costurava a cabeça de Randall, pensava, involuntariamente, na viagem que fizeram até lá, nos momentos que passaram juntos, no momento em que o demônio apareceu e matou Randal... Me perdoa, Randall... Me perdoa. Cada vez que a agulha furava a pele e a linha juntava as partes, Kat fungava e mais lágrimas caiam de seus olhos.
Aquilo era absurdamente doloroso para Kat. Randall era para ela o irmão que ela nunca teve, já que sua mãe não pode mais ter filhos após ter dado à luz a sua única filha. Ao terminar, Kat lavou a agulha, suas mãos e o rosto e o pescoço de Randall e guardou o resto da linha de sutura.
Em nenhum momento Kat rezou. Não havia deuses para rezar. Não havia religiões ou crenças em nenhum canto do Continente. Houve várias, mas isso foi há centenas de anos. Com demônios à solta espalhando o caos e sem nenhuma criatura ou entidade equivalente para combate-los, as pessoas foram aos poucos deixando de acreditar em seus deuses e divindades, que jamais atenderam qualquer prece. A queda das religiões foi a chance que os alquimistas tiveram de deixar seus laboratórios e espalharem seus conhecimentos científicos e soluções tecnológicas para todo o Continente.
Kat ficou alguns minutos vidrada no rosto de Randall e se perguntava para onde havia ido toda aquela beleza singular que ele tinha. Passou os dedos pelo cabelo castanho claro dele, deu um pequeno sorriso e beijou sua testa, um beijo gentil e terno.
– Perdoe-me, Randall – disse Kat baixinho, com a voz um pouco chorosa e triste. – Espero que não tenha morrido com raiva de mim.
Enrolou o corpo de Randall novamente na mesma coberta e o colocou em cima do mesmo cavalo que trouxe Randall. Kat montou seu cavalo e começou a rumar de volta ao castelo, puxando o outro cavalo que levava o corpo de seu companheiro.
Após quase um mês, Kat regressou. O caminho era difícil e não podia simplesmente pegar a estrada para evitar ser vista por pessoas comuns. Houve dias em que não conseguia encontrar comida ou água, nem para ela, nem para os cavalos. Houve noites que não achava local seguro para dormir e tudo que podia fazer era seguir em frente, sempre tomando todas as precauções para não ser vista.
Ainda era dia quando retornou ao castelo. Estava cansada e faminta e ansiava por um banho que não fosse de rio ou de lago. Ao passar pelos portões, se dirigiu primeiro aos estábulos para cuidar dos cavalos. Estão tão cansados. Espero que eles não saiam para nos levar em uma missão tão cedo.
Estava fazendo carinhos no seu cavalo enquanto ele comia quando alguém entrou no estábulo.
– Kat! Que bom que voltou!
Era Algor, um dos Nove, assim como Kat. Era o mais forte de todos do grupo, apesar de não parecer e era o líder. Era loiro como Kat, mas tinha os olhos verdes. Tinha 19 anos e também um rosto muito bonito que faria qualquer mulher se apaixonar.
– Algor!
Ele foi correndo até Kat e abraçou-a, levantando-a do chão.
– Fico feliz que tenha voltado bem, pequena Kat – disse sorrindo enquanto bagunçava de leve os cabelos dela.
Kat acreditava que os olhos de Algor possuíam algum tipo de magnetismo. Estava vidrada nele e simplesmente não conseguia desviar o olhar.
– Vocês dois podem namorar depois da reunião – disse Johann rindo escorado na entrada do estábulo enquanto trazia um cavalo. Ele também retornava de uma missão.
– N-namorar?! – exclamou Kat vermelha – Mas nós não...
– Johann! É você! – Algor disse entusiasmado e pegou Kat pela mão e dirigiu-se ao encontro de Johann.
– Só faltam vocês na sala de reunião. Eu passei lá antes de vir guardar a Rose.
– Você deu um nome para sua égua? – perguntou Algor achando isso um tanto divertido.
– E por que não daria? Os cavalos fazem parte da nossa “família” também.
– Mas não é perigoso você se apegar assim? – rebateu Algor. – Sabe o que acontece com aquilo que é importante para cada um de nós.
– Sei muito bem – afirmou Johann de cabeça baixa – Mas eu sei o que estou fazendo, não se preocupe, Algor.
Em seguida Johann dirigiu seu olhar para Kat e disse de forma gentil:
– Agora vá para a reunião, eu encontro vocês lá. – Pôs a mão em seu rosto e continuou com um olhar piedoso: — Deixe que eu cuido de Randall.
Kat olhou para Algor e em seguida para Johann e acenou afirmativamente com a cabeça.
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