Flores
3 Novato
Notas iniciais
As noites de Yotõn eram, sem dúvidas, mais frias que em qualquer outra nação. As tempestades de neve, características da Nação Branca, ficavam mais constantes e intensas naquela época do ano. A única coisa que se via de dentro do abrigo eram as pequenas luzes da cidade ao fundo sendo chuviscadas pelos flocos da nevasca. Era a única visão que os moradores do abrigo tinham todas as noites. Para alguns esta já se tornava enfadonha e, de certa forma, tirava as esperanças de que pudessem ver a noite de outra forma. Porém, para quem precisava retirar forças de algum lugar para manter a esperança de uma pequena criança viva, a paisagem negra com pequenas luzes chuviscadas logo se transformava em um singelo globo de neve.
— Tá legal. E quantas luzes tem ali?
— Sete!
— Sete? Eu acho que são oito!
— Não, são sete!
— Está bem! Vamos contar juntos.
— Uma, duas, três, quatro, cinco... seis, sete... oito!
— Isso! Tá vendo? São oito luzes!
— Você venceu!
— Eu sei! E como eu ganhei, eu decreto que você tem que ir dormir. Vamos, já passou da hora!
— Só se você vier comigo.
— Você sabe que eu não posso, Luck. Eu já te expliquei isso, não foi?
— Só hoje, por favor! É o meu aniversário!
No momento em que proferiu aquelas palavras, Rin lembrou-se de tudo o que passou ao lado Luck. Lembrou-se de tudo que teve que suportar quando ainda tinha sua idade. Sem querer, seus olhos encheram-se de lágrimas e então elas logo transbordaram e rolaram pelo seu rosto. Ela o abraçou, lhe deu um beijo na testa e fixou seus olhos nos dele por alguns segundos.
— Feliz aniversário, Luck! — disse sorrindo, em meio à lagrimas. — Tá bem, agora vai! Amanhã nós veremos o globo de neve novamente!
— Promete? — perguntou Luck, enquanto via Rin enxugar suas lagrimas.
— Eu prometo! Agora vai dormir. Rápido!
— Boa noite, Rin!
Após lhe dar um último abraço, Rin cobriu Luck. Logo em seguida, retirou-se em silêncio do quarto.
— E então?
— Ele foi dormir. Está tudo bem.
— Mas e você?
— Estou bem, Nito, obrigada.
Vendo a melancolia estampada em seu rosto, Nito notou que ela estava mentindo e então lhe envolveu em seus braços. Rin desabou de vez. A cada soluço que dava seu corpo estremecia, e Nito lhe abraçava mais forte.
— Eu não quero que ele cresça desse jeito! — lamentou Rin, em meio a soluços.
— Eu sei, Rin. E é por isso que estamos trabalhando. Trabalhando sem descanso. Para encontrarmos a cura e nos livrar dessa ditadura.
Aos poucos, a garota de cabelos púrpura foi parando de chorar. Nito pôs as mãos em seus ombros e viu seu olhar se erguer.
— Nós dois sabemos que as possibilidades de existir uma cura são praticamente nulas.
Repentinamente, Nito pôs a mão em sua boca e, assustado, verificou o corredor. Olhou para todos os lados antes de continuar.
— E nós dois não queremos que a FAT saiba disso.
— Desculpa.
— Porém, eu acho que pela primeira vez nossa situação pode ter mudado.
— O quê? Como assim?
— Adar passou o dia todo estudando as notas que você fez na semana passada. Eu acho que ele pode ter encontrado alguma coisa.
***
No salão principal do abrigo, Aiden encontrava-se sentado aos pés da escada que levavam ao primeiro andar do prédio. Em suas mãos, um pingente de uma flor comum na região montanhosa de Yotõn: a Flor de Versalhes. Aquele pequeno objeto pertenceu a sua mãe e Aiden retirou-o do pescoço dela antes de enterrarem o corpo. Ainda possuía algumas marcas de gotículas de sangue. E embora tivesse um visual feminino e estivesse um pouco desgastado, ele o levava por onde quer que fosse. Aiden certamente não era alguém sentimental, mas gostava da ideia de ter alguma lembrança de sua mãe sempre por perto.
Sua contemplação foi interrompida por Chell, que o pediu para que a acompanhasse até a sala do senhor Robert. Chegando lá, toda sua atenção é tomada por um sujeito de aparência descuidada. Possuía cabelos negros que lhe cobriam a nuca, olheiras ao redor dos olhos que ajudavam a deixar seu olhar um tanto intimidador, uma barba por fazer e uma série de curativos em ambas as mãos. Tal homem encontrava-se em pé, no canto da sala, foleando um livro.
