Flor do deserto
24 Capítulo 23 - Materialização do caso.
Lestrade entrou numa farmácia em busca de um analgésico. Sua cabeça latejava. Ele não havia almoçado, e a cada instante ele recebia ligações de sua equipe trazendo atualizações sobre o que ocorrera aquela manhã. Ao sair da farmácia, entrou em seu carro e bebeu um generoso gole de água junto com a medicação comprada. Ele esfregou os olhos com as mãos, e fez um exercício de respiração, tentando relaxar. Lestrade ligou o carro, e seguiu rumo ao 221b.
Ao bater na porta do edifício a sra Hudson foi quem atendeu. Ela estava com a feição triste e preocupada ao mesmo tempo. Lestrade não tinha uma convivência diária com aquela mulher, mas mesmo assim percebeu que algo a incomodava.
— Boa tarde sra Hudson, o Sherlock está?
— Boa tarde inspetor Lestrade. Não, ele ainda não chegou.
— Entendo. Sra Hudson, está tudo bem?
— Não, as coisas não estão muito bem...o senhor veio buscar alguns papéis, certo?
— Sim, fiquei de pegar alguns documentos com Emanuelle. Mas, porque as coisas não estão muito bem?
— Entre, eu lhe explico.
Lestrade entrou, retirou os agasalhos, pendurando-os perto da porta de saída. A senhora explicou o que acontecera enquanto subia as escadas rumo ao apartamento de Emanuelle:
— Eu e Emanuelle estávamos almoçando quando soubemos o que aconteceu. A morte daquele jovenzinho, os protestos, a violência. Emanuelle parou de comer na hora e ficou atônita, olhando para a televisão. Mas de repente ela correu para o banheiro e vomitou tudo o que comeu no almoço. Eu fui atrás dela. A coitadinha estava passando muito mal. Ela lavou o rosto na pia. Ela estava de pé, olhando para si mesma no espelho, quando ela perdeu as forças nas pernas e caiu sentada no chão. Eu corri e a abracei, mas ela não conseguia levantar. Apenas chorava muito, ao ponto de soluçar, enquanto repetia “mas que inferno” entre os soluços. Eu tentava acalmá-la, mas ela estava inconsolável. Sem dizer nada, ela apontou para o armário que ficava do lado do espelho do banheiro. Então eu me levantei e o abri. Estava cheio de medicações, ela apontou para um frasco e eu o peguei. Ela tomou algumas cápsulas, e entre soluços me pediu para levá-la até a cama. Com um pouco de dificuldade ela conseguiu chegar até o quarto, e se sentou com cuidado no colchão. Ela respirou fundo algumas vezes, o remédio começava a fazer efeito. Ela se acalmou um pouco mais, tornando possível a fala, e disse que ela não estava se sentindo nada bem, e que tomou aquelas medicações para dormir. Disse que se deitaria um pouco, para tentar se acalmar. Ela então pendeu para o lado, cobriu-se com o lençol, e antes que caísse no sono, me avisou que estava esperando a sua visita Inspetor, que o senhor iria pegar uma pasta que estava encima da mesa da cozinha.
Ambos tinham acabado de chegar ao 221c, a sra Hudson abriu a porta e, seguida por Lestrade, foi direto para a cozinha. O Inspetor abriu a pasta, e passou uma vista rápida nos documentos. Sentiu-se bem ao saber que agora tinha algo contra os criminosos, e que eles não estavam tão na vantagem assim. Ele guardou os documentos na pasta, e disse para a senhora Hudson:
— Eu posso vê-la?
A senhora disse que sim com a cabeça, indo em direção ao quarto. Lestrade a seguiu. A mulher abriu vagarosamente a porta, mostrando a Lestrade a jovem que dormia envolta em lençóis, sob o efeito do calmante. Ambos ficaram por um momento parados à porta, observando-a dormir. Lestrade então deu um passo atrás, permitindo a sra Hudson fechar a porta. Ele comentou, preocupado:
— Isso é muito ruim. Tenho pena dessa jovem, passando por esse inferno.
— Não deve ser fácil para ela saber que tem gente que está morrendo por causa dela...coitadinha.
— Ela era a única que estava nos ajudando com a tradução dos documentos. E não sei se ela vai conseguir continuar depois do surto de hoje. Droga! -Lestrade socou o ar, irritado- não temos muito tempo, e eu não consigo arranjar ninguém que traduza árabe que esteja disposto a nos ajudar!
