Flor do deserto

16 Capítulo 15- Reunião


Notas iniciais
Oi pessoal. Nesse capítulo vocês vão encontrar algumas descrições e termos típicos da medicina legal. Tentei torná-los mais compreensíveis, mas qualquer dúvida podem perguntar nos comentários, ou podem pesquisar direto na internet. Bjus e boa leitura.

Na escrivaninha do quarto, de frente para a janela onde o homem estava pendurado, havia uma carta de despedida, com uma caneta ao redor. Diversos eram os motivos colocados, entretanto nenhum que o ligasse aos eventos recentes, ou que demonstrasse qualquer temor pela sua própria vida.

— Interessante…-comentou Sherlock, enquanto relia a carta, sem tocá-la.

— O que é interessante? -perguntou John.

— Watson, se você soubesse que seu inquilino é um terrorista, você se mataria por causa disso?

— Claro que não; a não ser que eu estivesse sendo ameaçado e me desesperasse pelo medo.

— Exatamente, olhe essa carta! Se ele estivesse sendo ameaçado, iria denunciar, ou escrever alguma coisa parecida. Mas olhe pra isso! Parece que foi escrito por uma adolescente depressiva! Não faz sentido...a não ser que...

O detetive saiu do quarto, passando de um cômodo a outro no apartamento, procurando evidências. Olhou na porta de entrada, sem sinais de arrombamento. Pegou então a chave que acharam debaixo do tapete, e a enrolou num saco de plástico que sempre carregava em seus bolsos.

— O que você está procurando? -perguntou John.

— Qualquer coisa estranha ou fora do lugar -respondeu, enquanto abria os armários da cozinha.

A sala era comum, pouco mobiliada, deixando bastante espaço livre no cômodo. Numa das estantes haviam várias fotos, e entre elas havia uma em que o dono do apartamento estava abraçado à um rapaz recém formado na academia de polícia, ambos sorrindo. Sherlock observou que aquela era a única foto que o homem sorria. Retirou a foto do porta retrato com cuidado, guardando a foto no bolso. Voltou então para o quarto. O detetive abriu o armário. As roupas estavam bem organizadas, com uma sequência de calças, camisas, gravata representando cada dia da semana. Entretanto, uma gravata estava faltando. Sherlock procurou pela casa, e também não achou a gravata em questão. Resolveu procurar no lixo, sem sucesso. Voltou então para o quarto.

— E então? -perguntou Watson

— O quê?

— Achou o que estava procurando?

— Ainda não. Mas acredito que vou achar mais tarde, na necrópsia com Molly, e na reunião com Lestrade.

***

Um delicioso cheiro invadiu o 221b. A senhora Hudson tinha acabado de tirar seus biscoitos do forno, e colocou a bandeja encima da mesa, ao lado dos que Emanuelle fizera, baseado na receita da avó.

— Espera, está faltando uma coisa –disse a doutora, se levantando da mesa e pegando um vidro com um pó negro do armário. Colocou um pouco do pó dentro da cafeteira. Logo o cheiro de café se misturou ao dos biscoitos recém tirados do forno- Não podemos fazer nossa competição sem café, não é?

— Eu prefiro chá –disse a senhora, completando quase num cochicho- faz bem para meus quadris.

— A senhora já tentou tomar um analgésico mais forte?

– Ah, não precisa, o Sherlock sempre consegue um pouco de Cannabis para mim.

— Sherlock dá maconha para a senhora?

– Sim, mas para fins medicinais hein –disse a senhora, em tom brincalhão- Não se preocupe, não vou ficar doidona por aí.

A jovem gargalhou diante do comentário da mulher. A cafeteira apitava, dando sinal de que o café estava pronto, no que a jovem se levantou, escolhendo duas xícaras no armário, e colocando-as na mesa, junto com o café fresco.

— Realmente...são muito bons –comentou Emanuelle- Tão bons quanto o da minha avó...a senhora me lembra muito ela. Tenho muitas saudades –os olhos da jovem ficaram cheios de lágrimas, no ela respirou fundo, controlando-se para não chorar novamente- sabe, eu queria que o Sherlock me ensinasse.

— Ensinasse a quê querida?

