Flor do deserto

15 Capítulo 14- Interrogatório


Notas iniciais
Boa leitura. Lembrando de que seus comentários são bem vindos, o feed back de vocês é sempre necessário. ;)

“Quero um advogado! Não falo nada sem um advogado!!”, rosnava Wilson, batendo as mãos algemadas na mesa de interrogatório. Lestrade observava do outro lado do vidro a atitude infantil do homem. A agente Donovan entrou na sala de observação e entregou a ficha do homem para Lestrade. O inspetor abriu a pasta e passou uma vista rápida sobre todas as acusações e crimes que aquele homem já passou. Era uma lista extensa, desde violência doméstica até homicídios. Era um verdadeiro mercenário e alcoólatra.

— Sherlock já viu isso? -perguntou Lestrade.

— A aberração? Ainda está lá embaixo dando depoimento, junto com aquela outra mulher que esse Wilson atacou.

A agente mal terminou de falar, quando na sala também entrou outro policial trazendo o depoimento escrito tanto de Emanuelle quanto o de Sherlock. “Ótimo, mande o Sherlock subir por favor” disse Lestrade, ao que o policial acenou com a cabeça e saiu. Donovan cruzou os braços e, fechando o cenho, disse:

— Você vai entregar esse caso para o Sr esquisito? Ele só não pega aqueles que ninguém resolve, só para poder inflar mais o ego dele?

— Acredite, ele é a melhor chance que temos -disse, esfregando os olhos com uma mão- Convoque uma reunião para amanhã pela manhã. Há algo muito maior envolvido nesse caso, e não há mais motivos para guardar segredo.

A mulher revirou os olhos e saiu bufando da salinha.

Lestrade leu rapidamente o depoimento de Emanuelle, e em seguida o de Sherlock. Leu com mais atenção a um certo trecho do documento do detetive, pois queria entender como ele escapou do sequestrador:

“...o sr Holmes ainda refere que, após uma série de socos dados contra o rosto dele, o suspeito em questão o segurou pelo colarinho da camisa, ameaçando-o. Segundo o queixoso, nesse momento ele deu uma joelhada nas partes íntimas do suspeito, e em seguida, deu um impulso para trás com as pernas, caindo para trás no chão e quebrando a cadeira onde estava preso; segundo o sr Holmes, a cadeira havia sido afrouxada por outros golpes anteriores dados pelo suspeito. Refere ainda que, enquanto tentava desvencilhar uma das mãos das cordas, o suspeito se recuperou do golpe e, pegando a arma do chão, apontou para o queixoso, o qual, usando o pedaço da cadeira que ainda estava preso à sua mão pela corda, bateu na mão do sujeito que estava segurando a arma, fazendo o objeto cair entre alguns canos no canto inferior da parede. O suspeito partiu então para a agressão física, acertando um soco no estômago do Sr Holmes, fazendo-o se curvar e recuar alguns passos. Segundo o queixoso, antes que o suspeito pudesse lhe acertar outro golpe, ele, usando ainda o pedaço de madeira preso em sua mão, o quebrou na cabeça do sujeito, o tonteando e fazendo-o sangrar. O queixoso refere que, devido à isso, conseguiu chegar à porta do ambiente onde estava preso. Ao sair por ela, viu que dava para o túnel dos trilhos da estação de metrô, concluindo que estivera preso numa das salas de manutenção daquela estação. O sr Holmes ainda relata que em seguida o suspeito pulou por trás dele, o derrubando no chão e, usando um dos pedaços de corda ao qual o sr Holmes estava preso, o suspeito o enforcava. O queixoso refere ainda que, enquanto lutava contra o suspeito, percebeu que havia um metrô vindo em direção à eles, ao que intensificou a luta para se desvencilhar do homem. Por fim, o sr Holmes relata que, ao agredir o local da cabeça que sangrava do suspeito, conseguiu se desvencilhar e rolou no chão para a lateral do túnel, a tempo de não ser atropelado pelo vagão do metrô. Entretanto, o sujeito não o conseguiu, sendo atropelado pelo transporte...”

