Notas iniciais
Vicky Scarlet, aqui vai a razão da Hannah ser do jeito que ela é!

Ninguém precisava saber que uma parte de si começava a acreditar naquela história torpe de que ela era a reencarnação da Kagura. E se eu for? Que diabos isso tem a ver com o fato de quem eu sou agora? Sentia ódio de si mesma no momento por achar que estava seguindo o script que aquela gente criara.

Estava brava, sim, muito brava, e quando parava para pensar a razão disso, a culpa cabia apenas a ela por sentir que finalmente estava fazendo parte de algo. Se ela assumisse a identidade dessa Kagura, então todo aquele prestígio que aquelas pessoas demonstravam ter pela Youkai dos Ventos seria transferido pra si.

Por que nada é para mim?, se irritou ainda mais. Nada para Hannah, os Deuses disseram em seu ato de rebeldia. Muito bem — eu digo — não preciso de nada de vocês mesmo! Se rebelou.

Nenhum acontecimento em sua vida foi feliz. Sua mãe teve de se afastar da família quando se casou com um marinheiro e tiveram de mudar para Okinawa. Quando a mãe estava no sétimo mês de gravidez veio a notícia terrível de que o marido desaparecera em alto-mar. O dinheiro que a família havia economizado para comprar a casa própria teve de ser utilizado nos meses que se seguiram até que Hannah pudesse ser colocada em uma creche e a mãe poder sair para procurar trabalho. Como não tem quase nada em Okinawa que não seja relacionado ao turismo, sua progenitora conseguiu trabalho de recepcionista em um hotel em tempo integral e depois de cinco anos na profissão, ela foi promovida para o cargo de gerente.

Foi exatamente naquele período que Hannah começou a ter os seus primeiros problemas. Por ter uma condição financeira inferior à das outras crianças que estudavam com ela na creche, seus brinquedos sempre eram inferiores aos dos colegas, que não gostavam de brincar com ela por acreditarem que ela iria roubá-los, usando-a como última opção para qualquer atividade que tivessem de fazer.

Com sete anos de idade ela foi para o ensino fundamental¹ e pensou que faria amigos lá. Ledo engano. Boa parte de seus colegas da creche foram para a mesma escola que ela por serem moradores do mesmo distrito. Mais uma vez ela foi deixada de lado pela turma. A diversão de seus colegas de sala passou a ser atormentá-la. Alguns foram até o ponto de esconder materiais escolares de outros colegas na mochila dela e a acusarem de tê-los roubados. Nas primeiras duas vezes isso lhe custou suspensão de três dias e sua mãe foi chamada à escola. Aquela tinha sido a primeira vez que sua mãe lhe batera. Nem mesmo a sua mãe acreditava em sua inocência. Tudo mudou na terceira vez que ela foi acusada de furto. A professora passou a ficar mais atenta e soube que a punição que dera para Hannah era injusta e não mais levou o caso a diretoria, tendo uma conversa séria com os demais colegas de classe. Os alunos tendo por tempo demais participado daquela farsa, começaram a acreditar que Hannah realmente era responsável pelo sumiço de lápis de cor e apostila e quando a professora não tomou uma atitude, eles fizeram justiça com as próprias mãos, fosse jogando a merenda dela no lixo ou aproveitando quando ela ia ao banheiro para jogar bolinha de papel higiênico molhado nela, como também lhe dar fortes boladas na brincadeira de queimado.

Hannah nunca levou esses problemas para a mãe, pois sabia que a mulher que a pôs no mundo tinha prioridade mais importante do que resolver seus problemas sociais. Nem mesmo para os professores e a diretora ela contou dos problemas que tinha, sempre aceitando qualquer coisa que lhe destinassem. É só uma fase, dizia para si mesma sempre que sentia que iria chorar.