— A não se abalar, a não sentir. Eu hoje sofro muito por causa das lembranças das coisas que já passei. Se eu simplesmente fosse fria como ele, essas coisas não me afetariam, e eu seria inabalável, e também teria bem menos dores de estômago.

— Ele não é tão inabalável assim –disse a senhora, levando a xícara à boca, tomando um gole do café – acredite minha querida, ele pode ser um psicopata, mas ele ainda é um ser humano. Ninguém está livre das dores da vida, mas a forma como as encaramos é que determina o nosso grau de sofrimento por elas. O Sherlock construiu um muro, o desconectando das emoções humanas; mas isso trouxe outros tipos de problemas para ele, embora tenha fugido daqueles de natureza emocional.

Emanuelle mordeu os lábios, concordando com a cabeça ao que a mulher dizia. A jovem olhava para a mesa, reflexiva. A doutora foi trazida de volta de seus pensamentos por um barulho de batida na porta. A doutora se levantou da cadeira, e foi em direção à porta. O jovem especialista de Holmes estava à porta, segurando o notebook fechado em uma das mãos. Assim que a doutora abriu a porta, o jovem desatou a falar:

— O Sherlock ligou, disse pra você se arrumar, e irmos eu e você nos encontrar com ele, dentro de meia hora, na Scotland Yard.

— Meia hora? Mas eu preciso ficar em casa hoje para descansar, mais tarde tenho plantão no hospital.

— Eu só passei o recado, se quiser ligue para ele para resolver...isso é cheiro de biscoitos? –disse o jovem, empinando o nariz para dentro do apartamento. Emanuelle respirou fundo e respondeu:

— É sim, pode entrar, se quiser comer alguns.

— Obrigada –disse o jovem, entrando não deixando Emanuelle nem terminar a frase. Ele seguiu para a mesa, cumprimentou a sra Hudson, e pôs-se a devorar os biscoitos. Emanuelle se dirigiu à mulher:

— Eu preciso me arrumar agora, eu e o senhor faminto vamos nos encontrar com Sherlock na Scotland Yard –disse pegando sua xícara da mesa- Espero que seja rápido, tenho plantão à noite e gostaria de descansar -comentou quase para si mesma- tem pelo menos dois dias que não durmo direito.

— Tudo bem querida, pode ir. Lembre da nossa conversa mais cedo, ok?

A jovem concordou com a cabeça, se dirigindo ao quarto, com a xícara de café na mão. O jovem especialista devorava os biscoitos, ora de Emanuelle, ora da sra Hudson. A mulher, que o observava comer com tanto gosto, perguntou: “Meu jovem, qual dos dois biscoitos está melhor?”

***

Molly caminhava no corredor, à caminho do necrotério. O lugar estava mais frio do que o de costume. A legista caminhava a passos rápidos com uma ficha nas mãos. O corpo do dono do apartamento acabara de dar entrada, e estava prestes a ser examinado. Ao cruzar a porta da sala de autópsia, ela deu de cara com Sherlock já descobrindo o morto, e John com seu braço engessado, há alguns passos atrás do detetive. A médica respirou fundo, e deu bom dia, com um sorriso tímido, como sempre fazia. John respondeu educadamente. Sherlock, lembrando-se da crítica que Emanuelle fizera, sobre a forma de tratar Molly, resolveu corresponder ao bom dia da legista, sem tirar os olhos do morto. A jovem deu um sorriso tímido, abaixando a cabeça, e começando a ler a ficha:

– “Homem, 42 anos, encontrado morto em sua casa, pendurado pelo pescoço por uma corda. Achado carta no quarto do indivíduo, suposto suicídio.

— Errado –comentou Sherlock.

— O que está errado? –Perguntou Molly.

— Foi um homicídio, ele não tem marcas que o enforcamento foi a causa da morte.

— Deixe-me ver –disse Molly, colocando a pasta em cima da mesa e em seguida calçou um par de luvas para examinar o morto. John também se aproximou alguns passos.

