Flor de Lótus-edward e Bella
3 Capítulo 02- Recuperação
Notas iniciais
Muito obrigada por terem voltado.
Obrigada pelos reviews, por terem me colocado nos favoritos. Agradeço mesmo pela chance.
Bjks
Três dias se passaram desde que o agente Erick Yorkie deixou seu telefone com Alice. Ela não ligou. Devido ao excesso de outros casos, alguns prioritários para a agência, os agentes envolvidos esqueceram a atenção especial ao caso Mattel.
\n\nA vida de Edward decorreria de modo pragmático, tudo arquitetado, não fossem os traumas que o atormentavam. Mais uma noite rolava na cama, suando frio, com as mãos fechadas em punho e lençóis presos nos dedos. Em seu repetido sonho, ajoelhava-se frente a um espelho d’água, procurava seu próprio reflexo entre uma e outra vitória-régia. Algo começara a emergir lentamente na água. Edward debateu-se de um lado ao outro na cama, negando a lembrança. Queria gritar por ajuda, que a tirassem de lá, mas o ar lhe sufocava os pulmões. O grito saiu alto, e o som de seu próprio horror lhe acordou. O choro estava em sua garganta. Sentou-se com os cotovelos nas coxas, agarrou os cabelos e sentiu lágrimas inundarem sua face.
\n\nO dia amanheceu, tomou um banho demorado e vestiu um alinhado terno Gucci. Por diversas horas no dia quis sucumbir à depressão que a lembrança suscitava, mas com a agenda lotada de trabalhos, conseguiu mascarar a amargura com o distanciamento. Ele teria que acompanhar a investigação das equipes que atuavam nas docas e ouvir o relatório da equipe que trabalha monitorando o cartel de Tijuana.
\n\nQuarta-feira, uma denúncia anônima informou a iminência de uma negociação alta de êxtase em uma boate em Beverly Hills. Ao registrar que a informação levava à boate de Emmett Mattel, Edward dispôs-se a cabecear ele mesmo a equipe de investigação. Por noites seguidas não dormiu, usando cápsulas de guaraná e cafeína para manter-se acordado. De dia cumpria sua rotina na Agência e à noite seguia com a investigação nas ruas onde jovens de classe alta transitavam pelas calçadas drogados e bêbados.
\n\nUma parte defensiva de seu organismo protelava ao máximo dormir para evitar os pesadelos que iniciavam no mínimo espaço de inconsciência. Após o banho frio na madrugada de sábado ao chegar da noite de plantão, pôs na boca mais algumas cápsulas de composto de cafeína e guaraná e assistiu a documentários com um copo fumegante de café com chocolate amargo na mão até o sol surgir.
\n\nEdward costumava caminhar ou pedalar aos sábados pela manhã. Desceu pelas escadas nove andares para se aquecer, ajustou no rosto os óculos aviador e arrumou o boné. Antes de sair do prédio, seu telefone tocou.
\n\n‒ Bom dia, Edie ‒ seu pai o cumprimentou empolgado do outro lado da linha.
\n\n‒ Olá, pai.
\n\n‒ Que voz desanimada é essa?
\n\n‒ Estou exausto ‒ confessou. ‒ Não tenho boas noites de sono ‒ explicou ao pisar o calçadão.
\n\n‒ Então acho que meu telefonema será proveitoso. Estou pensando em voar para Nevada. Vamos comigo? ‒ propôs. ‒ Podemos ver se seu irmão larga um pouco Mariah e vai conosco a um cassino em Vegas.
\n\nO filho suspirou e balançou a cabeça.
\n\n‒ Eu estou em uma investigação ‒ revelou sem ânimo. ‒ Não posso sair da cidade.
\n\nAvistou um banco e sentou-se. A conversa renderia, presumiu.
\n\n‒ E essa investigação seria sobre Emmett Mattel? ‒ seu velho questionou preocupado.
\n\n‒ Sim ‒ admitiu, olhando o movimento das ruas. Ouviu um suspiro longo.
\n\n‒ Filho, eu já disse para deixá-lo em paz ‒ advertiu austeramente.
\n\n‒ Só vou deixá-lo em paz quando a justiça for feita. Não posso ser um profissional completo se não resolvo um caso de casa.
\n\n‒ Não existe um caso de casa... Se quer fazer justiça, volte para a faculdade e vá para os tribunais acusar, como seu irmão. Mas se não, se prefere julgar, siga a minha carreira. Você não precisa perseguir ninguém para contribuir para a Justiça no país ‒ discursou cansado.
