Flores da Liberdade
7 Capítulo 7
Hannah não demorou muito no banho. Sabia que tinha pessoas esperando por ela e sentiu-se estranha por isso. Rin lhe dissera que iria conversar com Sesshoumaru para que ela fosse junto com eles para o castelo do Youkai passar a lua-de-mel do casal recém-casado. A jovem não temia a rejeição, mas ainda assim não esperava que aquele homem altivo aceitasse a sua presença em suas terras depois do que ela lhe dissera na noite anterior.
Não sei por que me sinto ansiosa em ouvir a resposta dele, resmungou em pensamentos. Pra começo de conversa ela nem queria acompanha-los. O seu lugar no momento era ali ao lado da passagem que a levara para aquela gente estranha. Se fosse para longe seria como se tivesse decidido não voltar mais para casa.
Além disso, Kagome vai ficar no vilarejo. Sua prima podia ser uma completa estranha para si como os demais eram, todavia ela era de seu sangue. Você é trouxa se realmente acredita que ela vai ficar do seu lado se o pior acontecer, se repreendeu. No passado até mesmo sua mãe lhe virara as costas quando mais precisava de um ombro amigo, quem dirá uma prima que nunca vira antes.
Saindo do banho, vestiu um novo conjunto de roupas de sacerdotisa que lhe emprestaram e guardou a pena que encontrara no decote mais uma vez. Dessa vez não irei sujar essas vestes, se ali realmente era a Era Feudal, isso significava que todas as roupas deveriam ser lavadas à mão. Se ela tivesse de ser encarregada da limpeza das próprias vestes, então ela queimaria todas elas, pois se tinha uma coisa que ela era péssima em fazer era lavar roupa na mão.
Hannah estava começando a se adaptar naquele lugar apesar de só ter passado um dia desde a sua chegada. Essa é a minha vantagem, eu me adapto rápido as situações, lamentou. Aquilo não era algo que tinha orgulho. Para sua sobrevivência, era uma habilidade e tanto a que possuía, mas para seus princípios não era. A moça tinha lutar mais pelo o que queria, não só com as ações de rebeldia como também da fala. Sempre que desejava expressar suas vontades acabava falando com imposição e grosseria. Com dezoito anos, isso já havia virado um hábito de seu caráter.
Com passos apressados e ao mesmo tempo apreensivos, retornou a casa da Kaede onde o grupo de pessoas que ela se socializara do dia anterior se encontrava na porta da residência em uma conversa acalorada.
— Nós vamos sentir saudade de você nesse meio tempo, Rin! – Sua prima abraçava a noiva.
— Os construtores da vila vão dedicar todo o seu tempo de trabalho na construção de seu novo lar aqui no vilarejo – Kaede informou Kohaku que estava nos braços da mulher chamada Sango.
— Não aceite nenhuma merda que o Sesshoumaru impor para você, Kohaku – InuYasha o alertou.
— Cala a boca, meio-youkai desprezível – Sesshoumaru repreendeu o irmão.
— Ora, seu maldito! – O meio-youkai se exaltara.
— InuYasha... – Kagome rangeu os dentes, soltando Rin de seus braços – Hannah-San! – Desviou a atenção daquele que deveria ser seu marido para se voltar para a prima que entrara em seu campo de visão.
— Olá – Hannah cumprimentou com insegurança, passando os olhos em todos os presentes com exceção de Sesshoumaru.
— Hannah-San – Kaede a chamou – Você perdeu o café da manhã e tomei a liberdade de embrulhar pão e queijo para a sua viagem caso sinta fome no caminho.
Hannah arregalou os olhos e piscou algumas vezes.
— No caminho? – Perguntou em voz alta aquilo que deveria ter sido apenas um pensamento.
— Sesshoumaru-Sama permitiu que você fosse conosco! – Rin enganchou o seu braço no dela, abrindo um largo sorriso de contentamento.
Hannah perdeu a fala e ergueu os olhos para o dono do castelo que ela estava prestes a visitar. O homem não lhe devolveu o olhar, estando mais ocupado em colocar uma mecha das longas madeixas prateadas atrás da orelha. Ele não deve estar tão bravo assim..., constatou.
— Heh, agora você será problema dele e não nosso! – InuYasha cruzou os braços na altura do peito, claramente satisfeito por se livrar dela.
