Flor do deserto

38 Capítulo 37- Resiliência


A dor de cabeça era grande. A vista embaçada e um zumbido incômodo no ouvido fazia Sherlock querer vomitar. Aos poucos ele recobrou a consciência. Sua vista estava embaçada, e ele tentava aguçá-la para identificar onde estava. O chão parecia mover-se. Sherlock por um momento pensou estar tonto, mas na verdade entendeu que estava num barco. Ao tentar movimentar seus braços, viu que fora preso com os braços abertos, sentado ao chão, resultando numa terrível dor em seu pescoço. Ele olhou em volta. Estava escuro, o detetive esperou até sua visão se acostumar, percebendo que estava numa espaçosa cabine de controle. Um painel largo com algumas luzes e botões e um leme envelhecido denunciaram o que o detetive já concluíra. No lado oposto do painel, havia uma mesa larga com alguns materiais em cima. No centro dela havia algo que o detetive reconheceu por causa dos desenhos do documento que ele queimou na lareira. No centro na mesa, estava a bomba que o Hukm Allah pretendia destruir a Inglaterra. Sherlock sentiu uma péssima sensação ao ver aquele objeto ali. Entretanto, apurando mais a vista ele viu uma pessoa amarrada numa cadeira alguns metros à sua frente. Era uma mulher de porte médio, magra e de cabelos escuros. Era Emanuelle. Ao reconhecer quem era, o detetive levantou e forçou-se para frente, querendo chegar mais perto. Ele a chamava baixinho. Queria certificar-se que ela estava bem. Entretanto uma voz familiar surgiu na escuridão, colocando-se perto do detetive. Marcus saiu da área escura da cabine, junto com seu ajudante, se colocando onde a luz da lua o iluminava.

— Marcus…-disse o detetive entredentes.

— Sabe, eu o subestimei senhor Holmes. Depois de tantos anos planejando isso tudo, gastando tempo e dinheiro com pesquisas, treinamento e tudo mais...vem o senhor e aqueles palhaços da Scotland Yard destruir meus planos.

Emanuelle murmurou algo, despertando lentamente. Ela abriu os olhos e piscou algumas vezes. Ao ver Marcus ali, junto com Sherlock a moça estremeceu na cadeira. Ao ver isso, Marcus se aproximou da mulher, passando a mão pelo rosto dela, dizendo “Calma querida, vai ficar tudo bem”. Mas Emanuelle num bote rápido mordeu a mão do homem. Marcus grunhiu de dor, e em seguida bateu no rosto de Emanuelle. Sherlock avançou contra o homem, sendo detido pelas cordas que o amarravam. Marcus segurou Emanuelle pelo queixo, e disse olhando para os olhos assustados dela:

— Sabe, vocês já testaram minha paciência demais, assim como o resto do povo dessa nação. Estou perto de atingir meu limite, se eu fosse você não me testaria.

— Porque você? -perguntou Emanuelle, trêmula- Pensei que fosse um bom homem.

— E sou minha querida -disse, saindo de perto dela, indo para a mesa onde estava a bomba- essa nação é que apodreceu. Guerras, acordos comerciais covardes, corrupção, xenofobia...o povo inglês não conhece as leis de Allah, não sabem o quanto eles estão podres. Todo fruto podre deve ser jogado na fogueira para que dele nasçam sementes puras que dêem frutos limpos. E assim será com essa nação. A Inglaterra queimará, mas o remanescente constituirá um novo país, puro e livre dessa leis humanas que matam os pobres e beneficiam os ricos. E você Emanuelle, achei que gostaria de se unir a mim e gerar filhos para a nova nação que surgirá.

A jovem soltou faíscas pelos olhos contra o homem à sua frente, respondendo entredentes:

— Sinto muito, eu já estou comprometida.

Marcus viu a aliança no dedo dela, e depois viu a aliança do dedo de Holmes, e riu de forma maníaca ao perceber que estavam casados.

— Você é louco -comentou Holmes.

— Pode até ser...mas não sou eu quem estou amarrado não é? Mas enfim -disse tirando um frasco do bolso- graças à ação de vocês, essa noite eu não conseguirei queimar toda a Inglaterra, apenas parte dela. De todo urânio que eu tinha, só sobrou isso aqui depois da brincadeirinha de vocês lá em Cotswold -disse, mostrando o frasco- E para isso é que vocês estão aqui. Quero que vocês me digam o quanto eu consigo destruir com essa quantidade de urânio, meu próximo alvo tem que ser travado com muita precisão.

— E porque você acha que sabemos disso? -perguntou Sherlock. Marcus se aproximou à uma distância segura do detetive e comentou:

— Pois no seu notebook o arquivo não estava, nem estava impresso em nenhum lugar da sua casa. Você não é idiota o suficiente para destruir algo desse porte sem guardar a informação em algum lugar.