\n\n‒ Você acha que eu sou policial por falta de opção, não? ‒ retrucou magoado. ‒ Não é, pai. Eu me realizo.
\n\n‒ Não se realiza ‒ rebateu. ‒ Se fosse realizado, estaria levando sua vida adiante como uma pessoa normal. Diga-me, filho, você tem uma vida? Tem amigos? Alguma namorada?
\n\n‒ Minha vida é meu trabalho ‒ defendeu-se, encostou as costas no banco e suspirou.
\n\n‒ Você pode ter uma vida, filho. Saia, abuse da herança que sua mãe deixou, viaje, viva ‒ aconselhou enérgico, infeliz em ver seu caçula perder a juventude numa teimosa perseguição.
\n\nEdward respirou fundo, amargo. Queria poder viver sem o sentimento de perda que comprimia o peito.
\n\n‒ Depois que eu terminar esse caso, vou tentar ficar mais desprendido do trabalho.
\n\n‒ Vou acreditar ‒ comentou descrente. ‒ Se cuida, filho ‒ despediu-se pesaroso.
\n\n21h, Edward tomou o terceiro banho gelado do dia para despertar, passou em frente ao espelho e notou que sua aparência estava um caos. A barba não era feita há quatro dias. Em volta dos seus olhos tinham olheiras, e seu cabelo louro-escuro não tinha corte, caído no olho. Seus reflexos estavam comprometidos pelos dias sem dormir, estava irritadiço e impaciente.
\n\nAntes de deixar sua casa, pôs outra arma no bolso interno da jaqueta, recheou os bolsos com balas de hortelã e cápsulas de energéticos que encontrou na gaveta do banheiro e seguiu para o local combinado com a equipe.
\n\nÀs 23h, cada um dos nove integrantes das duas equipes encontrava-se em seus postos usando suspensórios táticos, jaquetas equipadas e rádios de comunicação em vigilante atenção. Três da manhã, a agitação de carros luxuosos nas ruas diminuiu. Um movimento suspeito chamou a atenção do chefe da operação: uma pick-up com logomarca de bebidas energéticas encostou-se à área de carga e descarga da boate de Emmett Mattel. Edward lutou bravamente contra o sono e os reflexos lentos resultados de mais de 70 horas sem dormir. Esfregou os olhos e acessou o comunicador.
\n\n‒ Zero três e zero quatro ‒ chamou Erick e Mike conforme suas posições. Iria testá-los esta noite. ‒ Em ação. Somente visualizem ‒ orientou no rádio. Os dois caminharam até a porta de carga e descarga da boate.
\n\nDesceram do carro dois homens negros, um, alto e musculoso; outro, careca e gordo. Abriram a lateral da pick-up e pegaram duas caixas. Sem que o chefe autorizasse, Mike os abordou.
\n\n‒Mãos para cima, seus filhos da puta! ‒Mike ordenou, apontou a arma e chutou um entregador nos testículos. Edward abriu a boca, indignado. Estavam ali para conter a violência, não para gerá-la.
\n\nOutro entregador tomou vantagem pela distração de Erick, tomou-lhe a arma e apontou para sua cabeça, não sem antes lhe dar uma coronhada que o fez perder os sentidos e tirou-lhe sangue. Ato seguinte, sete agentes cercaram os entregadores com as 9mm empunhadas. Ambos renderam-se, levantando as mãos.
\n\nEdward mudou a frequência do seu rádio e conectou a central, pedindo uma ambulância descaracterizada para Erick.
\n\nDevido à imaturidade de Mike, o esquema de operação disfarçada foi comprometido. Não encontraram nada suspeito na pick-up e tiveram que liberar os carregadores.
\n\nEdward dispensou irado Mike para casa e voltou ao seu posto no beco entre as duas boates para continuar a vigiar, esperando que ainda acontecesse a entrega de drogas. Tomou três cápsulas que julgava ser de guaraná e encostou-se a uma parede.
\n\nSentiu o desapontamento esmagador alargar em seus sentidos ao notar que a ação do fim de semana inteiro não logrou êxito. Havia o risco de um dos carregadores ter alertado alguém lá dentro, ou, em um caso mais provável, que a informação obtida fosse falsa. A comum brincadeira de gato e rato com Emmett.
\n\nFechou os olhos... A falta de vigor pelo sono acumulado era cada vez mais intensa. Sebastian, o moreno antigão, rompeu o silêncio da madrugada e perguntou via rádio se ainda iam seguir com a operação. Edward percebeu que houve um lapso temporal em que ele se perdeu entre uma piscada e outra. Seu relógio marcava 04h30min.
