Flores
2 Uma prova de amor
Notas iniciais
Vagar pela casa. Esta era a única atividade que alguém tão inquieto como Aiden tinha para fazer naquele momento. Já havia descido para organizar o porão e já tinha arrumado toda a casa. E então, quando viu que não havia mais tarefas a serem cumpridas, começou a andar de um cômodo para outro. Mais uma vez ele ia para a cozinha na esperança de que tivesse algo para ser feito. Lá, Cob, seu pai, estava preparando o almoço.
— Para um cozinheiro novato o senhor até que leva jeito. — disse Aiden, enquanto sentia o cheiro bom da lasanha.
— Não tão novato assim. Mas sim, eu sei que eu sou bom, filho. Obrigado, obrigado. — Cob gabou-se.
— Como conseguiu fazer tantos pratos com tão poucos ingredientes?
— Eu também não sei! Fiquei surpreso quando vi que ainda tinha carne sobrando.
— O senhor exagerou um pouco. — afirmou Aiden, depois de contar os seis pratos sobre mesa. —Eu, Ally e o senhor não vamos comer isso tudo. O que pretende fazer com tanta comida?
— Bem... eu ouvi as notícias no rádio, hoje de manhã. Não teve nenhuma notícia de incidentes envolvendo a FAT. Também vi você todo impaciente perambulando pela casa. Fiz mais pratos para que você pudesse leva-los lá no asilo Saint. — o anúncio daquela tarefa era um alívio para Aiden. — Coloque estes aqui lá no compartimento da sua lambreta e vá.
— É isso aí, coroa! — Aiden vibrou ao ser encarregado da tarefa.
Tratar da comida com bom humor era um fato que comprovava o poder de superação que Cob possuía. Quando Kim, sua esposa, morreu, ele teve que se virar para aprender a fazer as coisas mais básicas da casa, dentre elas: cozinhar. Ele não era o melhor cozinheiro que alguém poderia ter, mas se esforçava para igualar-se a sua esposa. Ele ainda recordava do dia em que teve que cozinhar para os filhos pela primeira vez. Ainda lembra bem do seu desespero ao olhar para aqueles ingredientes e não ter a menor ideia do que fazer com eles.
Após colocar todos os pratos em depósitos, Aiden os colocou no compartimento da velha Antonieta. “Antonieta, uma máquina aerodinâmica”, era essa a frase que havia escrito em sua velha lambreta.
— Essa tralha, que você chama de “lambreta”, tá precisando de uma reforma.
— Não, pai. — disse Aiden, enquanto empurrava a alavanca da lambreta com força, na esperança de que ela pegasse.
— É, nem reforma resolve isso aí. — ironizou Cob, sacudindo a mão para afastar do seu rosto a fumaça preta que saiu dela ao ligar.
— Antonieta continua sendo minha máquina aerodinâmica!
— Sei... Bem, vá logo. As ruas estão calmas mas não demore muito, ouviu?
— Sim, senhor.
Ao abrir a porta da garagem, o vento gelado já congelava as extremidades do corpo. Aquela paisagem completamente branca, em virtude da neve que não parava de cair, era de atordoar os olhos. Aiden ajustou seu gorro e seu óculos de neve, despediu-se do pai e então segui para o abrigo Saint. Por causa da FAT, que possuía postos de observação em pontos estratégicos nas ruas de Yotõn, as avenidas pareciam ser verdadeiros desertos de neve. As pessoas só saíam de casa se fosse realmente necessário; afinal, ninguém queria sair e ser revistado a cada passo que desse. Isto foi justamente o que aconteceu com Aiden quando ele se distanciou um pouco de sua casa. Chegando perto de um dos postos de observação, um soldado já fazia um sinal para ele parar. Assim ele o fez.
— Revistem. — obrigaram Aiden a desmontar da lambreta e começaram a o revistar e verificar o compartimento traseiro de Antonieta. — O que tem aqui?
— Comida. Só estava levando para o asilo Saint.
— Abra.
— Não. — com um tom ousado, Aiden contrariou o soldado. — Eu já disse o que tem aí. É comida.
O soldado ergueu o olhar para Aiden e caminhou até ele, deixando-o ver sua pele afetada pelo Vírus de Prata
— Você nos desobedece?
