Flor do deserto
25 Capítulo 24 - Estresse pós-traumático
Emanuelle acordou com o frio invadindo seu quarto. Tinha deixado a janela aberta. A jovem levantou-se da cama e foi em direção à janela para fechá-la, ainda estava zonza. Assim que trancou a vidraça, ela encostou-se na janela e olhava a rua. A noite tinha caído sobre a cidade. Os enfeites natalinos iluminavam a rua. As lojas da tinham a sua sacada repleta de luzes. Pendurados de um lado a outro da rua, havia presentes e bonecos de neve, desenhados em luz de led. Em algumas casas dava para ver pela janela as árvores de Natal bem enfeitadas e os presentes que já se acumulavam abaixo dela. Era uma bela vista. “Eu poderia ficar a noite inteira aqui”, pensou. O clima natalino trazia boas lembranças para a jovem. Também trazia uma sensação boa no peito, uma pequena chama de esperança e paz. “Paz”, ela pensou. Abanou a cabeça negativamente, ao saber que a paz estava longe de acontecer naquele momento. Emanuelle voltou para a cama e enrolou-se nos lençóis, queria voltar a dormir. Não conseguia. A foto do jovem morto naquela manhã veio novamente à sua mente. Emanuelle sentiu uma dor no peito, mas não era um incômodo físico. Era uma dor resultante de sua tristeza e indignação pela morte do rapaz, de mãe e filha na casa que explodiu, dos protestos nas ruas, do terror imposto às pessoas daquele país. “Por minha causa...maldito Said” ela repetia para si mesma. Logo começou a chorar novamente. Mas além de chorar ela queria gritar, como se a dor fosse sair de seu peito com isso. Ela contorceu-se na cama, seus músculos retesados, seus punhos fechados. Ela chorava agora com raiva, abraçando o travesseiro contra seu corpo. Lembrou-se das vezes que fizera isso quando criança, fazendo com que as lembranças mais tristes dessa fase voltassem à sua mente. Emanuelle gemeu ao ver aquelas imagens novamente em sua mente. “Chega” repetia baixinho para si mesma, num gemido. Ela já não aguentava mais, queria dormir novamente. Ela se levantou, foi em direção ao banheiro buscar mais medicação para dormir. Ela pegou o frasco do remédio que tomou mais cedo, e sentou-se na cama. Pegou o dobro dos comprimidos que tomou antes. Emanuelle sabia que aquela dosagem era perigosa, que ela correria o risco de não acordar mais. “Dane-se, eu não aguento mais essa dor. Se eu acordar, acordei; se eu não acordar, melhor ainda”, disse para si mesma, brincando com os comprimidos na mão. Ela foi na cozinha, colocou as medicações no balcão, pegou um copo e o encheu de água. Enquanto ela o enchia, ouviu um som familiar e suave. Ela fechou a torneira e prestou atenção no que ouvia. Era um violino. Ela prestou ainda mais atenção, percebeu que estava sendo tocada a música “My Immortal”. Ela seguiu o som, e percebeu que ele intensificava à medida que ela se aproximava da porta de entrada. Ela colocou o ouvido na porta. Parecia que alguém estava tocando do outro lado da sua porta. “Será que…”, pensou resolvendo abrir a porta. Para a surpresa da doutora, ela se deparou com Sherlock tocando o violino à sua porta.
Holmes parou de tocar só após finalizar a música. Ele abaixou o violino, comentando em seguida:
— Achei uma idéia melhor do que invadir de novo a sua casa.
— Tenho que concordar -riu, tímida- você toca muito bem. Como sabia que eu gosto…
— Dessa música? -interrompeu Sherlock- pela quantidade de músicas de Evanescence que tem em seu celular, era meio óbvio.
— Você xeretou meu celular...quer saber, deixa pra lá -disse, abanando as mãos- obrigada pela música.
Sherlock fez sinal com a cabeça, agradecendo de volta. Após um curto e incômodo silêncio, Emanuelle perguntou:
— Bom, além de tocar, porque veio aqui?
— Vim buscar meu notebook.
— Ah, sim! Me desculpe, esqueci de devolvê-lo, por favor entre.
Sherlock deixou o violino na mesa de centro e seguiu Emanuelle até a cozinha. Ela indicou o computador sobre a mesa, mas os olhos de Sherlock captaram outra coisa. Ele olhou para os comprimidos no balcão e para o copo de água cheio. Ele foi em direção ao balcão e pegou os comprimidos. Emanuelle arregalou os olhos, ao ver que ele pegou as medicações, indo após ele para tomá-las de volta. Sherlock cheirou os medicamentos. Olhou para a jovem, seu olhar indignado.