Lestrade leu e releu o documento, sendo interrompido por Sherlock e Emanuelle que entraram na salinha. Ao ver o estado que ambos estavam, Emanuelle com alguns hematomas no rosto, e Sherlock ainda com a camisa melada de sangue, seus lábios cortados e um esparadrapo tapando metade de sua testa, Lestrade perguntou :

— Vocês estão bem? Se quiserem podem fazer isso amanhã.

— E adiar a diversão? De jeito nenhum -disse Sherlock já pegando da mão de Lestrade a pasta com a ficha de Wilson.

— Achamos isso nos bolsos dele, tem algo seu? — perguntou Lestrade para Emanuelle. A doutora examinou rapidamente a bandeja com algumas bugigangas, até que um molho de chaves com um chaveiro banhado à ouro chamou sua atenção:

— Minhas chaves! Foi ele quem pegou minha chaves! Isso explica como ele conseguiu entrar no meu apartamento sem arrombar a porta -Emanuelle pegou as chaves e guardou no bolso- obrigada inspetor.

— Não há de que. Emanuelle, precisamos conversar -disse Lestrade, puxando uma cadeira para Emanuelle para que ela sentasse ao lado dele. A doutora olhou para Sherlock, que não tirava os olhos dos papéis. Então, respirando fundo, se sentou. Lestrade continuou, de forma paternal- olha, o que aconteceu agora de noite mostra que, quem matou aquele jovem, de alguma forma sabe sobre você e sobre esse Pen Drive, que eu também só descobri a existência ainda agora -a doutora mordeu os lábios e baixou a cabeça, em sinal de vergonha- mas tudo bem, não estou aqui para falar sobre isso. A questão é, você precisa nos deixar trabalhar abertamente nesse caso, em conjunto com Sherlock. Você concorda que não há mais motivos para eu guardar segredos da minha equipe?

— Sim…-disse, ainda de cabeça baixa- eu estava conversando com Sherlock sobre isso lá embaixo. Não precisa mais deixar sua equipe de fora. Por mim, pode deixar eles por dentro de tudo. Eu farei o que for necessário para a resolução desse caso — a jovem olhou para o detetive, que agora estava prestando a atenção na conversa. Sorriu tristemente, ao que Sherlock respondeu acenando discretamente com a cabeça.

— Ótimo, ótimo -disse Lestrade, colocando a mão sobre o ombro da moça, como se quisesse consolá-la de alguma forma- amanhã de manhã reunirei o meu pessoal para atualizar todo mundo. É importante que você e o Sherlock participem, certo Sherlock?... Sherlock?

Lestrade olhou para o canto da sala, procurando pelo detetive, mas ele saiu sem que pudessem perceber, deixando a porta aberta. Achou-o, entretanto, na sala do interrogatório. Sherlock tinha acabado de entrar. O inspetor então fez silêncio, e se pôs de pé na frente do vidro, fazendo sinal para a doutora para que ela também visse o que estava por vir.

***

— John?...

— Hmm...

— John?...o telefone está tocando -disse Mary com a voz embolada pelo sono.

— Deixa ele tocar...são quase meia-noite.

— Pode ser uma emergência -John protestou com um gemido, e então se levantou para atender.

A passos lentos e acompanhados de alguns bocejos, o médico se dirigiu à uma mesinha no canto do quarto para atender à ligação:

— Alô?

— John! Já é a segunda vez que eu ligo! A vida caseira está drenando tanto suas energias assim?

— Sherlock, se você ligou só pra fazer gracinha eu juro que…

— Emanuelle e eu fomos atacados -interrompeu Sherlock.

— O quê? Quando?

— Há algumas horas atrás.

— Vocês estão bem?

— Sim, sim, escute, não tenho muito tempo pra falar, eu preciso que você vá amanhã de manhã cedo para o 221b, lá eu lhe explico tudo. Tenho que ir para sala de interrogatório agora. Até amanhã.

— Sala de interrogatório? Mas o que está havendo? Alô? Sherlock!!