\n\n‒ QRT ‒ disse que encerrou. ‒ Dispensados ‒ suspirou, coçou a testa, encolheu as pernas e as abraçou. Em cinco minutos eu vou também. Completou só para si.
\n\nEdward encostou novamente a cabeça à parede e fechou os olhos. Lembrou-se novamente do motivo que o inspirava. Mergulhou na opressão angustiosa e flashes de instantes passados repetiram-se atrás das pálpebras.
\n\n**
\n\n‒ Bom dia! ‒ Isabella abraçou Peter, que dormia ao seu lado, e acariciou seu cabelo louro. Ele resmungou e abraçou o travesseiro. Ela pôs a boca em sua cintura e plantou beijos alternados com mordidinhas. ‒ Vamos acordar, garotão ‒ pediu, carinhosa. Ele não abriu os olhos. ‒ Vem, meu amor. Quero tomar café com você. Devo passar muito tempo fora hoje ‒ avisou e bagunçou seus cabelos. Ele abriu os olhos azuis e reclamou, mas ao ver o sorriso de Isabella, rendeu-se e abriu um sorriso largo, cheio de amor.
\n\n‒ Mamã! ‒ chamou-a, sorridente. Era a única palavra que ele falava aos cinco anos de idade.
\n\nEla sorriu orgulhosa, abriu os braços, e ele a abraçou.
\n\n‒ Bom dia, bebezão ‒ mimou-o com beijos na cabeça, procurou sua chinelinha ao lado da cama e levou-o ao banheiro para a higiene matinal. Minutos depois desceram para lanchar.
\n\n‒ Tia Esme, devo voltar somente à tarde ‒ avisou enquanto experimentava um minibolo de laranja recheado que fez.
\n\n‒ Avisou Emmett? ‒ Esme perguntou.
\n\n‒ Ele sabe que eu faço isso todos os fins de semana ‒ deu de ombros. ‒ Vou à igreja primeiro, depois vou à Rua Spring para o trabalho de rua.
\n\nA ruiva fez uma careta de desagrado. Desde os quatorze anos, Isabella teimava em fazer parte da pastoral jovem ortodoxa, dedicando-se ao trabalho de resgate de viciados para a casa de recuperação e aconselhamento. Esme preocupava-se com sua exposição.
\n\nPeter fez linguagem de sinais para que Isabella o levasse.
\n\n‒ Não posso, bebê. Você vai ficar cansado ‒ explicou paciente e apertou sua bochecha. ‒ Prometo que no próximo domingo eu te levo cedo para a missa das crianças. Tudo bem? ‒ adulou-o. Ele concordou com um aceno.
\n\nVestida numa calça jeans branca com bordados de borboletas rosas nos bolsos, camisa de manga curta, branca, e bolero rosa-choque combinando com sandália e bolsa, Isabella carregou o SUV de Esme. Alie lhe observava da porta dos fundos.
\n\n‒ Eu não sei por que você faz isso, Bella ‒ comentou, sonolenta.
\n\n‒ Porque é bom para mim. Eu li que tudo que você faz de bom para os outros volta em coisas boas para você ‒ fechou a caixa de frutas e sorriu bem-humorada. ‒ E eu recebo coisas boas todos os dias. Por exemplo, Peter ter falado. Justamente palavras se referindo a mim ‒ explicou radiante, seu comum bom humor contagiando a prima. Pegou a última caixa no chão e a colocou no porta-malas. ‒ Estou indo. Até mais tarde ‒ acenou com um beijo no ar, entrou no carro e deu partida.
\n\n**
\n\nO sol das 10h incomodava, ainda que a Rua Spring fosse protegida pelos muros das casas de festas. Diversos indivíduos provenientes do divertimento noturno ainda ocupavam as ruas. Edward dormia num beco fétido entre jovens bêbados e tóxico-dependentes alucinados ou entorpecidos.
\n\nSeu corpo jazia no chão, resultado do cansaço e frustração que assaltaram seus sentidos. Dormia um sono perturbado. Com a mandíbula rígida e suor escorrendo na testa, novamente a cena do lago se repetia atrás de seus olhos. A água, as flores. Encheu-se de pânico ao lembrar quem iria emergir. Tomou fôlego para gritar, mas seu pesadelo foi interrompido drasticamente por um tapinha no rosto.