— Está destruído todas as fontes, como você mesmo disse.

O homem deu um sorriso ameaçador e disse, baixinho:

— Nem todas as fontes. Você não esqueceria uma informação dessas, nem sua esposinha ali. Sei que vocês decoraram a tabela. Então, para poupar meu tempo e o sangue de vocês, me digam: quanto eu consigo destruir com isso daqui de urânio?

Sherlock permanecia calado, seu olhar assumira um tom ameaçador contra Marcus. O chefe então fez uma careta e se dirigiu à Emanuelle.

— Querida, seu parceiro não quer cooperar. Você parece ser mais inteligente que ele então, por favor, me diga qual o raio de destruição.

Emanuelle permaneceu calada. Seu olhar era uma mistura de firmeza e medo. Ora ela olhava para Marcus, ora para Sherlock. Marcus suspirou e comentou passando os dedos pela testa “eu odeio quando vocês me obrigam a fazer isso”. Marcus estalou os dedos e seu ajudante pegou da mesa uma comprida corda feita de couro com pequenos ganchos nas pontas. Emanuelle empalideceu ao reconhecer que era um chicote. Marcus ao ver, consolou a mulher dizendo:

— Ah não, isso não é para você -o ajudante se colocou atrás de Sherlock com o chicote desenrolado- mas se você não me disser, meu amigo ali cavará as costas do seu amorzinho até expor os ossos.

Emanuelle estava aterrorizada. Seu semblante era totalmente de pânico. Ela olhava para Sherlock em busca do que fazer. O detetive fez sinal negativo com a cabeça, ao que ela repetiu para Marcus. O chefe então fez um sinal, e o ajudante deu a primeira chibatada nas costas do detetive. Sherlock engoliu em seco a dor, ele tinha que resistir. Ele sabia que Emanuelle poderia ceder a informação se ele transbordasse algum sofrimento. Ele tinha que aguentar. Emanuelle permaneceu calada. O homem sacudiu a arma de couro e desferiu rapidamente mais duas chibatadas. Sherlock fechou os olhos com força, apertando seus lábios um contra o outro. O detetive sentia seu sangue quente correndo pelas suas costas, encharcando sua camisa e calça. O homem desferiu mais um golpe criando um corte sobre aqueles que já tinham sido criados. Holmes, que estava de pé, ajoelhou uma das pernas por causa da dor. Sua respiração estava rápida e alta e ele pendeu a cabeça para frente. Emanuelle já começara a derramar muitas lágrimas silenciosas, e fechou os olhos e virou o rosto para não ver seu marido ser massacrado. Imagens de sua mãe apanhando de seu pai vieram à sua mente. Marcus entretanto segurou no rosto dela pelo queixo e o forçou para frente para que ela olhasse para Sherlock. O ajudante então, em golpes rápidos, desferiu mais três chibatadas contra Sherlock, e dessa vez o detetive não aguentou: ele grunhiu de dor. O ajudante olhou para Marcus, buscando aprovação para continuar. O homem respondeu com um riso maníaco: "pode continuar, eu nem ouvi ele gemer ainda". O ajudante então começou a desferir chibatadas sequenciadas contra Sherlock, e a cada uma delas, o Holmes gritava de dor. Não conseguia mais resistir. Emanuelle fechou os olhos e chorava amargamente como uma criança. Ao ver que não conseguiria nada dela, Marcus fez sinal para que o homem parasse. O chefe segurando o rosto da mulher, a fez olhar para ele e comentou “Ora, ora, você é durona. Apesar de que uma pessoa acostumada ao sofrimento como você, não era de se esperar outra coisa...mas será que o contrário também acontece?”. Emanuelle arregalou os olhos e estremeceu. Marcus fez um sorriso maníaco e se afastou para pegar um balde de água cheio no canto do ambiente. Ele se aproximou dela e jogou toda a água em cima da mulher, a deixando encharcada. Marcus fez sinal para o homem e ele deixou o chicote em cima da mesa e no lugar pegou um bastão de choque. O chefe foi em direção de Sherlock. O detetive respirava ofegantemente. Ele estava de joelhos com a cabeça curvada para frente. Suas costas ardiam e o que restou de sua camisa estava colorida de um vermelho vivo do sangue que ainda escorria dos profundos cortes em suas costas. Marcus levantou a cabeça de Sherlock pelos cabelos, forçando-o a olhar para Emanuelle. Seu semblante era de dor, e ao ver a esposa ensopada e o homem com o bastão de choque perto dela, ele sentiu um calor subir pelo peito. Marcus então, falou baixinho para o detetive “sabe, alguém de vocês alguma hora vai ter que ceder...enfim, vai me dizer detetive?”. Sherlock levantou os olhos, seu olhar era de fúria contra aquele homem, então ele respondeu, entredentes “vá pro inferno”. Marcus fez um sinal para o ajudante. O homem encostou o bastão em Emanuelle, dando-lhe um grande choque. A jovem se debatia na cadeira e gemia. O homem afastou o bastão da mulher, fazendo-a parar de se debater. Emanuelle escorregou na cadeira, e sua cabeça pendia para trás. Marcus olhou para Sherlock. Ele nada dizia, apenas estava com os olhos fixos na esposa. Seu olhar era indescritível. Marcus fez sinal e o homem encostou novamente o bastão nela. Emanuelle gemia alto, depois passou a gritar com as próximas sequências de choque dadas. Holmes fechou os olhos com força. Ele sentiu um forte calor subir de seu peito. Sua garganta ardia e seus olhos também. Logo Holmes verteu lágrimas silenciosas, e num rosnado disse “Chega! Chega! Eu falo”. O ajudante parou de chocar a moça. Emanuelle estava quase perdendo a consciência, mas ela ouviu o que Holmes dissera. “não...Sherlock”, gemeu ela. Marcus soltou os cabelos do detetive. Sherlock pendeu a cabeça para frente. Sentiu-se derrotado, fraco. Marcus olhou para ele e riu sádico, e disse: "ora, ora...a vida é uma caixa de surpresas, não é? Daqueles que eu esperava fraqueza, eu encontrei força, e de quem eu esperava força, encontrei fraqueza...e então Holmes, qual o raio de destruição?”. Sherlock respirou fundo, seu tórax doía pela posição que estava. Não dava para respirar direito, e o frio intenso daquela noite só piorava as coisas. O detetive respondeu, sem olhar para o homem “algo perto de 60 metros”. Marcus passou a mão pelo queixo e comentou “Hum, não é muito… Mas pelo menos já sei onde usar essa belezinha. Obrigada detetive. Você! -disse referindo-se ao assistente- solte-os e os leve lá para fora, quero que eles vejam de camarote o que vai acontecer”. O ajudante foi até Holmes, o soltando primeiro das cordas. O detetive permanecia de joelhos e quando foi solto, caiu com os cotovelos no chão, tamanha era a dor em seu corpo. O homem sacou uma pistola e apontando para Holmes, o mandou ir soltar Emanuelle. Sherlock levantou-se com dificuldade, e, andando curvado, chegou até a esposa. Ele a desamarrou da cadeira. Emanuelle escorregava para fora do assento, mas Holmes ajoelhou-se e a segurou. A jovem segurou-se no pescoço do detetive, e falou pesarosa, com a voz trêmula: "Sherlock...não devia ter feito isso". O detetive a abraçou e disse no ouvido dela "não posso ver você sofrer" . "Vamos!" Rosnou o homem, sacudindo a pistola. Apoiados um no outro, o casal se levantou e saiu da cabine. Estava muito escuro, e ambos demoraram para perceber que o barco na verdade era uma grande balsa. Eles olharam em volta, estavam de frente ao O Olho de Londres. Eles estavam numa das balsas que iria fazer a queima de fogos. Na margem oposta ao cartão postal, havia uma grande multidão composta por turistas de todo mundo e vários cidadãos ingleses. Todos esperando pela queima de fogos. Alguns clarões distantes no céu já podiam ser vistos. A meia noite se aproximava, faltava poucos minutos. A balsa, outrora parada, começou a se mover, e ia em direção à multidão acumulada do outro lado do rio. A mente de Sherlock trabalhou rápido. Ele comentou baixinho para Emanuelle:

