Flor do deserto

14 Capítulo 13- Você tem a minha palavra


— “Olá, aqui é o Marcus, não posso atender agora, por favor deixe sua mensagem após o sinal”

— Marcus, oi...sou eu, Manu. Olha, me desculpa eu ter furado com você ontem à noite. Uma amiga minha precisou muito de minha ajuda de última hora, então acabei me esquecendo de te avisar. Só me lembrei quando era já bem tarde da noite. Espero não ter te atrapalhado. A gente pode marcar para sair um outro dia qualquer, se você quiser. Bom, até a próxima. Tchau.

Emanuelle desligou o telefone, e o colocou na testa, fechando os olhos e respirando fundo. Estava vestida com aquelas roupas azuis e super folgadas, típicas de bloco cirúrgico. Sentada numa cadeira no canto da sala, ela esperava outro colega médico anestesiar o paciente, para que começasse a cirurgia. Foi uma manhã um tanto tranquila nesse dia no hospital, sem muitas cirurgias indicadas, e poucos pacientes na emergência.

A hora do almoço logo chegou, e Emanuelle seguiu para o refeitório. Antes que pudesse fazer seu pedido, seu celular tocou. Era a sra Hudson:

— Alô, querida?

— Oi sra Hudson, bom dia, como a senhora está?

— Ah, eu estou bem minha jovem; eu queria só avisar que não vou poder voltar hoje. A minha irmã ainda precisa de mim por aqui, acho que só volto daqui a dois dias.

— Hmm, entendi, sem problema. O Sherlock já sabe?

— Não. Tentei ligar para ele, mas ele não atende. Você poderia avisar à ele?

— Posso, pode deixar.

— Obrigada. E como está o John e a Mary?

— Eles estão bem. Mary e a filha receberam alta, e foram para casa. John deve estar descansando.

— Entendi, que ótima notícia. E quanto à você? -Emanuelle parou, e respirou fundo antes de responder.

— Estou bem. Um pouco cansada só, mas estou bem.

— Sabe que pode contar comigo para o que precisar, não é?

— Sim, eu sei, e fico muito agradecida por isso -a doutora esboçou um sorriso cansado- bom, agora eu tenho que ir sra Hudson; mas pode deixar que eu aviso ao Sherlock.

— Certo, muito obrigada querida. Até logo.

— Até.

A doutora tinha acabado de colocar o telefone no bolso, quando ele tocou de novo. “É hoje que eu almoço” pensou. Viu que era Sherlock. Emanuelle respirou fundo antes de atender:

— Alô.

— Mudança de planos.

— Como assim?

— Vou me atrasar para chegar, é melhor você não me esperar para almoçar -“mas eu não ia esperar”- pensou a doutora.

— Ok. Quando você chegar, me ligue que me encontro com você na cantina, e devolvo suas chaves.

— Combinado.

— Certo.

Ambos ficaram em silêncio por um momento, Sherlock então resolveu falar:

— Olha...obrigada por ter ficado com Mary enquanto eu precisava do John.

Emanuelle tirou o telefone da orelha, e olhou desconfiada para o aparelho, como se olhasse para o próprio Sherlock. Então respondeu:

— De nada...Sherlock, você está se sentindo bem?

— Sim, porque?

— Ah...nada, por nada, só por perguntar mesmo. Bom, até mais tarde então.

A doutora desligou o telefone, não dando tempo para o detetive responder. Sherlock olhou para o telefone, e depois para os prédios ao redor, como se pudesse tirar a resposta deles. “Porque ela perguntou se me sinto bem? Não tem nada de errado comigo”. O detetive guardou o celular no bolso, e observou por um momento a bela arquitetura do lugar onde estava. Em seguida entrou na Biblioteca Britânica.