O detetive já havia desligado, não dando tempo de John nem se quer responder se iria ou não atender ao pedido do amigo. John colocou o telefone no lugar e, bufando, dirigiu-se para cama. Estava muito cansado para ficar indignado com a falta de explicações do detetive. Encontrou Mary sentada na cama, sua feição era de preocupação:

— Está tudo bem querido?

— Eu não sei na verdade…- disse se deitando na cama, e puxando o lençol para si- Sherlock disse que ele e Emanuelle foram atacados, mas que estava tudo bem e que ele quer que eu vá para o apartamento dele amanhã cedo.

— puxa. Ele não disse mais nada?- John respondeu com um murmúrio negativo, deixando-se levar pelo sono. Mary também se deitou, mas, antes que pudessem dormir, a pequena Rosie começou a chorar.

— Mas o que é agora? -murmurou Mary

— Acho que é a sua emergência agora querida.

***

Do outro lado do vidro, o detetive entrou na sala onde Wilson estava algemado já lendo a ficha policial do homem. Por fim, sentou-se na cadeira de frente para o suspeito, e jogou o prontuário na mesa.

— É um histórico muito variado, tem de tudo por aqui. Mas eu não li nada sobre furto de pequenos objetos. O que você sabe sobre esse Pen Drive? -o detetive tirou o pequeno objeto do bolso, colocando-o em cima da mesa.

— Nossa! meu colega fez um bom estrago em você -disse com um sorriso sarcástico, olhando a camisa ensanguentada, e apontando para o curativo na testa do detetive- sua boneca deveria agradecer, as mulheres adoram cicatrizes.

— Pena que seu colega não sobreviveu para admirar a pequena arte dele -disse de forma desafiadora, fazendo o homem tirar o sorriso maldoso do rosto; então continuou- Me fale do Pen Drive.

— Não falo nada sem o meu advogado.

— O que tem dentro dele?

— Já disse, não falo nada sem o meu advogado.

— Você também matou um jovem chamado Said?

— Advogado!!! Advogado!!! Eu quero o meu advogado!!! -o homem ficou rubro, enquanto urrava e batia com as mãos na mesa, fazendo Lestrade ficar em alerta do outro lado do vidro.

— Acho que nenhum advogado aceitaria defender alguém acusado de terrorismo -O homem ao ouvir a acusação, parou instantaneamente.

— Terrorismo?! Eu não sou terrorista! Eu sou um mercenário! Não podem me acusar disso!

— Se você não é terrorista, então como sabe desse Pen Drive?

— Escuta aqui, sr Holmes, eu sou um mercenário, as pessoas pagam para obter meus serviços.

— E você não sabia que seu empregador era um terrorista? -o homem se calou. Novamente ele mudou de cor, mas dessa vez Wilson empalideceu, Sherlock então continuou- vamos fazer o seguinte...se você me der a informação que eu quero, tiramos essa acusação de suas costas, e quem sabe você consiga até uma redução de pena.

O homem, antes intimidador, agora estava assustado como uma criança. Wilson ficou por um tempo calado, parecia pensar. Então, respirando fundo, resolveu falar:

— Foi há umas duas noites atrás. Era o mesmo homem. Ele já tinha me procurado para fazer outros serviços para ele.

— Que tipo de serviços?

— Coisas pequenas... pequenos furtos e até o roubo de alguns produtos de uma fábrica de fertilizantes falida. Mas essa foi a primeira vez que eles me pediram para eliminar alguém e buscar por esse Pen Drive.

— “Eles”? Você disse que foi um só homem que o contratou.

— Sim foi um só, mas ele representava ele e o mestre, por isso “eles”.

— E “eles” tem nome?

— Eu fiz a mesma pergunta, então o homem respondeu: “nos chame de Lawrence da Arábia”.

— Essa fábrica de fertilizantes, qual o nome?

— “Powerful Fertilizer”- Sherlock parou e encostou-se na cadeira, pensativo. E então, depois de um curto silêncio, colocou novamente os cotovelos na mesa, e perguntou:

— Como sabia que a moça que você quase matou estava com o Pen Drive?