—Marcus pretende levar essa balsa até a margem onde a multidão está. Ele vai explodir a bomba naquelas pessoas.

Emanuelle olhou assustada para o detetive e perguntou:

—E o que vamos fazer? Não podemos deixar ele fazer isso.

Sherlock olhou para trás discretamente. Marcus ainda estava na cabine, devia estar preparando a bomba. Atrás deles só havia o ajudante com a arma em punho. Holmes então cochichou com a esposa “preste atenção, nós vamos fazer o seguinte”.

Marcus tirou o urânio do vidro, o encaixando no dispositivo explosivo. Em seguida ele pegou alguns materiais espalhados pela mesa. Estava terminando de montar a bomba.

Sherlock estava abraçado com Emanuelle, mas de repente ele começou a escorregar dos braços dela, gemendo. O homem rosnou:

—De pé!

—Ele está passando mal!

—Como assim?

—Você tirou muito sangue dele! Sherlock, calma, respire.

— De pé! -disse o homem se aproximando alguns passos e encostando a arma na lateral da cabeça do detetive, que estava de joelhos.

Emanuelle se afastou dois passos e, com um movimento rápido, Sherlock tomou a arma da mão do homem e o deu uma coronhada, o desacordando. Sherlock jogou o homem da balsa e explicou à Emanuelle o próximo passo.