Sherlock sondava tudo o que aquele defunto podia informar sobre as condições da sua morte. De repente, as letras saltavam na vista do detetive, formando frases, à medida que ele fazia suas deduções. Em cima da mesa de metal, estava o homem, despido; e em seu pescoço havia uma marca. Essa marca na pele era fina e profunda, formando um sulco que circundava o pescoço na mesma profundidade. Perto dessa marca, havia também pequenos arranhões, provavelmente feito por unhas. Em toda extensão do dorso do homem, havia uma grande mancha de cor roxa, indicando a posição que o corpo foi colocado, depois de morto. Essa mancha é chamada de “mancha de hipóstase”, sendo ela dessa cor por causa da deterioração das células sanguíneas; e se impregna do corpo, obedecendo à lei da gravidade. Como esta mancha estava no dorso, indica que ele foi deixado com as costas no chão, ficando todo seu dorso pigmentado de roxo.

John observava Molly e Sherlock examinando o defunto, então perguntou para o detetive:

— E então? Suicídio ou homicídio?

— Homicídio –respondeu Holmes. Watson olhou para Molly, que balançou a cabeça de forma afirmativa.

— Vou buscar o material para abri-lo –disse a legista, saindo da sala.

— Porquê homicídio? –perguntou Watson.

— Olhe o pescoço dele –disse Sherlock, apontando para o defunto, ao que John se aproximou para ver- Esse sulco no pescoço dele era para ser oblíquo, como também deveria ser mais profundo na parte anterior do pescoço, se ele tivesse se enforcado. Mas o que temos aqui é um sulco horizontal e de mesma profundidade em toda região do pescoço, o que indica que não foi o próprio peso dele que apertou seu pescoço, mas sim outra pessoa, usando uma gravata.

— Gravata?

— Sim, a gravata que está sumida. Ele tinha toque para limpeza e mania de organização, toda a casa dele denunciava isso, inclusive a organização das roupas no guarda-roupa. Uma gravata fora do lugar, ou faltando, seria inadmissível para ele, logo alguém a pegou.

— Faz sentido –disse Watson, passando a mão no queixo, observando o pescoço do defunto- Isso explica essas marcas de unha no pescoço. Pode ter sido ele tentando se livrar da gravata no pescoço, e acabou se arranhando.

— Não é só isso. As manchas de hipóstase deveriam estar nos pés, e não no dorso, se fosse um enforcamento; o que nos diz que ele morreu de costas para o chão, e assim ficou por pelo menos um dia. Então resolveram voltar, e recolocar o morto. Mudaram a cena do crime...e isso é ótimo.

— Como assim é ótimo?

— Alguém que tenha coragem de voltar para a cena do crime para alterá-la, deve estar bem desesperado; o que nos diz que estamos no caminho certo.

John deu de ombros com a afirmação do amigo, comentando em seguida:

— Não acho que estamos em tanta vantagem assim. Até agora não temos nenhum nome que não seja uma metáfora. Nem sequer sabemos como foi que eles descobriram que Emanuelle estava com o Pen Drive, se só ela é que sabia.

— Dentro de minutos descobriremos muito mais coisas além dessas –disse o detetive, indo em direção à porta de saída da sala de autópsia, passando por ela. John apressou o passo, para acompanhar o detetive no corredor. Sherlock continuou- Mas, antes vamos passar no metrô, tenho algumas informações para colher.

***

A Scotland Yard. Belíssimo prédio do centro de Londres. Uma arquitetura moderna cobria sua sacada espelhada. Como era início de novembro, alguns enfeites natalinos já estavam começando a ser montados; dando àquele lugar um tom mais alegre. O que para alguns era motivo de admiração e orgulho, para outros era motivo de incômodo e dor de cabeça; mais especificamente para os foras da lei.

Emanuelle e o jovem especialista que Sherlock contratou, estavam aguardando no térreo, sentados nas cadeiras da recepção. O jovem abriu o computador no colo, e não parava de digitar. Na tela havia um conjunto de numerações em que ele estava trabalhando, com uma listagem em arquivos ao lado.

— Você teve algum progresso? -perguntou a doutora.

— Sim e não -respondeu sem olhar para a jovem- estou conseguindo aos poucos descriptografar os arquivos, mas ainda vai demorar um tempo para o acesso ser liberado.

— Mas já temos acesso a alguma coisa?