Sherlock observou a jovem da recepção, fazendo uma rápida análise. Já sabia o que fazer. O detetive passeou pelas prateleiras, e selecionou os livros: Shakespeare, Jane Austen, Foucault e Freud. Em seguida foi no banheiro, retirou o sobretudo, subiu as mangas da camisa até a altura dos cotovelos, retirou a camisa social de dentro das calças, dando um ar de menos social. Depois ele abriu a torneira e molhou seus cachos negros, penteando o cabelo para trás.

Então, saindo do banheiro, foi em direção à recepcionista, segurando em uma das mãos os livros escolhidos e em outra seu sobretudo. “Só falta uma coisa”, ele pensou; e sorrateiramente furtou um óculos de grau que estava em cima da mesa, colocando-o em seu rosto. Dirigiu-se ao balcão. A recepcionista era uma jovem, provavelmente recém formada, de cabelos claros e bagunçados, e óculos fundo de garrafa. Sherlock colocou os livros em cima do balcão, e a moça os pegou, sem olhar para o detetive; entretanto ao ver os livros que ele tinha pego, ela resolveu olhar para ele, o que a fez corar quase que instantaneamente. Com a voz trêmula, a moça comentou:

— É uma excelente escolha senhor, pena que apenas com dez dias não daria para ler tudo.

— Sou um leitor assíduo -disse Sherlock, apoiando os cotovelos no balcão, ficando mais perto do rosto da moça- apreciador da incrível arte da escrita, a leitura para mim é como o sol e a água...não conseguiria viver sem eles todos os dias; para mim seria um sacrilégio não terminá-los em menos de uma semana -o detetive abriu um largo sorriso, ao que a moça do balcão respondeu sorrindo também, e comentou:

— Aprecio sua devoção à escrita. Mas o que adianta se você não tem ninguém com quem conversar sobre a sua paixão?

— Gostaria de conversar comigo? -a moça ficou claramente surpresa com o convite, e, olhando de um lado para o outro, respondeu:

— Não sei se posso sair daqui.

— Já é hora do almoço, poderíamos comer qualquer coisa aqui por perto e trocar algumas idéias. Eu sei de um excelente cachorro quente que tem aqui perto, de um rapaz chamado Said, já comi algumas vezes lá.

O rosto da moça mudou, ao ouvir o nome do rapaz. Então, em tom pesaroso, respondeu:

— Ele vendia. Infelizmente ele morreu.

— Ele morreu? -Sherlock fez uma cara de surpresa- O que aconteceu?

— Me disseram que mataram ele.

— Nossa -Sherlock levou a mão à boca, fazendo cara de espanto- mas isso é verdade mesmo? quer dizer, quem disse que ele morreu?

— Foi a moça da limpeza que trabalha por aqui, Joyce, eu acho que é esse o nome dela.

— Entendo. Será que ela está por aí para sabermos se isso foi verdade mesmo?

— Ela não apareceu aqui nem hoje, nem ontem. Ligamos mas ela não atende ao telefone. Ela parecia bem triste quando me deu a notícia, parecia conhecê-lo.

— Nossa, é uma pena mesmo. Tão jovem.

— Ele vinha aqui algumas vezes sabe... pegava muitos livros sobre química orgânica e química industrial. Nunca atrasou uma entrega.

— É...bom, você recomendaria mais algum livro além desses?

— Sabe, tem um que eu gosto muito, é de Agatha Christie, e fica nessas prateleiras aqui de baixo.

— Ah...você, se importaria de pegá-lo para mim? são muitos livros aqui, e eu posso não achar- Sherlock abriu um sorrisinho tímido, ao que a moça respondeu em tom afável:

— Tudo bem, eu pego, não saia daí hein.

— Não sairei -disse, dando uma piscadela para a moça.