\n\n‒ Hei ‒ uma voz soou longe. Ele rolou os olhos na órbita, lutando para acordar. ‒ Hei ‒ mais dois tapinhas. ‒ Você está bem?
\n\nO corpo de Edward tremia, seus tendões encontravam-se rígidos. Abriu os olhos, mas só viu imagens esfumadas.
\n\n‒ Olhe para mim. Consegue me ver? ‒ a voz se materializou mais próxima. A cor prateada da água transformou-se num borrado louro. Entrecerrou os olhos para alcançar foco. ‒ Alucinações ‒ a garota inferiu. Ele não encontrava a própria voz. ‒ Você deve ter usado muita droga.
\n\nEle iria defender-se e negar, dizer que não era um viciado, mas o torpor do sono o impedia falar.
\n\n‒ Nunca te vi por aqui ‒ ela comentou tranquila e pegou uma garrafa de água em sua bolsinha. ‒ Não te disseram para nunca curtir o efeito sozinho, não? ‒ repreendeu retoricamente, ciente que ele não compreenderia. Abriu a tampa da garrafa e encostou-a na boca do rapaz. ‒ Tente beber um pouco. Se você tomou êxtase seu corpo deve estar necessitado de água ‒ instruiu, agachou-se mais próxima e tentou segurar sua cabeça para que ele bebesse a água. Ele não tomou. ‒ É a sua primeira vez? ‒ perguntou, curiosa, enquanto ele a olhava com os olhos perdidos. A garota segurou seu queixo firmemente e o obrigou a tomar a água, igual costumava fazer com Peter quando ele se negava a tomar remédio.
\n\nEle bebeu um pouco, sentou, apoiou as costas na parede e sentiu tudo rodar, os olhos ainda tentando forçadamente acostumar-se com a claridade. A garota fez uma careta e lhe deu mais dois tapinhas.
\n\n‒Hei. Acorda.
\n\n‒ Uh, tudo bem ‒ ele resmungou baixo. Ela assentiu satisfeita e forçou mais uns goles de água em sua boca.
\n\n‒ Se não beber, vai desidratar ‒ ela aconselhou. ‒ Você tem um semblante familiar ‒ comentou e juntou as sobrancelhas, analisando o rosto pálido com barba por fazer. ‒ Não sei... ‒ segurou a pálpebra dele e abriu bastante seus olhos. ‒ Será que você é amigo do... ‒ comentou distraída, tentando lembrar se já o vira pelo laboratório. ‒ Não. Não foi lá ‒ os ombros caíram em desistência. ‒ Olhos azuis... ‒ continuou tentando, olhou para sua direita e registrou os jovens de sua pastoral usando as camisetas personalizadas alegria sem drogas dando assistência a outros usuários de entorpecentes.
\n\nLembrou-se do trabalho, puxou a manga longa da camiseta preta do homem e analisou as veias do braço. Ele devia ser principiante, concluiu, pois não tinha picadas e nem resto de pó em seu nariz. As alucinações deviam ser resultado de êxtase, considerou, já que ele não tinha cara de quem compraria drogas baratas como crack.
\n\nAnalisou-o pensativa sobre as possibilidades que o levaram a entrar nas drogas. Parecia rico. Vestia-se como tal com seu relógio e sapatos caros. Alguns jovens em tratamento justificavam ser a causa da procura por drogas o vazio em suas vidas, frustrações, ou mesmo a intenção de ostentar uma personalidade a qual não tem, como: tentar ser desinibido, ter alto astral, ser engraçado. Ela estava curiosa em saber qual seria o motivo dele. Era uma pergunta que sempre fazia a quem ajudava.
\n\nComovida por sua situação, decidiu que, com cuidado e aconselhamento, podia ser que ele se recuperasse e não voltasse a procurar tóxicos futuramente, assim como alguns amigos recuperados da pastoral.
\n\n‒ Tem um telefone de alguém que eu possa ligar para vir te buscar? ‒ abriu sua outra pálpebra. Ele balançou a cabeça em negativa. ‒ Espere um pouco ‒ ela pôs a mão no bolso da calça dele e encontrou o celular. ‒ Venha, levante-se ‒ forçou-o pela mão a levantar-se. Ele olhou-a com olhos entrecerrados e equilibrou-se encostado à parede. ‒ Apóie-se em mim ‒ ela ofereceu seu ombro, ele apoiou o braço e escondeu o rosto do sol. ‒ Poxa, você tem que ajudar. É muito pesado! ‒ reclamou, enquanto caminhavam até o carro dela.
