Florestas de Outono
1 Capítulo 01
– Deveríamos voltar, Randall – disse Kat baixinho ao se aproximar.
– Não podemos voltar e você sabe muito bem disso.
Randall respondia as perguntas de Kat e se dirigia a ela com impaciência. Odiava novatos, principalmente quando se tratava de crianças dotadas de extrema meiguice e gentileza. Ele sabia que, quando se é um dos Nove, deve ser frio e distante de qualquer sentimento. Sentimos tornam as pessoas fracas, dizia para si mesmo todos os dias.
– Mas se explicarmos, tenho certeza que Algor vai entender e...
Randall parou abruptamente. Em seguida se virou para a pequena Kat e começou a andar lentamente em sua direção. Sua capa ondulava suavemente com o passar do vento e, à medida que se aproximava, puxou um pedaço de sua espada para fora da bainha. A lâmina brilhava com o reflexo da lua. Era um brilho vermelho.
– Randall, eu... – Kat tentava explicar a Randall enquanto recuava. Não podia enfrenta-lo. Kat era pequena e com seus 14 anos era uma das melhores arqueiras que poderia existir. Apesar disso, desafiar Randal seria suicídio. Ele tinha 10 anos a mais que Kat, a força de um tigre e era um espadachim singular.
– O que Robert tinha na cabeça quando decidiu tornar você uma de nós? – disse com desdém após Kat tropeçar em uma raíz e cair no chão. – Vejamos... – sacou a espada e colocou a ponta na garganta de Kat – Por que viemos aqui?
– Randall, escuta, temos que... – parou rapidamente de falar quando Randal pressionou a espada.
– Responda!
Kat engoliu em seco e respondeu hesitante:
– Por que nosso líder nos enviou em uma missão.
– Muito bem. E qual é nossa missão? – pressionou a ponta da espada um pouco mais forte no pescoço de Kat, até escorrer um pequeno fio de sangue.
– Exterminar... o demônio que... – não resistiu e acabou soltado um pequeno gemido de dor e então continuou – está matando as crianças... da... Aldeia Rochosa...
– Ora, ora! Parece que não é tão burra assim. Agora a última pergunta – agachou deixando seus rosto próximo ao de Kat e reposicionou a espada com o fio na sua jugular – o que acontecerá se voltarmos sem matarmos esse demônio?
– Aquilo que nos é mais importante será eliminado.
– Então nós não iremos retornar sem ter cumprido nossa missão – Randall levantou-se, embainhou a espada e começou a andar. – Levante-se. Temos uma longa noite pela frente.
Kat se levantou e sem medo algum lançou uma flecha que passou zunindo no ouvido de Randall. Droga, pensou Kat com medo, agora ele vai se virar e quebrar meus pescoço como fazem antes de matar uma galinha.
– S-só escute o que tenho a dizer, por favor! – Kat ultrapassou Randall correndo e parou na frente dele. – Você já olhou para a lua hoje? – podia-se notar a aflição em sua voz.
– Está vermelha, e daí?
Todo o desdém que Randall demonstrava por ela estava deixando Kat furiosa. Ele me subestima porque sou muito jovem, mas sou tão capaz quanto qualquer um dos Nove.
– Você não lembra da profecia, do motivo do nosso trabalho? Do por quê Os Nove foi criado? – Kat se acalmou ao perceber que Randall não tinha a intenção de quebrar seu pescoço. – As palavras exatas da profecia há muito se perderam no tempo, mas sabemos que o mundo terá três noites de lua vermelha. E a cada uma, os demônios se tornam mais fortes. E, quando chegar a terceira noite, os demônios ocuparão todos os cantos do mundo espalhando o caos e destruirão tudo que há e...
– Eu já sei de tudo isso, Kat. A primeira noite foi há 700 anos. Hoje é a segunda vez. Pela lógica, a terceira vez que isso for acontecer, já estaremos mortos há séculos. – Suspirou impaciente e prosseguiu – Esqueça isso agora. De qualquer forma, não é como se o resto de nós não soubesse que hoje é noite da segunda lua vermelha.
– Mas é uma noite de extremo perigo! Temos que voltar! – Kat tinha lágrimas nos olhos.
– Temos que ficar aqui e cumprir nosso dever! – Randall gritou. – Agora para de agir como uma criança. Vou seguir aquela trilha logo ali para conseguir madeira. Você procure o lago que há perto daqui seguindo naquela direção e arrume algo para comermos.