— Árabe você disse?
— Sim, porque?
A senhora abriu um largo sorriso, e perguntou:
— Vocês precisam de alguém que traduza árabe? É isso?
— Sim, sim, sim! Pelos céus mulher, diga logo, está me deixando nervoso! -disse Lestrade, cheio de ansiedade.
— Eu conheço alguém! Ele não é um tradutor ou professor da língua. Ele é apenas um historiador e um amante da literatura árabe antiga. Ele aprendeu o idioma só para poder ler os escritos antigos do original, acredita nisso?
— Onde eu posso encontrá-lo?
— Ah, eu posso passar o número dele para você. Se ele perguntar como você conseguiu o contato, diga que foi a senhora cereja.
— Senhora cereja? -perguntou Lestrade, com tom de curiosidade, se segurando para não rir.
— Sim, era como ele me chamava na época da faculdade. Eu adorava bolo com cereja. Bom, eu ainda adoro. Éramos namorados...na verdade ainda hoje nos encontramos, às vezes -falou, dando um sorriso travesso.
— Entendi. Senhora Hudson, eu não tenho nem como agradecer por esse favor que a senhora está me fazendo.
— Tem sim -o sorriso sumiu de seu rosto- pegue esses desgraçados para que esse pesadelo acabe.
Lestrade balançou a cabeça, afirmamente. Ele se despediu da mulher, pegou a pasta, colocando-a debaixo dos braços, enquanto a senhora anotava o número num pedaço de papel. Ela entregou o contato ao Inspetor.
— Vou ligar para ele, avisando que você vai entrar em contato.
— Ótimo, por favor, faça isso -disse, enquanto guardava o papel no bolso.
Lestrade foi em direção à porta de saída e, antes que a cruzasse, voltou-se para a mulher e disse:
— Muito obrigada Sra Hudson, e guarde as minhas palavras: esses criminosos vão pagar por tudo que fizeram.
Dito isso saiu do 221c, desceu as escadas, saiu do prédio e entrou em seu carro. Deu a partida no motor e seguiu rumo à Scotland Yard.
***
As palavras que compunham a lista voavam à sua frente. Ele tentava estabelecer alguma ordem, algum padrão, mas falhava em todas as tentativas. Sua mente voltou à fábrica. Sherlock estava novamente no galpão cheio de areia. No centro, estava o rapaz morto naquela manhã. O jovem estava estático, o olhar fixo no nada. Sherlock se aproximou, examinava com toda atenção o colete. O celular bem preso às bombas, a fiação bem escondida e encaixada por debaixo dos explosivos. O detetive pegou em seu bolso o objeto que ele achou naquele galpão. O observou pela décima vez. Parecia algum tipo de bateria ligada às fiações. O detetive não tinha certeza. Algo chamou a atenção de Sherlock. A área circular e concreto descoberto, estava agora coberto por areia. O detetive se aproximou mais do jovem, puxou seu colete, mexeu no celular acoplado. Nada acontecia. Ele deu as costas ao rapaz olhando em volta se achava alguma coisa, quando de repente aquela pessoa que estava atrás dele resolveu falar. A voz esperada era a do rapaz, mas a que Sherlock escutou o fez hesitar. “Me ajude”, disse a voz familiar pela segunda vez. Sherlock se virou vagarosamente para ver quem falava com ele, embora ele já soubesse. No lugar do rapaz ruivo, estava Emanuelle com o colete mortal acoplado ao seu corpo. “Me ajude”, repetia ela pela terceira vez, as lágrimas já desciam pelo rosto. Sherlock ficou estático, não conseguia sair do seu lugar. De repente o celular começou a piscar e a fazer um barulho como em contagem regressiva. O detetive correu para a jovem, e do mesmo jeito que de manhã, tentou procurar por algum meio de desarmar a bomba. A contagem estava acabando, e Sherlock sabia que estava ficando sem tempo. “Me ajude” disse novamente, “estou tentando” respondeu Sherlock com um rosnado. Ele puxava o colete com violência. A jovem subitamente agarrou o seu pescoço, falando em seu ouvido: “Você vê mas não enxerga. Você perdeu o foco”. Em seguida ela puxou o rosto dele para si, o beijando rapidamente, e afastou-o em seguida. “Você é fraco Holmes!!” Ela gritava repetidamente para ele. Em seguida a contagem acabou e a bomba explodiu. Holmes foi impulsionado com toda a força para trás, caindo à uma boa distância do centro. Ele se levantou, e olhou para onde estava a jovem. Não havia mais ninguém lá, mas a área circular de concreto descoberta acabara de reaparecer. No centro da área estava no chão o objeto esquisito que ele achou, com as fiações soltas. De frente de onde ele estava, um homem surgiu em meio à escuridão e andava em direção ao detetive. Era Mycroft.
