Hannah não demorou muito a dormir e quando acordou o céu ainda estava escuro lá fora, mas ela sabia que não demoraria muito mais para amanhecer pela ausência de estrelas. O céu noturno naquele momento ostentava apenas uma lua cheia.

Tomada pela decisão feita na noite anterior, ela levantou tentando não fazer muito barulho e ajeitou sua roupa e seu cabelo que ficaram desalinhados durante o sono. Conseguia ver o vulto de alguém deitado no mesmo cômodo que ela, Pode ser Rin, constatou. Com todo o cuidado possível, deixou o aposento e adentrou a sala onde todos jantaram ontem. O lugar estava arrumado, não tendo nenhum resquício do banquete da noite anterior. Para sua sorte, também não havia ninguém ali, apesar de conseguir ouvir ruídos de sono vindo de outras duas portas nas extremidades do lugar. Apenas agora Hannah percebeu que aquela era uma casa de três quartos e uma sala.

Se a minha prima e aquele homem estranho de orelhas de gatinho estão aqui, eles podem acordar se eu fizer barulho, tendo consciência do risco que corria, apressou sua saída.

Ela ainda estava usando as roupas de sacerdotisa e com agilidade, deixou a casa. Assim que fechou a porta atrás de si, desatou a correr. Hannah não tinha o espírito esportista, toda via conseguiria conseguir uma boa vantagem se corresse o máximo que pudesse e foi o que ela fez durante dez minutos, até que se cansou, ainda estando na saída do vilarejo.

— O poço por onde eu vim infelizmente não fica muito perto – Lamentou-se ao recordar o caminho que fizera para chegar até ali.

O silêncio reinava por todo aquele vilarejo. Hannah viu uma ou duas pessoas aqui e ali indo para as plantações. Um camponês até parou o percurso para fazer uma pequena oração para ela. São essas malditas roupas, praguejou. Sem saber o que fazer, abaixou a cabeça e apertou o passo.

A grama sob os seus pés ainda estavam viscosas pela chuva do dia anterior, mas para sua sorte não havia nenhuma nuvem de tempestade no céu. O dia prometia ser ensolarado, como um típico dia de verão deveria ser. Hannah aspirou o ar que naquele momento estava frio. O ar daquele lugar era puro e carregava o forte aroma da natureza. Ela apreciou a fragrância. Por mais distante que fosse o caminho, ela se sentia em boa companhia, afinal de contas, ela estava livre daquela gente.

O cascalho da estrada feriu a sola de seus pés, abrindo os pequenos cortes do dia anterior. A velha Kaede disse que iria trata-la, mas não o fez. Não que ela esperasse isso, o banho de ervas já havia sido mais do que merecia em seu conceito. Eu posso cuidar de mim mesma, esbravejou consigo.

Aproveitando para admirar a paisagem por onde passava, foi tentada a parar próximo de um riacho. Atrás de um arbusto ela fez suas necessidades biológicas e em seguida tomou um segundo banho no riacho para tirar o cheiro das ervas do corpo e acordar de vez. Sentiu-se renovada quando tornou a colocar as roupas que lhe foram cedidas.

O sol já havia nascido por completo quando chegou ao local por aonde viera. Dessa vez, Hannah não sentiu receio em se aproximar do poço e esticou o pescoço para ver o que havia lá dentro.

Devido a chuva do dia anterior, uma pequena poça se formara dentro daquele lugar e a sua sapatilha flutuava lá dentro.

— Não tenho escolha que não descer – Deu um longo suspiro de desagrado.

Preferia que a sua volta para casa tivesse sido realizada de uma forma tão suave como a vinda dela para ali.

A descida foi relativamente mais difícil do que a subida. Sem poder ver onde colocava os pés, a moça teve que dedicar mais forças aos braços para sustentar o corpo. As pedras do interior daquela estrutura estavam úmidas e revestidas por musgo. Hannah quase caiu um par de vezes. Seu coração estava na boca e o suor pingava de sua testa quando atingiu o fundo.