— Foi o que eu acabei de dizer, nenhuma pasta, nenhum arquivo pode ser lido se eu não descriptografar o Pen Drive inteiro antes. A forma com que isso foi feito não deixa, onde você conseguiu esse Pen Drive hein? Isso aqui é criptografia militar!

— Vai demorar muito para isso acontecer? -disse Emanuelle, tentando fugir da pergunta do jovem.

— Olha...são 32Gb de arquivos codificados. Estou usando um programa para fazer com que esse processo seja automático, se eu conseguir isso, o processo todo vai durar mais ou menos cinco dias.

— cinco dias?! -disse, levando a mão à testa.

— Sim. Melhor do que se eu precisar fazer isso manualmente, aí o prazo pula para um mês.

A doutora se encostou na cadeira. “uma semana !! mas eu preciso disso pra ontem!!”, pensou. A moça respirou fundo, e disse, de forma cansada:

— Tudo bem, bom trabalho. Espero que consiga esse modo automático que você falou.

— Obrigada, também espero. Semana que vem tem o campeonato de RPG, e eu não quero perder.

— Entendo -Emanuelle deu uma risada discreta.

Passou-se mais alguns minutos de espera. Emanuelle já estava ficando impaciente, quando ela vê Lestrade entrando pela porta da frente.

— Lestrade! -chamou a doutora.

— Emanuelle? O que está fazendo aqui? -disse o inspetor, se desviando de seu caminho, indo se encontrar com a moça.

— O Sherlock disse que nos encontraria aqui. O senhor sabe onde ele está?

— Não, mas também quero saber. Já está quase na hora da reunião com meu pessoal, e preciso que ele participe. Subam comigo, vocês podem ficar nas cadeiras que ficam fora da sala de conferências, enquanto esperam por ele.

***

Dentro do Táxi, Holmes e Watson seguiam em direção à Baker Street. Sherlock segurava um pedaço de papel, com um endereço. Ele o comparava ao endereço que ele fotografou do computador da bibliotecária, há um dia atrás. Ambos tinham acabado de sair do metrô, onde Sherlock pegara esse papel com um mendigo que cheirava a fritura.

— Interessante- falou quase para si mesmo.

— O que é interessante? — falou John, se inclinando para ver a tela do celular do detetive.

— São os mesmos endereços, o verdadeiro endereço do jovem Said, como também o endereço da primeira pessoa que soube da morte dele -disse, olhando para a janela- Cada vez que cavamos, mais peças aparecem nesse caso. Mas o jogo vai virar em breve…

— Como pode ter tanta certeza?

— Você vai ver. John, me diga, nessa sua tipóia ,por acaso, caberia alguma arma?

***

— Lestrade, temos que começar. disse a agente Donovan. Além dela, com ela, a sala estava ocupada por Anderson e mais quatro pessoas, os melhores agentes de Lestrade. Embora não fizesse parte da equipe, entre eles, estava o policial James Harper, quem levou Said para o hospital, depois de interceptá-lo sangrando na rua. Emanuelle e o especialista esperavam do lado de fora.

— Ainda não Donovan, falta uma pessoa.

— Quem é? Não me diga que está esperando o esquisito de novo.

— Ele é parte importante dessa investigação agora, e existem muitas coisas a serem esclarecidas.

A agente bufou e saiu de perto do inspetor, indo para a mesinha do fundo da sala para pegar um café. James tinha chegado a apenas alguns minutos, estava sentado, o semblante baixo e cansado. Olhava de forma fixa para a mesa, estava triste. Anderson e Lestrade se aproximaram dele, sendo o inspetor chefe quem o cumprimentou:

— Olá Harper, meus pêsames pelo seu tio, soubemos agora de manhã.

— Obrigada inspetor...já descobriram o que aconteceu com ele? -perguntou, sem levantar os olhos da mesa.

— Ainda não. O corpo dele foi levado ao necrotério. Estamos trabalhando nisso, inclusive um dos meus homens responsáveis por essa investigação vai chegar logo, mas já adiantando, se isso servir de consolo, parece que ele se matou enforcado.

O policial colocou a mão entre o rosto e começou a chorar. Anderson e Lestrade colocaram as mãos nos ombros dele. Quando James conseguiu controlar o choro, disse com a voz trêmula:

— Ele era uma pessoa muito boa. Sofria de alguns transtornos e manias, mas eu nunca iria imaginar que ele estava ao ponto de fazer isso.

