Hannah ainda tinha os olhos fixos em Sesshoumaru quando Kaede se dirigiu à ela, obrigando-a a dedicar sua atenção à sacerdotisa.

— Você vai acabar se adaptando aqui – A velha senhora tentou tranquilizá-la com um sorriso encorajador.

— Eu não quero me adaptar aqui, quero ir para casa – Cada vez mais ela sentia que aquelas pessoas estavam tentando mantê-la ali por algum motivo desconhecido, talvez por ela ser parecida com a Kagura que eles mencionavam.

— Você vai poder ir quando encontrarmos uma forma de levá-la para casa. A propósito, como você veio parar aqui?

— Eu... eu caí dentro de um poço e saí aqui – Não iria contar que fora puxada ou empurrada por algo. Sua história já era estranha o suficiente sem acrescentar mais nenhuma informação.

— Deve ter sido o mesmo pelo o qual Kagome veio, como eu já imaginei que tivesse sido. Eu pensei que a passagem havia sido lacrada seis anos atrás, mas pelo jeito eu estava errada – A velhota ponderou.

A jovem não disse nada, acreditando que aquela discussão era interna da mulher que estava ao seu lado.

— Mas onde eu estou? Eu sei que esta não é a minha casa, mas não teria uma estrada, um caminho, ou qualquer coisa do tipo que eu pudesse tomar e simplesmente voltar para lá?

— Infelizmente não – Kaede lamentou – Você está a quinhentos anos de distância do seu mundo.

Hannah mordeu o lábio inferior e arqueou uma sobrancelha. Queria gargalhar daquelas palavras. Quinhentos anos de distância do meu mundo... Aquela era uma péssima piada. Sua prima deveria ter entrado em um grupo de pantomimeiros para inventar essa história ou então ter se mudado para um povoado como aquele dos Amish que tem nos Estados Unidos, que inconformados com o mundo moderno vivem com os costumes do passado.

— Tá, certo – Revirou os olhos em ironia – Olha, velhota, eu vou dar um dia para vocês arranjarem um carro ou me comprar uma passagem de avião para casa, porque mais do que isso eu mesmo acharei o meu caminho.

A mulher suspirou com os dizeres da mais nova.

— O mundo que vivemos é muito perigoso para uma humana andar por aí desprotegida.

Hannah encarou a mulher. A sacerdotisa não parecia ser uma má pessoa à primeira vista, mas as frases dela dizia o contrário. Perigo eu estarei correndo se ficar perto desses pantomimeiros que realmente acreditam na peça que estão fazendo. Tinha medo de no futuro acabar acreditando naquilo também.

— Aproveite o seu banho por ora, Hannah-Chan, daqui a pouco irei trazer roupas limpas para você vestir – Anunciou ao chegarem em uma casinha de madeira não tão longe da casa que ela havia sido trazida quando desmaiou.

O céu estava começando a ficar escuro o que despertou a apreensão da jovem. Não que Hannah tivesse medo do escuro, mas o pôr do sol sempre lhe dava angústia, principalmente quando estava longe de casa.

Dentro daquele lugar onde ela fora conduzida, havia uma banheira redonda construída no chão exalando vapor e o forte cheiro de ervas. Estou prestes a entrar em uma enorme xícara de chá, Hannah detestava qualquer tipo de chá. O cheiro e o gosto dos saches lhe davam enjoo e não existia nenhuma forma delicada de dizer que preferia um banho com água pura. É isso ou nada, teve que se contentar com o que lhe era oferecido e não soar tão ingrata assim.

— Gostaria de ajuda para se livrar destas roupas? – Kaede perguntou, demonstrando certa curiosidade em saber o que Hannah tinha debaixo do traje que vestia.

— Não – Respondeu de imediato, agarrando o próprio corpo. A sacerdotisa podia ser velha, todavia isso não significa que estava isenta dos desejos carnais e Hannah tinha conhecimento de sua beleza, assim como julgava que a mulher estava desejando-a.

— Fique a vontade, então – Com um menear de cabeça, a mulher deixou-a sozinha na casa de banho, fechando a porta em sua retirada.