Marcus acabara de encaixar a última peça que faltava. O dispositivo não era grande, tinha as dimensões de uma caixa de sapato, podendo ser facilmente confundida com uma.

Ao sair da cabine, Marcus procurou seu agente e o casal, mas não os achou, olhando de um lado para o outro. Até que ele sentiu um cano frio sendo colocado em sua nuca. Marcus se virou com a caixa na mão, e viu Sherlock apontando a pistola para o meio da sua testa. Emanuelle tomou a caixa das mãos do homem, e Sherlock disse “sabe o que fazer Manu”. A jovem correu para a cabine de controle com a bomba na mão. Marcus olhou de forma desafiadora para Sherlock, e rindo de forma zombadora comentou:

— Sabe, eu não sou uma pessoa que confia rápido nas pessoas. Inclusive nesse meu ajudante incompetente -ele colocou a mão em seu bolso. Sherlock estava alerta, pronto para atirar a qualquer movimento brusco- Por isso, eu não deixei a arma dele carregada.

Marcus tirou do seu bolso o pente da pistola que Sherlock estava segurando, mostrando ao detetive, ao que ele discretamente passou um dos dedos na parte inferior da arma, constatando que era verdade. Marcus riu de maneira maníaca. Prevendo o que estava por vir, Sherlock retesou seus músculos, preparando-se para o combate físico, calculando seus próximos movimentos. Nos últimos encontros entre os dois, Sherlock saiu bastante machucado. Ele sabia que teria que ser mais rápido e usar de estratégia, embora estivesse em desvantagem por causa da dor em suas costas que drenava suas forças. Os dois homens ficaram parados um encarando o outro, esperando quem reagiria primeiro.

De repente os dois homens sentiram o chão oscilar. Emanuelle estava voltando o curso da balsa, seguindo ao centro do rio. Com a oscilação, Marcus resolveu investir primeiro, desferindo um soco contra o detetive. Sherlock desviou-se acertando com a arma nas costelas do homem, fazendo-o grunhir. O detetive se afastou alguns passos, mas Marcus avançou para cima dele, dando-lhe dois golpes rápidos. Holmes desviou do chute, mas foi atingido pelo um soco, e como resposta, tentou acertar Marcus com o cabo da arma, mas ele desviou e chutou o estômago de Holmes, fazendo-o se curvar. Marcus aproveitou que Sherlock se curvou e acertou um forte chute no rosto do detetive, fazendo-o girar no ar, caindo com grande violência no chão.

Emanuelle procurava na mesa grande da cabine algum objeto bem pesado, foi quando viu no canto do ambiente uma âncora antiga de ferro. “Perfeito” ela pensou. Ela pegou o pesado objeto e, usando o chicote, amarrou a bomba nele. Ela olhou para suas mãos, estavam sujas de sangue por ela ter pego no chicote. Ela lembrou-se de Sherlock, e pensou em ir lá fora ajudá-lo. Mas prometeu que iria ficar dentro da cabine até o momento que a balsa estivesse no centro do rio. Emanuelle se levantou e, ao ver na mesa uma adaga afiada, ela guardou consigo, poderia ser útil.

Marcus subiu no detetive e tomou o revólver de sua mão. Sherlock, mesmo deitado, desferiu um soco contra o homem, ao que Marcus desviou, e como resposta o terrorista acertou-lhe o rosto com o cabo da arma algumas vezes. O detetive sentiu o mundo girar ao seu redor. Seu nariz sangrava, como também sua testa. Marcus parou, sentindo Sherlock desistir, ao que Holmes aproveitou e, pegando impulso, levantou-se dando uma cabeçada no nariz do terrorista. Marcus saiu de cima do detetive, com o nariz sangrando. Ele deu alguns passos para trás destilando palavrões. Sherlock estava de joelhos e tentava se levantar, seus braços e pernas tremiam, pois a dor se estendeu para todo seu corpo. Marcus colocou o pente na pistola e apontou para o detetive. Entretanto, o terrorista disse: “Sabe, morrer de tiro para você seria muito fácil, depois de tudo que você me fez”. E dito isso, colocou a arma em seu bolso, e deu dois passos se aproximando do detetive. Sherlock ainda de joelhos levantou-se de súbito e desferiu um chute contra Marcus, mas o terrorista foi mais rápido e agarrou a perna dele, o jogando contra algumas caixas de madeira empilhadas perto da cabine. As caixas quebraram e o detetive gemeu com a dor da queda. Sherlock cuspiu sangue no chão, tentando se levantar, mas Marcus novamente o levantou jogando-o do outro lado, fazendo ele cair e rolar contra o chão duro. O terrorista pegou uma lasca grande de madeira afiada da caixa que quebrara com a queda do detetive e foi em direção à Sherlock. Dessa vez ele não tentou se levantar, ele estava deitado com as costas viradas para o chão e respirava ofegante. Tentou virar-se de lado, mas desistiu, não tinha mais forças e a dor o paralisava. Não havia músculo seu que não estivesse doendo, suas costas tinha vários cortes profundos e ainda sangrantes, sua testa também sangrava bastante, assim como seu nariz e boca. Marcus novamente subiu nele, levantou a lasca e a desceu com toda a força contra o peito do detetive, mas Sherlock segurou a madeira, o impedindo de cravar o objeto no seu peito. Marcus usou seu peso para forçar mais a estaca. O detetive sentia o objeto pontiagudo em seu peito penetrando cada vez mais. Já sentia a carne doer, provavelmente a madeira já tinha ferido sua pele. Sherlock sentiu a morte cada vez mais perto. Ele suava frio e seus braços tremiam com a força que fazia. Ele sabia que logo não teria mais forças para resistir à Marcus e a estaca transpassaria seu peito. Mas ele também sabia que tinha que se manter vivo, pelo menos até o plano se cumprir. Foi quando de repente a embarcação parou. Ambos sentiram a balsa oscilar.