A jovem saiu do balcão e foi em direção à uma coleção de livros. Sherlock esperou ela desaparecer atrás da primeira estante, e correu para detrás do balcão, acessando o computador. Rapidamente ele achou o banco de dados sobre os funcionários da biblioteca, e procurou por Joyce. Achou duas opções, a primeira era uma senhora bibliotecária, e a segunda, uma jovem do serviço de limpeza. Clicou na segunda opção, abrindo na tela a foto da jovem, nome completo, endereço, e outros dados pessoais, os quais Sherlock tirou fotos pela câmera do celular. Em seguida abriu no histórico de empréstimos dos usuários, colocando o nome completo do jovem Said, abrindo na tela uma lista completa dos livros que ele pegou desde seu cadastro na biblioteca até seu último empréstimo. Sherlock fotografou também. Rapidamente fechou as abas que tinha aberto no computador, em seguida olhou por cima do balcão, nada da moça. Pegou um daqueles papeizinhos amarelos de recado, que tinha do lado do computador, escreveu uma frase curta e, tirando os óculos, os colocou em cima do monte dos livros que ele tinha pego, e o bilhete por baixo dele. Verificou mais uma vez por cima do balcão, a moça apareceu entre as prateleiras. Sherlock sorrateiramente fugiu, de forma que a jovem não notou. Ao chegar no balcão, a moça procurou o misterioso homem, não o achando; vendo apenas uma pilha de livros com um óculos em cima deles, com um bilhete que dizia : “de repente perdi a vontade de ler; devolva isso ao seu verdadeiro dono.”

Sherlock saiu a passos rápidos da biblioteca, enquanto abaixava as suas mangas, e vestia seu sobretudo. Bagunçou os cabelos, e colocou o cachecol de volta.

Tudo estava confuso e incerto na mente do detetive, cada vez que ele procurava mais sobre o falecido, mais peças do quebra-cabeça apareciam. Precisava pensar. Resolveu ir a pé até o hospital, para refrescar as idéias; pôs-se então a caminhar. Passou por várias ruas e pontos turísticos. Aproveitou para ligar novamente para o dono do apartamento, mas ele não atendeu. A cidade estava mais deserta do que o normal. O intenso frio daquele dia mantinha as pessoas em casa, era um sinal de que o inverno estava chegando.

Faltava apenas alguns quarteirões para o detetive chegar ao hospital; e, a não ser por uma senhora que tinha acabado de descer de uma van, a rua estava completamente deserta. A cena chegava a ser um tanto cômica para o detetive: a mulher de cabelos grisalhos tentava retirar da van uma pesada mala. Sherlock olhou de um lado para o outro, e, vendo que era o único que podia ajudar aquela senhorinha, bufou, e foi em direção dela.

— Pode deixar senhora, eu pego essa mala -falou Sherlock, já pegando na alça da pesada bolsa. Ao colocá-la no chão, percebeu que não estava tão pesada assim. A senhorinha, segurou as duas mãos dele, na altura dos pulsos, e disse olhando-o nos olhos: “muito obrigada meu jovem”. Sherlock sentiu que ela estava apertando seus pulsos com muita força, e quando já ia puxar para ela o soltar, sentiu um pedaço de pano sendo apertado contra seu nariz e sua boca. Reconheceu de imediato o odor: era clorofórmio. Ele puxou seus braços para se defender, mas suas mãos estavam imobilizadas, ele sentia um braço envolvendo seu pescoço, e o pano fixo na sua boca. Sentiu rapidamente suas forças se evadirem, sua vista escureceu, suas pernas perderam a sustentação, sentia que estava sendo suspenso do chão. Logo não sentiu mais nada, mergulhando na escuridão.

***

O resto do dia no hospital foi tranquilo. Depois do almoço a doutora entrou apenas duas vezes em cirurgia de novo. Ela estava esperando a tarde inteira pela ligação do detetive, até ligou para ele, mas não atendeu.

Estava quase na hora da troca de plantão, e nada do Sherlock. “Ele que não venha chegar em casa de madrugada e me faça acordar pra abrir a porta para ele”, pensou a jovem. A doutora esperou dar oito da noite, então bateu o cartão, e foi embora.