\n\n‒ Você o conhece, Flor? ‒ Daniel, integrante da pastoral jovem, interpôs, preocupado.
\n\n‒ Sim. Ele é conhecido da família ‒ improvisou. Daniel estava muito possessivo com ela, por isso mentiu.
\n\nO rapaz hispânico abriu a porta do carro. O homem sentou, a cabeça caída no encosto do passageiro.
\n\n‒ Pega a jaqueta dele lá no chão para mim ‒ ela pediu. Daniel seguiu até o muro e inclinou-se para pegar a jaqueta. Encontrou sob ela o rádio de comunicação desligado, algumas cápsulas de soníferos naturais e uma arma. Arregalou os olhos surpreso, mas resolveu ignorar. Conhecido da família. Obviamente era barra pesada. Guardou os itens no bolso da jaqueta e entregou a ela.
\n\n‒ Tire o restante das caixas do porta-malas ‒ ela instruiu. Ele descarregou. ‒ Eu te ligo ‒ deu um selinho apressado no rapaz, entrou no carro e olhou para o celular do homem que voltou a dormir ao lado.
\n\nCom praticidade, olhou as últimas ligações que ele recebeu. Animou-se ao encontrar o nome ‘pai’ e ponderou por segundos se apertava send ou não. O que ela falaria ao pai dele? Que encontrou seu filho caído na rua, drogado? Não. Não mesmo. Olhou na agenda e procurou por mais nomes. Era uma agenda muito limitada. Só tinha mais um nome, Jasper. Não havia ligações recebidas por ele há meses, nem por outra pessoa. Só ligações do pai. Restava ligar para ele. Discou.
\n\n‒ Edward? ‒ atendeu, surpreso.
\n\n‒ Olá... ‒ A garota começou sem jeito. Não sabia que desculpas dar ao pai sem que o preocupasse.
\n\n‒ Quem fala?
\n\n‒ Er... Bella ‒ disse o apelido, insegura, deu partida no carro e esperou até que soubesse que rumo tomar.
\n\n‒ Está tudo bem? Edward está aí? ‒ perguntou ansioso.
\n\n‒ Então... ‒ ela mordeu os lábios e olhou o homem indolente ao seu lado. ‒ Er, eu sou uma conhecida do seu filho, ele bebeu um pouco além da conta e eu gostaria de levá-lo em casa ‒ recorreu ao improviso. ‒ Só que eu não sei o endereço dele. O senhor poderia me informar?
\n\nCarlisle pausou um tempo calado, desconfiado da informação. Sabia que seu filho não bebia, pior ainda para ficar ébrio.
\n\n‒ Anota o endereço, por favor ‒ instruiu alarmado, olhando o relógio e calculando em quanto tempo chegaria ao apartamento do filho.
\n\nIsabella achou uma caderneta de anotações no porta-luvas, anotou o endereço, depois partiu da Rua Spring, ainda com o juiz ao telefone.
\n\n‒ Filha, o que você disse que era dele mesmo? ‒ perguntou ele, curioso.
\n\n‒ Er, eu o conheci por aqui ‒ explicou, evasiva. ‒ Só que não queria deixá-lo onde estava ‒ adicionou amistosamente, aos poucos se sentindo mais à vontade com o pai do rapaz.
\n\n‒ Então obrigado, moça. Meu nome é Carlisle. Se você estiver no apartamento dele quando eu chegar, a gente se vê.
\n\n‒ Sim, senhor. Até mais.
\n\nEla seguiu para as ruas de Santa Mônica conforme instrução. Encontrou fácil o luxuoso prédio beira-mar.
\n\n‒ Hei, chegamos ‒ informou, inclinou-se no banco e deu mais tapinhas suaves em seu rosto.
\n\n‒ Para de me bater ‒ resmungou, letárgico.
\n\nEla tentou abrir novamente suas pálpebras.
\n\n‒ Olha para mim ‒ mudou a posição no banco. ‒ Você acha mesmo que eu consigo te levar sem sua ajuda? ‒ censurou como se falasse com uma criança. ‒ Vamos! Larga de moleza! ‒ exigiu. Ele fez careta, mas não se moveu.
\n\nEla desistiu, desceu do carro e olhou em volta.
\n\n‒ Moço ‒ chamou o porteiro. ‒ Você pode me ajudar aqui? ‒ apontou para o homem no banco. O porteiro aproximou-se.
\n\n‒ Senhor Cullen ‒ reconheceu prestativo. ‒ Você é sobrinha dele? ‒ o porteiro questionou interessado, o olhar percorrendo-a, curioso.