— Aiden?
— Sim, Ray? — respondeu ele, retomando sua atenção para o diretor do asilo.
— Por favor, sente-se. Eu imagino que Chell já lhe deu uma ficha para preencher, não é?
— Sim.
— Certo. Esta ficha é só para registro. Todos os voluntários do abrigo têm uma. E falando em voluntários, este aqui é Helle Bremen. — Ray apontou para o sujeito de aparência abandonada. O rapaz, porém, não desviou a atenção do seu livro. — Ele é o nosso “faz tudo”. Vai te mostrar as novas instalações do asilo. Eu receio que o local tenha mudado muito desde sua última visita.
— Com certeza.
— Pois bem. É mais ou menos sobre isso que eu quero falar.
— Como assim? — Aiden estranhou.
— Eu sei que este lugar traz, inevitavelmente, memorias de sua mãe, não é? Essa mesma situação não afeta só você, mas o seu pai e sua irmã também.
— É claro. Todos nós sentimos falta dela. Mas eu ainda não entendi onde quer chegar.
— Está decisão de vir pra cá, fazer o que sua mãe costumava fazer, do mesmo modo, no mesmo lugar. Fico me perguntando... está tudo bem para você e sua família?
— É claro que está. Eu não vim para ajudar as pessoas do jeito que a minha mãe ajudou.
Assim que terminou de falar a última frase, todos os olhares se voltaram para ele. Até mesmo Helle perdeu a concentração em sua leitura e se questionou mentalmente sobre o que exatamente Aiden estava falando.
— O que você está querendo dizer, Aiden? — perguntou Chell, confusa assim como Ray e Helle.
— Minha mãe ajudava as pessoas porque ela acreditava nisso, entende? Ela achava que estava fazendo bem as pessoas.
— E não estava? — rebateu Ray.
— Sim, estava. Mas isso não funciona atualmente. Quando há um mal muito grande, você não acaba com ele aos poucos, você o corta pela raiz.
Um silêncio tomou conta da sala. Chell estava nitidamente abismada, pois, por ser amiga de longa data de Aiden, já tinha uma suspeita do que poderia ser, e se sua suspeita fosse realmente verdade, as coisas não eram boas. Helle parecia inalterado, mas o observava atentamente e já tinha alguns palpites que os deixavam preocupados. Ray ainda não conseguia compreender o que estava acontecendo.
— O que exatamente você pretende fazer aqui, filho?
— Eu vim pedir para que as pessoas se juntem a mim em uma luta contra Turon. Uma revolução.
Outro instante de silêncio constrangedor tomou conta da sala. Ray tinha certeza de que ouviu muito bem a palavra “revolução” sendo dita por Aiden, mas tentou convencer a si mesmo de que tinha ouvido errado. Perguntou novamente:
— O quê?
— Eu não posso deixar que a morte da minha mãe tenha sido em vão! Eu quero que os responsáveis por essa ditadura sejam mortos!
— Acalme-se, filho. Eu entendo a sua dor. Entendo seus motivos, mas você não pode pôr a vida de outras pessoas em risco. Infelizmente nós não podemos fazer nada.
— Até você, Ray? Eu achei que você quisesse o bem de todas essas pessoas!
— Eu quero, e é por isso que eu não vou deixar que você às envolva em algo dessa proporção! Isso é uma coisa bem séria.
Aiden olhou para Chell e viu a moça de cabelos cacheados expressar assentimento com relação as palavras de Robert.
— Escute, filho. A morte de Kim não foi em vão. Eu garanto que muitas pessoas que estão neste abrigo hoje, só estão vivas por causa da sua mãe. Você fala como se quisesse honra-la, mas dá pra perceber que sua vontade é movida por uma sede de vingança. Jogue este sentimento venenoso fora. Infelizmente, nós não podemos fazer nada agora.
Contrariado mais uma vez, Aiden ficou furioso. Ele era um cara realista, e sabia bem que não daria pra fazer o que ele queria sem pessoas ao seu redor. Para ele, depender de alguém era uma das piores sensações.
— Você me promete que vai fazer o que eu lhe pedi? Vai desistir deste sentimento pelo seu próprio bem?
Aiden não disse uma palavra.
— Se quer honrar sua mãe, faça o que ela fez com tanta dedicação por anos de sua vida. Cuide e ame o próximo. Está bem, filho?
— Sim. — murmurou.
