Flores da Liberdade
3 Capítulo 3
O barulho da chuva que persistia em cair foi a primeira coisa que Hannah percebeu conforme ia readquirindo sua consciência. A segunda coisa, ainda de olhos fechados, foram as vozes que vinham de algum outro lugar fora de onde ela estava.
— É a Kagura, ela se parece com a Kagura, mas não cheira como ela... – A voz de um homem comentou.
— A Kagura está morta, como ela pode andar por aí? – Outro homem rebateu a argumentação do primeiro.
— A Kagome pode explicar isso, Miroku. Ela é a reencarnação da Kikyou. Essa garota que esta ali dentro pode muito bem ser a reencarnação da Mestra dos Ventos – Uma mulher com a voz levemente rouca disse.
— É verdade – Kagome acrescentou – Isso é possível, principalmente porque ela veio da minha era. Aquelas roupas não são desse tempo. E pelo o que eu pude notar, ela é uma humana.
— Eu sei que ela é uma humana! – O dono da primeira voz se exaltou – Eu senti o cheiro de humano vindo dela! Mas como vocês explicam o fato dela ter conseguido vir para cá? A Kagome só conseguiu ser capaz porque a Joia de Quatro Almas estava dentro do corpo dela!
— Será que a Kagura trouxe a Joia junto com ela? – O segundo homem perguntou aos demais.
— Não seja estúpido, a Kagome destruiu a Joia de Quatro Almas junto com o Naraku! – O primeiro homem ainda mais exaltado disse.
— InuYasha... SENTA! – Sua prima ordenou e Hannah foi capaz de ouvir o barulho de um tombo – Quantas vezes vou ter que pedir para ser mais educado!? É incrível, depois de todos esses anos você continua sendo rude!
No susto, a jovem abandonou a atuação de fingir continuar desacordada e abriu os olhos, encarando o teto de madeira do que parecia ser uma casa. Ela estava dentro de um quarto, um quarto que ela nunca estivera antes e daria tudo para não estar. A última coisa que se lembrava era de uma mão forte segurando-a pelo ombro e um homem extremamente bonito com tatuagens estranhas no rosto lhe dirigindo a palavra. Hannah pensava já ter passado da idade de corar, entretanto não conseguiu evitar o calor que lhe subiu a face.
— Você já acordou, Kagura-Sama? – Uma voz gentil lhe questionou.
Hannah olhou para a dona daquela voz e se deparou com a noiva de mais cedo. A garota deveria ser alguns anos mais nova do que ela e era tão altruísta que abandonara a cerimônia de seu casamento para estar com ela. O que significa que não era uma filmagem no fim das contas.., lamentou sua sorte.
— Eu me chamo Hannah, não Kagura – A informou com certa raiva.
Estava começando a se cansar das pessoas a chamarem pelo nome de uma pessoa que provavelmente estava morta.
— Hannah-Sama... – A garota repetiu como se estivesse aprendido uma palavra nova.
— Rin, deixe a moça descansar – A sacerdotisa que estava realizando a cerimônia de casamento comandou.
— Eu me chamo Kaede – Se apresentou – Pelo o que pude perceber, você conhece a Kagome, não é mesmo? Ela é uma sacerdotisa deste vilarejo.
— Eu não a conheço – Rebateu, dando as costas para aquelas duas mulheres – Acontece apenas dela ser a minha prima e se não for pedir muito, gostaria de voltar para a minha casa agora.
Houve um silêncio opressor após a sua declaração e Hannah quase voltou a se virar para elas, mas então a anciã se manifestou.
— Temo que isso seja impossível... Pelo menos no momento.
— O que quer dizer com isso!? – Hannah se sentou de imediato e sentiu-se tonta pela rapidez da ação – Eu estou sendo mantida aqui por você, sua velha? Saiba que eu posso ser nova, mas eu conheço os meus direitos! Eu vou chamar a polícia se você me forçar a ficar nesta espelunca! – Balançou o dedo indicador em sinal de repreensão.
— O que é polícia? – A noiva que se chamava Rin indagou.
Hannah franziu as sobrancelhas mediante a pergunta cretina e abriu a boca para realizar uma ironia quando um terceiro sujeito entrou em seu campo de visão.
— Tem certeza que você não é a Kagura? – O noivo de Rin lhe perguntara.
— Claro que eu tenho! Como alguém pode se esquecer de quem é? – Retrucou, revirando os olhos em escárnio.
— Kohaku-Kun! – Rin cumprimentou o noivo com demasiada felicidade.