Um sorriso levemente sádico se formou nos lábios de Aiden. Ele, mesmo estando completamente ciente das consequências que viriam depois, disse:
— Você é surdo?
Os soldados com certeza não esperavam tamanha ousadia vindo de um mero civil de Yotõn.
— Senhor, devemos leva-lo para a Casinha da Vovó? — disse um dos soldados que estava perto de Antonieta.
“Casinha da Vovó? O que é isso?”, Aiden perguntou-se.
— Não. Não será necessário. Se ele não abrir este compartimento agora eu vou mata-lo aqui mesmo. — o soldado retirou a pistola da cintura e apontou para a testa de Aiden.
Aquilo era ditadura e a FAT tinha poder para fazer o que quisesse. Aiden havia ficado surpreso de não ter sido espancado no momento em que contrariou o soldado de forma tão desafiadora; ele pensou também que isso poderia ter algo a ver com a tal “Casinha da Vovó”, que até então ele não fazia ideia do que seria. A verdade era que Aiden possuía um ótimo controle sobre si mesmo, mas, perto de soldados da FAT, isso acabava desmoronando. O que ele queria fazer mesmo naquele momento era manter o compartimento fechado. Porém, concluiu que, além de sua vida ser mais importante, ele já tinha abusado da sorte. Ainda sob a mira da pistola, Aiden abriu o compartimento. Os soldados o revistaram, revirando tudo de um jeito que a comida ficou completamente despejada. “Com certeza firam de propósito”, pensou ele. Depois que verificaram tudo, o soldado que o deixou sob a mira da pistola, aproximou-se dele mais uma vez e disse:
— Nós estamos no controle desta nação agora. Você entendeu? Quando nós lhe dermos uma ordem, execute-a. Verme patético. — após o insulto, o soldado cuspiu no rosto de Aiden.
Depois limpar seu rosto rapidamente, com medo de que o Vírus de Prata pudesse ser transmitido daquela forma, Aiden dominou sua raiva, relaxando sua mão que já estava armada para dar um soco no soldado. Aiden tinha um ódio profundo pela FAT. Não por eles serem responsáveis pelo massacre que matou várias pessoas em Yotõn, deixando muitas outras desabrigadas. Não. O ódio que Aiden guardava pelos soldados negros tinha um motivo muito mais profundo para si.
Mas, com relação aos inúmeros desabrigados e desamparados que se formaram após o massacre, o asilo Saint cuidou dessa gente. O local, que antes do incidente era um grande asilo, transformou-se num abrigo para refugiar todos os sobreviventes que não tinham para onde ir depois que aquilo tudo começou. Ordens diretas de Nimrod instruíam a FAT a não tocar em ninguém que estivesse lá dentro. O rei cinzento foi orientado pelos cientistas de Yotõn a deixar todas as pessoas de lá vivas, pois nenhuma delas possuía o vírus da Síndrome de Prata e, sendo assim, poderiam ser peças importantes na descoberta da cura.
Eis o motivo por qual Nimrod havia dominado Yotõn. Ele pretendia usar todo poder científico que a nação branca possuía para encontrar uma cura para o mal que atormentava sua nação, o Vírus de Prata. O que os habitantes de Yotõn ainda não sabiam era que seu objetivo era muito mais do que descobrir uma cura.
Depois de percorrer mais alguns quilômetros e de ser revistado mais dez vezes, Aiden chegou no abrigo. O lugar, visto de longe, mais parecia um castelo envolto por uma grande quantidade de neve. Ele ficava relativamente distante do centro da nação.
Aproximando-se do portão principal, Aiden desmontou da sua lambreta, pegou o compartimento com a comida e bateu na porta.
— Sim? — disse uma moça, abrindo uma pequena janela do portão.
— Chell? Chell, sou eu, Aiden. Eu trouxe algumas coisas para o abrigo.
— Aiden! Há quanto tempo!
O portão mal se abria e a moça de cabelos encaracolados já vinha sorrindo de braços abertos.
— Olá, moça. — disse Aiden, recebendo seu abraço apertado.
— Aiden! Que bom que voltou!
— É bom estar de volta.