A moça franziu o cenho para o homem de orelhas de gatinho e percebeu que sua prima fizera o mesmo.
— InuYasha... SENTA! – Kagome ordenou e como se tivesse preso a uma força superior, o marido de sua prima caiu com a cara no chão – Você não é um problema, Hannah-San. Só pensamos que seria o melhor para você no momento – Voltou-se para a prima.
— É uma pena que não poderemos nos conhecer melhor, Hannah-San – O homem chamado Miroku confessou com um sorriso malicioso, aproximando dela pelas costas.
Hannah ameaçou abrir a boca para respondê-lo, mas então sentiu as mãos daquele homem que se vestia com roupas de tonalidade negra e púrpura subir e descer por sua bunda. Aquele gesto pegou a moça de surpresa fazendo com que todo o calor de seu corpo subisse para sua face. Sentiu que havia sido violada. Não havia dado tal liberdade para ninguém antes, nem mesmo para Kyouya que ela namorara.
— Monge depravado! – A esposa dele se manifestou, dando-lhe uma forte bofetada no rosto – Não pode ver uma mulher bonita que já quer tocá-la!
Bonita... Aquela era a primeira vez que alguém a considerava bonita. Hannah tinha consciência de seus atributos, mas ouvi-los da boca de outra pessoa validava suas observações.
— Sabe como é, Sango, eu sempre tive vontade de fazer isso com a Kagura, mas não tive coragem... – Miroku lamentou, colocando a mão na região atingida pela esposa. Vendo a expressão no rosto da esposa, ele completou sua frase – Entre todas as mulheres, Sango, você é a mais perfeita. Mesmo depois de ter dado a luz a três filhos meus – Ele a elogiou, fazendo com que a irmã de Kohaku corasse violentamente.
— Hannah-San – Kaede tornou a chamá-la – Eu vou ficar com essas roupas sujas – Esticou as mãos para tomar o embrulho que ela carregava. Na ação, Hannah resgatou do monte apenas suas sapatilhas – As roupas com as quais você veio para cá ainda não foram secas, então coloquei mais dois pares do traje que está utilizando no saco que entreguei para Kohaku.
O rapaz ouvindo a referência ergueu as roupas que foram guardadas dentro de uma trouxa de pano para mostrar a moça.
— Eu tenho mesmo que ir? – Hannah voltou-se para o grupo.
— Tem sim! – Kagome lhe lançou um olhar comprometedor antes de desviar os olhos castanhos para Rin em sinal de complô. Não entendia o que as duas estavam tramando, mas sabia que estavam planejando algo. Hannah se sentiu desconfortável por estarem fazendo isso as suas custas.
— Vamos indo – Sesshoumaru ordenou, tendo apenas agora aberto a boca depois da chegada da moça.
— Hai, Sesshoumaru-Sama! – Rin exclamou, puxando Hannah junto com ela.
Hannah fez corpo duro a princípio, só que ao ver os olhos entristecidos de Rin, permitiu ser guiada por ela, fazendo abrir um sorriso gentil no rosto da menina.
— Vai ser tão divertido esses dias, Hannah-San! – A menina exclamou com entusiasmo – O castelo do Sesshoumaru-Sama é tão grande e tem tantas coisas para se fazer lá. Os jardins são imensos e há cachoeiras. Eu gosto muito de ir lá, mas o Sesshoumaru-Sama não me leva muito para visitá-lo por ser longe e só ter youkais por lá... – Lastimou.
Kohaku lhe disse que o maior perigo que existe neste mundo eram os youkais e mesmo assim ela estava sendo levada para o covil deles com mais dois humanos. A moça engoliu em seco. Não sabia o que eles comiam, mas se eles realmente eram demônios, então o prato principal deveria ser virgens. Virgens são usadas para sacrifício, recordou dos filmes clichês de terror que assistira durante a adolescência e mais uma vez na vida se arrependeu de não ter se deitado com o ex.
— Não precisa se preocupar, Hannah-San, os youkais de lá estão sob o domínio do Sesshoumaru-Sama – Rin garantiu ao tomar o silêncio da outra por medo.
— Eu não estou preocupada! – Rebateu com uma mentira. Era óbvio que estava preocupada, principalmente porque o Sesshoumaru tinha motivos para não gostar dela e dá-la de banquete para os servos.