A água batia no meio de sua canela. De certa forma, estava satisfeita por rever o seu sapato, não que ele estivesse em uma boa condição para ser calçado de imediato.

Com mãos hábeis, a jovem procurou uma passagem secreta através de uma pedra solta na parede do poço. O sol já estava alto no céu quando ela desistiu de fazê-lo.

— Não é possível... – Comentou para si mesma – Não tem nada aqui dentro!

Mas não foi pelas paredes que você veio, se recordou. Entregando-se ao desespero, ajoelhou-se naquela água com cheiro forte de podridão e tateou o solo. A nova atividade foi mais fácil do que a primeira. O chão era menor do que as paredes e seus longos dedos vagaram em cada centímetro. Havia uma espessa camada de lama no fundo devido à umidade e diversas vezes encontrou o que parecia ser ossos, mas não dedicou muito o pensamento para isso. Ela acreditou que o que estava puxando era uma alavanca e só quando aqueles pedaços pontudos saiam em suas mãos que ela fez a sua análise a contragosto. Não queria pensar os horrores que aquele poço que era a sua passagem para casa guardava.

Foi tateando incansavelmente que tocou algo macio. Hannah limpou aquele artefato na água por ele estar enlameado e então os seus olhos se maravilharam com uma delicada pena branca. Ela não conhecia nenhuma ave que tivesse tal plumagem e embora soubesse que o correto era devolvê-la para o poço, a moça decidiu guardá-la como um souvenir. Seria isso um roubo?, se questionou. Achado não é roubado, se defendeu.

— Hannah-San? – Seu nome foi chamado por uma voz que no último dia tornara conhecida para ela.

Reagindo como se tivesse sido pega fazendo uma arte, mordeu o lábio inferior e se pôs em pé de imediato e olhou para a entrada do poço. O sol estava tão forte que foi necessário erguer a mão para tampar a claridade e ver quem a chamava.

— Hannah-San! – Era Kohaku quem a chamara – Você está bem? – Havia preocupação em seu tom de voz.

— Estou... – Murmurou com desgosto. Não queria que tivessem descoberto a sua travessura. Na verdade, até esperava isso, só não pensava que seria encontrada. Seu plano era já estar na sanidade do Templo Higurashi a essa altura.

— Precisa de ajuda para sair daí? – Ele se ofereceu.

— Não – Mesmo que precisasse, só admitiria isso depois de tentar.

— Então suba! – Kohaku pediu.

Não estou afim, pensou em rebater, mas essa não era a verdade. Estava cansada de sua frustrante busca por uma passagem. Guardando a pena que achara no decote de sua roupa de sacerdotisa, pegou suas duas sapatilhas.

— Kohaku! – Chamou e quando o rapaz olhou para ela, Hannah abriu um sorriso amarelo – Pensa rápido! – Ordenou, jogando o par de sapatos para cima.

Em um movimento de precisão que quase fez o noivo de Rin cair dentro do poço, ele pegou as duas sapatilhas, abrindo um sorriso divertido ao fazê-lo.

— Peguei! – Anunciou em meio a uma risada.

— Bom garoto! – Elogiou como se Kohaku fosse um cachorro que acabara de buscar o graveto que ela jogara.

Hannah riu com o garoto e nem reparou que estava se divertindo com a situação até encostar o rosto na parede do poço.

O que estou fazendo?, se repreendeu. Ela não deveria estar se enturmando com qualquer um daqueles estranhos.

Com prática adquirida pelas experiências anteriores, Hannah escalou as pedras como se tivesse nascido fazendo isso, o que surpreendeu o rapaz.

— Você foi rápida! – Kohaku comentou com entusiasmo, entregando para ela as sapatilhas que ele segurava contra o peito.

