Flor do deserto

37 Capítulo 36- Insight


Bom dia para todos os nossos telespectadores em toda a Inglaterra nesse último dia do ano.

Começamos o dia com notícias sobre a tradicional queima de fogos num dos nossos cartões postais: o olho de Londres. A Scotland Yard anunciou que irá dobrar o policiamento durante as festas de final de ano, embora que, segundo o órgão, são apenas medidas preventivas. Vale lembrar que há cinco dias, uma equipe de forças especiais liderada pelo inspetor Lestrade prendeu todos os integrantes do Hukm Allah que tinham fugido da cidade durante as operações liderada pelo ex-chefe de segurança Harrison. Segundo informações oficiais, foram apreendidos também várias armas, produtos químicos e radioativos no local. Alguns integrantes conseguiram escapar, mas segundo o inspetor, não há riscos de novos ataques pois segundo ele o grupo fora oficialmente desbaratado e suas armas e seus planos apreendidos.

E sendo assim queridos espectadores, podemos mais uma vez dormir tranquilos e seguros por nossa querida Scotland Yard ter cumprido seu dever com responsabilidade e compromisso com o povo britânico.

Ah, vale salientar que após o anúncio de Harrison revelando o nome da jovem procurada pelo grupo terrorista, ele perdeu o cargo e está sendo julgado com sentença de traição.

Depois de todas essas notícias, o ânimo do povo melhorou. Não tivemos mais protestos, pelo contrário, houve ontem uma grande passeata agradecendo à Scotland por seu trabalho em eliminar esse mal que atormentou os ingleses por meses, como também alguns cartazes traziam um pedido de desculpas à essa moça chamada Emanuelle Góes por algumas protestos terem exigido a morte e a entrega dela. Não sabemos seu rosto nem onde ela mora ou trabalha, mas espero que essa jovem tenha visto ou ouvido isso, para que possa sentir-se à vontade para estar em nosso país, como a devida cidadã britânica que é.

Queremos desejar a todos boas festas e um feliz ano novo desde já.

***

O despertador tocou. Emanuelle se remexeu na cama para desligar o aparelho. Ela se desvencilhou dos braços que a abraçavam, conseguindo alcançar o despertador. Emanuelle sentiu os mesmos braços puxando ela de volta, envolvendo-a num abraço de conchinha. A mulher se virou para o homem ao seu lado, ele ainda dormia.

—Sherlock -disse ela baixinho, brincando com um dos cachos negros do cabelo bagunçado dele- querido, preciso levantar. Não quero me atrasar para o plantão.

O detetive concordou com a voz embolada pelo sono, folgando o braço que envolvia a esposa. Emanuelle se levantou e foi para cozinha.

Ela estava terminando de assar os pães na torradeira, enquanto esperava o café ficar pronto na cafeteira. Sherlock apareceu na porta da cozinha vestindo seu roupão azul. Ele encostou na ombreira da porta e cruzou os braços. Ele olhava para a esposa e sorria discretamente. Emanuelle ao ver o marido na porta falou “espero que você goste de pães bem assados, a torradeira deve ter dado defeito de novo -ao ver que ele não respondia, mas sustentava o olhar para ela, Emanuelle riu envergonhada e perguntou- porque está me olhando assim?”. Ele nada disse, mas foi em sua direção e a abraçou, beijando-lhe o rosto. Ainda abraçados, ela colocou o rosto do marido entre suas mãos e comentou num sussurro “sabe, a vida inteira eu tive medo de viver momentos como esse. Pensei que esse tipo de felicidade era impossível...mas tenho o prazer de dizer que estava errada”, ela sorria e seus olhos lacrimejavam. Sherlock a olhou com ternura e comentou “se eu disser a mesma coisa, você vai me acusar de plágio -Emanuelle riu- embora que...sim, eu compartilhava de seu mesmo medo, e digo, eu também estava errado”. Ela olhou com serenidade para ele, comentando “é comum temermos aquilo que não conhecemos”. “Ainda bem que eu te conheci”, disse Holmes. Ambos se olharam por um tempo, e aproximando seus rostos, beijaram-se intensamente. Até que em determinado tempo Holmes parou e comentou em tom brincalhão “seu cabelo está cheirando à churrasco de torrada”. Emanuelle pegou uma mecha de seu cabelo e levou ao seu nariz, fazendo uma careta ao cheirar, confirmando a observação de eu marido. Sherlock continuou dizendo “sabe o que você precisa? Precisa de um banho!”. E dito isso, a pegou nos braços, levando-a em direção ao banheiro. Ela entre uma risada e outra disse “ não, Sherlock, as torradas e o café vão queimar”. Mas ela deixou-se levar nos braços dele, entre risadas e beijos.

***

— Ah, não esqueça que John nos chamou para romper ano com ele e Mary -disse Emanuelle, enquanto colocava seu casaco e cachecol, prestes a sair do 221b.