— A sua namoradinha? Foi para isso que eu fui contratado; pegar o objeto e matá-la depois. A brincadeirinha que você interrompeu foi por minha conta -Falou o homem, com um sorriso provocativo no rosto. Sherlock permaneceu inexpressivo, o que fez Wilson engolir o sorriso.

— Como você sabia onde achá-la?

— Me deram uma foto dela como o endereço, o resto foi fácil.

Lestrade procurou no recipiente onde estavam as bugigangas de Wilson, encontrando a foto comentada. O inspetor a mostrou para Emanuelle, que comentou: “mas essa foto foi tirada no dia do atentado ao shopping! Olha, isso foi no estacionamento do hospital, quando eu peguei carona com um colega para ir para casa”. A doutora guardou a foto, prestando atenção no interrogatório que prosseguia:

— Mandaram ir atrás de mim também?- perguntou Sherlock.

— Não, você não. Eles só querem a garota. Esse presentinho foi por minha conta -disse apontando para o rosto do detetive- não queria você atrapalhando meus serviços, conhecendo a sua fama.

O detetive se calou, encarando Wilson. Então continuou:

— Algo mais que seja importante?

— Ele me ameaçou com algumas bombas amarradas ao peito dele, antes de me pagar.

Sherlock continuava com a mesma postura: cotovelos na mesa e as mãos juntas na frente do rosto, na clássica posição de afronta que ele assumia. O olhar cristalino frio e intimidador sondavam o mercenário. Lestrade observava a cena, e pensou que ele daria um bom policial, se resolvesse, algum dia, trabalhar dentro dos limites da lei. O detetive então, levantou-se, pegou o pen drive e a pasta, dizendo em seguida:

— Seu advogado está a caminho, vamos retirar a acusação de terrorismo -E então se dirigiu à porta, mas antes que saísse, o homem o chamou e disse:

— Eu não sabia que eles eram terroristas, só fiz o que me pagaram para fazer. Me prometam que vão pegar esses desgraçados, que eu ajudo dando as informações que vocês quiserem. Meus filhos moram na cidade, e não quero terroristas à solta nas ruas.

Sherlock ainda na porta, não se virou, nem nada disse, apenas ouviu o pedido do homem e saiu da sala, fechando a porta.

Lestrade e Emanuelle permaneciam de pé. A doutora observava o sujeito e, perdida em seus pensamentos, refletia em como um homem frio e sanguinário como Wilson era capaz de se preocupar e amar seus filhos. “Uma baita incoerência”, disse pra si mesma, sendo trazida de volta de seus pensamentos por Lestrade:

— O que tem nele?

— O que tem o quê?

— O pen drive, você chegou a ver o que tem nele?

— Sim e não. Eu coloquei ele no meu notebook, mas estava criptografado.

— Hum...entendo. Temos um especialista aqui que pode resolver isso.

— Não precisa! Tenho meu próprio especialista -interrompeu Sherlock, que tinha acabado de entrar na sala.

— Então chame ele aqui! quero ver de perto o que tem aí dentro -disse Lestrade, apontando para o objeto na mão do detetive- quero ver o motivo desse circo todo.

— Ele vai cobrar pelos serviços dele -disse enquanto teclava no celular o número do rapaz em questão.

— Não tem problema, você paga -o detetive parou de teclar, e olhou surpreso para Lestrade.

— Não me olhe assim, meu especialista, minha responsabilidade; seu especialista, sua responsabilidade.

O detetive revirou os olhos, e saiu da sala, com o celular na orelha. Lestrade saiu acompanhando Sherlock. Emanuelle permaneceu no mesmo lugar, pensativa. Wilson, do outro lado do vidro, se remexia na cadeira, resmungando:

— Vocês vão me deixar aqui a noite toda? Meu traseiro já está quadrado! Já falei o que sabia!

A doutora viu na sua frente um microfone ligado à um botão on-off, e pensou que seria o microfone para a sala do outro lado do vidro, onde Wilson estava. O homem ao não obter resposta começou a bater na mesa, e continuou -mas que inferno! Não fiz nada demais para ficar preso feito um cão aqui por horas!!