Hannah percebeu que as roupas dele eram bem diferentes da do dia anterior. Hoje ele estava trajando um conjunto que parecia ser um macacão feito de couro enegrecido e uma armadura esmaltada de verde.

Para variar, a moça mais uma vez estava coberta por sujeira. Hannah era vaidosa com o pouco que tinha e sentiu-se inapresentável para qualquer um, o que lhe causou vergonha.

— Você não deveria ter ido para a sua lua-de-mel? – Perguntou.

— Todos ficaram preocupados com o fato de você ter saído da casa da Kaede-Sama, então todos se juntaram para te procurar – Informou com timidez.

— Essa atitude foi desnecessária – O corrigiu – Eu pretendia voltar assim que encontrasse a minha sapatilha – Mentiu. Sua intenção era voltar para casa e se não tivesse obtido sucesso iria procurar ajuda em outro lugar que não com as pessoas daquele vilarejo.

— Mesmo assim, tem muitos perigosos por aí – Kohaku contestou como faria um homem de muito mais idade.

Ele ainda é uma criança e já está casado... e a noiva dele não é tão mais velha assim. Pelo o que observara, Kohaku deveria ter a mesma idade que ela e Rin com certeza era alguns anos mais nova do que Hannah.

— Eu não entendo que perigo que vocês se referem! – Protestou – Parece até que há um monstro escondido em cada esquina!

— Youkais – Kohaku ressaltou – Eles são perigosos. Eu e minha irmã dedicamos a nossa vida para exterminá-los.

— Deixaram passar três e meio, pelo o que me recordo – Se Sesshoumaru, Shippou, InuYasha e Kirara eram Youkais e estavam de baixo do nariz daqueles irmãos exterminadores significava que eles não estavam fazendo um bom trabalho.

— Quais? – O rapaz se preocupou.

— Aqueles do vilarejo – Apontou.

— Eles não são ruins – Kohaku a informou.

Hannah discordava com essa afirmação. Todas as pessoas são ruins, independente se são humanos ou Youkais, ela tinha experiência para acreditar nisso.

— Que seja – Deu de ombros, sem vontade de começar uma discussão que não levaria a lugar algum.

Sem esperar por Kohaku, ela tomou a frente do caminho que a levaria para casa.

— Vamos indo – Ordenou com altivez.

O rapaz a obedeceu, andando ao lado dela. Hannah tinha apreciado mais o caminho quando estava sozinha. Não que a companhia do Kohaku fosse desagradável, mas ela sentia que estava sendo escoltada por um guarda que deveria detê-la se ela tentasse fugir.

Decidida a apreciar o momento, tomou na mão vaga a pena que escondera no decote e começou a analisá-la. Ela era alva e cabia com precisão na palma de sua mão. Em uma atitude infantil, passou ela na sua maçã do rosto. Tão fofinha... sorriu para a sensação.

— O que é isso? – Kohaku questionou.

— Uma pena – Disse o óbvio, olhando-o com o rabo do olho.

O rapaz ficou um momento em silêncio observando o objeto que Hannah tinha em mãos. Ele estava tão sério que Hannah pensou que a qualquer momento ele tomaria dela.

— Eu conheço essa pena – Kohaku arregalou os olhos – É a pena que a Kagura me deu!

— Achado não é roubado! – Quase gritou a frase. Não queria ser acusada de roubo por estranhos. Estava cansada de ser confundida por ladra.

— Você a achou? Onde?

— No poço. Estava enterrada na lama que se formou com a chuva. Eu decidi que ela vai ser a minha pena da sorte – Hannah abriu um sorriso amargo. Era impossível ela ter menos sorte do que já tinha.

— Que estranho... – Kohaku comentou – A minha pena sumiu ontem, será que foi possível ela ter ido parar lá?

— Olha, eu não te conheço e você não me conhece, mas eu te garanto que eu não te roubei. Eu achei essa pena dentro do poço, se você tem uma igual e não sabe onde ela está é problema seu – Esbravejou.