— De que horas você larga? -perguntou o detetive, enquanto secava com uma toalha os cabelos molhados.

— De oito da noite.

— Vou lhe buscar no hospital e depois vamos para casa de John.

— Combinado.

Os dois se despediram com um beijo rápido e logo Emanuelle desceu rapidamente escadas abaixo, saudou a sra Hudson e em seguida saiu do prédio.Ela logo pegou um táxi e foi para o hospital.

Sherlock observava a esposa pela janela, até o momento que ela foi embora dentro do táxi. O detetive foi em direção à cozinha, quando viu que havia uma mensagem de voz no seu celular. Ele viu a identificação, era Molly Hooper. Ele viu que ela tentou ligar enquanto ele estava com Emanuelle no banho. Ele apertou para ouvir a mensagem:

“Sherlock, bom dia. Eh...como vai você e Emanuelle? Eu soube de vocês e...desejo felicidades...enfim, não foi para isso que liguei. Eu queria só comentar algo que achei interessante no que sobrou do corpo do rapaz que explodiu o hospital. Eu estava mexendo no corpo para fazer alguns testes e vi o local do abdômen dele onde foi instalada a bomba. Eu achei alguns fragmentos de fio, e ao analisar descobri que eram fios de Nylon, um tipo de fio que os cirurgiões usam para fechar a pele. Resumindo, eu tenho que admitir que quem colocou a bomba na barriga desse jovem tem uma boa mão e experiência cirúrgica. Foi tudo muito bem feito.

Enfim, me ligue quando ouvir essa mensagem. Ah, e estou terminando de fazer alguns testes no corpo do Marcus, daqui a alguns minutos o resultado sai. Se eu souber mais alguma coisa eu ligo de novo. Tchau tchau.”

Sherlock retirou o telefone do ouvido com o olhar atônito. Sua mente de repente trabalhou rapidamente por causa da seguinte frase de Molly “boa mão e experiência cirúrgica”. O chefe dos terroristas não confiaria algo desse porte a alguns dos seus lacaios, ele mesmo teria que colocá-la no corpo do jovem. Lembrou-se que James e o outro policial foram orientados a levar Said para o St Barts, e não para o hospital mais perto. O tiro no ombro do chefe do Hukm Allah, não houveram entradas nos hospitais de alguém com o ombro machucado, logo o homem sabia como se curar sozinho, ele tinha um bom conhecimento médico. O detetive lembrou-se de Emanuelle ter comentado que ela só não tinha ficado aleijada no parque porque o chefe do Hukm Allah aplicou a anestesia com uma precisão cirúrgica. Os olhos de Sherlock brilharam com a conclusão que chegou: o chefe do Hukm Allah era cirurgião.

***

Emanuelle chegara ao hospital e começou logo os atendimentos na emergência. Dois dias depois do Natal o setor estava reformado e pronto para uso novamente. A jovem estava feliz por poder voltar a trabalhar. Ela estava fazendo uma sutura na testa de uma criança que caiu do sofá, quando um enfermeiro pediu a ajuda dela para checar uma sonda de um paciente que estava prestes a ser transferido do hospital. “Eu estou ocupada agora, não tem outro médico que possa fazer isso?” perguntou a mulher, sem tirar os olhos da criança. “Infelizmente não, estão todos ocupados” disse o homem, continuando “sem falar que o paciente que vai ser transferido é seu”. Emanuelle leu o prontuário e suspirou ao ver que era verdade. “Ok, vou com você. Espere só até eu terminar essa sutura”.

***

Sherlock andava a passos lentos pela sala, seus olhos estavam distantes. Sua mente criou uma teoria, e Sherlock juntava as peças. Em sua mente apareceram dois nomes: Charles e Marcus.

O detetive repassou tudo mentalmente: “Marcus e alguns enfermeiros eram os únicos que sabiam que Emanuelle tinha atendido Said antes de sua morte, mas Charles também soube quando ele chegou depois informando do atentado. Emanuelle não tinha amigos, e eles eram os únicos cirurgiões com aproximação suficiente dela para saber seu endereço e passar para Wilson. Marcus queria manter Emanuelle no hospital mesmo após quase a terem matado lá. Na noite do ataque ao hospital, Charles fora quem mandou Emanuelle para a emergência, mas Marcus quem indicou a colega para preencher o lugar dos médicos faltosos. A não ser que Marcus já sabendo que Charles não ia cumprir com sua promessa, insistiu para que ela fosse chamada.Marcus queria levar Emanuelle para sua casa, depois de ficar bêbado tomando vários Shirley Temple. Shirley Temple -Sherlock refletiu. Ele então abriu seu computador e pesquisou esse drink na internet, descobrindo que nele não continha álcool- Ele fingiu que estava bêbado, mas porque? E além disso Marcus está morto, não teria como...A não ser que…” Sherlock pegou o celular, ofegante com a conclusão que estava prestes a concluir. O detetive ligou para Lestrade, este atendeu e Sherlock falou com urgência:

— Lestrade, conseguiu o nome de quem está pagando as contas da fábrica?