Antes que Marcus transpassasse Sherlock, alguém o chamou pelo nome. Ao olhar para o lado e ver quem o chamara, Marcus rosnou e tirou a madeira de cima do detetive, levantando-se dele. Ele viu Emanuelle suspendendo a bomba amarrada na âncora sobre o rio. Sherlock ao ver que era a esposa, estremeceu e desesperadamente tentou se levantar “não foi esse o plano -sussurrava para si mesmo- era para jogar sem ele ver, não era para se arriscar”. “Emanuelle não! fuja!” gritou Sherlock, ao que Marcus bateu com a madeira em seu rosto, fazendo o detetive quase perder a consciência. Ele virou a cabeça para o lado, olhando para a esposa. Emanuelle olhou serenamente para o marido, como se pedisse desculpas por desobedecer ao plano, mas era necessário, ela não deixaria Marcus matá-lo. O coração dela doeu ao ver o estado que aquele homem deixou seu marido, de forma que ela sustentou um olhar desafiador contra Marcus. Não sentia mais medo. “Chega de fugir” dizia para si mesma. Soltando a estaca no chão, Marcus andou em direção à ela, dizendo de forma ameaçadora “me dê isso aqui de volta, que eu pouparei sua vida”. Emanuelle esperou o homem chegar mais perto dela e se afastar a uma distância segura de Sherlock. O detetive ao ver que Marcus se aproximava de sua esposa, colocou-se de bruços gemendo de dor, se arrastando em direção à ela. Emanuelle ao ver que a distância estava segura, soltou a bomba. O objeto afundou rapidamente nas águas do Tâmisa. Marcus parou de andar ao ver que ela realmente tinha jogado a bomba no rio, ele não acreditou que acabara de perder sua última chance de ação, seu último plano tinha acabado de ir literalmente por água abaixo. Ele ficou rubro de raiva e rangia os dentes. Então, numa atitude de fúria, ele puxou a pistola e atirou várias vezes contra Emanuelle. Sherlock paralisou ao ver o que acabara de acontecer, seguido de um desesperador grito de “não”. A jovem se ajoelhou, sentindo uma dor lancinante vinda do seu abdômen e de seu tórax. Ela olhou para si mesma, vendo uma mancha grande de sangue crescendo em seu abdômen e peito. Marcus se aproximou a passos pesados, e agarrou a moça pelo pescoço suspendendo-a do chão e disse entredentes “vai para o inferno”. Emanuelle, mesmo sentindo a respiração difícil, respondeu com a voz firme “você primeiro”. Então, ela puxou de suas costas a adaga que achou na mesa, e a cravou no coração do homem. Marcus arregalou os olhos e soltou a jovem. Emanuelle ao sentir seus pés no chão, empurrou ainda mais a adaga no peito do terrorista, fazendo-o curvar-se. Ela o puxou pelos cabelos e disse-lhe no ouvido dele “com os cumprimentos de Said”. Marcus cambaleou para trás, e caiu no chão. Ele respirava de forma alta e agonizante, até que não se ouviu mais nada, parando de debater-se no chão. Emanuelle ofegante e ainda de pé, olhou para o que acabara de fazer. Ela então olhou para seu marido e sorriu de forma doce para ele e disse: “acabou, finalmente acabou”. Em seguida ela se ajoelhou e caiu para o lado. Holmes levantou-se com todas as suas forças e mancou até Emanuelle. Ele sentou-se ao lado dela, colocando-a no colo. O detetive pegou a arma da mão de Marcus e, retirando o silenciador, disparou várias vezes para o alto até as balas acabarem. Sherlock avaliou os ferimentos da moça e tentou estancá-los. Ela percebeu a mudança de semblante do detetive ao avaliá-la. Sherlock disse para a esposa, com a voz trêmula:

—Porque você fez isso?