Emanuelle seguiu direto para o metrô, precisando esperar nos bancos pelo próximo vagão. A estação estava desconfortavelmente vazia, poucas pessoas esperavam o trem, dos dois lados da plataforma. Uma das pessoas chamou a atenção da doutora. Do outro lado da plataforma, um homem sentado, com o rosto parcialmente coberto por um boné, e um cachecol escuro em volta do pescoço, falava ao celular. Emanuelle flagrou o momento quando ele olhou para ela, encontrando seu olhar, e tentou disfarçar, falando algo no telefone e virando o rosto. A doutora se assustou com aquilo, e nervosamente se mexeu na cadeira. Em seguida o barulho do vagão começou a ser ouvido, o metrô estava chegando. “graças à Deus”, pensou a jovem. A doutora se levantou, não tirando os olhos do misterioso homem. Por um momento temeu que ele fosse um assaltante, e guardou o celular em um lugar escondido do casaco. Quando o metrô chegou, ela perdeu de vista o estranho observador. Quando o vagão abriu as portas, ela procurou por ele, mas o homem tinha sumido. Emanuelle entrou hesitante no vagão, e sentou-se junto à porta. Logo estaria em casa.

***

A luz era fraca no ambiente, uma voz podia ser ouvida bem ao longe. Um homem falava no celular, parecia negociar algo pelo telefone; uma discussão de preços “dois mil...três mil...com diversão é mais caro, embora que quem mais vai se divertir sou eu…” . Um gosto forte descia por sua garganta, e suas narinas ardiam cada vez que respirava. Sua cabeça girava e a náusea era forte. Aos poucos Sherlock foi recobrando a consciência. Lembrou-se da senhorinha, da mala, e de ser imobilizado. Tentou se mexer, sentiu que estava sentado, pendeu então o corpo para frente, mas estava amarrado pelos ombros na cadeira. Tentou movimentar os braços, mas suas mãos estavam presas nos braços do mogno. Apenas suas pernas estavam livres, “um erro fatal”, pensou o detetive. Ao abrir os olhos o ambiente era escuro, apenas uma fraca luminária pendia do teto. As paredes eram de concreto, com alguns canos cruzando toda a sua extensão. O lugar cheirava a óleo diesel. Um barulho ensurdecedor, mas familiar, invadiu o ambiente, fazendo a luz piscar. “Estou na estação de metrô”, pensou. Seu sobretudo estava largado no canto da parede. Sentado a poucos metros dele, havia um homem com um revólver na mão; ele estava brincando com o instrumento, abrindo e fechando o seu tambor. Quando viu a movimentação do detetive, se pôs de pé e, se aproximando, falou:

— Ora ora, a bela adormecida resolveu acordar. Tem gente que pagaria muito caro para ver você nesse estado, senhor Holmes. O senhor tem muitos inimigos, sabia?

— Tenho certeza que negociação não é problema para você, não é verdade? -respondeu Sherlock ofegante, respirar ainda era difícil.

— Ah, você ouviu minha conversa? Sabe de quem estávamos falando?

— Deixa eu adivinhar...de mim? -disse em tom irônico.

— Haha, você não é tão bom quanto dizem. Mas provavelmente só ouviu a parte que eu falava de você, não posso condená-lo.

— Existem outras pessoas em negociação? -Sherlock estava ganhando tempo. Tentou balançar a cadeira, testando sua firmeza; o móvel era velho e rangeu com o movimento do detetive, denunciando sua intenção. O homem prontamente encostou a arma na fronte de Sherlock, dando um sorriso sarcástico, e em seguida deu uma coronhada forte do lado esquerdo da cabeça do detetive. Sherlock foi impulsionado para a direita, fazendo a cadeira oscilar e ranger mais alto dessa vez. Raios de dor se espalharam por toda sua cabeça e sua testa ardia. Logo sentiu um líquido quente escorrer intensamente pelo lado esquerdo de seu rosto, pingando para sua camisa social. Estava sangrando. O homem segurou a mandíbula do detetive, e, entre dentes falou:

— Você já me trouxe muitos problemas ontem, sem gracinhas dessa vez. Era melhor ter me deixado eu só te seguir, mas como você é esperto demais, então tive que tomar uma atitude digamos...mais efetiva. Espero que sua namoradinha seja menos ousada.