— Ótimo. Agora, por favor, acompanhe Chell até a recepção para concluir o processo de registro de sua ficha.
— Vamos, Aiden.
O jovem rapaz retirou-se da sala com o semblante inflamado de raiva, deixando apenas Helle e Robert na sala. Os dois se entreolharam por alguns segundos.
— Se você não vai falar, eu falo. — disse Helle. — Esse cara tem que sair daqui.
— Eu não quero que ela vá, nós precisamos de voluntários.
— Você escutou direito o que ele falou, Robert? Ele não quer ser um voluntário. Ele quer armar um exército...
— Fale baixo! — interrompeu Robert, gesticulando com os braços.
— Ele tem que sair.
— Dê outra chance a ele, está bem? E se ele desistir de se vingar? E se ele tentar honrar a mãe do jeito certo?
— Eu não sei. Apesar de parecer que ele é um maluco movido a raiva, não o conheço o suficiente. O que você me diz?
— Qualquer pessoa pode mudar.
Essa não era a resposta que Helle queria ouvir. Para ele, ainda parecia que o diretor do asilo queria proteger Aiden.
— Monitore-o. Não deixe que ele fale com ninguém. Coloque-o para trabalhar no deposito. Ele não verá ninguém lá, ficará o dia todo movendo caixas e ainda vai estar ajudando.
— Boa ideia.
— Mas mesmo assim, fique na cola dele. Não deixe que ele dê um passo sem que você não veja, entendeu?
— Sim.
— Ótimo. Agora me fale sobre o que a Trindade descobriu sobre a cura.
***
‘Voluntário’ era um termo que tinha inúmeros significados no abrigo Saint. Poderia ser uma pessoa que tivesse um trabalho mais duro ou até mesmo qualquer um que estivesse disposto a conversar com a intenção de ajudar o próximo. Parecia até que esse tipo de trabalho havia sido desenvolvido especialmente para pessoas tão inquietas e incansáveis quanto Aiden, pois sempre tinham tarefas a serem cumpridas. E foi assim, com uma tarefa atrás da outra, que ele ocupou seu dia; movendo caixas de um lugar para outro, organizando todas as doações no porão.
Assim como Robert previu, trabalhar no deposito foi a melhor opção para manter Aiden em silêncio, pois apenas um único homem trabalhava por lá. No final da tarde, quando já estava começando a anoitecer, Aiden terminou seu trabalho. Vendo-se exausto, ele decidiu fazer uma pausa para se alimentar. Chegando no salão principal, juntou-se a um grupo de pessoas que compartilhavam um pouco de café e dividiam uma lata de comida de cachorro. Apesar de não ser uma refeição descente, era a única coisa que tinham para comer, já que os melhores recursos iam para os idosos, mulheres e crianças.
Enquanto comia, viu Chell se aproximar. Após cumprimentar todo o grupo, ela sentou-se ao lado de Aiden.
— Comida de cachorro é tão boa assim? — ironizou Chell, ao observar o anseio de Aiden pela comida.
— Você devia experimentar quando estivesse com fome. É muito boa!
— Não, eu passo!
— O que faz aqui? Não devia estar olhando papeis?
— Eu vim ver como você está.
— Ray mandou você vir aqui, não é?
— Não! Não foi ele! Eu estou mesmo preocupada com você. Deixou a gente preocupado com aquela ideia sobre revolução.
— Eu não falei sério, tá bom? Foi só uma ideia que passou pela minha cabeça. É que pra mim, esperar não resolve nada!
— É o que temos feito todo esse tempo, Aiden. Nós esperamos. Não podemos fazer outra coisa. E, para que ninguém se machuque, é melhor que você também não faça.
Aiden desviou o olhar e ficou visivelmente indignado com as palavras de Chell.
— Algumas pessoas estão tão inconformadas quanto você, mas elas sabem que a melhor ação, neste momento, é não fazer nada. Eu sei que eu não posso implantar essa ideia na sua cabeça, mas eu sugiro que faça o mesmo.
— Pra você é fácil falar. Você não perdeu ninguém.
— Eu não perdi ninguém porque eu não tenho ninguém, e você sabe muito bem disso! — Chell aumentou o tom de voz.
Aiden cresceu ao seu lado e sabia que ela tinha perdido os pais logo no início da adolescência. Chell cresceu sozinha e teve que amadurecer rápido para que isso acontecesse da melhor forma possível.
— Se seu motivo for esse, ainda não é o suficiente pra justificar uma revolução, pois algumas pessoas tiveram perdas maiores que as suas! Você não foi o único.