— Isso não vai resolver o problema Emanuelle.
— Não sei do que você está falando -disse, tentando pegar da mão dele os remédios, no que ele fechou o punho, colocando a mão para trás- estou com um pouco de dificuldade para dormir, só isso! Me dê Sherlock!
A jovem tentava pegar as medicações da mão do detetive, no que ele passava os comprimidos de uma mão para outra, desviando de Emanuelle. A cena era cômica, pareciam duas crianças brigando por um doce. Emanuelle desistiu, esperneando. Ela deu as costas para Sherlock, se afastando um pouco. Ela voltou-se então e disse com raiva:
— Você não entende! Desde que isso começou eu não tive mais paz! Já tentaram me matar, me abusar e agora estão chantageando a polícia para me entregar! E quanto aqueles que morreram? Mãe e filha, o jovem de hoje...e os protestos! -Emanuelle começou a chorar novamente, mas dessa vez era de raiva- Tudo isso está me sufocando e eu não aguento mais! Quantos mais vão ter que morrer pela preservação da minha identidade? -Emanuelle se apoiou sobre uma das cadeiras da mesa da cozinha. Ela respirou fundo, deixando as lágrimas caírem.
Sherlock permanecia impassível. Ele jogou os comprimidos no ralo da pia e se aproximou da mulher, e disse de forma repreensiva:
— Você é mais tola do que eu pensei.
— Tola? -perguntou Emanuelle, indignada.
— Você não percebe? Só estão fazendo isso porque querem destruir todo o país, e estão usando você para isso.
— Obrigada por me avisar, isso me ajuda muito.
— Eles não querem atingir você Emanuelle! -disse irritado- Pare de se culpar e se vitimizar por algo que não é sua responsabilidade! Se quer culpar alguém culpe a Scotland, culpe o incompetente do Harrison, culpe até a mim! Mas o que não faz sentido é você continuar sofrendo assim por isso, e ainda tomar uma atitude estúpida quando ainda precisamos de você.
— Vocês podem conseguir outro tradutor -disse, olhando para a mesa.
— Já conseguimos, falei com Lestrade -Emanuelle olhou surpresa para Holmes, balançando negativamente a cabeça- a questão não é essa. Você é essencial para esse caso de muitas formas. Sua perda seria de grande prejuízo, então aconselho que se mantenha viva.
Emanuelle balançou a cabeça concordando. Mas Sherlock não estava convencido, então ele se aproximou mais da jovem, falando no mesmo tom baixo da noite anterior. Emanuelle arrepiou-se, lembrou da noite anterior e novamente ela corou. O detetive disse:
— Você me prometeu que faria o que fosse necessário para a resolução desse caso. Então mantenha-se viva e cumpra sua promessa.
A jovem concordou novamente balançando a cabeça, sem olhar para Sherlock. Não ousava olhar para ele, estava muito perto ao ponto dela poder ouvir sua respiração. Emanuelle sentiu novamente a sensação boa no estômago da noite anterior, mas não se entregou dessa vez. Ela rodeou a mesa, sentando-se o mais longe possível do detetive. Ela puxou o notebook para si e o abriu, tentando escapar daquele momento. Ela falou então, com os olhos fixos na tela:
— Bom, enquanto o outro tradutor não chega, posso adiantar algo. Vou começar a traduzir a segunda pasta com…
— Não -interrompeu Sherlock, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado da jovem- preciso que você traduza outra coisa. Você falou sobre uma pasta de bombas.
— Sim, eu dei uma olhada nelas e tinha algo sobre linha de montagem e projetos de explosivos, mais ou menos isso.
— Ótimo, faça essa, deixe que o tradutor termine as fichas.
Eram vários ficheiros dentro da pasta. Emanuelle começou abrir os documentos. Alguns eram desenhos de montagem e fiação eletrônicos; outros eram fotos de cálculos químicos. Havia ainda alguns livros em inglês de química industrial e um livro de física sobre magnetismo. Um ficheiro chamou a atenção da jovem. Quando ela abriu, viu que eram vídeos. Ao abrir a mídia quem apareceu na tela foi Said. Ele estava testando algumas bombas no galpão cheio de areia que Sherlock visitou na fábrica. O detetive se aproximou da tela, seus olhos brilharam na conclusão que chegara.
— Esse é o galpão de testes. Era essa a resposta que Mycroft queria -disse para si mesmo.
— Hein? -perguntou Emanuelle.
— Nada, pensei alto.