— Vamos, entre. Está um gelo aqui fora. O senhor Robert vai ficar muito feliz em revê-lo.
— Ah, sim. Onde ele está agora?
— Deve estar em seu escritório. Vá até lá. Acho que você ainda lembra do caminho, não é?
— Claro. Mas antes disso... — Aiden pôs o compartimento no chão e mostrou seu conteúdo. — Meu pai que fez. Está meio bagunçado. Culpa da FAT.
— Entendo. Mas, mesmo assim, muito obrigado! Estamos precisando.
— Ótimo. Eu vou lá falar com o senhor Robert.
— Fique à vontade, Aiden.
Após sair da sala de recepção, Aiden adentrou no salão principal do abrigo. Lotado de pessoas, o salão funcionava agora como um imenso dormitório e cozinha. Pessoas dormindo em colchões surrados, sacos de dormir ou até mesmo no chão. Pessoas preparando bebidas quentes e ficando próximas dos aquecedores espalhados por todo salão. Aiden pensou sobre a última vez que esteve ali, há um ano. Sua mãe ainda era enfermeira no asilo e aquele mesmo salão costumava ser vazio, tendo apenas alguns senhores jogando baralho ou ouvindo rádio.
Recordando-se do caminho até a sala do senhor Robert, ele subiu a escada à esquerda do pátio e foi até o andar superior. Lá, na última sala do corredor, Robert estava folheando as páginas de um livro. Ao ouvir alguém bater na sua porta, levantou-se e foi até lá atender.
— Aiden? — perguntou Robert, ajustando os óculos.
— Senhor Robert!
— Aiden! — após reconhecer o jovem rapaz, Robert lhe deu um abraço. — Que bom que você está aqui!
— É, eu também achei que não voltaria.
— Mas voltou! Está aqui! Você está enorme, filho.
— É, vinte e dois anos não fazem mal a ninguém. — disse Aiden, um pouco constrangido.
— Venha, entre.
Desajeitado, como sempre, o senhor Robert caminhou de volta, com a ajuda de sua bengala, até sua poltrona. Aiden foi entrando logo atrás do diretor.
— Sente-se.
— Obrigado, senhor.
— Não, não. O termo “senhor” é designado para autoridades e idosos. — para Aiden, Robert era as duas coisas. — Eu não sou seu mestre e só tenho setenta e dois anos. Me chama de Ray.
— Claro, Ray! — Aiden gostava da vitalidade que sempre esteve presente nele.
— E então, filho, o que faz aqui depois de tanto tempo? Dois anos, não?
— Não, foi um ano só. Um ano e poucos meses. Meu pai preferia que nós não saíssemos de casa. Você o conhece, ele não gosta da FAT.
— E quem gosta, filho?
— Pois é. Todas as doações que nós fizemos nos últimos meses foram entregues pelo nosso vizinho.
— Sim, sim. Recebi todas elas. Obrigado, filho. Estávamos mesmo precisando de cobertores e agasalhos. Aliás, estamos precisando de tudo ultimamente. Em todos esses meses de funcionamento como abrigo, esse mês está sendo o pior de todos. As doações de comida estão ficando cada vez mais escassas.
— Então que bom que eu trouxe. Já deixei com Chell.
— Que bom! Obrigado, filho!
— Está tudo bem por aqui?
— Bem... — Robert retirou os óculos e, então, uma expressão melancólica se formou em seu rosto. — Na verdade, não. Não está nada bem. O número de desabrigados e desamparados é extremamente maior do que o número de voluntários. É como se tivéssemos um voluntário para cada cinquenta desabrigados. — ele fez uma pausa, tomou um gole de café e continuou. — Sinceramente, não sei como vamos manter todo mundo com tão poucos recursos. E para piorar, uma pessoa querida aqui no abrigo morreu recentemente.
— Quem?
— Dan. Acho que você não o conhecia. Ele era nosso voluntário mais ativo. Bem, você sabe... Jovens. Ele estava aqui todos os dias, cuidando do maior número de pessoas que podia.
Aiden esboçou um pequeno sorriso. Ele nem havia conhecido aquele menino, mas só por aquela afirmação de Robert, o jovem rapaz o achou igualzinho a sua mãe.