— Eu só queria honrar minha mãe e dar liberdade ao povo de Yotõn.
— Eu sei, Aiden. Suas intenções são as melhores, mas não serão alcançadas da maneira que você pretende. — novamente, Aiden demonstrou indignação respirando fundo. — Você tem que me prometer que não vai tentar fazer nada.
— Eu prometo. — murmurou.
— Olhe para mim e repita.
Aiden ergueu seu olhar perante o dela e pronunciou as palavras de maneira mais clara.
— Eu prometo.
Ela permaneceu olhando nos seus olhos por alguns segundos. Após tirar suas conclusões, levantou-se.
— Você tem razão quando diz que eu não perdi ninguém no massacre, porque, como você disse, eu não tinha ninguém, eu não tinha família. Mas eu acabei ganhando a minha depois que a ditadura começou. Todos os desamparados que vivem aqui, incluindo você, são minha família agora, e eu não vou deixar que você envolva minha família em perigo, ouviu?
— Sim. Vou fazer o que você me pediu.
— Bom. Agora levanta.
Estanhando a ordem repentina, ele levantou-se rápido. Já de pé, Chell lhe deu um abraço da maneira mais espontânea possível. Aiden, como sempre, ficou sem jeito ao receber aquela demonstração de afeto tão sincera. Após alguns segundos, Chell desfez o abraço.
— Eu me preocupo com você, seu cabeça dura! — disse sorrindo.
— Obrigado, Chelle!
— Faz tempo que você não me chama assim!
— É porque hoje você já tem vinte e cinco anos, não dez!
Após o bom momento de recordação, Chell saiu de lá e dirigiu-se novamente até a recepção. Entretanto, antes de entrar no corredor de acesso, ela para assim que chega aos pés da porta. Ao lado desta, Helle está a observar Aiden.
— Você disfarça terrivelmente mal.
— O que eu posso fazer? Você que é o “espião” aqui.
— Não olhe pra mim, ele pode desconfiar de alguma coisa. — disse Helle, sem desviar o olhar do novato. — Abaixe-se e finja que está fazendo alguma coisa na bota.
Chell cumpriu a ordem rapidamente, realizando o movimento de maneira robótica. Aquela ação deixou Helle envergonhado.
— Você não ajuda na sutileza então eu peço que seja breve. O que ele disse?
— Ele prometeu que não faria nada.
— E o que você acha? Ele falou a verdade?
— Não. Conhecendo-o do jeito que eu conheço, ele não vai desistir. Acho melhor continuar monitorando. Se ele chegar perto de alguém e ficar conversando por muito tempo, interrompa-o.
— É isso que eu vou fazer. Agora levante-se e volte ao trabalho.
— Espere! — exclamou Chell, levantando-se repentinamente. — Eu quero saber sobre a descoberta da Trindade! — falou baixo.
— Aqui. — Bremen retirou uma carta do bolso da jaqueta e entregou a Chell. — Ao que tudo indica eles vão anunciar em breve.
— Você acha que vai funcionar?
— Pelo bem de todos, eu espero que sim.
***
Quando o abrigo Saint ainda era um asilo, já existiam dois prédios interligados que resultava em um tipo de ‘complexo de prédios’. O que atualmente estava sendo ocupados pela grande multidão era onde os antigos pacientes dormiam, comiam e passavam a maior parte do tempo. O segundo prédio, pouco menor que o primeiro, acomodava as instalações médicas do asilo, sendo responsável por dar um serviço de melhor qualidade. Anos se passaram, Turon instalou sua ditadura por meio de um massacre e deixou inúmeras pessoas sem rumo. Robert Grant, um famoso pesquisador aposentado da Nação Branca, abriu as portas do seu asilo para abrigar tais pessoas. Porém o número de desamparados era muito grande, fazendo com que fosse necessária a presença de voluntários.
De todos os que se dispuseram a ajudar, o casal de gêmeos, Nito e Beta Geth, eram um dos mais ativos. Ambos ajudavam em áreas distintas, porém eram vitais para o bem estar de todos no abrigo. Beta era uma excelente mecânica, tudo o que quebrava passava por suas mãos e ficava funcional novamente. Era muito importante para a manutenção dos aquecedores e eletrônicos no abrigo. Já Nito tinha um papel mais importante.