Mas a fase que ela pensava estar vivendo nunca terminara. No colegial, quando finalmente ela teve um pouco de sossego por ter entrado em uma escola inferior devido as suas médias, ela conheceu um garoto quando estava no segundo ano. Ele era transferido de Kyoto, muito bonito, educado e a tratava melhor do que já havia sido tratada por qualquer um que conhecera. Durante três meses eles foram carne e unha, ela aprendeu a beber e a matar aula com ele, foi pela primeira vez em um parque de diversões e deu o seu primeiro beijo no topo da roda gigante e naquele momento ela se sentiu uma adolescente normal. Nada mais importava pra ela que não fosse o Kyouya. Porém tudo tem um fim. Um dia Kyouya pediu para que ela matasse aula e fosse na casa dele, pois os pais estariam fora. Eles beberam algumas latas de cerveja e se beijaram e então, ele começou a intensificar as carícias, insinuando para que fizessem sexo. Hannah julgou que era muito cedo ainda para eles avançarem na relação. O rapaz demonstrou entende-la, mas durante uma semana ele não foi à aula, nem ligou para ela ou lhe mandou mensagens e quando ele enfim voltou para a escola, ela descobriu que ele estava saindo com outra.

Como havia aprendido a não levar os seus problemas para ninguém, ela aceitou o fim da relação como se ela nunca tivesse existido, isso perante os olhos das pessoas. Por dias ela chorou no silêncio do seu quarto, se arrependendo amargamente de não ter se entregado a ele. Para tampar a vermelhidão dos olhos, ela começou a usar maquiagem mais pesada e nesse momento de sua vida o gosto musical dela mudara.

É só uma fase, disse mais uma vez para si mesma. Estando cansada daquela cidade e de toda a dor que lhe fora causada, em uma atitude egoísta ela melhorara nos estudos e prestara vestibular para a faculdade de Tóquio que graças aos seus esforços ela passara.

Hannah se sentiu vitoriosa com isso. Não precisaria mais fazer todos os trabalhos domésticos que tinha que fazer em casa e nem precisaria ter um emprego de meio período para ajudar com as despesas. Até mesmo a sua mãe se sentira aliviada pela filha não ser mais responsabilidade dela.

Preparar as suas malas foi a melhor coisa que já fizera em toda a vida. Ela iria morar com a família de sua mãe que ela nunca conhecera no Templo Higurashi, iria ter de fazer a limpeza do templo sobre o pretexto de se tornar uma sacerdotisa, mas isso não era nada. Aquele era o paraíso em comparação com a vida que teve em Okinawa. Ela estava a um passo de ser livre. Mas então ela caiu dentro daquele maldito poço. Como ela condenava a sua curiosidade.

Agora sim ela estava presa. Suas asas foram totalmente cortadas pela raiz. Detestava depender das pessoas, pois sabia que nada de bom viria delas e ainda assim, aqui estava ela, esperando que alguma alma misericordiosa lhe mostrasse como voltar para casa. O pior de tudo era que até mesmo a sua prima estava envolvida nessa façanha.

Ninguém iria ajudá-la, ela sabia disso, não tinha porque se enganar, os anos lhe ensinara esta sabedoria. Se ela queria algo, deveria agir por conta própria para consegui-lo. Era interesse apenas dela voltar para casa e mais de ninguém.

E é o que farei amanhã de manhã, decidiu. Hannah podia ir agora se não tivesse prudência. Ela estava em um lugar estranho com pessoas estranhas e lá fora não havia nenhuma iluminação que não fosse proveniente da lua e das lamparinas acesas nas casas.

Hannah de bom grado saiu do banho depois da água ter começado a esfriar e entrou dentro na roupa de sacerdotisa que lhe arranjaram. Aquele traje era largo demais em comparação com as roupas que ela estava usando naquela manhã, fazendo com que seus movimentos ficassem mais lentos. O pior de tudo foi o tamanco de madeira que lhe deram. Era extremamente desconfortável e por isso não o calçou, preferindo sujar os pés a machuca-los ainda mais.