— Você é tão parecida com ela... Seus traços físicos e até mesmo o pouco que eu vi de sua personalidade. Eu gostava muito da Kagura, ela salvou a minha vida e serei eternamente grato à ela... – O rapaz contou em tom de lamentação.
— Mas eu não sou – Acrescentou de imediato, sentindo-se um tanto quanto culpada por não ser quem aquelas pessoas acreditavam que ela fosse. Pela forma com a qual aquela gente a saudara pensando que ela fosse essa tal de Kagura, significa que a mulher deveria ser de alguma forma querida por todos eles, um sentimento que Hannah nunca despertara em ninguém, nem mesmo no ex-namorado que não pensara duas vezes em trocá-la por outra garota – Eu só quero voltar para casa – Tornou a repetir o seu único desejo.
— Você vai voltar, quando encontrarmos um jeito de levá-la de volta – A velha chamada Kaede lhe respondeu – Enquanto isso, por que não vai tomar o banho medicinal que eu pedi para Kagome preparar e depois não me permita cuidar de seus ferimentos?
Sim, um banho não soa tão mal assim... Você não gostaria de voltar para casa nessa aparência, não é mesmo? Sua família já deve ter voltado do hospital, o que eles diriam se a vissem assim?, seus pensamentos buscavam meios de tranquilizá-la. No fundo ela sabia que aquelas pessoas não poderiam mantê-la ali por muito mais tempo contra a sua vontade. Hannah tinha práticas de fuga e sempre que possível vivia fugindo de suas tarefas para comparecer à concertos de rock em sua cidade ou matar aula apenas porque não estava com vontade de ir para o colégio e encontrar seu ex.
— Pode ser – Deu de ombros, pondo fim em suas relutâncias.
— Kohaku-Kun, Rin-Chan, por que vocês não vão para a sua lua de mel agora, hein? Não precisam mais se preocupar com a Hannah, ela vai ficar em boas mãos – Kaede tranquilizou os recém-casados.
— Não vai dar para irmos hoje, Kaede-Sama – Rin a respondeu – Eu disse ao Sesshoumaru-Sama que só iríamos depois que parasse de chover para o seu castelo.
Castelo? Por Buda, que diabo de lugar eu vim parar!?, a mente de Hannah formigou com a informação que recebera. Rin mencionou ir para um castelo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Até onde a jovem sabia, não existia mais tantos castelos assim espalhados por aí a fora, principalmente no Japão. Quem quer que esse Sesshoumaru-Sama fosse, deveria ser um homem muito rico.
— Vocês vão ficar na minha casa até partirem, então? – A anciã questionou.
— Eu pensei em ficarmos na minha irmã, mas os gêmeos dela estão em uma fase terrível – Kohaku falou, corando ligeiramente.
Rin escondeu a boca com a mão para que ninguém a visse rir daquele comentário.
— Vou preparar mais um quarto para vocês – Kaede se pôs em pé – Hannah-Chan, se quiser me acompanhar irei te levar até o quarto de banho e lhe dar uma roupa para que vista enquanto eu limpo essa que está usando.
Hannah concordou com um menear de cabeça e se levantou, não se preocupando em acenar em cortesia para o casal que ela ainda voltaria a ver naquele dia já que estariam sob o mesmo teto.
A jovem tentou manter a cabeça erguida enquanto seguia a sacerdotisa, principalmente quando passou por aqueles quatro estranhos que lhe lançaram olhares de curiosidade. Hannah podia ter seguido o seu caminho com a sobriedade de uma bailarina durante uma apresentação se o homem que ela reconheceu pela voz como sendo InuYasha não a tivesse detido com suas palavras ásperas.
— Aonde você está levando a Kagura, velhota!?
Os olhos daquela que todos chamavam de Kagura se virou para o homem e algo lhe chamou a atenção. Sobre a vasta cabeleira prateada dele havia um par de orelhas de animal. Hannah inclinou a cabeça sobre o ombro para observar melhor aquilo. O tal InuYasha não era tão mais velho do que ela e ela já se julgava velha de mais para usar acessórios como aquele.
— Isso é ridículo – Comentou em voz alta. Ao ver que InuYasha não entendeu o que ela se referia, apontou para as orelhas dele – Essas orelhas de gatinho. Você é velho para usá-las.
— Ora, sua... – Ele começou, fechando os punhos para conter a raiva – Minhas orelhas não são de gatos imundos! São de cachorro!
— Ah! – Hannah exclamou – Elas se mexem! – Deu um passo vacilante para trás – Que horrível, tira isso da sua cabeça!