Sherlock por um momento ficou confuso, tentava entender de quem o homem estava falando, mas então a resposta veio quase que instantaneamente. O detetive olhou de forma desafiadora para o homem que o ameaçava, quando entendeu que Emanuelle era a outra “negociação”.

— Ela é muito boa não é? -disse o homem em tom provocativo, com um sorriso malicioso no rosto- eu também ficaria com raiva sabendo que vão brincar com meu brinquedinho.

— Ficaria mesmo? sua esposa está traindo você com o mecânico, e você não está nem aí. É o corno mais manso que já conheci.

O rosto do homem tornou-se rubro, seus olhos destilavam raiva. O homem rangeu os dentes, e soltou a arma no chão. Segurou Sherlock pelo colarinho com uma mão e, com a outra, desferiu uma série de socos contra o rosto do detetive, parando somente quando o nariz e os lábios dele começaram a sangrar, melando a mão do homem. Sherlock sentia a cadeira ranger e afrouxar a cada soco dado pelo agressor.

Ofegante pelo esforço repentino, o homem largou Holmes, e foi numa mesa no fundo da sala para enxugar as mãos ensanguentadas num pedaço de pano. Sherlock respirava com dificuldade, sentia o gosto metálico do sangue na sua boca, e todo o seu rosto doía. Sua cabeça latejava, mas sua mente estava a mil.

Ofegante, provocou ainda mais o homem intimidador:

— É só isso? Já briguei com brutamontes que batiam melhor do que você. Está explicado porque sua esposa te traiu.

O homem soltou faíscas pelos olhos, e a passos pesados foi em direção a Sherlock, segurando-o novamente pelo colarinho. Falou então bem perto do rosto dele:

— Sabe, me pagaram apenas pra te prender por um momento, enquanto brincam com sua bonequinha. Mas se você continuar me provocando, vou fazer questão de você nunca mais poder vê-la! E então, o que vai ser, sr Holmes?

***

Não demorou muito para Emanuelle chegar em casa. A estação ficava apenas à alguns quarteirões do 221b. A doutora se dirigiu à passos rápidos para casa, ficou em alerta ao ver o homem na estação. “Talvez seja só impressão minha”. Retirou da bolsa as chaves novas e entrou no prédio. Ao subir o primeiro lance de escadas, resolveu passar no apartamento de Holmes para entregar suas chaves. Quando já ia bater na porta do detetive, ouviu um barulho vindo do seu apartamento. A doutora a princípio se assustou, mas logo em seguida resmungou : “Holmes…”. Emanuelle subiu as escadas praguejando e dizendo consigo mesma: “não é possível! Vou trocar as chaves de casa! Já perdi as contas de quantas vezes ele invadiu meu apartamento!”. Emanuelle abriu sua porta e acendeu a luz, a sala estava toda bagunçada.

— Sherlock!! -gritou a doutora- eu já disse para parar de invadir minha casa! -ela deu alguns passos para frente, chutando uma almofada no chão- olha pra isso! Eu não vou arrumar essa bagunça! O que você quer dessa vez?!.

Ninguém respondeu, a jovem sentiu um frio na espinha, e falou insegura: “Sherlock?...”. De repente, a porta fechou com força atrás de Emanuelle, fazendo-a se virar num salto, e ver Wilson, que estivera outrora escondido atrás da porta. O homem de touca escura segurava uma pistola com silenciador, e apontou bem para o meio do tórax da doutora.

— Se você der um pio, eu juro que atiro.