— Nem todos os youkais são ruins – Kohaku entrou na conversa dizendo as mesmas palavras que já havia proferido quando intercedera a fuga dela – E se aparecer algum que não seja amigável, eu irei exterminá-lo – Garantiu.
— É verdade, o Kohaku é um ótimo exterminador! Ele e a irmã são os últimos descendentes de uma antiga e respeitada linhagem de exterminadores! – A menina vangloriou-se das habilidades do marido e naquele instante Hannah percebeu que ela apaixonada por ele.
— Se diz – Deu de ombros, indiferente ao tema da conversa.
— É uma pena que vamos chegar lá quase de noite – Rin reclamou – Queria poder aproveitar o dia ao ar livre.
— É tão longe assim? – Questionou, sentindo um leve formigar no estômago causado pela apreensão de estar indo para longe do poço.
— Aham, fica no Oeste o castelo do Sesshoumaru-Sama!
Hannah tentou se recordar das direções cardinais aprendidas nas aulas de geografia sem muito sucesso. Sabia onde ficava a direção, mas não sabia a posição geográfica de Tóquio e quais cidades se encontravam no Oeste. Claro que isso não teria muita diferença levando em compensação o fato de ela estar em um mundo de quinhentos anos atrás. Isso se o que eles disseram for verdade. O ponto positivo de estar fazendo essa viagem é que ela poderia ver com os próprios olhos o que havia além daquele vilarejo.
— E nós vamos a pé para lá? – Aquilo era impossível. Caminhar de Tóquio para o Oeste levaria com toda a certeza mais do que meio dia.
— Não, vamos voar – Kohaku a respondeu.
— Avião? – Se existisse aeroporto ali, ela poderia facilmente agendar um voo para sua casa ou qualquer outro lugar do mundo que não tivesse aquelas pessoas estranhas.
— Avião? – Kohaku repetiu a pergunta – Não sei o que é isso. Nós vamos é de dragão.
— Dragão!? – Sua voz se elevou a altura de um grito – Aqueles bichos grandes que cospem fogo e estão extintos a centenas, talvez milhares de anos se realmente algum dia existiu algum?
— É um dragão... – Rin mencionou, sem compreender o que Hannah acabara de dizer – E o A-Un cospe fogo sim, mas só quando ameaçado! – Acrescentou um sorriso jovial ao fim da frase.
— E nós estamos indo encontrá-lo? Se ele é inofensivo, por que não o trouxeram para o vilarejo? – A dúvida martelava em sua cabeça.
— Para não chamar muita atenção. Os habitantes do vilarejo não gostam muito de youkais e tem que aceitar a presença do InuYasha, do Shippou e da Kirara. Algumas vezes até do Sesshoumaru que vem visitar a Rin. Apesar de eles gostarem dos três primeiros de certo modo, eles tem receio do irmão do InuYasha, porque sempre que os dois se encontram sai alguma discussão que as vezes vira batalha física – Kohaku respondeu em um sussurro ao pé do ouvido da moça.
— O comportamento deles já foi pior – Rin ressaltou – Agora pelo menos eles conseguem apreciar uma refeição juntos.
Os olhos de Hannah se fixaram nas costas do youkai que caminhava à frente deles. Sesshoumaru parecia ter um senso de humor terrível devido à frieza que ele transmitia. Se agora ele estava melhor, a moça não desejava saber como ele era antes.
— Veja, Hannah-San, aquele é A-Un! – Rin apontou um enorme animal parado próximo à uma árvore se alimentando da vegetação local.
Sem que se desse conta por estar conectada a conversa que estava tendo com aqueles dois ela havia deixado o vilarejo. O animal que iria realizar o voo deles não era tão grande quanto esperava, sendo apenas um pouco maior do que um cavalo.
— Ele parec... – Engoliu a frase. Desejava poder ter dito que o animal era normal, mas quando ele percebeu que tinha pessoas se aproximando, ergueu as cabeças – Ele tem duas cabeças! – Exclamou.
— Por isso que ele se chama A-Un – Kohaku disse – A é a cabeça da esquerda e Un da direita. Foi a Rin que o nomeou.
Hannah não queria saber por que aquele dragão era chamado A-Un, ela queria saber por que diabos ele tinha duas cabeças.