— Estamos apurando o caso, vamos verificar se foi isso mesmo o que aconteceu -consolou-o Lestrade- não se preocupe, justiça será feita.

— Espero -disse, enxugando o rosto. Depois de um tempo em silêncio, continuou- Inspetor, queira me desculpar, mas não estou bem para participar dessa reunião. Gostaria de ir para casa, organizar os documentos para todo esse processo.

Lestrade e Anderson se olharam, então, antes que o inspetor pudesse responder, Sherlock chegou na sala, abrindo a porta e entrando, seguido de Watson e Emanuelle .O especialista continuava do lado de fora. O detetive se dirigiu direto para o policial:

— Senhor James, meu nome é Sherlock Holmes, e estou responsável pela investigação do que houve ao seu tio.

— Ah, Holmes, prazer em conhecê-lo. Bom, eu estava falando para Lestrade que não estou muito bem, por isso não vou fic…

— Sr Harper, eu insisto, o senhor precisa ficar. Tenho certeza que achará tudo o que temos a dizer bem... revelador -Interrompeu Sherlock. O policial olhou para o inspetor, e olhou de volta para Sherlock, então disse:

— Bom...se não for demorar muito, acho que posso ficar então -disse, esboçando um sorriso sem graça no rosto.

Lestrade pegou Sherlock pelo braço, levando-o ao canto da sala, e falou baixo:

— O que você está fazendo? Para começar não era nem para ele estar aqui, e o homem acabou de perder o tio!

— Acredite em mim, ele precisa estar aqui, é essencial!

Lestrade ia responder, mas viu Emanuelle sentando à mesa, com os outros policiais, então falou:

— Mande ela sair daqui, essa reunião não é para civis.

— Ela é a testemunha principal desse caso, e é fundamental contra o Hukm Allah, sem falar que é por causa dela que seu pessoal não sabe que o nosso amigo Said mexia com coisas explosivas. Então é bom que você tenha ela na sala, para seu pessoal não querer jogá-lo pela janela quando souber da verdade.

Lestrade bufou, concordando com a cabeça. Mandou Sherlock se sentar, para darem início à reunião. Lestrade colocou na mesa uma caixa grande de metal e, um por um, os agentes da sala foram colocando suas armas, inclusive Sherlock colocou a dele dentro também. Era um protocolo para reuniões importantes, onde poderiam haver debates, para evitar que algum policial mais esquentadinho que o outro acabasse ferindo algum colega, no calor da discussão. Terminado, o inspetor colocou um cadeado, fechando a caixa.

Lestrade sentou-se na ponta da mesa, e começou a falar:

— Senhores e senhoras, eu convoquei essa reunião hoje, para esclarecê-los sobre importantes informações sobre o jovem Said que estamos investigando. Bom, o que eu tenho a dizer é que ele não é um civil comum. Descobrimos que, na verdade, ele era um componente do grupo terrorista Hukm Allah, que está aterrorizando Londres nesses últimos meses.

Lestrade viu alguns de seus colegas levando a mão à boca, e outros se seguravam na cadeira com a notícia. Sherlock permanecia impassível, sentado de frente para James, encarando-o. James não esboçou nenhuma reação, encarando Sherlock de volta, como resposta. Antes que qualquer um dos presentes pudesse falar alguma coisa, Lestrade adiantou-se:

— Por favor, ouçam, eu não pude expor a todos vocês a verdade à pedido da testemunha principal -Lestrade apontou para Emanuelle- quero apresentar à vocês a Dra Emanuelle, residente de cirurgia geral no hospital St Bartholomews. Por favor, explique à eles o que aconteceu.