Apesar de jovem, o rapaz de vinte e cinco anos havia se tornado um cientista de destaque em Yotõn, trabalhando em vários projetos relacionados a virologia. Assim que foi revelado que Nimrod havia feito tudo aquilo por causa da cura para o vírus que assolou sua nação, Nito, assim como outros cientistas e pesquisadores, foi obrigado a se juntar a uma equipe previamente montada pelo Rei Cinzento e sua corte política. Dentre os vários integrantes da equipe, ele, juntamente com sua amiga de longa data e companheira de trabalho, Rin Murata e Adar Fler tiveram um destaque maior sobre todos os outros. Por isso, logo receberam o nome: “Trindade”.
— Helle, você sabe que não pode fumar aqui. Você está no corredor de uma área hospitalar.
— Desculpa. — frustrado, Bremen pôs de volta seu cigarro e isqueiro no bolso da jaqueta.
— O que você está fazendo aqui? Não devia estar observando o novato? — perguntou Nito.
— Ele voltou ao trabalho. Está no deposito organizando as coisas. Está sozinho, sem ninguém pra enlouquecer.
— Você deve estar com muita raiva desse cara!
— Eu detesto esse tipo de pessoa que só pensa em si, sabe? Não medem a consequência de suas ações.
— Entendo. Mas acho que muita gente se sente como ele. Elas querem que a cura seja descoberta rápido.
— Eu sei, mas o que esse cara quer fazer é suicídio e homicídio. Ele não vai estar ferrando com a própria vida mas também com a de quem aceitar participar dessa merda.
— Pega leve, cara.
— Enfim. Sobre a descoberta, eles já sabem?
— Não, a FAT ainda não sabe de nada. Porém vai saber, mais cedo ou mais tarde. Eles não param de vigiar a gente e Adar quer acabar logo com isso, quer anunciar o mais rápido possível.
— Vocês já testaram?
— Ainda não. Não temos cobaias vivas, apenas cadáveres. Na verdade, são mais de dez caixas cheias de ratos mortos. Todos com a pele desfigurada. Esta é a primeira vez que as coisas não estão terríveis.
— Sei. Então façam isso rápido. Anunciem a descoberta para a FAT e peçam cobaias.
— Faremos isso e....
Enquanto Nito falava, Helle viu, atrás do jovem pesquisador, Aiden no final do corredor conversando com um rapaz. Ao observar atentamente, ele teve a absoluta certeza de ter notado, pelos movimentos dos seus lábios, a palavra ‘revolução’.
— Helle?
— Filho da...
— O quê? — indagou Nito.
— Reserve uma vaga na ala de ferimentos.
— O que você vai...
Ignorando Nito completamente, Helle observou o corredor rapidamente, verificando a ausência de soldados da FAT naquela parte. Começou caminhar em direção a Aiden. Este, ouvindo o som de passos pesados ecoando pelo lugar, perdeu sua concentração na conversa e viu Bremen se aproximando. Sem temer seu olhar intimidador, Aiden ergueu-se e começou a encará-lo já de longe.
— Nós avisamos que não era pra você fazer isso, novato!
Sem pensar duas vezes, Helle dá um soco cruzado no rosto de Aiden. Pego de surpresa, ele perde a consciência por alguns segundos.
— Nós avisamos que não era pra você incentivar ninguém!
Recobrando os sentidos, Aiden enxugou o sangue do seu lábio com a manga da jaqueta.
— Cala a boca!
Dito isso, Aiden pulou em cima de Bremen, colocando todo o peso do seu corpo ao seu favor. Em seguida, aproveitando a guarda baixa proporcionada pela queda, disferiu uma sequência de socos no rosto de Helle. Os socos eram tão fortes que não demorou muito até o rosto de Bremen ficar todo ensanguentado. Quando viu que ele não estava mais reagindo, Aiden parou de socar seu rosto e o agarrou pela gola da camisa. Aproveitando este momento em que ele baixou sua guarda, Helle observou a oportunidade perfeita para nocauteá-lo. Percebendo que suas pernas abertas, Helle usou seu joelho para acertar com força a parte íntima de Aiden. Este, após sentir o forte golpe baixo, caiu imediatamente ao lado de Bremen.
No chão, completamente acabados, os dois se entreolharam e rosnaram um para o outro. Nito, que assistiu a tudo, estava boquiaberto no momento. Quando tudo pareceu estar seguro pra ele, se aproximou de Helle e examinou seu rosto.
— Helle? Consegue me ouvir?
— Eu estou bem, Nito. — disse, levantando-se vagarosamente.
— E ele?
— Este é Aiden Arius, o novato. Novato, Nito. Nito, novato.
— Oi. — disse Nito, acenando.
— Precisamos cuidar dele.... — Helle retirou um cigarro do bolso, ascendeu e deu uma longa tragada. — Ele não está bem.
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