A doutora se enraiveceu e, tomada pela indignação, acionou o botão do microfone para responder ao meliante na outra sala, olhando para a porta, verificando se Sherlock e Lestrade estavam do lado de fora. Então disse :

— Você me machucou e quase me violentou! Você merece muito mais do que isso! — Wilson, teve um pequeno sobressalto na cadeira, não esperava resposta. Então, reconheceu a voz e, maliciosamente sorriu e respondeu, olhando para o vidro espelhado.

— Olá gracinha. Quer dizer que você estava aí o tempo todo? Se eu soubesse tinha me arrumado mais…

— Você é desprezível -disse a jovem, entredentes.

— Não foi nada pessoal boneca, foram só negócios. Apenas me pagaram pelo serviço, mas a minha diversão em fazê-lo é grátis...ou teria sido, se aquele detetive enxerido não tivesse aparecido.

— Idiota…-resmungou Emanuelle, afastando a boca do microfone.

— Uma moça tão sozinha quanto você deveria tomar mais cuidado -disse em tom sarcástico- o mundo é um lugar selvagem para os solitários.

— A solidão me proteje -respondeu, enraivecida.

— Não protegeu você de mim, protegeu? -Emanuelle travou na cadeira, não sabia o que responder- se não fosse por esse seu namoradinho, estaríamos nos divertindo até agora -falou em tom sonhador, com um sorriso maníaco no rosto.

— Ele não é meu namorado!!! Seu maníaco!

— Ah...Não é? Quer dizer que ele se arrebentou, sangrou e lutou feito um leão pra te proteger, só porque é teu vizinho? -o homem soltou uma gargalhada, falando intercalado pela risada barulhenta- pelo jeito não sou só eu que estou querendo te pegar hein, gracinha! Haha, toma cuidado que esse cara quer te pegar hein!

Se o detento pudesse ver através do vidro, encontraria Emanuelle vermelha como um tomate, em uma mistura de vergonha e indignação. A doutora então pegou suas coisas, levantou -se, e saiu irritada da salinha, ao som da gargalhada maníaca de Wilson.

***

O final do outono em Londres era típico. Árvores exibiam seus galhos nus, com poucas folhas amarelo-alaranjadas ainda restantes em seu topo. O frio era mais intenso a cada dia que passava. A grande cidade assumia um aspecto ainda mais frio e cinzento. Entretanto, tudo isso anunciava a proximidade das festas natalinas e do dia de ação de graças, novamente aquecendo o coração dos ingleses. Foi exatamente isso que John viu, ao parar numa dessas lojas de eletroeletrônicos 24h, antes de ir rumo ao 221b. Estava escolhendo um celular novo na vitrine, enquanto ouvia alguns funcionários planejando sobre os enfeites natalinos que montariam na loja, como também as expectativas para as festas. Watson escolheu um smartphone básico, o suficiente para ligar, passar mensagens e tirar algumas fotos. Pagou pelo produto e voltou ao Uber, seguindo para a Baker Street.

Ainda era cedo, e uma fina neblina pairava sobre as ruas de Londres. Ao sair do veículo, John sentiu o impacto do frio, se escondendo em seu casaco como reflexo. Quando estava pagando o Uber, percebeu que um táxi parou logo atrás do veículo. Com a mão sadia, John apalpou a arma presa nas suas costas, no cinto da calça. Estava preparado para surpresas, dado os últimos acontecimentos. Observou quem estava saindo do veículo, ainda com a mão nas costas. Uma senhora desceu do carro, carregando duas malas com dificuldade. Ao reconhecer quem era, John imediatamente tirou a mão da arma, e foi saudar a mulher:

— Sra Hudson!

— John! que bom ver você por aqui! Você poderia me ajudar com essas malas? Meus quadris vão doer durante uma semana se eu tiver que carregá-las.

Com a mão não engessada, John segurou uma das bagagens, e ambos entraram no apartamento. Depois de uma rápida conversa, e de atualizar rapidamente a sra Hudson sobre o estado de Mary e Rosie, John subiu as escadas, para o apartamento de Sherlock.