— O que você vê? -perguntou secamente o Holmes mais velho.
— Uma área de concreto descoberta. Deveria haver areia aqui.
— Que genial, para um garoto de 5 anos.
— O que você quer Mycroft?
— Porque essa área está descoberta?
— A explosão… -Sherlock lembrou-se de Emanuelle. A jovem então surgiu ao lado de Mycroft. Ao ver que o irmão mais novo parou de falar e fitou a jovem com olhar preocupado, Mycroft provocou o Holmes mais novo:
— Fraco! Eu sabia que você era fraco! Anda! Continua! O que você vê!?
— A explosão…-Sherlock dividia a atenção entre o irmão e a jovem- a explosão foi o que fez com que a área ficasse descoberta.
— Muito bem… e isso significa que…-Mycroft se aproximou de Sherlock.
— Significa…-Sherlock não sabia o que dizer. Não conseguia pensar. Apenas olhava para a jovem, queria saber se ela estava bem.
Mycroft de repente então com o guarda-chuva que estava em suas mãos deu um forte golpe nas costas do detetive, fazendo-o se ajoelhar por causa da dor. Emanuelle e Mycroft ficaram lado a lado, de frente para Sherlock. O Holmes mais velho e a médica então deram um passo para o lado, abrindo um espaço no meio entre eles, surgindo uma figura que fez todos músculos do detetive se retesarem. Uma voz mansa, com uma certa entonação instável encheu o ambiente, e o dono dela puxou uma pistola do paletó indo em direção ao detetive ajoelhado, perguntando: “Você sentiu a minha falta”?. Moriarty encostou a arma na cabeça do detetive e riu de forma maníaca. Ele disse: “Querido, é uma decepção ver você assim. Você baixou a guarda mesmo não é? Fraco! Fraco! É hora de acordar”. Moriarty puxou o gatilho. Sherlock foi impulsionado para trás. Ele abriu os olhos, percebendo que estava deitado de costas no carpete do escritório de John. Sherlock suava frio. Ele se levantou do chão, pegou a lista consigo. Olhou-a sem respostas. Uma onda de raiva subitamente fez seu peito arder. O detetive esmurrou a porta de madeira do escritório, praguejando. John abriu a porta um tempo depois, viu o amigo de pé, com uma das mãos na cintura e a outra esfregava os olhos.
— Sherlock, está tudo bem? Eu ouvi uma batida forte na porta.
— Não, não está nada bem Watson -rosnou o detetive- não consigo chegar à lugar nenhum. Estou andando em círculos!
— Como assim? Porque? -perguntou Watson, confuso.
— Porque eu estou doente.
***
Lestrade estacionou o carro longe da Scotland. Devido à confusão ali mais cedo, a frente do prédio estava cheia de cavaletes, dificultando o acesso ao local. A chuva tinha dado uma trégua, ao que o inspetor agradeceu aos céus por isso. Ele entrou na Scotland Yard e foi até seu escritório. Assim que abriu a porta, viu um homem sentado na sua cadeira. Era Harrison. Lestrade respirou fundo, já sentindo o estresse que passaria nos próximos minutos. Ele entrou na sala e atrás da porta estava um dos agentes de Harrison, o qual fechou a porta assim que Lestrade entrou na sala. O inspetor foi quem iniciou a conversa, com uma discreta irritação na voz:
— Senhor, o que faz aqui?
— Vim buscar resultados.
— Mas senhor, começamos a trabalhar ontem. O material está todo em árabe, e só conseguimos traduzir isto até agora -disse Lestrade, apontando para a pasta debaixo de seus braços.
Harrison fez sinal para que seu agente pegasse a pasta e levasse até ele. O chefe de segurança folheou os papéis rapidamente.
— O que é isso? -perguntou
— Alguns prováveis suspeitos.
— Ótimo, já podemos agir -disse, colocando a pasta debaixo dos braços e levantando-se da cadeira.
— Senhor não -protestou Lestrade, se colocando entre o homem e a saída- não temos certeza! Ainda estamos traduzindo as outras fichas. Nessa pasta podem ter possíveis alvos também.