Guardando os seus pensamentos só para si, ela voltou para a casa onde arranjaram um lugar para ela dormir, levando em seus braços suas roupas sujas e o tamanco.

Com um silêncio sepulcral e mantendo o olhar baixo, ela deslizou a porta de madeira e adentrou o recinto. Como o silêncio prevaleceu, ela ergueu os olhos e encontrou diversos pares a encarando de volta, entre eles Kagome, InuYasha, Kaede, Shippou e Rin. Sesshoumaru também estava lá, mas este não a olhava. Por alguma razão que ela desconhecia Kohaku, Sango e Miroku estavam ausentes.

As pessoas ali estavam reunidas ao redor de uma larga mesa de refeição, sentados no chão com tigelas cheias de alimento. Hannah sentiu o estômago resmungar para ela.

— O que foi? – Perguntou de mal humor, já que ninguém dizia nada.

— Estávamos te esperando – Kaede foi a primeira do grupo a falar.

— Podemos comer agora, velhota? – InuYasha questionou com impaciência, demonstrando quão desesperado ele estava para iniciar a comilança.

— InuYasha... – Kagome rangeu os dentes em sinal de aviso.

Supondo que o lugar vago entre Rin e Shippou era dedicado a ela, Hannah colocou o que trazia nos braços no chão próximo a porta e sentou-se em silêncio. Diante de si havia uma tigela de arroz, uma que parecia ser sopa de legumes e um pequeno peixe em outro recipiente.

Sentindo-se encorajada, Hannah pegou o hashi que estava a sua disposição e levou até a boca um punhado de arroz. O tempero daquele alimento não era como o que estava acostumada, sendo muito melhor do que o que fazia. Ela suspirou com satisfação. Depois de muito tempo ela estava comendo uma comida caseira que não fora feito por ela.

Ao desviar a atenção de seu prato, ela pôde ver que os olhos continuavam sobre ela.

— O que foi? – Tornou a perguntar dessa vez com impaciência, engolindo um punhado de arroz para fazê-lo.

— A Kaede disse que você é minha prima – Foi a vez de Kagome falar.

— Eu sou – Respondeu com indiferença, abocanhando mais um pouco de arroz. Á sua frente, InuYasha já havia finalizado com a sopa – Eu lhe disse mais cedo que meu nome é Hannah Higurashi.

— Eu não sabia que você era a minha prima – Kagome comentou.

— Não sou exatamente o que esperava, huh? – Sorriu com sarcasmo.

— Não é isso, é só que eu realmente não sabia. Me recordo de ter uma tia por parte de mãe e que eu tenho uma prima por parte dela, mas eu nunca conheci nenhuma das duas – Confessou – Fico feliz por você ser você.

Aquela última frase a atingiu como se fosse um raio. Ninguém antes lhe tinha dito algo do tipo, nem mesmo Kyouya quando eles começaram a namorar.

— Rin, é esse o seu nome, não é? Onde está o seu noivo? – Virou-se para a jovem noiva ao seu lado tentando desviar o foco da conversa.

— Ele foi dormir na casa da Sango e do Miroku – Foi Shippou quem lhe respondeu – O Sesshoumaru achou melhor.

— Você é o pai dela? – Hannah virou-se para o homem que até agora mantinha-se em silêncio, mordiscando a comida que estava em sua disposição como se fosse o lorde de qualquer porcaria de lugar.

— Este Sesshoumaru não é pai nenhuma criança humana – Ele respondeu com sobriedade, sem se dignar a lhe lançar um olhar que fosse. Por alguma razão a atitude dele a estava irritando. Talvez porque o ar altivo dele durante o jantar a fizesse se lembrar daquelas crianças que a maltrataram na escola. Ele se acha bom demais para qualquer coisa, observou, Ainda mais depois dele ter confirmado que eu não sou a Kagura.