—A missão...ela sempre foi minha. Foi a mim que Said disse “salve a Inglaterra”.

Sherlock sorriu de forma triste, e comentou:

—Você salvou a Inglaterra.

Emanuelle sorriu, e tossiu em seguida, respirando com dificuldade. Sherlock a abraçou mais forte, comentando:

— Calma, eu chamei a polícia, eles vão socorrer você.

— Sherlock...eu vi em seus olhos, eu estou morrendo -disse Emanuelle baixinho, já desfalecendo.

— Não, por favor, resista -os olhos de Sherlock lacrimejaram, e de repente as lágrimas começaram a cair. Ele continuou com a voz afetada pelo choro- eu não quero perder você...

Ele alisava os cabelos da esposa. Emanuelle pousou a mão no rosto do marido e disse pausadamente:

— Não tenho muito tempo, por favor escute. Eu só quero que saiba que esses dias que estive casada com você, foram os mais felizes da minha vida...obrigada por ter me feito feliz.

— A mim também...você me fez feliz como ninguém fez. Eu te amo.

— Eu também te amo.

Emanuelle beijou o marido e, perto de seu rosto disse suas últimas palavras:

— Adeus meu querido detetive.

Dito isso, Emanuelle pendeu a cabeça para trás, e desfaleceu.

Sherlock verificou os pulsos dela, não os achando; em seguida conferiu se ela respirava, e também não estava respirando. Ele então encostou seu rosto no da moça. Holmes pôde ouvir as sirenes da polícia ao longe. “Tarde demais...tarde demais” dizia para si mesmo, balançando a moça em seu colo. Ele começou a chorar amargamente, gemendo baixinho “não...por favor não...”. Mas logo o gemido transformou-se num grito de fúria, de forma que do outro lado do rio podia-se ouvir um grito de dor de um homem que acabara de ter seu coração destruído.

***

O enterro ocorreu na tarde do dia seguinte, poucas pessoas foram despedir-se de Emanuelle. Lá estava Lestrade e alguns agentes da polícia, dois colegas seus do hospital, Molly, a sra Hudson, John e Mary, os pais de Holmes, Mycroft e, no centro de todos, estava Sherlock. Ele emudecera desde que fora arrastado para fora da barca pelo serviço de socorro. Seu olhar era constantemente distante, e seu semblante caído. Ele permanecera de pé no mesmo lugar, do início ao fim da cerimônia.

Ao término, as pessoas aos poucos foram embora. Ficando ali somente Sherlock, Mycroft e John. Watson nunca vira o amigo desse jeito. Preocupado, ele foi até Sherlock, e colocou a mão no ombro dele e disse-lhe “Sherlock, venha passar alguns dias comigo e com Mary na nossa casa...pelo menos até as coisas se acalmarem um pouco”. Sherlock olhou de forma inexpressiva para Watson, seus olhos estavam vermelhos e lacrimejantes. Definitivamente ele nunca vira Sherlock daquele jeito. Algo havia mudado no detetive, e John estava preocupado. John não disse mais nada, apenas olhou para Mycroft e suspirou, dizendo em seguida “estarei aqui se precisar”. E dito isso, saiu do cemitério, indo até o carro, onde Mary esperava no volante. John entrou no carro e suspirou. Mary olhou triste para o marido, enquanto ele falava: “sabe...quando tudo isso começou, eu fiquei com medo que Emanuelle saísse machucada. Conhecendo bem meu amigo, eu julguei que ele é quem iria magoá-la com seu jeito totalmente assentimental de ser, não conseguindo corresponder à menor atitude de carinho ou amor que aquela moça demonstrasse. Mas não foi isso que aconteceu -John começou a chorar, ficando sua voz um pouco rouca- ele surpreendentemente a correspondeu, e eles se amaram. Mas, ela morreu e ele está destruído agora. Eu...eu tinha medo que ela se machucasse, mas me esqueci da possibilidade dele se machucar. Como ele está agora”. Mary segurou na mão do marido, o consolando.

Mycroft permanecia de pé, alguns metros atrás de Sherlock. Dado momento, ele decidiu se aproximar, mas desistiu de prosseguir. Mycroft julgou que não saberia o que dizer, e poderia piorar as coisas, mesmo sabendo que já tinha lidado com o irmão na perda de “barba ruiva”. O que Eurus fizera a seu irmão, ele nunca pensou que outra pessoa seria capaz de fazer. Mas agora era diferente. O Holmes mais velho já tinha recuperado o irmão uma vez, não sabia se seria capaz de fazer isso de novo. Sendo assim, Mycroft permaneceu ali de pé, a poucos metros do irmão, durante toda tarde; pois, apesar de não saber o que dizer, queria estar perto.

***

Durante os meses seguintes, Holmes passava o dia sentado no túmulo da falecida esposa. Ele limpava o túmulo, levava flores, e sempre levava seu violino e tocava o mesmo repertório todos os dias.