— Simples: prendemos todos, e o interrogatório vai dizer quem é quem.
— Não pode fazer isso! Não pode prender pessoas sem um motivo concreto! Isso vai gerar uma revolta popular.
— Deixe que eu me preocupo com isso, Ok? Só faça seu trabalho e deixe o resto comigo
— Mas senhor…
Harrison bateu com a mão na mesa, dando um pequeno susto em Lestrade, fazendo-o se calar imediatamente. Harrison apontou o dedo de forma ameaçadora para Lestrade, falando:
— Mais uma objeção sua, e você passará o resto de seus dias limpando os banheiros dessa maldita instituição, entendeu?
Lestrade baixou a cabeça. Suas têmporas latejavam em indignação. Então, sem dizer uma palavra, ele puxou uma foto do seu bolso, entregando-a a Harrison. Era a foto da tatuagem na parte interna da boca de Said.
— O que é isso?
— É a marca dos suspeitos senhor -respondeu Lestrade, ainda com a cabeça baixa. Sua raiva era quase palpável- os membros do Hukm Allah usam essa tatuagem dentro da boca. Se o senhor vai fazer prisões em massa, aí está o motivo concreto.
O homem observou a foto. Guardou-a no bolso, e deu um sorriso sarcástico para Lestrade, dando-lhe uma batidinha de leve nas costas, comentando “bom menino”. Antes de sair, Harrison comentou:
— Continue fazendo seu trabalho inspetor, e um dia quem sabe será tão bom quanto eu. Tenha um bom resto de dia.
Lestrade rangeu os dentes, respondendo quando Harrison saiu da sala:
— Eu jamais serei um canalha feito você.
***
John e Mary estavam sentados no sofá. Sherlock estava sentando de frente para eles numa cadeira. O detetive estava encurvado, com os cotovelos sobre a coxa. Suas mãos juntas, pairavam à frente de seu rosto. O olhar dele era nervoso, Watson da última vez que o viu desse jeito foi em Dartmoor, na noite que o detetive viu o cachorro-monstro no bosque. John balançava a perna, impaciente. Mary pousou a mão sobre a perna inquieta do marido, fazendo-o parar com o tique. John foi quem tomou a palavra e rompeu o silêncio que estava a pelo menos cinco minutos assim.
— Bom Sherlock. Você nos chamou, disse que precisava conversar conosco. Bom, estamos aqui à cinco minutos. Qual o problema?
O detetive endireitou-se na cadeira, respirou fundo por um momento e respondeu:
— Vocês me conhecem a um bom tempo, o John ainda mais. Sabem que eu não processo emoções, e o sentimentalismo para mim é uma ciência tão desconhecida quando a astronomia.
— Aonde você quer chegar Sherlock?! -perguntou John, impaciente.
— Tem algo errado acontecendo comigo. Não consigo identificar o que é. A única coisa que sei é que isso não está me deixando pensar, nem chegar a nenhuma conclusão.
— O que seria “isso” -perguntou Mary, se inclinando para frente, mostrando interesse no que o detetive falava.
— Emanuelle.
Ambos Watson se olharam.
— Como é que Emanuelle está te impedindo? Não entendo. -John perguntou, mas tinha uma grande desconfiança que a sua teoria estava certa: Sherlock estava sentindo.
Sherlock levantou-se da cadeira, e passou a andar de um canto a outro da sala com as mão para trás. Falava enquanto andava:
— De alguns dias para cá, ela tem aparecido em meus pensamentos e no meu palácio mental, atrapalhando minhas deduções. Tenho agido de forma irracional sempre que ela vem em meus pensamentos. Não consigo tirá-la da cabeça, quero estar perto sempre. É como se…-Sherlock hesitou, falando quase num sussurro- eu não fosse eu mesmo.
Sherlock parou de andar, passando as mãos pelas têmporas, explodindo em seguida:
— Mas que inferno! Eu não posso estar sentindo! É impossível! Sou um sociopata funcional! Isso deve ser abstinência de nicotina! Rápido, me deem um cigarro!
John queria gritar. Agora mais do que nunca confirmara que Sherlock estava sentindo. Só algo tão desconhecido e ameaçador quanto os sentimentos faria com que Holmes agisse daquele jeito. Ele estava claramente com medo, embora nunca admitiria isso. Entretanto da euforia, Watson passou à angústia. Sherlock não estava sabendo lidar com aquilo, e se ele não resolvesse isso logo, poderia sair muito machucado, como também a própria Emanuelle. John foi interrompido de seus pensamentos por Mary, que interveio:
— E se o cigarro não resolver, o que você tem em mente?