Kagome que estava mais atrás de InuYasha se aproximou dele e agarrou a ponta das orelhas, puxando-as para cima.
— Vê? Elas não saem. São de verdade – A informou com um sorriso gentil nos lábios.
Hannah piscou algumas vezes, tendo dificuldade em engolir a realidade.
— De... verdade? – Mostrou-se confusa com aquilo.
— Tenta puxar para você ver – A encorajou.
Hannah deu alguns passos para frente, mas teve de parar pela explosão do homem.
— Eu tenho sentimentos! – Gritou, afastando Kagome de si – Minhas orelhas não são brinquedo, nem se atreva a colocar suas mãos imundas em mim, Mestra dos Ventos!
Uma veia saltou no pescoço da jovem.
— Meu nome é Hannah Higurashi! Parem de me chamar de Kagura e Mestra dos Ventos! – Esbravejou em retorno com um tom mais alto do que o do homem com orelhas de gatinho – Eu quero o meu banho, Kaede! – Voltou-se para a anciã e com passos decididos passou na frente da sacerdotisa, indo para fora da casa.
— Ela tem personalidade, não? – A mulher que não era a Kagome murmurou alto o suficiente para Hannah ouvir.
— A Kagura também tinha, Sango – O outro homem que deveria ser o Miroku observou.
— Parem de falar de mim enquanto ainda estou presente, que saco! – Gritou, batendo a porta as suas costas e fechando os olhos para buscar se controlar.
Pensou que sua prima seria diferente dos demais, todavia pelo jeito ela estava enganada. Não conhecia Kagome em nenhum aspecto que não da aparência que ela vira em uma foto antiga e o fato dela ter saído de casa depois de ter se casado. Não havia conhecido o marido dela, mas algo dentro de si exclamava que era aquele garoto estranho. Queria voltar lá e dizer coisas a mais para eles, só que não se atreveu. Estava em um ambiente estranho e no meio de pessoas mais estranhas ainda, até que alguém encontrasse uma forma dela voltar para casa, iria controlar os seus impulsos, os guardando para quando a hora finalmente chegasse.
— Mestra dos Ventos... – Ouviu alguém chamá-la diante de si.
— Eu já disse que eu não sou... – Se silenciou ao reconhecer o homem à sua frente. Era o mesmo que ela vira antes de desmaiar.
Podendo vê-lo de frente, Hannah analisou por completo a aparência dele. O homem trajava um conjunto branco com detalhes nas extremidades em vermelho preso por um obi amarelo, no peito tinha uma armadura e na cintura carregava duas espadas. Sobre o ombro trazia uma estola felpuda de tonalidade alva. Ele era muito bonito, não podia negar, apesar das roupas estranhas que usava. Hannah tentou perguntar quem ele era, mas a aura que ele emanava tornava o ambiente hostil, obrigando-a a se escorar ainda mais na porta.
Este foi um erro que ela cometeu, pois Kaede ainda estava dentro da casa e quando ela abriu a porta, Hannah teria caído se o estranho não tivesse segurado o pulso dela e a puxado para frente, mantendo-a próxima de si.
A garota manteve a cabeça baixada para esconder a cor que surgiu em sua face, proveniente tanto de sua estupidez quanto do fato de ter sido tocada por ele. Idiota! Praguejou.
— Hannah-Sama... Ah, Sesshoumaru-Sama – A anciã desviou a atenção da jovem para o homem que ainda a segurava pelo pulso – Rin-Chan disse que vai passar a noite aqui com o Kohaku, imagino que a queira ver, então se sinta à vontade. Devo te avisar que o InuYasha está aí também.
Sesshoumaru... Então é ele que tem um castelo... Hannah se sentiu ainda mais curiosa em relação ao homem e ousou erguer a cabeça para encará-lo mais uma vez e percebeu que os olhos dele não desgrudavam dela, como se quisesse ler os pensamentos que ela estava tendo.
— Entendo... – Ele respondeu, cortando o contato que criara com Hannah.
Imediatamente Hannah levou a mão no lugar em que ele a tocara. Kaede aproveitou o momento para colocar sua mão nas costas da garota.
— Vou mostrar a casa de banho para você agora, Hannah-Chan.
Demonstrando obediência, a jovem meneou a cabeça em concordância e se permitiu ser conduzida pela mulher, lançando um último olhar por cima do ombro para Sesshoumaru que desta vez não lhe retribuiu.
Havia algo nos olhos dele que Hannah interpretou como tristeza e desejou saber qual era a relação dele com esta tal de Kagura.
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