Emanuelle lutava para manter a calma, com a respiração entrecortada. Todo seu corpo estremecia, então, com a voz trêmula disse:

— O que você quer?

— Você tem algo que pertence a outras pessoas, um pen drive para ser mais específico -Emanuelle empalideceu- se você me der o que eu quero, eu deixo você em paz, e vou seguir o meu caminho -o homem sorriu sarcasticamente.

— Não...você não vai me deixar em paz, não é? -disse Emanuelle, de forma insegura, enquanto lágrimas caiam de seu rosto.

— Bom, você é mais esperta do que parece. Façamos um trato -o homem agora apontou a arma para o meio da testa da doutora- se você não me entregar esse maldito objeto, vou tornar as suas últimas horas as mais dolorosas de toda a sua vida, e acredite, eu já imaginei a melhor maneira de fazer isso -o homem abriu um sorriso malicioso, que fez a jovem estremecer ainda mais, ao que ele passou a mão pelo rosto dela,o enxugando. A doutora impulsivamente deu um tapa na mão do homem, ao que ele reagiu segurando o pescoço dela, e empurrando ela com força na porta atrás dele, com a arma ainda encostada na testa. Wilson sufocava a médica, enquanto rosnava em seu ouvido : “onde está?!”. Emanuelle não respondia. Wilson bateu a cabeça dela contra a porta, tonteando a doutora, e ainda com a mão em seu pescoço ele perguntava: “onde está esse maldito pen drive?!”.

Emanuelle chorava incontrolavelmente, seus lábios tremiam e ela gemia baixinho. Seus pensamentos a assaltavam: “vou morrer aqui, não vou sair dessa...não...eu preciso reagir, não quero morrer...não cheguei até aqui para morrer assim” .Então ela teve uma idéia.

— Eu vou perguntar só mais essa vez: onde está o pen drive?

Emanuelle olhou para uma caixinha que havia na estante, no canto da sala, perto da janela, olhando de volta para Wilson. O homem se virou, olhando também para a caixinha. Então deu uma risada e disse: “viu? Até que não foi tão difícil”. Wilson pegou a doutora pelos cabelos, empurrando-a em direção ao canto da sala. “Pegue” Ele disse. Com a arma em sua nuca, Emanuelle foi em direção à caixinha, com Wilson logo atrás dela. Logo chegou na estante e pegou o objeto; era feito de madeira, e era pesado. “perfeito”, pensou a doutora. Ela então se pôs de frente ao homem, que mantinha a arma encostada na cabeça dela. Insinuou que abriria a caixa, fazendo o homem tirar a atenção dela, focando no objeto.

Tudo se seguiu muito rápido: Emanuelle, usando a caixa, bateu no rosto do homem, e com a outra mão, bateu na mão armada do agressor lançado para longe a arma. O homem desferiu palavrões, levando as duas mãos ao rosto, seu nariz começou a escorrer sangue. A doutora se desvencilhou das mãos do agressor, correndo em direção à porta. Mas Wilson foi mais rápido, conseguindo agarrar Emanuelle pelos cabelos, puxando-a de volta. A doutora gritou com o máximo de força que seus pulmões tinham, fazendo Wilson reagir com um soco na lateral de sua cabeça. A jovem caiu no chão, tonteada. O homem se colocou por cima dela, forçando seu peso contra ela, enquanto tapava sua boca. Emanuelle entrou em pânico quando entendeu o que Wilson pretendia fazer. Ela tentou se desvencilhar a todo custo, mas a dor da pancada não ajudava, ela perdia as forças, e o desespero fazia seu peito arder. O hálito de bebida forte que o homem exalava a nauseava, enquanto olhava desesperada para seu agressor. Lutou contra Wilson, enquanto ele tentava desabotoar a sua calça, levando outro soco na cabeça. Tentou gritar mas o homem apertou sua garganta, diminuindo seu fôlego, e fazendo sua vista escurecer.