— Você é amante dela, então? – Tomou cuidado em demonstrar ar de inocência com a pergunta que fizera. Pelo o que estudara, era normal homens em posições privilegiadas tomarem amantes e depois para manter as aparências casarem-nas com um boboca qualquer.

Quando a interrogação deixou os seus lábios, diversas pessoas puxaram o ar de uma só vez. Ao seu lado, pelo o que Hannah percebeu, Rin se encolheu e exibiu uma expressão de tristeza. O arrependimento logo surgiu no coração da jovem, ainda mais quando viu o ódio explícito nos olhos do Youkai que ela provocara.

— Ele é o protetor dela – Kaede interveio – Ele cuidou dela desde que ela tinha oito anos.

— Mas ela é casada agora. Isso não dá a ele direito nenhum de decidir se ela pode ou não dormir com o marido – Retrucou.

— Hannah-San, pare, por favor – Rin segurou o antebraço dela. Lágrimas começavam a aparecer nos olhos chocolates da garota.

Sem uma palavra, Sesshoumaru se pôs em pé, pronto para se retirar da presença dos demais.

— Aonde vai, maldito? – InuYasha se dirigiu ao meio-irmão.

— Este Sesshoumaru não deve satisfações a ninguém – Sem mais nada a declarar, deixou os demais a sós.

Hannah sentiu-se horrivelmente incomodada. O espírito de todos estava abalado. Parabéns, Hannah, você conseguiu estragar mais uma coisa em sua vida. Deveria ter ficado com a boca fechada como disse que faria.

— Sesshoumaru-Sama... – Rin começou – Ele pediu para o Kohaku-Kun ir dormir na casa da irmã para que você pudesse ter um lugar onde dormir, Hannah-San.

— Eu só tenho dois futons extras, o meu terceiro estragou e não tem como ser utilizado. A irmã do Kohaku-Kun tem um a mais na casa dela, já que os gêmeos ainda dormem juntos, então o Sesshoumaru-Sama sugeriu que ele fosse dormir lá e deixasse você aqui para ficar perto da sua prima, que é a única conhecida que ela tem.

Hannah que achava que o seu mal-estar não poderia piorar estava enganada. De repente ela perdera a fome. Se tivesse mais intimidade, teria ido atrás dele e lhe pediria desculpas. Não, não pediria, se corrigiu. Sesshoumaru era muito arrogante e por mais que se sentisse atraída por ele, foi culpa dele próprio ter-lhe causado essa má impressão.

— Se não se importarem, eu gostaria de me deitar agora – Se pôs em pé.

— Mas você mal tocou em sua comida, Hannah-San – Kagome apontou.

— Não tenho fome. Acredito que o banho me relaxou – Mentiu. O banho só serviu para deixá-la irritada por estar impregnada com aquele cheiro de ervas que aos poucos ia lhe dando uma dor de cabeça terrível.

— Sinta-se em casa, Hannah-San – Kaede a encorajou – Imagino que saiba onde fica o quarto, não?

Hannah meneou a cabeça em concordância. Enquanto se retirava, ela escutou as conversas à mesa que fluíam agora que ela não estava mais entre eles. Eles nem vão se importar se eu me for, então por que todo esse trabalho para me fazer sentir a vontade? Sentiu vontade de chorar e atribuiu a culpa disso ao banho que relaxara o seu corpo.

— Já que ela não vai comer, posso comer a parte dela? – InuYasha perguntou.

— Acho que não tem problema... – Kagome encorajou.

— Eu também quero! – Shippou se manifestou e em seguida teve início ao que parecia ser uma disputa para ver quem comeria o quê.

A moça fechou a porta do quarto nessa hora e foi abraçada pela escuridão. No silêncio presente ali dentro, ela agradeceu por estar sozinha e sem que se desse conta, lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Maldição... praguejou, jogando-se sobre a cama que fora preparada para ela.

Notas finais
Espero que tenham gostado da história até aqui!