\n\n‒ Er... Sim ‒ concordou, tentando não estender o assunto. ‒ Preciso levá-lo lá pra cima. O senhor me ajuda?
\n\n‒ Sim ‒ o porteiro se inclinou e fez força para levantar Edward.
\n\n‒ Ajuda aí, tio ‒ ela zombou com um tapinha no braço de Edward, pegou a jaqueta no banco e deu suporte a ele com seu ombro enquanto andavam pelo térreo.
\n\nO elevador os conduziu ao andar indicado pelo pai, ela encontrou o cartão-chave num chaveiro pendurado na calça de Edward e enfiou-o na porta.
\n\n‒ Vamos colocá-lo aqui no sofá mesmo ‒ ela instruiu. Acomodaram-no deitado. Ele encolheu-se de lado. ‒ Obrigada ‒ agradeceu ao porteiro, fechou a porta, tirou as sandálias que já machucavam o seu pé e sentou-se no carpete, indecisa sobre o que fazer.
\n\n‒ Seu apartamento é legal ‒ olhou em volta, analisando a decoração de cor grafite na sala. ‒ Para um apartamento de um homem, é bastante arrumado ‒ levantou e observou. ‒ Faltam fotos e quadros, claro. Talvez um vaso de flores... ‒ caminhou até a cozinha. Móveis organizados, impecáveis e limpos, de inox e vidro, compunham a decoração. ‒ Esta cozinha nunca deve ter sido usada ‒ passou o indicador no balcão de mármore branco, desgostosa pelo desperdício de espaço, depois seguiu para o corredor de quartos. ‒ Faltam cores aqui ‒ comentou ao encontrar o quarto que julgou ser dele. Sentou-se na cama superking e saltitou. ‒ Sabia que as cores do local que vivemos dizem tudo sobre como está dentro de nós? ‒ questionou ciente que ele dormia. Levantou-se e seguiu com o turismo até o banheiro do quarto. ‒ Ah, este lugar contará sobre você... ‒ conspirou, inclinou e pegou um frasco de perfume. ‒ Hmmm, cítrico ‒ borrifou um pouco no braço e inalou profundamente. ‒ Cheiro bom ‒ sorriu agradada, depois analisou os itens para barba. ‒ Você devia usar isso aqui de vez em quando, né ‒ aconselhou divertida, apontando a loção em direção a sala. Censurou-se por falar sozinha e abriu a gaveta do balcão para bisbilhotar. Surpreendeu-se com o que viu. Tinha frascos e mais frascos de rophynol e drogas para insônia, reconheceu pelo rótulo. Também encontrou uma maleta com ferramentas estranhas e diversas amostras de drogas em saquinhos, todas rotuladas. Abriu a boca chocada. O caso de seu novo resgatado era grave.
\n\nPorém, se houve jeito para Daniel, ex-viciado em crack e integrante da pastoral, por que para o homem na sala não teria? Acreditava nas pessoas. Não perderia a fé em ajudar e não desistiria. Decidida, abriu os frascos, levantou a tampa do sanitário e despejou todo conteúdo. Não deixaria espaços para recaídas com tentações tão próximas.
\n\nOuviu uns resmungos, sons de alguém se debatendo e voltou à sala. O homem no sofá tinha os punhos fechados, o semblante enrijecido como se sentisse dor, igual como o encontrara pela manhã. Talvez fosse sintoma de mistura de drogas, conjecturou. Ou talvez fosse abstinência. Franziu o cenho confusa com o tipo de droga que ele tinha usado. As reações eram desconhecidas para ela.
\n\nPreocupada, ajoelhou-se no tapete e pôs a mão na testa dele.
\n\n‒ Hei, está tudo bem. Vai passar ‒ serenou-lhe, compadecida. Ele rangeu os dentes. ‒ Shiu! ‒ ela tirou seu bolero rosa e secou o suor que descia na testa do homem. ‒ Acorda. Um banho frio lhe faria bem ‒ animou-o, assumindo que já o conhecia. ‒ Que tal uma fruta? ‒ ofereceu e deu-lhe um tapinha para acordá-lo. ‒ Quando encontrei o Daniel, ele estava muito pior que você. Tinha alucinações. Então tem chance para você ‒ encorajou-o com uma crescente pena por seu estado. ‒ Seu pai deve estar chegando para ficar com você ‒ explicou, meiga, e olhou no relógio de pulso. Doze horas.