A doutora abriu vídeo por vídeo, e um após o outro mostrava diferentes tipos de explosivos sendo testados,cada um com um diferente poder de destruição. Sherlock observou atentamente cada vídeo. Entretanto nenhuma das explosões deixou o chão do galpão da forma que Sherlock viu quando foi na fábrica. “Aquilo deve ter sido feito depois da morte de Said”, pensou o detetive.
Emanuelle encostou-se na cadeira, e perguntou:
— Por onde começo? Tem muita coisa aqui.
— Comece por algum que esteja falando sobre esboços, rascunhos, projetos, qualquer coisa relacionada à algum explosivo em fase de testes.
— O que tem em mente? -Emanuelle olhou para Sherlock ao fazer a pergunta. Ela fez exatamente o que sua cabeça disse para não fazer: ela o olhou nos olhos. Sherlock fitou a médica enquanto respondia.
— Não acho que eles estejam tão desesperados assim só por causa de algumas fichas de identificação. Said estava envolvido num projeto de explosivo, e segundo a namorada, ele não queria que caísse nas mãos erradas. Com certeza deve haver algo muito importante aí.
Por causa da iluminação do computador, os olhos de Sherlock passaram de um azul acinzentado para um azul vivo. Emanuelle estava estática encarando o detetive, nunca vira aquela tonalidade antes. Ela sentiu seu coração acelerar, borboletas voavam novamente no estômago. Ao perceber o que acontecia ela piscou os olhos algumas vezes e voltou-se rapidamente para o computador, despertando de sua momentânea hipnose. Apesar de gostar do que estava sentindo naquele momento, ela não quis dar ênfase à essas novas sensações, então dispensou Sherlock educadamente:
—Entendi. Pode ir para casa senhor Holmes -disse, endireitando-se na cadeira- isso daqui vai demorar um pouco. Assim que tudo estiver pronto eu aviso, e se eu achar algo importante eu aviso também.
Sherlock levantou-se e colocou a cadeira no lugar. Antes de sair da cozinha ele colocou uma das mãos sobre o ombro de Emanuelle, perguntando:
— Posso confiar que você vai manter sua promessa?
— Sim -respondeu baixinho.
— Olhe para mim.
Emanuelle balançou a cabeça em negativa. Sherlock respirou fundo e se colocou à frente dela, falando inexpressivamente:
— O que quase aconteceu conosco ontem de noite foi algo resultante de um estresse pós-traumático. Nossas vidas foram ameaçadas, e ,quando o perigo se foi, nosso corpo procurou alguma forma emergencial para relaxar. Não se preocupe, isso foi apenas um distúrbio químico-fisiológico de nosso sistema nervoso, nada além disso.
— Isso! Foi só um distúrbio temporário, não vai acontecer de novo -ela concordou rapidamente.
— Excelente. Sem sentimentalismo.
— Zero sentimentos.
Ambos se calaram. Sherlock permanecia de pé olhando para a mesa e Emanuelle olhava para o computador. O silêncio foi cortado por Sherlock:
— Boa noite senhorita Goes, vou deixá-la trabalhar.
— Até amanhã senhor Holmes.
Sherlock saiu da cozinha e pouco tempo depois Emanuelle escutou o barulho de sua porta de entrada sendo fechada. Ela repetia para si mesma o que tinha acabado de dizer para Sherlock, como se quisesse se convencer disso: “Não vai acontecer de novo”
***
O filho de Carl suava frio na cama. Ele aos poucos acordava da sedação temporária que fora submetido. A cicatriz em seu abdômen incomodava, e logo ele sentia as dores consequentes à microcirurgia clandestina que fora submetido. Carl se sentou ao lado do filho, comentando com um sorriso no rosto:
— Estou orgulhoso de você meu filho. Você não faz idéia de sua importância em todo esse processo.
— Conseguiram os papéis do projeto? -perguntou o jovem.
— Não.
— Como vou saber se vai dar certo? Ainda estamos em fase de testes.
— É verdade -Wilson colocou a mão no ombro do filho, e se inclinou para falar-lhe mais de perto- mas aquilo que temos já é o suficiente.
— Suficiente para quê? -Wilson esboçou um sorriso maníaco.
— Para fazer o povo destruir esse lugar com suas próprias mãos.
Pai e filho ainda conversavam, quando uma terceira figura entrou naquele ambiente. Era o chefe do Hukm Allah. Ele vestia aquelas clássicas roupas verdes de bloco cirúrgico. Fora ele quem fizera a microcirurgia no filho de Carl. Ele se aproximou dos dois homens. Wilson ao ver o chefe se aproximar, levantou-se e saudou o homem.
— Como você se sente meu jovem?
— Um pouco enjoado e dolorido. Nada além disso senhor.