O médico bateu na porta, e entrou. Encontrou Sherlock sentado de frente para a porta, na sua velha poltrona que ficava perto da janela. Ele falava com alguém no telefone.

— Ah, olá John! Fico feliz que tenha vindo- disse Sherlock, voltando a falar com quem quer que fosse, do outro lado da linha.

Ao adentrar na sala, Watson viu um rapaz jovem usando calças folgadas, uma camisa de uma banda de Rock, e um gorro colorido. O jovem era magro e tinha algumas espinhas no rosto. Estava sentado na mesa da cozinha, teclando sem parar num notebook conectado à uma impressora.

— Quem é esse? -questionou John, apontando para o rapaz.

— É o meu especialista- respondeu sem olhar para John, voltando a falar ao telefone. “Eu quero ele presente na reunião, é importante...eu sei que ele não faz parte da sua equipe, mas ele precisa estar lá...certo, vou esperar. Ok”, disse Sherlock, desligando a ligação em seguida.

— Quem era?- perguntou John

— Era Lestrade.

— Hum — resmungou Watson. Olhou rapidamente em volta, e perguntou- Onde está Emanuelle? E esse curativo Sherlock? o que houve com seu rosto?

— Ela está descansando, foi uma noite bem difícil -disse quase para si mesmo.

Bateram na porta do apartamento novamente, dessa vez era a sra Hudson. Sherlock levantou-se da poltrona e saudou a mulher.

— Assim que você ligou para mim ontem de noite, dei um jeito de sair correndo e voltar o mais rápido possível.

— Ora sra Hudson, sem a senhora a Inglaterra cairia -disse dando um abraço na franzina senhora.

— Ora, pare com isso -disse dando um tapinha no ombro do Holmes- sabe que ninguém mexe com meus meninos, e onde está Manu?

Está lá em cima descansando.

— Ótimo, vou ver como ela está.

A senhora saiu do apartamento, fechando a porta atrás de si. Sherlock foi em direção ao painel acima da lareira, e se pôs de frente para ele, permanecendo em silêncio.

— Sherlock, o que está acontecendo? Porque você me chamou aqui a essa hora da manhã?

— Preciso esclarecer você da situação, antes da reunião com Lestrade.

— Vamos ter uma reunião com Lestrade?

— Emanuelle não quer mais a investigação em segredo. Ela autorizou que a equipe de Lestrade soubesse a verdade sobre o jovem Said.

— Bom...isso muda as coisas -disse coçando o queixo- e esse rapaz aí?

— É o meu especialista, está descriptografando todos os arquivos do pen drive.

— Que Pen drive? Sherlock, o que está acontecendo?

O detetive respirou fundo, se voltou para o painel acima da lareira. Sherlock então expôs tudo o que tinha acontecido, desde sua visita à Scotland, ao interrogatório com Wilson. John ouviu tudo com atenção, e, por fim, sentou-se na cadeira, colocando a mão no queixo.

— Lawrence da Arábia? -comentou John.

— Foi um herói militar importante da história britânica durante a Primeira Guerra Mundial. Um militar britânico, que se associou aos árabes para derrotar o império Turco-Otomano, à mando do exército inglês. Mas ao final, ele abraçou a causa árabe, vindo se decepcionar ao ver que, no fim da guerra, o que foi prometido aos árabes pelos ingleses não foi cumprido. Ele então abandonou o exército e suas condecorações.

— Puxa…- disse John, reflexivo- estamos procurando por ex-militares então?

— Talvez.

John ficou reflexivo, algo em sua mente o incomodava. Ele sabia que já tinha ouvido esse nome em algum lugar, sem ser nos livros de história. Vasculhou sua mente, mas não conseguia lembrar. Desistiu então.

— Conseguiu falar com o dono do apartamento? -perguntou John, depois de um tempo em silêncio.

— Não, há dois dias tento falar com ele. Está na hora de visitá-lo.

O detetive foi em direção à porta, vestindo seu sobretudo e cachecol; e falou para o rapaz na mesa, enquanto envolvia o cachecol no pescoço:

— Assim que eu ligar, vá com Emanuelle para a Scotland Yard; encontro vocês lá.