— Como ele morreu?
— Foram aqueles malditos! Aqueles malditos da FAT o mataram! Dan havia saído para comprar alimentos para o abrigo, mas ele não voltou. Estanhamos a sua ausência aqui no outro dia. Mas então, logo de manhã, sua mãe veio me dar a triste notícia. — a voz de Robert ficou embargada e seus olhos começaram a ficar marejados. — Seu corpo foi encontrado num bueiro com marcas de violência. Foi espancado violentamente até a morte, depois o jogaram lá. Que tipo de monstro mata uma criança de doze anos?
Depois de desabafar, Robert enxugou suas lagrimas. Aiden, naquele momento em que olhava para a tristeza de Robert, sentiu a mesma revolta que experimentou refletindo sobre a morte de sua mãe. Afinal, se tinha FAT, tinha revolta. E então, apertando o punho com todas as suas forças, Aiden havia tomado uma decisão: a partir daquele momento, não haveria mais nada que o impedisse de realizar de vez algo que já queria fazer desde que viu sua mãe morta em seus braços naquele dia.
— Ray... Eu posso ser um voluntário?
***
No dia em que a festa das nações aconteceu, Aiden e sua irmã mais nova, Ally, estavam no centro de Yotõn para aproveitar as festividades. Já seus pais, que por conta do trabalho não tinham muito tempo juntos, decidiram ficar em casa para desfrutar daquela rara ocasião. Aiden e Ally, depois de visitarem o centro cultural, lugar onde se apresentavam várias coisas da cultura de cada uma das quatro nações, resolveram fazer uma pausa para comer numa tenda que estava servindo comidas típicas de Thonis. Depois que terminaram de comer, Aiden decidiu ficar mais um pouco por lá, visto que sua irmã adorou um bolinho feito com algum tipo de grão.
Em uma caixa de som próximo a ele, Aiden ouviu que o desfile da pequena nação azul, como Dohan era conhecida, havia acabado e Turon fazia seus últimos preparativos para começar. Ao ouvir isso, ele tratou de apressar Ally para chegar a tempo de ver o desfile começar. Enquanto caminhavam até a rua onde o desfile acontecia, Aiden e Ally perceberam uma correria que havia se formado ali perto de onde eles estavam. Logo em seguida, barulhos de tiro começaram a ressoar intensamente, dando início ao imenso tumulto.
— Ally! — sem pensar duas vezes, Aiden tomou sua irmãzinha nos braços e saiu correndo dali o mais rápido que pôde. — Fecha os olhos, Ally!
— O que está acontecendo? — perguntou, assustada.
Em casa, o celular de Kim não parava de tocar. Ela, que estava dormindo no momento das primeiras ligações, acordou e verificou as vinte chamadas de Mono, sua amiga enfermeira. Assustada com o grande número de chamadas, Kim ligou imediatamente.
— Alô?
— Kim!
— O que houve, Mono?
— Kim, você tem vir para o centro de Yotõn, agora! A nação está sendo atacada por Turon! — Mono gritava, em virtude dos barulhos de bombas e tiros.
— Oh, meu Deus... Aiden, Ally!
— Kim, você tem que vir agora! Várias pessoas estão feridas!
— Está bem, eu já estou a caminho!
Kim saiu imediatamente da cama e foi vestindo seu uniforme. Todo aquele alvoroço despertou Cob, que também dormia.
— O que aconteceu, Kim? — perguntou Cob, ainda sonolento.
— Turon está atacando a nossa nação! Rápido, levanta!
— Meu Deus, os meninos... estão lá!
E então depois de vestir a primeira roupa que viu, Cob tirou o carro da garagem e foi com Kim até o centro. De longe já se via a correria. Cob parou o carro perto da ambulância para que Kim pudesse ficar por lá.
— Eu vou ficar aqui cuidando dos feridos. Encontre os meninos, Cob.
— Tudo bem, amor.
Se despediram com um beijo e com sussurros que diziam “eu te amo”. Todas as vezes que Kim saía de casa para trabalhar, Cob sabia que ela passaria alguns dias fora. Mas, o momento que ela saiu do carro e foi até a ambulância, lhe proporcionou uma sensação diferente. Era a primeira vez que ele ficava com medo de que ela não voltasse. A lagrima que rolou em seu rosto no momento em que ele a viu indo embora era prova disso.