\n\nA respiração dele se normalizou aos poucos, conforme a ouvia. Ele caiu num sono mais tranquilo. Isabella caminhou até a cozinha e abriu a geladeira.
\n\n‒ Argh, conservados! ‒ fez careta, abriu o congelador e deparou-se com snacks e lasanhas congeladas. ‒ Cadê as frutas e produtos naturais desta casa? ‒ bronqueou séria, como se ele ouvisse. ‒ Ah, não ‒ fechou a geladeira, olhou para um balcão de mármore e avistou granola. ‒ Pelo menos isso de natural! Carregar você me deu fome ‒ sentou-se à mesa e derramou o cereal num prato com leite.
\n\n‒ Sabe, o Daniel é pobre. Eu posso dizer que ele tinha motivos de ter entrado nessa. Mas você... ‒ olhou o luxo em volta, o porcelanato espelhado e caro no chão. ‒ Você deve ter outros motivos ‒ reconheceu, terminou o lanche e voltou à sala. Observou-o uns segundos, estava cômoda perto dele. ‒ Acho que eu já vou ‒ torceu os lábios insatisfeita em não poder se apresentar, mas sua hora tinha esgotado. Avistou o celular dele próximo ao sofá, sorriu animada com a ideia que lhe surgiu e levantou o celular em sua frente. Fez pose com uma piscada e dois dedinhos em V. Tirou três fotos, escolheu uma, gravou, depois adicionou seu apelido e número, que tocaria ao som da música que transferiu por bluetooth. Fez uma ligação que tocou em seu bolso, atendeu, tirou várias fotos do homem dormindo e adicionou o nome: novo cuidando.
\n\n‒ Agora eu vou mesmo. Acho que você vai ficar bem ‒ deu mais uma olhada na sala. ‒ Eu sei que devia esperar seu pai, mas já são quase uma hora e eu devo ir para casa ‒ justificou, séria. ‒ Vou fazer assim, para facilitar, deixarei a porta semiaberta, tudo bem? ‒ considerou, depois deu uns passos atrás. ‒ Até mais ‒ saiu, encostando a porta atrás de si.
\n\nNo elevador, encontrou um homem grisalho, olhos azuis e sorriso simpático.
\n\n‒ Boa tarde, senhor ‒ cumprimentou-o educada e deu espaço para que ele descesse no andar.
\n\n‒ Boa tarde, mocinha ‒ ele sorriu, atencioso. Ela observou o homem meia idade de camisa polo branca, bermuda creme e Nike branco ir direto à porta do apartamento que ela tinha acabado de sair. Analisou-o da cabeça aos pés. Será que era o pai? Se fosse, tinha aparência melhor que o filho. Jovem, sem olheiras, pele barbeada, semblante alegre.
\n\nA porta do elevador fechou. Ela negou-se a assumir o telefonema. Iria se livrar de revelar ao pai a condição do filho viciado.
\n\n**
\n\nSegunda-feira, parte dos agentes da Divisão de Narcóticos em L.A. aguardavam as ordens do dia de missão especial apreensivos após a missão fracassada no fim de semana. Para total surpresa da equipe, em lugar de encontrar um chefe mal-humorado devido à frustração da operação, ao entrar na sessão em seu alinhado terno preto Armani, o cabelo para trás fixado por um spray e a barba bem feita, o Agente Especial Cullen cumprimentou a equipe com um bom dia receptivo, sentou-se na ponta da mesa oval e colocou uma caixa de biscoitos Donuts sobre a mesa.
\n\n‒ Bom dia, chefe. Pelo jeito o fim de semana rendeu ‒ Erick comentou e abriu a embalagem, pegando uma rosquinha de chocolate.
\n\n‒ Nada demais ‒ Edward descartou tranquilo, revigorado pelas extensas horas de sono após dias sem dormir. Observou o curativo acima da orelha em Erick aliviado por ver o colega bem após o ferimento na operação. ‒ Bom, agentes, equipe Charlie verificar denúncia de plantação clandestina de Cannabis na Zona Sul; equipe Echo, para as proximidades das docas investigar umas cargas; equipe Alfa e Delta, plantão no administrativo enquanto se faz uma varredura nas escutas ‒ enumerou enquanto conferia uns papéis na mesa.
\n\n‒ Ai, que merda, eu não queria ficar preso aqui ‒ Mike resmungou para Stephan, ao seu lado. ‒ Essa equipe só tem CDF de merda. Eu vim para cá para ir para as ruas, não para ficar preso na Divisão.