— Me afastar do causador do problema. Vou me afastar de Emanuelle. Por algum motivo aquela mulher me afeta, e, até que eu descubra, vou manter distância.
John respirou fundo. Tinha que dizer a verdade para o amigo, mesmo que ele não aceitasse. Quanto mais cedo ele soubesse, mais cedo ele aprenderia a lidar com isso. Para o próprio bem dele.
— Sherlock, escute com muita atenção: eu acredito que você está gostan…
— Gastando seu tempo em vão -Mary interrompeu, apertando com força o joelho do marido. John entendeu o recado, e parou de falar.
— Gastando meu tempo? Seja mais clara sra Watson -Sherlock sentou-se novamente na cadeira, curioso para saber o resolução final dos Watson.
— Ora, a resposta está bem à sua frente! -Mary riu, colocando as palmas das mãos para cima- A nossa querida doutora é a materialização do caso que você tanto quer solucionar!
Sherlock estreitou os olhos, parecia desconfiado mas ao mesmo tempo disposto a ouvir.
— Continue -disse o detetive.
Mary se inclinou para frente, colocando o cotovelo nos joelhos.
— Toda essa história começou por causa de Emanuelle. Ela que recebeu o Pen Drive, ela que falou com o rapaz falecido, ela que está sendo ameaçada pelos terroristas...entenda Sherlock, ela está envolvida em todos os eventos importantes do seu caso, logo é como se ela o representasse na sua mente -Sherlock estava calado, parecia absorver tudo que Mary falava- por isso que você está sempre pensando e preocupado com Emanuelle, isso é sua consciência ansiando pela resolução do caso -Sherlock passava os olhos pelo carpete que o separava do sofá em que os Watson estavam sentados, ele absorvia tudo que Mary dizia- e mais uma coisa, se você pensa que se afastando de Emanuelle irá resolver, está muito enganado! É como se você estivesse se afastando do caso, e eu te conheço Sherlock, você não aguentaria isso. E pode ter certeza que toda essa sua perturbação mental iria piorar.
Mary parou de falar, observando a reação de Sherlock. O detetive permanecia impassível, o olhar distante. O silêncio pairou naquela sala. Depois de certo tempo, o próprio Sherlock quebrou o silêncio, levantando-se da cadeira.
— Obrigada sr e sra Watson pela estadia temporária. Vou voltar para casa.
O detetive fez sinal com a cabeça e se dirigiu para a porta. Ao ver a lista encima da mesa, ele a mostrou para John comentando:
— Eu fico com isso.
Dito isso, saiu, fechando a porta atrás de si.
Esposa e Marido permaneciam sentados no sofá. John olhou com curiosidade para Mary, e perguntou:
— Que história é essa de materialização do caso?
— Ah, eu menti -disse, levantando-se do sofá e indo para a cozinha.
— Mentiu?
— Sim. Pela descrição dele, ele está gostando dela mesmo, tadinha -disse Mary, em tom zombeteiro.
— Mas então porque…
— Porque não falar? -Mary interrompeu, enquanto quebrava alguns ovos na frigideira- John Hamish Watson, você acha mesmo que seu amigo teimoso, feito de mármore, frio e calculista iria admitir que dentro dele bate um coração feito de carne?
— Não -bufou John
— Pois é, ele nunca admitiria isso. A não ser que ele mesmo chegasse a essa conclusão. E eu dei a chance dele fazer isso, fiz ele entender que precisa ficar perto dela, se quiser resolver o caso. Quanto ao resto, vai acontecer naturalmente.
— Será que ele acreditou no que você disse?
— Eu não sei, eu mesmo não acreditaria. Mas uma coisa é certa, ele resolveu não ficar mais longe.
Watson não respondeu mais nada. Estava encostado na parede, observava Mary fazer o omelete. Ele então riu, comentando em seguida:
— É por isso que eu me casei com você.
— Ah, que é isso, esse omelete não é tão bom assim.
Ambos riram e Watson se aproximou de Mary, beijando-a. O choro de Rosie interrompeu o momento do casal.
— Deixa que eu vou -se prontificou o marido- mas isso vai custar um pedaço maior do omelete hein.
Mary ria, enquanto John saia da cozinha e ia em direção ao quarto, atender à pequena Watson.
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