No centro da cidade, onde o caos era intenso, Aiden correu com Ally nos braços até seus músculos queimarem. A menina, que agora agonizava de dor por ter sido atingida por uma bala perdida na perna, chorava desesperadamente. Mesmo com toda aquela pressão, vinda do choro da sua irmã, do barulho caótico de bombas e tiros e do frio constante, Aiden mantinha o controle, mas reconhecia que já não tinha mais o que fazer, pois, mesmo se distanciando da zona de confronto, os soldados da FAT estavam por toda parte e continuavam avançando. Percebendo que correr não iria dar em nada e sem nenhuma noção de primeiros socorros, ele decidiu proceder de forma diferente. Viu uma casa de saúde a poucos metros de onde estava e decidiu ir até lá andando discretamente. Sua tática, ousada em situações como aquela, possibilitou que ele chegasse até o prédio sem ser notado pela multidão que corria em pânico. O edifício era composto por três andares que abrigavam alguns laboratórios. Entrando na primeira sala do prédio, o jovem rapaz checou o local rapidamente para ter certeza de que estava sozinho e seguro. A sala, que parecia ser a recepção, estava completamente devastada e com alguns corpos fuzilados no chão. Aiden pressionava a cabeça de Ally contra seu ombro para que ela não visse tamanha carnificina.
Aiden deduziu que em algum lugar daquele prédio encontraria algo para estancar o sangramento na perna de Ally. Com a menina chorosa ainda em seus braços, ele subiu as escadas em direção ao primeiro andar. Lá ele foi checando cada sala em busca de algum material, porém tudo que ele encontrava parecia ser inapropriado para o ferimento de Ally. A menina apertava o irmão e não parava de chorar. Nesse momento, Aiden respirou fundo e tentou fortalecer seu controle. Quando decidiu descer novamente, Aiden ouviu gritos de socorro vindos lá de cima. Ignorando-os, ele procedeu com sua ação e foi em direção à saída do prédio. Quando finalmente chegou na entrada, Aiden avistou de longe o carro de Cob. Assim que viu seu pai, ele ergueu o braço e o balançou freneticamente. Logo Cob os avistou.
— Aiden! Ally!
— Pai! Graças a Deus!
— Vamos, entrem no carro!
Aiden pôs sua irmã deitada no banco de trás. E, quando ele ia encaminhando-se para o banco da frente, algo o conteve por alguns instantes. Parada ao lado do prédio, uma ambulância estava estacionada.
— Pai, qual é a unidade que a mamãe trabalha? — perguntou Aiden, desconfiado.
— O quê?
— Qual é a unidade que a mamãe trabalha?
— Cinquenta e nove!
Aiden confirmou. O mesmo número da ambulância que estava lá. Do terceiro andar do prédio em que tinha acabado de sair, um grito de socorro irrompeu novamente, dessa vez, seguido por tiros. Tanto Aiden quanto Cob reconheceram aquele grito.
— Kim... — disse Cob, chocado.
Os dois não tinham dúvidas. Era a voz de Kim que clamava por socorro. Imediatamente, Aiden decidiu que iria entrar.
— Pai, escuta. Ally levou um tiro na perna. Ela perdeu muito sangue e precisa ser tratada, agora. Procura a ambulância mais próxima. Rápido. Eu vou salvar a mamãe, tudo bem?
— Certo.
E quando Aiden correu para entrar no prédio, ele ouviu um último pedido do pai.
— Aiden! Tenha cuidado!
O jovem rapaz apenas olhou para trás e confirmou com a cabeça.
Dentro da casa de saúde novamente, Aiden subiu pelas escadas até o terceiro e último andar. Ao chegar lá, ele vê a sua frente um corredor cheio de corpos no chão, misturados ao cenário completamente destruído; repleto de estilhaços de vidro, por causa das janelas destruídas, e pedras, em virtude das paredes quebradas. Era a equipe de enfermeiros da qual Kim participava, a unidade 59. Aiden conseguia ver sua mãe, ferida no meio do corredor, porém ainda viva. Esperta, Kim fingia-se de morta para não chamar atenção dos dois soldados da FAT que estavam na outra extremidade do lugar, atirando nos corpos para se certificarem de que estavam realmente mortos. Era uma questão de tempo até eles atingirem o corpo de Kim. Aiden não tinha tempo para pensar, ele tinha que agir rápido.