O rapaz assentiu, sem tirar os olhos do notebook. Watson e Holmes desceram as escadas, saindo do edifício e entrando no primeiro táxi que acharam livre na rua.

***

— Emanuelle? -chamava baixinho a sra Hudson, enquanto passava pela sala da doutora, indo em direção ao quarto, onde a encontrou na cama, envolta em grossos lençóis- Ah...está dormindo- cochichou a mulher, mas foi o suficiente para Emanuelle ouvir, e virando-se para porta, respondeu:

— Senhora Hudson?

— Ah, minha querida, desculpe, não quis acordar você -disse, se aproximando, sentando-se na cama, perto da jovem.

— Não me acordou, não consegui dormir, só deitei e fechei os olhos -disse, esfregando as mãos no rosto e sentando -se na cama.

— Olhe seu rostinho- comentou de forma pesarosa, apontando para um pequeno hematoma na lateral da testa da doutora- ele te machucou muito minha querida? Fiquei muito preocupada quando o Sherlock ligou.

— Não, não, poucas pancadas. O que ele poderia ter feito era pior…- os olhos da doutora começaram a se encher de lágrimas, de forma que uma saltou do rosto, direto para o lençol, então a senhora Hudson segurou as mãos da jovem entre as suas- ele quase me estuprou, sra Hudson...se não fosse o Sherlock, eu não…-a jovem colocou as mãos no rosto, começando a chorar. A senhora Hudson se aproximou mais, e a abraçou.

— Calma querida está tudo bem, vai ficar tudo bem. Estamos aqui.

A jovem soluçava em angústia. Mas depois de um tempo, ela parou e, controlando o choro, continuou :

— Eu estou tentando ser forte sra Hudson. Mas está sendo muito difícil pra mim. Nesses últimos três dias muitas coisas aconteceram, traumas do passado vinheram à tona, dúvidas perturbam a minha mente, e me sinto perdida em meio à tudo isso.

— Não, não diga que você não é forte! É a mulher mais forte que já conheci! Passou por tudo o que passou, mas está aqui, não está? -Emanuelle fez que sim com a cabeça- mas querida, não precisa ser forte o tempo inteiro; todos nós temos nossos momentos de fraqueza, e não há vergonha alguma em admitir isso! e nem você vai deixar de ser forte por causa disso. Apenas reconheça seus limites e tenha paciência consigo mesma, se quiser procure ajuda.

— A senhora lembra muito minha avó -sorriu a jovem de forma triste.

— Ah, mas aposto que ela não fazia biscoitos iguais aos meus.

— Ela fazia biscoitos de chocolate tão bons quanto os da senhora, e eu aprendi a receita.

— Eu não acredito -a sra Hudson sorriu de forma brincalhona.

— Bom...só há um jeito de descobrir.

— Então vamos fazer biscoitos! -disse a mulher, levantando-se da cama, puxando Emanuelle para se levantar também. A sra Hudson estava determinada a entreter e animar a jovem.

Ambas seguiram até a cozinha, e abrindo os armários, preparavam seus materiais para competição.

***

O táxi parou em frente à um edifício de classe média. O prédio era uma construção nova, não havia guarita, apenas um interfone na porta. Havia um anúncio de “Vende-se apartamento . Procurar o corretor de imóveis pelo número abaixo” grudado na porta de entrada do edifício. Sherlock copiou o número em seu celular e discou.

— Em qual andar é o apartamento dele mesmo?- perguntou John

— Quarto andar -respondeu Sherlock, enquanto esperava alguém atender o telefone.

— E como vamos chegar lá em cima?

— É o que estou tentando fazer.

Depois de alguns toques, atenderam ao telefone. Sherlock fez um forte sotaque francês ao telefone. Uma voz masculina atendeu.

— Bom dia, secretário do senhor Louis, corretor de imóveis.

— Bonjour, estou esperando em frente ao apartamento como combinamos, você vai se atrasar ainda mais?

— Quem é?