— Ótimo. Isso faz parte. Você está sofrendo por uma boa causa. Logo logo você cumprirá seu excelente propósito. Lembre-se de quem é seu principal alvo.
— Sim senhor. Pode confiar que tudo sairá de acordo com o plano.
— Excelente. Era isso que eu queria ouvir.
***
A lareira flamejava e as chamas dançavam. Aquela noite estava muito fria. Sherlock estava sentado no carpete com as pernas cruzadas, perto do fogo. Ele colocou um agasalho extra aquela noite, além no seu clássico roupão azul. Sua mente estava a mil. Ele vagava pelo seu palácio mental. Sherlock agora sabia para quê servia aquele galpão estranhamente abarrotado de areia. Todos os vídeos dos explosivos sendo testados eram repassados em sua mente, mas nenhum deixou o galpão do jeito que Sherlock o achou. Sherlock estava de volta no galpão. Novamente o detetive se colocou no centro. Ele passou a mão pelo concreto. Estava áspero e consumido. Em seguida foi em direção da areia e cavou até chegar ao concreto que estava por baixo, passando a mão nele. Estava liso e parecia novo. Sherlock voltou-se para o centro e viu que lá estava o estranho dispositivo com os fios soltos que ele achou. Ele o pegou do chão e o analisou por um tempo. Ele aproximou o nariz, mas não cheirava a pólvora queimada. “Estou deixando passar algo” comentou para si mesmo.
Sherlock abriu os olhos, e pegou a lista que Wilson fizera. Ele a leu e releu. Não conseguia fazer as conexões necessárias. Precisava de mais informações.“Preciso pensar” disse para si mesmo, procurando o violino. Ele olhou para o relógio, era final da madrugada. Sherlock queria ter uma noção se aquela era uma boa hora para tocar aquele instrumento nada discreto. Ele procurou por toda sala o instrumento, lembrando-se que o esquecera na casa de Emanuelle, na mesinha de centro. O detetive bufou e saiu do apartamento para buscar seu instrumento. Ele chegou na porta do 221c, pensou em bater, mas dada a hora não seria muito conveniente. Então ele resolveu silenciosamente abrir a fechadura com um grampo de cabelo, obtendo sucesso. Ele entrou silenciosamente. Foi em direção à sala, achando seu violino. Ele o pegou e, antes de sair, olhou para a cozinha. Emanuelle estava sentada de frente para o computador, a cabeça apoiada na mesa. Ela dormia profundamente. Sherlock ficou parado observando a cena e decidindo o que fazer. Ele deixou o violino no sofá e foi para a cozinha. Ele se colocou ao lado dela. Pensou em sacudi-la para a despertar. Mas desistiu ao lembrar dos problemas de insônia da doutora. Teve uma outra idéia. Delicadamente ele puxou a cadeira dela para trás, fazendo-a pender para o lado dele. Sherlock a segurou nos braços e a suspendeu, começando a andar. O detetive sentiu a perna ferida doer, vacilando um pouco na passada. Emanuelle estremeceu, quase acordando; mas a passos lentos, o detetive venceu a dor, e a carregou até o quarto. Ele a colocou na cama, cobrindo-a com o grosso edredom em seguida. Ele encostou-se na porta, observando a médica dormir por um momento. Lembrou-se de seu violino e antes de sair com ele, foi para a cozinha. Seu notebook estava aberto e do lado dele haviam algumas folhas impressas. Era parte dos arquivos já traduzidos. Sherlock recolheu aqueles papéis, o notebook e seu violino e saiu do 221c fazendo o mínimo de barulho.
***
Uma chuva intensa caía sobre a grande cidade naquela manhã. O dia prometia ser bastante frio, fazendo a preguiça duplicar naqueles que precisavam acordar cedo naquela manhã. Apesar disso tudo, o trabalho começou cedo naquela manhã na Scotland Yard. A Sargento Donovan subiu as escadas com dois copos gigantes de café forte. Um seria para ela, e outro para Lestrade. Ela ficou um pouco apreensiva com a ligação de Lestrade na noite anterior, pedindo que ela fosse o mais cedo possível ao seu escritório no outro dia. Ele parecia irritado na ligação. Ela sabia que ele adorava o café da cafeteria de onde ela comprou aquelas bebidas. Ela pensou que se o chefe estivesse de mau humor, aquela bebida quente poderia amenizar um pouco as coisas, e ela estava certa. Ao chegar na sala do Inspetor, ela bateu e em seguida entrou. Lestrade estava encostado na cadeira, e cochilava. A sargente limpou a garganta um pouco alto, despertando o chefe.