Ele foi, abaixado, até um conjunto de caixas que estava logo a sua frente, se aproximando do meio do corredor. Lá, Aiden decidiu chamar a atenção dos soldados com algum barulho. Ele pegou uma pedra que estava perto e jogou no mesmo lugar pelo qual entrou no corredor. Um dos soldados, que estava prestes a efetuar um disparo em um dos corpos, parou imediatamente.
— Você ouviu isso, Owen? — perguntou um soldado para o outro
— Ouvi. Deve ter sido algum bicho.
— Não, não. Vai checar. Nimrod disse que era pra gente fazer uma vistoria em todos os lugares.
Obedecendo, o soldado Owen, que carregava um fuzil, foi checando todas as salas ao longo do corredor. Passou pelo corpo de Kim, porém nem notou o pequeno movimento que seu corpo fez ao respirar. Quando ele foi chegando perto das caixas, Aiden pegou um estilhaço de vidro que estava próximo e o cravou com agressividade na perna do soldado, fazendo com que o sangue espirrasse para todos os lados. Após desferir o golpe, Aiden ainda puxou o estilhaço para baixo com vigor, na intenção de rasgar tudo que estivesse naquela região da perna. Surpreendido pelo golpe, o soldado Owen caiu no chão, levando imediatamente suas mãos ao ferimento, gritando de dor. A reação do soldado atingido espantou seu colega, que na mesma hora apontou seu fuzil para Aiden. O jovem rapaz, no entanto, foi mais rápido, pegando o fuzil do soldado caído e atirando, de forma desajeitada, contra o outro. Depois de mata-lo, Aiden levantou-se e atirou contra Owen, que agonizava de dor.
Depois de toda aquela ação frenética, Aiden, com suas mãos sujas de sangue e seus braços tremendo de tanta exaustão, caiu no chão de joelhos. Ofegante e com dificuldades, ele foi até o corpo de sua mãe, que ainda não havia notado sua presença.
— Mãe... sou eu.
Surpresa, e ao mesmo tempo aliviada, Kim virou a cabeça e confirmou que era Aiden. Ela tentou sorrir, mas nesse momento percebeu que seus músculos já estavam começando a enfraquecer por conta da quantidade grande de sangue que havia sido perdida em virtude de um tiro pouco acima do seu quadril.
— Aiden... — Kim sussurrou, ofegante.
— Mãe!
Ele olhou mais atentamente e viu aquela quantidade enorme de sangue ao lado de Kim. Imediatamente, Aiden tirou sua jaqueta e cobriu o corpo gélido de sua mãe. Depois, apesar de estar esgotado, ele a pôs nos braços e levou-a para fora daquele lugar. Ao sair do prédio, o jovem rapaz vê, apesar da densa neblina, uma equipe de enfermeiros que estava atendendo alguns feridos dentro de um edifício. Mesmo com o seu corpo resistindo incrivelmente contra o cansaço, físico e mental – e contra o frio – Aiden para quando sua mãe lhe pede. Ela se esforça para abrir os olhos, para que possa ver seu filho pela última vez. Se esforçou ainda mais para sussurrar:
— Filho...
— Não, mãe! Não se esforce! Falta pouco!
— Aiden... por favor, me escute...
Mesmo sem ser uma pessoa sentimental, os olhos de Aiden ficaram cheios de lágrimas no momento em que aquela fala soou como uma despedida.
— Filho... eu tenho orgulho da pessoa que você se tornou... um homem incansável e decidido. Nunca mude, meu amor... Diga a seu pai que eu o amo... e diga a sua irmã que ela será para sempre minha princesinha...
— Mãe... — as lágrimas finalmente transbordavam dos olhos de Aiden e caiam sobre o rosto de Kim.
— Aiden... eu te amo...
Lá, no meio da neve, o último suspiro de Kim fez com que Aiden desabasse.