— Kohaku-Kun, Hannah-San! – Rin chamou por eles.

Sem que se desse conta, os dois haviam retornado para o vilarejo e Rin acompanhada de Kagome esperavam por eles de frente com a escadaria do templo. A menina estava usando um rico quimono branco com pequenas borboletas em rosa-claro pintadas no tecido. A sua prima por outro lado estava com uma roupa igual a que Hannah usava, só que limpa.

— Você a encontrou! – A noiva exclamou, com os olhos fixos na moça que acompanhava o seu marido.

— Ela estava no poço, como Kaede disse que estaria – Kohaku sorria como um verdadeiro cavaleiro que tentava demonstrar os seus méritos para uma rica princesa.

— Eu sei, eu joguei ela lá – Rin confessou com nervosismo.

— Oi? – Hannah não compreendeu.

— Como assim, Rin? – Kagome se manifestou.

— A pena... – Ela apontou para o pequeno objeto branco que Hannah ainda tinha em mãos – Joguei antes de vir para a cerimônia do nosso casamento, eu sinto muito, Kohaku. Eu sei o que ela significava para você, mas eu tinha que fazê-lo. Aquele era um poço dos desejos afinal de contas! – A menina se desesperou.

— Você está falando sobre o Poço Come-Ossos, Rin-Chan? – Kagome piscou algumas vezes, incrédula com o que ouvia.

— Aham... – Rin abaixou a cabeça em um gesto de constrangimento.

— O que você pediu? – Kohaku questionou.

— Não importa... – Ela meneou a cabeça em sinal negativo e então ergueu o rosto e exibiu um enorme sorriso que ia de orelha a orelha – Deu certo no final! Hannah-San, você irá à lua-de-mel conosco!

— Eu o quê? – Hannah havia sido excluída da conversa e agora que estava sendo incluída foi para receber uma bomba – Eu não quero ir! – Exclamou com as bochechas ruborizadas. Ir para um lugar com um casal recém-casado era impensável. Não havia nada que pudesse fazer com eles. Menáge a trois é algo que eu realmente não farei!, se manifestou em pensamento.

— Mas você vai. É o mínimo que você pode fazer depois de ter arruinado o meu casamento – A menina grudou em sua mão que estava segurando a pena e lhe lançou um malicioso olhar naqueles sorridentes olhos achocolatados.

Hannah deixou os lábios se separarem em incredulidade. Rin parecia ser tão doce e fora capaz de lhe lançar uma verdade dessa magnitude. Ela tinha que fazer algo para não cair naquela armadilha, mas o quê?

— Rin-Chan, eu acho que o Sesshoumaru não vai aprovar essa sua ideia – Foi Kagome quem interveio por ela.

Obrigada, prima!, seu eu-interior exclamou.

— Ele vai aceitar, afinal de contas se a Hannah-San ficar aqui ela vai fugir de novo! – Rin rebateu a argumentação da Kagome – Você não pode ir assim, Hannah-San, vai tomar um banho e nos encontre em frente à casa da Kaede-Sama, ok? – Por mais que aquilo fosse uma pergunta, no fundo era uma ordem.

Lançando um olhar de socorro para Kagome sabendo que não conseguiria nada disso, ela fez o que a menina ordenara.

Rin podia ser nova, todavia ela seria uma excelente esposa com aquela habilidade de fazer com que as pessoas fizessem exatamente o que ela queria.

Maldita pena, você deveria me dar sorte! Hannah xingou o objeto fofo que tinha em mãos. Pensou em jogá-lo fora já que não a ajudara em nada, porém uma parte de si não permitiu e se entregando à ela, suspirou e guardou a pena no decote da roupa que vestia.

Notas finais
Capítulo escrito enquanto escutava todas as aberturas e encerramentos de InuYasha. :P Espero que tenham gostado desse lado da Rin! heheheh ;) O que será que ela desejou, não é mesmo?