Certa manhã, enquanto tocava, Sherlock sentiu alguém se aproximando e parou de tocar, dizendo rispidamente sem se virar:

— O que você quer aqui Mycroft?

O Holmes mais velho se aproximou alguns passos e disse:

— Estou preocupado com você.

— Não se preocupe comigo, não preciso de você aqui.

Depois disso, voltou a tocar. Mycroft disse:

— Isso não vai trazê-la de volta nem aliviar sua dor.

— Dor? -Sherlock soltou o violino no chão e se levantou em direção à Mycroft- O que você sabe sobre a dor?

— Mais do que você pensa. Você acha que é o único que sofreu com a morte de “barba ruiva”?

Sherlock nada respondeu, apenas se virou e sentou-se novamente no chão, de costas para o irmão. Mycroft se aproximou dele, colocando a mão em seu ombro. Sherlock sacudiu o ombro, tirando a mão do irmão de cima. Mycroft suspirou. Teve pena do irmão. Ele sabia que tinha que dizer algo, precisava fazer algo. Já haviam passado mais de três meses, e ele não melhorava. Mycroft escolheu as palavras com cuidado e falou, de forma consoladora e amena:

— Eu estava errado. Você não é fraco. Sei que você além da dor da perda, está se torturando por ter se deixado levar pelos sentimentos, e agora eles lhe esmagam.

— Cale-se! -Rosnou Sherlock, com as lágrimas já caindo de seu rosto.

— Somos de carne Sherlock! Você é de carne! Corre sangue por suas veias! E quanto mais cedo você admitir isso, mais cedo você vai saber lidar com a perda e voltar a ser quem você era!

O detetive baixou a cabeça e começou a soluçar. Mycroft continuou se aproximando devagar, e disse:

— Você não é fraco irmão, mas também não está sendo forte. Ser forte irmão, não é a ausência de sentimentos, mas é saber como lidar com eles, de forma que eles não te dominem.

Mycroft ajoelhou-se ao lado de Sherlock. O Holmes mais novo inclinou-se sobre o mais velho, e Mycroft o abraçou. Encostado em seu ombro, Sherlock chorava e soluçava nos braços do irmão, falando em forma de gemido “me ajude a ser forte Mycroft, estou falhando”. Mycroft respondeu “tudo bem irmão, vai ficar tudo bem”. Por um momento, o Holmes mais velho viu o Sherlock criança em seus braços, quando ele tinha acabado de perder seu irmão. Movido de uma compaixão despertada apenas nos momentos de sua infância, Mycroft abraçou ainda mais forte o irmão, dizendo-lhe palavras de consolo.

***

Sherlock estava deitado em sua sala. Ao seu lado havia algumas seringas usadas. O detetive se drogara mais uma vez. Ele sempre fazia isso quando queria ficar por um período maior em seu palácio mental. Deitado em seu carpete, ele navegou em sua própria mente. Navegou em uma projeção de um futuro desejado, um futuro que não aconteceria.

Sherlock estava sentado na areia da praia. Estava usando roupas de algodão leve apropriadas para o lugar. Seus pés descalços sentiam a areia quente. Perto do mar, estava Emanuelle vestida com um vestidinho florido, com um chapéu de palha na cabeça. Seu abdômen estava bem crescido, ela estava grávida. Emanuelle brincava com um garotinho pequeno, pulando as ondas da praia. Sherlock sorria com a cena, sentia-se sossegado. O garotinho então correu para o detetive gritando “Papai! papai! Olha o que eu achei”, e ele mostrava algumas conchinhas do mar para Sherlock. O detetive sorriu para o garoto. Emanuelle olhou para ele da beira da praia e, segurando o chapéu, veio em direção de Sherlock. Ela disse de forma doce:

— O que está fazendo aqui querido?

— Estava com saudades.

— Você sabe que sou apenas uma projeção da sua mente, nada aqui é real.

Sherlock permanecia calado, apenas olhava e alisava o rosto da mulher. Emanuelle então, com a feição triste disse, segurando na mão do detetive:

— Sherlock, isso tem que parar. Você precisa me superar.

— Eu não posso.

— Sim, você precisa. Existem pessoas que precisam de sua ajuda. John e Mary, a sra Hudson, seu irmão, a Scotland, todos eles precisam de você. Por mais que me ame você não pode se enterrar comigo.

— Eu não sou forte o suficiente.

— A sua força não está em não ter sentimentos, mas saber como lidar com eles. Sherlock olhou triste para a mulher, ela continuou:

— Só porque você não foi feliz ontem, não quer dizer que não o possa ser amanhã, lembra?

Sherlock fez que sim com a cabeça. Ele sabia que tudo aquilo era projeção de sua mente dolorida. Era como uma droga, cada vez que ele ia àquele lugar, era mais difícil de abandonar. Sentia-se feliz, mesmo que não fosse real.