***
Aiden saiu do abrigo e fez o caminho de volta para sua casa. Aquele desabafo do senhor Robert fez com que ele decidisse fazer, de uma vez por todas, algo que já queria fazer desde que sua mãe se foi. Quando chegou em sua residência, Aiden contou tudo de forma curta e grossa.
— Você demorou um pou...
— Pai, eu vou morar no abrigo Saint.
Cob, apesar de estar com toda sua atenção voltada para um livro, cessou sua ação imediatamente diante das palavras de Aiden. Apesar de ter demorado alguns segundos, ele conseguiu compreender o significados de cada palavra que seu filho havia acabado dizer. Entretanto, o motivo pelo qual ele estava dizendo aquilo, ainda mais de maneira não firme, o fez pensar qual seria o motivo.
— Por quê? — surpreendido, foi tudo que Cob conseguiu dizer.
— Muitas coisas ruins aconteceram desde que a ditadura de Turon começou. Digo, não só com a gente, com muitas pessoas.
— E daí?
— E daí? Isso precisa acabar! As pessoas estão sofrendo, estão morrendo!
— Mas, filho, infelizmente nós não podemos fazer nada.
— Sim, nós podemos. E se não fizermos nada... mamãe vai ter morrido em vão.
Naquele momento, um pequeno sorriso tomou forma nos lábios de Cob. Ele lembrava de todos os seus bons momentos ao lado de sua mulher. Depois de despertar do seu devaneio, observou seu filho por um momento e notou que ele também possuía a mesma teimosia de Kim.
— Kim morreu para ajudar aqueles que precisavam. Ela escolheu fazer aquilo e eu não pude fazer nada para impedir.
— Então, pai, deixe que eu a honre, escolhendo, da mesma forma que ela, ajudar as pessoas.
— Não. Eu não quero perder você também.
— Mas, pai, ela lutou pelo o que acreditava!
— E morreu! — gritou.
Cob explodiu de raiva, e depois, caiu em pranto.
— Eu não quero que você tenha o mesmo destino! Eu... eu te amo, filho!
O silencio tomou conta da sala onde estavam. Aiden apenas observa o pai soluçar de tanto chorar. Ele o entendia, mas também sabia que se não fizesse aquilo, a morte de Kim não significaria nada.
— “A maior prova de amor é deixar que a pessoa que se ama tenha liberdade de escolha”, pai.
Aquilo paralisou Cob. As palavras de Kim saindo da boca de Aiden causaram um grande impacto em sua consciência.
— Mamãe morreu fazendo o que acreditava ser certo. Eu também quero fazer o que eu acredito, mesmo que eu tenha que morrer para isso.
— E em que você acredita?
— Revolução.
Cob não poderia ficar mais desesperado.
— Não só pelas pessoas que sofreram com isso, mas em honra da palavra da minha mãe. Para acabar com a repressão, medo e sofrimento. Para dar de volta ao nosso povo a liberdade. Uma prova de amor.
Cob sabia que não podia convencê-lo a ficar, mas também sabia que se o deixasse partir, para lutar pelo o que acredita, ele teria pouquíssimas chances, já que o seu sonho era o mais utópico possível naquele momento. O pai do jovem rapaz tentava conter seu choro para finalmente dar uma resposta.
— Eu sei que seu disser “não vá” você irá do mesmo jeito.
— Sim.
— Então eu sou vou lhe dizer algumas coisas. Você é apenas um cidadão de Yotõn que não tem absolutamente nada para ameaça-los. Revolução, nesse momento, é apenas um sonho que não vai se realizar. Você não pode negar este fato. — lágrimas voltaram a habitar os olhos de Cob. — Se você quer ir, vá... mas saiba de uma coisa: você vai morrer.
— Então que seja. — finalizou Aiden, com valentia.
O jovem deixou seu pai na sala, em prantos. Foi até o seu quarto e pôs todas as roupas que cabiam em sua mala. Passou pelo quarto da irmã e despediu-se dela com um abraço. Dirigindo-se até a saída, parou na sala e, antes de ir embora, murmurou, sem olhar em seus olhos, um último adeus, para o seu pai. Aiden montou novamente em Antonieta e partiu para o abrigo Saint mais uma vez, pela última vez.
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