De repente, dois braços com mangas meladas de sangue apareceram por trás de Wilson, um deles envolveu o pescoço e o outro empurrava a cabeça do homem para frente, fazendo o golpe dado ser mais efetivo. Os braços puxaram Wilson para trás com uma força descomunal, fazendo o homem sair de cima de Emanuelle. A doutora tentou sair do chão, mas violentas ondas de dor irradiaram por toda sua cabeça, fazendo-a deitar no chão de novo. Tentou olhar para o que acontecia sem se levantar, e apesar de sua vista um pouco embaçada, conseguiu reconhecer quem tirou Wilson de cima dela: “Sherlock?...”.

O detetive mantinha o braço em volta do pescoço de Wilson, que o jogou com força contra a parede duas vezes, fazendo Sherlock soltar um rosnado de dor, e acabou por soltar o homem. Wilson caiu de joelhos, dando grandes goles de ar, tentando recuperar o fôlego, ao que se virou para ver o oponente; mas o que viu foi um colorido vaso indo em direção de sua cabeça. Sherlock quebrou o objeto de porcelana na cabeça do homem, fazendo-o desacordar instantaneamente, tombando no chão. Sherlock colocou o homem de bruços, e, pegando um cachecol que estava pendurado atrás da porta, amarrou as mãos do homem nas suas costas. Em seguida o detetive foi em direção da doutora, bastante ofegante, e ajoelhado do lado dela, colocou a mão por trás do seu pescoço e de suas costas, sentando-a no chão. Emanuelle levou as mãos à cabeça, a dor estava insuportável. Sua cabeça girava, como se tudo ao seu redor estivesse lento. Sherlock colocou as mãos firmes entre o rosto da doutora, olhou-a nos olhos, e perguntou:

— Você está bem? Ele fez alguma coisa com você?- A doutora olhou para o homem amarrado no chão. O detetive repetiu a pergunta, ao que Emanuelle sacudiu a cabeça, tentando livrar-se da tontura, então respondeu:

— Não, ele só...bateu em mim algumas vezes. Minha nossa...O que houve com você? -perguntou quando notou a grande mancha de sangue tanto na camisa quanto no rosto do detetive.

— Não foi nada -disse enquanto tirava o celular do bolso. Logo discou uma série de números, esperou alguns instantes, então atenderam o telefone- Lestrade! mande duas viaturas aqui agora! Não importa que horas são! Me escute, houve algo sério aqui...

Sherlock explicava a Lestrade o que tinha acabado de acontecer tanto à Emanuelle, quanto à ele. A doutora ouvia o acontecido, e mergulhou em seus pensamentos. Seja quem fosse que matou aquele homem, agora estava atrás dela. Eles sabiam onde ela morava e sabiam do Pen Drive, e com certeza deveria haver algo muito importante nele para fazerem isso. “Maldito objeto” pensou. Uma coisa é certa: ela tinha que contar a Sherlock; confiando ou não, ele também quase foi morto por causa disso, merecia saber.

— Certo, vou esperar, venham logo -Sherlock desligou o telefone ainda de joelhos, ao lado da doutora.Emanuelle observou o sangramento na testa do detetive, então disse, apontando para o ferimento:

— Isso daí está feio. Me deixe dar um jeito nisso.