— Ora, como assim quem é? Você não lembra que marcou horário comigo para me — mostrar o apartamento?

— Desculpe, qual seu nome?

— Monsieur Boulevard!

— Desculpe senhor, mas não tenho ninguém chamado Boulevard na agenda de hoje.

— Mas isso é um absurdo! Como é que não se lembra de mim?! Quem sabe se eu falar com seu chefe da sua ineficiência! -ninguém respondia do outro lado da linha, Sherlock continuou- vou fazer o seguinte, vou lhe dar uma nova chance. Eu viajo para a França agora de tarde, você tem dez minutos para chegar aqui com as chaves.

O Homem gargalhou do outro lado da linha. Sherlock olhou confuso para John, não entendia o motivo da risada do homem. Depois de um tempo, o homem respondeu:

— Você é muito bom, tenho que admitir, mas não vou cair nessa de novo! Já basta na confusão que você me meteu há alguns dias atrás! De novo não! Na próxima chamo a polícia!

O secretário desligou o telefone na cara de Sherlock, deixando o detetive pensativo.

— O que foi?-perguntou Watson

— Já tentaram isso essa semana, mas porque?

Sherlock ficou com olhar distante, olhando para o chão, como a resposta pudesse vir do asfalto. Watson passou a mão na cabeça, bufando de impaciência. Ele olhou para o depósito de lixo do apartamento, vendo uma embalagem vazia de pizza. Então teve uma idéia, indo em direção ao interfone. Apertou um dos botões, e arriscou.

— Bom dia -uma voz jovem feminina atendeu.

— Bom dia...éh...desculpe...foi a senhora que pediu uma cesta de café da manhã da Coffeeshop?

— Não, sinto muito.

— Ah, essa não...me desculpe, mas eu tenho uma entrega para fazer no andar da senhora, mas acho que não anotei o numero certo, é o meu primeiro emprego, entende? Agora estou eu aqui, com uma cesta cheia de delícias, esperando que me paguem apenas 10 libras por ela.

— 10 libras por uma cesta de café da manhã da Coffeshop?

— Sim, sim...é uma promoção que estamos fazendo essa semana! Tenho mais 5 entregas para fazer essa manhã além dessa.

— Ah...Coffeeshop não é? Fui eu sim! Agora me lembro -a moça deu uma risadinha sem graça- me desculpe, o sono me faz esquecer algumas coisas. Pode subir, fui eu quem pediu mesmo -disse, destravando a porta de entrada- estou esperando.

John abriu a porta, rindo debochado para Sherlock.

— Até que não fui tão ruim assim, não é?

— Comentários depois John, viemos aqui por um motivo -disse, entrando no prédio, na frente de John.

— Ah, espera, minha idéia foi muito boa, você tem que admitir.

Ambos subiram as escadarias até o quarto andar. Chegaram ao apartamento do homem que procuravam. Bateram na porta, ninguém respondeu. Algumas cartas se acumulavam em frente à porta.

— Devem fazer pelo menos dois dias que ninguém vem aqui -comentou Watson.

— Ou dois dias que ninguém sai -comentou Sherlock.

O detetive tentou forçar a porta, sem sucesso. Watson ficou de vigia, caso alguém resolvesse aparecer. Sherlock pegou um canivete no bolso, e colocou na fechadura, tentando abri-la. Watson então atentou para algo e, afastando as cartas de cima do tapete, o levantou, achando uma chave. Watson riu da situação, então Sherlock tomou a chave da mão do médico, abrindo o apartamento em seguida. A sala era modestamente mobiliada, tinha uma grande janela, as cortinas estavam abertas. Ambos entraram no apartamento, passaram pela sala, cozinha e banheiros. Tudo estava muito limpo e sistematicamente organizado. Foram em seguida ao quarto, e o que acharam tomou os dois de surpresa. Sherlock rapidamente ligou para Lestrade, informando o que acabaram de ver, enquanto John levava a mão à boca. No ferro de sustentação das cortinas, pendurado pelo pescoço por uma corda, estava o dono do apartamento de Said, suspenso do chão. Morto.