Antes de poder até mesmo raciocinar, Randall já havia sumido na frente de seus olhos. Apesar de tudo, se sentia apreensiva e temia a possibilidade de acontecer qualquer coisa com ele enquanto estiverem separados.
Kat andava devagar e silenciosa, atenta a todo e qualquer som da floresta. Gostava das florestas do Oeste. Podia percorrer qualquer canto sem produzir nenhum som além de sua respiração. Era bem diferente no Leste, onde as folhas secas que cobriam o chão atrapalhavam suas caçadas e brincadeiras quando era apenas garotinha camponesa.
Após alguns minutos conseguiu pescar dois peixes com seu arco e flecha. Assim que os embalou em folhas para levar, se deparou com uma árvore lotada de maçãs verdes. O Oeste agora estava na primavera e era o melhor lugar para conseguir todo tipo de fruto. As estações se intercalavam entre os Quatro Reinos e faziam rodízio a cada 4 meses. Kat sempre achou engraçado, pois enquanto era inverno no Leste, era verão no Norte.
Kat se esticou para alcançar a maçã que estava no galho mais baixo da árvore. Ao ergue o braço, sua manga escorregou e pode ver parte de sua tatuagem. Cada um dos Nove tinha a mesma tatuagem que começa no pulso e acaba no ombro do braço direito, formando várias frases de feitiços em uma linguagem antiga esquecida no tempo e vários desenhos que faziam sentido apenas quem integrava esse grupo.
Apanhou a maçã e ficou observando cada detalhe da tatuagem. Mesmo sendo uma grande, ela deve ficar escondida. Ninguém que não seja parte dos Nove deve ver. Os Nove devem se manter ocultos de todos e disfarçados no meio da multidão. Eles devem se ater apenas ao seu dever: proteger a todos dos demônios e exterminá-los.
– Talvez se eu levar essa maça para o Randall, ele se sinta melhor – falava Kat sozinha enquanto retornava. – Já ouvi ele dizendo algum dia que sua fruta favorita e maçã verde! Ou será que era uva verde? – Parou um instante e em seguida continuou seu caminho com um sorriso – Tanto faz, eu acho!
Seguia o mesmo caminho que fez quando se separou de Randall. Estava na metade do caminho quando ouviu um grito.
– RANDALL!
Sem pensar duas vezes, Kat saiu em disparada em direção ao grito, largando tudo para trás. Armou seu arco e correu o mais rápido que pode desviando de todos os obstáculos. Quando chegou à clareira onde antes estava com Randall, não viu ou ouviu ninguém. Olhava em volta, mas não havia nada.
– Randal, cadê você?!
– Olá, Kat. – disse uma voz atrás dela.
Não era a voz de Randall. Kat se virou lentamente com medo apontando o arco. O que viu deixou-a aterrorizada. Era Randall. E um demônio. Um demônio segurando seu amigo.
– R-randal...
Kat olhou furiosa para o demônio apontando a flecha para ele.
– Eu de você não tentaria fazer isso – falou o demônio rindo. – Mova um músculo e seu amiguinho aqui morre.
– Kat, atira. Não escute o que ele está dizendo.
– Mas você vai morrer!
– Não importa! Apenas cumpra a missão!
Kat não sabia o que fazer. Não podia simplesmente fazer algo que acabe matando seu amigo. Eu não consigo ser tão fria como você, Randall.
– O que você quer? – perguntou Kat ao demônio.
– Estou aqui porque alguém me mandou dar um recado aos Nove. – O demônio tirou a espada de Randall da bainha e colocou no pescoço de Randall. – Diga ao seu patético grupinho que a terceira e última lua de sangue está mais próximo do que nunca e que isto...
O coração de Kat parou por um instante. Antes que pudesse tempo de reagir, o demônio com a forma de um belo e jovem rapaz soltou Randall e cortou sua cabeça fora.
Gritando cheia de ódio e inconformada com o que aconteceu, Kat atira uma flecha, porém o demônio conseguiu segurá-la antes que o atingisse. Ele abaixou lentamente e colocou a flecha no chão. Quando levantou, estava com segurando a cabeça de Randall pelos cabelos.
– E que isso é apenas o início – o demônio atirou a cabeça de Randall aos pés de Kat.
– Maldito! – Kat gritou e airou outra flecha, mas era tarde de mais. O demônio se esquivou rapidamente e sumiu em seguida.
Então olhou para baixou e encostou suas costas em uma velha árvore que estava logo atrás de si. Escorregou até sentar no chão e se pôs a chorar.
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