— Noite difícil? -perguntou a mulher, colocando o café na mesa. Não era preciso ser Sherlock Holmes para perceber as olheiras que o rosto do homem exibia. Lestrade fez que sim com a cabeça. Ele olhou para o copo de café. Reconheceu a cafeteria.
— Para mim? -perguntou
— Sim. Numa tentativa de melhorar seu humor, o que vai significar um dia mais fácil para mim.
Lestrade pegou o copo, dando um generoso gole na bebida, soltando em seguida um suspiro de satisfação.
— Obrigada Donovan, mas não estou irritado com você. Pelo contrário -a sargento arqueou a sobrancelha curiosa. Lestrade aproximou-se da mesa, colocando os cotovelos nela- eu preciso muito de sua ajuda.
Lestrade colocou o dedo indicador em frente a sua boca, indicando silêncio.Donovan colocou a cabeça para fora da sala, vasculhando o corredor. Ao ver que não tinha ninguém fechou a porta atrás de si. Ela puxou uma cadeira e sentou-se de frente para Lestrade. O inspetor falou o mais baixo que pôde, ao que Donovan teve que inclinar-se sobre a mesa para ouvir:
— Você lembra daquelas fichas dos prováveis suspeitos que estava sendo traduzidas?
— Sim, o que tem elas?
— Não estão mais sobre nosso poder. O Harrison as pegou.
— Aquele chefe de segurança que tem ar de babaca?
— Esse mesmo. Ele pretende prender todos daquela lista.
— Quantos são?
— Cerca de oitenta pessoas.
— Ele é louco? -comentou Donovan, já se exaltando. Lestrade fez sinal para ela baixar a voz- Não temos prova contra essas pessoas. Ele vai gerar uma revolta!
— Eu sei -disse o inspetor, massageando as têmporas- e é por isso que eu preciso de você.
— Como?
— Quero que você faça parte de uma das equipes que vai realizar essas prisões. Lembra da tatuagem interna na boca dos membros do Hukm Allah?
— Sim.
— Ótimo. Eu quero que você prenda somente aqueles que tenham essa marca, entendeu?
— Sim.
— Por favor, me mantenha informado de tudo o que estiver sendo feito. Eu informei àquele palhaço da existência dessa tatuagem, que essa marca deveria ser o filtro de quem deveria ser preso ou não. Mas não sei se ele vai aceitar o que eu disse.
— O senhor sabe que minha ação vai ser limitada. Não terei influência sobre os outros grupos, só o que estiver sob meu comando.
— Eu sei. Posso não impedir o incêndio de acontecer, mas posso impedir que ele se alastre mais do que deveria.
— Entendo -a sargento respirou fundo, não gostava da idéia de se expor desse jeito- e se eu for pega?
— Jogue a culpa em mim. Diga que lhe forcei a fazer isso, se não a demitiria.
— Não pode me demitir, sou concursada.
— Então diga que eu lhe rebaixaria a servente de cafezinhos, sei lá, invente qualquer coisa, mas pode jogar a culpa em mim.
— O senhor está mesmo disposto a se arriscar por isso?
— Sim, estou. Você não viu o que eu vi essa canalha fazer. Esse cara é capaz de tudo para chegar aonde quer, e estou disposto a me arriscar para tentar manter as coisas um pouco sob meu controle.
Donovan encostou-se na cadeira. Parecia reflexiva. Nunca viu o chefe se expor dessa maneira, a não ser pela aberração. Sentiu que a situação era mais séria do que ela imaginava. Ela então respondeu:
— Está certo chefe. Eu farei isso. Mas se eu for pega, não jogarei para o senhor. Se estamos correndo riscos, eu aceito dividi-los. E também não gosto daquele babaca, vai ser um prazer atuar pelas costas dele.
Lestrade riu aliviado, encostando-se na sua cadeira. Era uma das poucas vezes que ele via Donovan ser cooperativa. O motivo não importava, contanto que ela ajudasse no caso.
— Obrigada Donovan.
— Isso deve ser realmente importante -deu de ombros- então, posso dizer que é um prazer fazer parte disso.
Dito isso, Donovan se levantou para sair, mas antes que abrisse a porta, Lestrade comentou:
— Ah, e se ele duvidar de suas intenções; deixe claro que você detesta receber ordens de mim, e que odeia quando eu envolvo Sherlock Holmes nas investigações. Posso dizer que Harrison tem um ódio especial por Sherlock.
Donovan riu discretamente, comentando:
— Isso não será muito difícil de simular.
Dito isso saiu da sala, deixando um inspetor com o coração aliviado, saboreando seu café predileto. Era uma preparação para o dia que iria enfrentar.
Fale com o autor