A doutora se levantou com dificuldade, e, auxiliada pelo detetive, pôs-se de pé, e foi em direção ao quarto. Sherlock ao se levantar, viu um objeto metálico brilhante atrás do sofá, era a pistola de Wilson. Então, sem pensar duas vezes, ele a pegou com um pedaço de pano e disse: “Emanuelle, traga um par de luvas para mim!”; verificando em seguida o estado do invasor: ainda estava desacordado. A doutora chegou com alguns pares de luva de procedimento, dando um pra Sherlock, e ainda uma faixa e alguns pacotes de gaze. Ela colocou tudo em cima da mesa, e foi buscar um copo grande de água na pia. Sherlock calçou as duas luvas e segurou a arma, verificou se estava carregada, destravando-a em seguida para que, caso o visitante acordasse, não houvesse imprevistos. O detetive sentou no chão, à uma razoável distância do invasor, de frente para ele. Pousou a arma no chão, ao seu lado. Emanuelle veio, e sentou-se de frente para Sherlock, também no chão, calçando suas luvas em seguida. Começou abrindo as gazes e, molhando na água, limpava o rosto do detetive do sangue. Ambos permaneceram em silêncio, Emanuelle concentrada em estancar o sangue de Holmes e ele, em vigiar Wilson. A doutora enrolou a faixa na testa de Sherlock, comprimindo o sangramento e, finalizando já o curativo, disse:

— Isso é temporário, é bom que Lestrade mande uma equipe médica junto, pois você vai precisar suturar isso daí.

— Ele sempre traz. Esse tipo de coisa é comum de acontecer, então ele já vem preparado.

Emanuelle respirou fundo. Mordeu os lábios, e olhou para o chão, fechando os olhos com força, fazendo lágrimas começarem a cair. Então, retirando as luvas sujas com o sangue de Holmes, tirou o pen drive do bolso, e o mostrou para o detetive. Disse com a voz trêmula:

— Eu menti para você. Said, antes de morrer, me entregou esse Pen drive. Eu pensei que ele estava delirando ou algo do tipo. Quando eu soube que ele era do grupo terrorista, morri de medo de minha vida estar em risco por causa disso; então resolvi não contar para ninguém sobre isso, eu não confio nas pessoas…o que parece que não adiantou muito — A jovem escondeu o rosto entre as mãos, e rompeu em lágrimas- Me desculpe! Você se machucou por causa de minhas mentiras, e eu me machuquei por causa da minha incredulidade no mundo. Eu sinceram...

— Eu já sabia -interrompeu Holmes.

— Você...já sabia? -falou, abaixando as mãos do rosto- mas como?

— Descobri hoje de manhã que todos os arquivos foram apagados do computador de Said, sendo provavelmente transferidos para um aparelho de memória portátil. Só não desconfiava que ele estava com você, até o momento que me pegaram, e ouvi que também iriam atrás de você.

— Você...não está com raiva de mim?

— Não -respondeu, desviando do olhar dela, observando Wilson- também não confio nas pessoas, não posso condená-la por isso. Mas você precisa entender que, muitas vezes, vamos ter que agir com as pessoas com confiança, mesmo não confiando nelas, principalmente se você estiver envolvida numa situação como essa.

— Tem razão...tem razão -Emanuelle segurou as duas mãos de Sherlock, o que fez ele olhar de volta para ela com expressão confusa, e franzindo as sobrancelhas. Então ela falou lentamente, com voz firme- Eu prometo que, a partir de agora, farei o que for necessário para a resolução desse caso.

— Tenho sua palavra? -disse Sherlock, se desvencilhando das mãos da doutora, e estendendo a mão esquerda. Emanuelle olhou para a mão dele e enfim, disse:

— Sim, você tem a minha palavra, farei o que for necessário.

— Ótimo -então ambos apertaram as mãos. Emanuelle sorriu aliviada, por ter contado a verdade, ao que Sherlock também esboçou um discreto sorriso.

O momento foi interrompido por Wilson que, amarrado no chão, gemeu e tentava se mexer. A doutora deu um salto do chão, se colocando atrás de Sherlock, que também se levantou e, em tom ameaçador, disse:

— Fique quieto e nenhuma palavra, ou estouro seus miolos no chão com sua própria arma -Ainda enquanto falava as sirenes da polícia começaram a ser ouvidas, ao que o detetive completou, em tom sarcástico- Vamos ter muito tempo para conversar.

Notas finais
E aí? Ansiosos? Fiquem ligados nos próximos capítulos que as coisas vão esquentar. Bjus