Emanuelle colocou os cotovelos sobre a mesa, juntando as mãos sobre ela. Então, um pouco insegura, falou:

— Há quatro dias, no dia do atentado ao Shopping Center eu fui chamada à ala vermelha para atender um jovem que tinha acabado de chegar, vítima de múltiplos disparos de arma de fogo. Perguntei quem fez isso com ele, então ele me puxou e falou no meu ouvido as seguintes palavras: “ Hukm Allah, salve a Inglaterra, não confie em ninguém”. Ele também -Emanuelle hesitou nessa hora, olhando para Sherlock, então continuou- me deu um Pen Drive, que acredito que contenha informações importantes. Sabendo das condições da morte, como também quem o matou, resolvi acompanhar a autópsia. Descobrimos uma tatuagem na boca de Said, que o ligava ao grupo terrorista, como também o sr Holmes fez uma análise detalhada do corpo, confirmando o envolvimento do jovem -Emanuelle suspirou.

— E por conta disso…-disse Lestrade.

— E por conta disso, temi pela minha segurança. Pedi que o inspetor Lestrade não falasse o que houve para ninguém, e que seguisse a investigação do Said civil, enquanto que o sr Holmes investigaria o Said terrorista. Entretanto, nenhum deles sabia da existência do Pen Drive, até ontem a noite. De algum modo, eles souberam que estou com esse objeto, e vieram atrás de mim. Resolvi então contribuir com as investigações, permitindo a Lestrade contar a verdade para todos vocês. Afinal, agora que eles já sabem sobre mim, não faz sentido algum esconder nada.

O silêncio pairou sobre a sala de forma que uma mosca poderia ser ouvida. Lestrade então tomou a palavra de novo:

— Se estamos entendidos nessa parte, podemos prosseguir para…

— Qual a sua relação com o senhor Holmes? -perguntou a agente Donovan, destilando veneno para cima da jovem.

— Perdão? Não entendi sua pergunta -respondeu Emanuelle, franzindo o cenho.

— Eu acho que entendeu muito bem! -disse a agente, inclinando-se sobre a mesa, na direção de Emanuelle- eu deveria prendê-la por obstrução da justiça! o quão íntima você é do senhor esquisito aqui, para ter entregue a ele uma caso dessa importância? Ele ,por acaso, é mais competente do que a Scotland Yard inteira?

— É só você ler os jornais que você tem a resposta -alfinetou Emanuelle, definitivamente ela não gostou daquela policial. Sherlock sorriu discretamente da — provocação.

— Olha aqui garota, é muita cegueira sua…

— Não ligue Manu -interrompeu Sherlock- ela só está de mau humor porque o perfume dela estragou sua noite com Anderson, por isso que ela colocou outro hoje de manhã.

A morena soltou faíscas pelos olhos, enquanto se levantou da cadeira. Lestrade percebendo que as coisas estavam esquentando, resolveu intervir:

— Donovan, sente-se agora!

— Mas senhor…

— Não se esqueça que eu sou seu superior aqui, e sim, fui eu quem concordou com o plano dessa jovem! Então não questione minhas decisões!! -Lestrade bateu com a mão fechada na mesa, ao que Donovan se sentou, ficando acuada na cadeira- Enfim -Lestrade respirou fundo- como eu estava dizendo, se ninguém tiver mais dúvidas pertinentes sobre o relato da doutora, vamos passar a palavra para o senhor Holmes, que nos dirá o que falta sabermos sobre o caso, para que, juntos, avancemos com a investigação. Pode falar Sherlock.

O detetive se levantou, ficando atrás da cadeira onde estava sentado. Relatou os acontecimentos na ordem cronológica: primeiro a conclusão que chegou, de que o apartamento que Said alugava, não era a morada verdadeira dele, só a de fachada; vindo a conseguir o número do dono. Em seguida falou dos achados no corpo do jovem, que apresentava evidências de que ele é quem fabricava os explosivos, como também das lesões provocadas pelas balas, expondo que pela característica das feridas, apenas um disparo foi feito de perto, sendo o resto feito à distância; de forma que as balas eram diferentes, evidenciando que mais de uma pessoa participou da morte do rapaz. Por último, ele falou sobre os documentos transferidos do notebook de Said, provavelmente para o Pen Drive, que estava em processo de descodificação. Relatou também o ataque tanto à ele quanto à Emanuelle, como também o que descobriu no interrogatório de Wilson.

— Isso é tudo Sherlock? -perguntou Lestrade.

— Não, não é. Tem muitas pontas soltas em toda essa história. Mas tem alguém aqui nessa sala, que poderá esclarecê-las para mim… estou certo, policial Harper?