— Na verdade conseguimos sim, desde ontem. Mas eu não acredito que vá ajudar em algo.

—Como assim?

— Só consta um nome do dono da conta, sem sobrenome, sem mais nada.

— E qual é?

— “Martelo”. Deve ter sido um erro do sistema…

***

Emanuelle estava seguindo o enfermeiro, e ele a levou até o estacionamento das ambulâncias. Ele abriu a porta traseira do veículo e Emanuelle entrou. O paciente estava usando uma máscara de oxigênio com algumas faixas brancas ao redor, não dava para reconhecer o rosto do paciente. Emanuelle puxou o lençol de cima do paciente, vendo que ele vestia uma roupa escura simples, mas não tinha nenhuma sonda. “Esse homem não tem nenhuma sonda aqui” comentou a mulher, e olhar para o enfermeiro para ter dele as explicações, ela viu o homem entrando na ambulância e fechando a porta atrás de si. Entretanto o que chamou-lhe a atenção foi o objeto que ele retirou da calça: uma pistola com um silenciador na ponta. O homem apontou a arma para ela, mandando fazer silêncio.

***

Sherlock ficara atônito, seu olhar fixo para frente, então comentou com Lestrade, ainda atônito:

— O nome Marcus vem do grego, que significa martelo.

— O que? Que conversa é essa?

— Espere, que tem mais alguém me ligando fique na linha.

Sherlock trocou a chamada, viu que era Molly.

— Molly por favor seja breve.

— Certo, eu terminei os testes no corpo de Marcus. A princípio o exame de DNA não foi compatível, e algumas estruturas não típicas de assento de carro foram encontradas solidificadas no corpo dele, como bisfenol que é típico do…

— Molly!

— Tá, desculpe...Sherlock, esse corpo não é do Marcus, o exame de DNA não bateu, ao contrário dos outros corpos.

O detetive arregalou os olhos, seu coração acelerou de forma que poderia galopar para fora de seu peito. O detetive sentiu um frio subir pela espinha. Ele então, rápido como uma bala, pegou seu sobretudo preto e desceu as escadas.

***

Enquanto olhava assustada para o homem armado, Emanuelle viu que o paciente se movimentou de seu leito. O homem sentou-se e retirou o aparato de seu rosto, fazendo Emanuelle estremecer ao reconhecer o homem à sua frente. Ela sentia tudo girar ao seu redor. Ele riu sarcasticamente, e perguntou para ela “está bem Manu? Parece que você viu um fantasma”. O enfermeiro rapidamente avançou para a moça, injetando-lhe um sedativo. A mulher caiu no chão do veículo, perdendo progressivamente a consciência, enquanto sussurrava “Marcus seu desgraçado...”.

***

Sherlock corria pela rua Baker procurando desesperadamente um táxi. Ele desligou a ligação de Molly, falando com grande urgência para Lestrade:

— É o Marcus Lestrade!! Ele é o chefe do Hukm Allah!! Ele está vivo!!

— Mas como...

— Acabei de falar com Molly no necrotério! O desgraçado está vivo e vai atrás de Emanuelle! Mande uma unidade ir para o St Barts agora!

— Onde você está?

— Indo para o hospital.

Sherlock viu um táxi livre vindo no fim da rua. Ele praticamente se jogou na frente do veículo, fazendo o motorista frear bruscamente e desferir palavrões contra o maluco que tinha se jogado na frente dele. Sherlock falou:

— Me leve para o St Bart o mais rápido possível! É uma emergência!

O motorista fez uma cara de espanto e mandou ele entrar no veículo. Sherlock entrou e fechou a porta. O homem arrancou o táxi e seguiu em direção ao hospital. Sherlock ligou para Emanuelle, mas ela não atendia. Sherlock praguejou ainda com o telefone no ouvido. O motorista, olhando pelo retrovisor, lhe disse: “não se preocupe Sr Holmes, logo chegará ao seu destino e encontrará sua garota”. Ao ouvir essas palavras, o detetive retesou todos os seus músculos e virou o rosto lentamente para olhar de forma sombria para o motorista pelo retrovisor, baixando lentamente o telefone da orelha. O homem sorria para ele de forma sarcástica, e comentou em seguida: “boa viagem, senhor Holmes”. Dito isso, ele jogou uma lata perto do detetive e fechou a janela de comunicação entre motorista e passageiro, trancando-a. Da lata saía uma fumaça escura. Sherlock protegeu o nariz com o casaco, mas não adiantou. Ele começou a sentir um incômodo formigamento em seus braços e pernas, que logo atingiu seu peito. Ele tentou abrir as portas e os vidros, mas estavam trancados. Ele então deitou-se no banco e bateu contra o vidro usando a força de suas pernas, mas não obteve sucesso. Deitado como estava, sua vista escureceu e ele perdeu a consciência.