— A-Un! – Rin chamou pela fera, desatando o seu braço do de Hannah. Em uma corrida animada, envolveu o dragão de duas cabeças em um abraço, dando fortes gargalhadas ao ser saudada com o que pareceu ser um ronronar amigável.
— Ela é louca... – Hannah murmurou para si mesma.
— Ele é manso, viu só, Hannah-San? – Kohaku a tranquilizou rindo da cena que a esposa fizera.
— Eu não vou chegar perto dessa coisa nem morta! – Avisou, cravando os pés no chão.
— Hannah-San! – Rin a chamou, tornando a correr em sua direção – Venha ver A-Un! – Pediu, puxando-a pela mão.
Hannah soltou o peso no corpo, recusando-se a fazer o que lhe era pedido.
— Não mesmo! – Esbravejou – Me solta!
— É seguro, Hannah-San! – Kohaku se juntou à esposa, puxando Hannah pelo pulso da mão que carregava as sapatilhas – Ele está usando focinheira!
Aquela ação que estava sendo divertida para o casal estava sendo um tormento para ela. Os dois a fizeram se lembrar dos colegas que sempre a arrastavam assim para fazer algo que não queria, como levá-la para o banheiro e lhe aplicar punições por um crime que ela não cometera.
— Rin, Kohaku, deixem-na – A voz de Sesshoumaru ecoou no calor do momento e de imediato os dois pararam o que estavam fazendo.
— Eu quero apresentar Hannah-San para o A-Un... – Rin explicou em um muxoxo típico de criança.
Sesshoumaru lançou um olhar vazio para a sua protegida que pelo jeito era uma advertência silenciosa.
— Tudo bem, Sesshoumaru-Sama... – Rin lamentou.
— Sinto muito, Hannah-San – Kohaku se desculpou.
Hannah não disse nada. Ela estava parada no local onde fora deixada com os olhos arregalados. Quando suas mãos foram soltas, ela abraçou o próprio corpo em um gesto protetor. A moça estava presa dentro de um transe causado por suas memórias. Apesar do casal não tê-la machucado, ela sentia dor no corpo ser despertada por experiências passadas. As meninas que a atormentaram na época do colégio costumavam bater nela nas regiões em que a roupa cobriam. As marcas no corpo nunca eram permanentes, mas na alma... na alma havia cicatrizes que duravam até hoje.
— Hannah-San, você está bem? – Kohaku questionou ao ver a expressão que ela exibia no rosto.
Rin ergueu a mão para tocar no braço da moça, mas ela se desviou em um gesto protetor e então, o transe se desfez ao ver o susto no rosto da menina.
— Eu não queria machucá-la! – A menina se defendeu – Sesshoumaru-Sama, eu não... – Foi interrompida.
— Este Sesshoumaru irá à frente e vocês dois tratem de se apressar – Sesshoumaru ordenou, passando um braço ao redor da cintura de Hannah, trazendo-a para perto de si.
Antes que pudesse se afastar, eles já estavam no ar e a estola que o youkai carregava aumentara em proporção e flutuava atrás deles. Hannah não entendeu o que estava acontecendo e quando se deu conta, agarrou a pelagem sobre o ombro dele. Aquela proximidade a irritava, mas não tanto quanto a perspectiva de uma queda.
— Idiota! Ponha-me no chão! – Esbravejou, voltando a ser tomada pelo seu típico mau-humor.
— Tem certeza? – A pergunta fez com que o rosto de Hannah corasse. Ele planejava soltá-la se ela dissesse sim e por isso engoliu o seu temperamento – Foi o que pensei – Sesshoumaru observou e pela primeira vez, ela julgou que a sombra de um sorriso cruzou os lábios dele.
Sesshoumaru tinha todos os motivos para estar zangado com ela e, no entanto, Hannah não conseguia achar justificativa para ele estar a auxiliando quando o que ela faria se estivesse na posição dele seria deixá-la para trás se não pudesse ir na montaria que ele arranjara.
Fechando os olhos com firmeza para manter-se calma, sentiu o vento atingir-lhe a face e envolver suas madeixas soltas em uma dança. Essa lua-de-mel vai ser uma merda..., praguejou já sentindo saudades daqueles que ficaram no vilarejo.
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