Hannah esperou alguns minutos só para ter certeza que Kaede havia ido embora e então se livrou das vestes, entrando correndo para dentro da banheira de costas para a porta de entrada.

A água estava morna, como imaginava, sendo bem-vinda em sua pele suja. Os machucados que recebera mais cedo reagiam ao calor dando pequenas fisgadas. Como supôs, as ervas presentes no banho lhe deram náusea. Seu estômago vazio desde o café da manhã a estava incomodando. Tinha a sensação de mal estar espalhada por todo o corpo e ainda assim preferia continuar um pouco mais ali do que retornar para a companhia daquelas pessoas. Eles provavelmente iriam lhe fazer perguntas e voltariam a chama-la de Kagura, coisa que ela já estava cansada de explicar que não era.

Aproveitando que já estava se lavando, mergulhou na banheira, molhando as longas madeixas castanhas que estavam emaranhadas. A água que a princípio tinha a tonalidade verde agora ia se tornando marrom conforme a poeira e a lama presa na garota ia se soltando.

— Com licença – Uma voz infantil soou do outro lado da porta antes de abrir a mesma.

Hannah virou a cabeça para ver quem era o intruso e ficou embasbaca com a sua visão.

Um garoto de seus doze anos de idade se fez presente. Ele tinha os cabelos da cor de fogo presos em um rabo de cavalo, grandes olhos verdes acinzentados e quando falava, apareciam seus dois caninos superiores. As roupas dele era no estilo dos demais que ela conhecera, uma calça azul, uma blusa mais clara com estampa do que parecia serem folhas e um colete de pele que poderia ser de raposa. Isso que ela notou primeiro não foi a parte mais estranha de sua observação. O rapazinho tinha o que parecia ser um rabo felpudo semelhante ao de raposa. Será que isso faz parte do colete?, se questionou. Mas e os pés? Era impossível aquilo ser um sapato.

— Se-seu p-pé... – Murmurou.

— O que tem eles? – O garoto não a compreendeu e ergueu uma das pernas, abrindo e fechando os dedos dos pés.

— S-são de verdade? – Lembrou-se de Kagome dizer que as orelhas do InuYasha também eram reais. Aquele era um mundo realmente estranho. Hannah se sentia como Alice no País das Maravilhas, onde nada fazia sentido e mesmo assim eram reais... ou não, completou. Isso pode ser apenas um sonho, a jovem se beliscou para ver se acordava, mas nada aconteceu, a não ser ter acrescentado dor na lista de seus desconfortos.

— Aham – O menino respondeu, abrindo um sorriso amarelo no rosto – Você é a reencarnação da Kagura, né?

Hannah o fuzilou com o olhar.

— Sou Hannah – O corrigiu – E não sou reencarnação de ninguém.

— É sim! – Ele rebateu.

— Não sou!

— É sim!

— Já disse que não sou, que inferno! – Esbravejou. Não conseguia acreditar que estava discutindo com uma criança como se fosse uma.

— Boca suja! – O menino a repreendeu.

— Que diabos você é afinal de contas? – Sua resolução de se controlar até conseguir retornar ao Templo Higurashi estava enfraquecendo. A jovem estava tão descompensada que estava descontando seus nervos em um garotinho.

— Eu sou o Shippou – O menino se apresentou – E sou um Youkai raposa.

— Um o quê? – Talvez ainda tivesse água em seus ouvidos porque ela jurou que o garotinho disse que ele era um Youkai.

— Youkai – Shippou tornou a repetir, falando bem devagar para que ela entendesse – Raposa – Apontou para o rabo e ergueu uma perna de cada vez para lhe mostrar os pés.

— Youkai... – O imitou – Raposa... – Os seus ouvidos não a enganaram – Mas não existem Youkais, isso é coisa de gente que acredita em aliens e na teoria da conspiração!

— Olha moça, eu não sei do que você está falando, eu só sei que sou um Youkai e ponto final! – O menino exclamou, colocando as roupas que trazia em cima do banco ao lado da porta – A Kaede pediu para eu lhe trazer isso – Referiu-se ao embrulho – São roupas limpas pra você.

— Existem... existem outros como você? – Ignorou o que ele estava dizendo, estando mais preocupada com a informação.