— Querido, isso não é real. Você precisa acordar. Se liberte de mim. Você pensa que está feliz, mas está acreditando numa mentira. Isso daqui não é real.

“Não é real…” Essa frase ecoava pela mente de Sherlock. O detetive sempre detestou a idéia de acreditar numa mentira, mesmo que ela o fizesse sentir-se bem...mas agora ele fazia a mesma coisa. Ele tinha que parar com isso. Tinha que se desapegar dali.

Uma coisa era certa: sua própria consciência estava lutando para tirá-lo do luto. Ele reconheceu como sendo um sinal de que ele poderia ser forte. Ele entendeu que isso era um recado de sua própria mente, querendo que ele voltasse à ativa de novo, que se recuperasse. Mas ele não queria esquecer a esposa, não queria esquecer a mulher que mexera tanto com ele sem explicação. Ele disse então, gemente, já com lágrimas brotando dos olhos:

— Eu não quero esquecer você.

— Não precisa me esquecer…-disse, enxugando as lágrimas dele- lembre-se de mim como eu preciso ser lembrada.

— Como?

— Como alguém que te amou e também foi objeto de seu amor; e como alguém que te fez mais forte...não quero ser motivo de tristeza para você Sherlock. Mas quero que você se lembre de mim como eu devo ser lembrada...tenha saudades, mas não angústias. Viva e volte a ser o detetive por quem eu me apaixonei.

Sherlock, contorceu o rosto de tristeza, fazendo que sim com a cabeça. Emanuelle sorriu e disse: “me prometa que fará isso”. Sherlock pegou as duas mãos dela e, as beijando, disse: “prometo”. Emanuelle sorriu e levantou-se da areia. O garotinho pegou na mão da mãe e, acenando para o pai em despedida, andaram pela beira da praia, acompanhando o mar. Aos poucos, a mulher e a criança iam sumindo à medida que caminhavam, desaparecendo por fim no horizonte.

Sherlock acordou no chão da sua sala. Seu rosto estava molhado pelas lágrimas. Ele sentou-se e enxugou seu rosto. Ele fechou os olhos, respirando fundo. Como alguém que desperta de um sonho, Sherlock sentiu sua energia voltar, sentiu que precisava voltar. Entendeu que o sentimento que ele descobriu existir por Emanuelle, o fortaleceria; não por tal química não existir em seu sistema, e sim por ela existir, mas agora ele saberia como controlá-la. Agora ele saberia o que é o amor, e se fortaleceria ao aprender a conviver com ele. Sherlock sentiu como se uma tonelada tivesse sido retirado de seu peito quando ele chegou à essa conclusão. Ele olhou para sua mão esquerda, e retirou ambas as alianças que levava no mesmo dedo, desde o enterro de sua esposa. Ele então se levantou e foi até o armário. Sherlock pegou uma corrente de prata e colocou as duas alianças nela. Ele então, beijando as duas alianças disse consigo mesmo “eu prometo”. Em seguida, colocou a corrente no pescoço, escondendo as alianças por debaixo da camisa.

Ao sair do quarto, ele ouviu uma movimentação do lado de fora. Então Lestrade entrou como uma bala no apartamento, seguido pela Sra Hudson. “Desculpe querido, eu tentei impedi-lo” disse a mulher, quando Lestrade interrompeu falando:

—Sherlock, eu sei que você não está pegando nenhum caso nos últimos meses, mas eu preciso de sua ajuda urgente nesse.

—Pela sua urgência, eu diria que tem a ver com uma morte misteriosa. Pelo seu semblante, o caso já passou pela mão da polícia mas vocês não fazem ideia de como começar. Pelo tamanho da pasta na sua mão, eu diria que o caso já foi visto e revisto várias vezes, indicando que a vítima é alguém importante na sociedade.

— O filho dele é que a vítima na verdade. É o filho de um ministro, e ele foi achado morto dentro de um carro, mas ele deveria estar de férias no Tibet.

—Uma morte misteriosa de um filho de um ministro. Um caso divertido para começar o dia. Me conte os detalhes no caminho.

—Você vem?

—Sim, você quer minha ajuda, não quer?

Lestrade sorriu e desceu as escadas “te espero lá embaixo, comentou” a senhora Hudson comemorou na porta e disse animada: “é bom ter você de volta querido”. Sherlock sorriu em resposta, enquanto se dirigia ao quarto para trocar de roupa.

O detetive saiu de seu apartamento, descendo as escadas rapidamente. Estava empolgado por esse novo caso. Quando ele estava entrando no carro, ele parou e olhou para a janela do 221c. Sherlock sorriu serenamente, palpando os anéis que estavam debaixo de sua camisa, e disse consigo mesmo, olhando para a janela “eu cumprirei minha promessa...adeus minha querida”.