— Aham! – Ele meneou a cabeça em sinal positivo – Aqui no vilarejo tem a Kirara que é a gata da Sango. Tem também o InuYasha, mas ele é só um meio-youkai. E o irmão dele, o Sesshoumaru, mas ele não é daqui, então nem conta.

— Sesshoumaru é um Youkai!? – Estava perplexa com aquela informação. Tirando o fato dele ter aquelas tatuagens estranhas, ele parecia ser um homem normal.

Shippou abriu um sorriso amarelo com a pergunta dela.

— Aham... – Meneou a cabeça lentamente em concordância sem desfazer o sorriso – Você gostou dele, não gostou? A Kagura gostava dele. A propósito, a Kagura era uma Youkai também, ela era a Mestra dos Ventos, mas ela era uma cria do Naraku, que era um terrível meio-youkai, ele tirou o coração da Kagura quando ela nasceu para que ela não o traísse, já que se ele fizesse assim – Shippou abriu e fechou a mão – Ela morreria. Mas então depois que ela o traiu algumas vezes, sendo a última quando ela evitou que o Kohaku fosse morto, ele devolveu o coração pra ela e então... BUM! – Ele abriu os braços imitando uma explosão de forma teatral – Ele a atingiu com os seus tentáculos, injetando miasma no corpo dela e deixou que ela fosse embora, só que ela não conseguiu ir muito longe, porque o veneno se espalhou, e aí então ela morreu. O Sesshoumaru estava com ela quando ela se foi, mas ele não toca no assunto. Eu acho que ele gostava dela também, porém eu não posso fazer esse tipo de pergunta pra ele. Ele me dá medo.

— Você fala, né? – Hannah o observou assustada. Shippou em questão de minutos lançou um monte de fatos no ar junto com algumas especulações. Ela não entendeu muita coisa da história, só que Kagura foi morta pelo o seu próprio criador e que de alguma forma a Mestra dos Ventos teve uma ligação com Sesshoumaru.

— E também desenho, se você quiser eu posso desenhar a história pra você! – Ele se ofereceu com certo ânimo.

— Não, obrigada – Ela não era burra a ponto de terem que explicar algo a ela através de desenho. Hannah só não vivia no meio daquela gente e de suas peças teatrais.

— Então, você gostou dele, não gostou? – Tornou a insistir na questão que Hannah pensou que não teria que responder.

— Que pergunta é essa!? – Esbravejou – Agora que você já me trouxe a roupa não tem que ir embora?

Pra ser sincera, Hannah não se incomodou por Kaede ter enviado Shippou para lhe trazer roupas novas. Apesar dele ser um garoto, ele ainda era muito novo para qualquer tipo de malícia e a moça ficou grata por isso.

— Não – Ele disse – O InuYasha também me deu uma tarefa – Deu de ombros – Ele pediu para eu ver se você não tem uma mancha nas costas em formato de aranha.

— Uma mancha...? Que tipo de tarefa é essa!?

— A Kagura tinha uma cicatriz nas costas em formato de aranha, o InuYasha queria saber se você também tem. Se você é a reencarnação dela, talvez tenha – O garotinho explicou.

— Eu já disse que não sou a Kagura! – Jogou água de seu banho no Shippou para expulsá-lo de lá – E eu não tenho mancha alguma nas costas ou em qualquer parte do corpo!

— Posso ver? – Pediu.

— Claro que não! Agora saia daqui! Vai embora! – Jogou mais água, forçando o Youkai raposa a sair do recinto para não se molhar.

Vendo-se só novamente, ela afundou-se na água medicinal e suspirou.

— Não é nas costas que eu tenho uma mancha, é na altura do coração... E ela não tem formato de aranha e sim de flor, foi por isso que a minha mãe me chamou de Hannah e disse que eu tenho afinidade com as flores... – Murmurou para si mesma, dando uma olhada naquela pequena manchinha rosácea que se destoava do restante de sua pele alva.

Notas finais
Eu disse nos comentários que neste capítulo a Kagome iria reagir ao fato de ser prima da Hannah, mas eu joguei esta cena para o próximo capítulo porque esse já ficou bem grandinho, hihi. Espero que tenham gostado!