\n\n‒ Ah, Mike...? ‒ Edward voltou-se para o novinho. ‒ Vou ligar na Academia, na Virginia, para que você passe duas semanas lá tendo aula teórica para iniciantes sobre hierarquia, urbanidade e procedimentos éticos na abordagem ‒ dispôs sério. ‒ Os demais estão dispensados. Façam seus horários. Tenham uma boa semana. Nós nos encontramos quinta à tarde para o relatório ‒ avisou e, antes que se levantassem, sua atenção voltou-se para uma mensagem que vibrou em seu celular. Curioso, abriu a tela e deparou-se com uma foto bizarra de um rosto desconhecido. Franziu o cenho atônito ao ler.
\n\nBom dia. Espero que tenha acordado bem. Beba bastante água e coma frutas. Para alegrar o seu dia, segue uma mensagem: esqueça o que se foi. Não viva no passado. Para começar de novo, o recomeço deve partir de onde erramos. Um novo fim é escrito a partir do reconhecimento de nossos pecados.
\n\n\n\n\nBiblia Sagrada
\n\n\nEle entrecerrou os olhos, confuso, tentando decifrar o motivo da mensagem. Devia ser uma brincadeira de seus colegas, suspeitou. Levantou o olhar e estudou seus subordinados. O semblante inocente dos presentes o confundiu mais. Examinou a foto. Um flash de lembrança se acendeu. Cabelo louro, olhos verdes, pele creme...
\n\n‒ Mantenham os telefones funcionais ligados para emergência ‒ instruiu novamente à equipe, depois se virou para Erick. ‒ Yorkie, acompanhe-me à minha sala ‒ pediu e foi seguido por seu colega. Sentou-se à sua mesa e releu a mensagem.
\n\n‒ Qual o problema, chefe? ‒ Erick sentou-se na cadeira à frente dele.
\n\n‒ Espere um pouco ‒ Edward ergueu a palma da mão no ar e retornou a ligação.
\n\n‒ Bom dia! ‒ a voz feminina atendeu entusiasmada.
\n\nEle entrecerrou os olhos e olhou novamente para a tela, surpreso com o cumprimento efusivo. ‒ Quem é você? ‒ perguntou, perplexo.
\n\n‒ Bella ‒ contou com um sorriso. ‒ Mundialmente, internacionalmente conhecida como Flor. Agora sua cuidadora ‒ dramatizou divertida. ‒ Sou a pessoa que vai te trazer para luz ‒ garantiu solenemente, o que provocou um sorriso incrédulo em Edward, que balançou a cabeça e olhou Erick, desconfiado.
\n\n‒ Essa foi boa, garota, mas não tem graça. Foi minha equipe, não foi, quem te contratou para me passar um trote? ‒ inquiriu, suspeitando pelo timbre de voz que não passava de uma adolescente.
\n\n‒ Um trote? ‒ repetiu confusa. ‒ Não. Eles não falaram comigo sobre o trote. Poxa, mas que amigos você tem. Fizeram um trote depois te largaram no meio da rua! ‒ censurou, indignada. ‒ Sorte sua que eu te encontrei e te levei para casa. Se não, você ficaria naquele sol quente o dia inteiro. Do jeito que você estava, eu acho difícil que você conseguisse ir embora sozinho ‒ admoestou, séria. Edward tapou o fone, conectou o celular dele ao cabo USB e fez sinal que Erick rastreasse.
\n\n‒ Como você me levou para casa? ‒ perguntou, só para estender a conversa.
\n\n‒ Eu liguei para o seu pai, e ele deu o endereço. Quem mais poderia dar? Achei tão estranho. Você não tem amigos, não? Na sua agenda só tinha dois contatos. Sabia que na minha agenda tenho mais de quinhentos contatos? ‒ tagarelou incansavelmente. ‒ Mas também, são meus amigos e os amigos da Alie. Acredita que às vezes converso com pessoas que eu nem sei quem é? Mas e você, por que você só tem dois contatos em sua agenda?
\n\nAbismado com a espontaneidade da garota que conversava como se fossem amigos de longas datas, olhou para Erick, e este fez sinal que ele prosseguisse por mais alguns segundos.
\n\n‒ Não são meus únicos contatos. Você deve ter mexido no meu telefone particular ‒ explicou, desatento, olhando para a tela do computador que começava a projetar um mapa.
\n\n‒ Ainda bem que seu pai foi bem legal. Ele me deu o endereço e o porteiro do seu prédio me ajudou a subir com você. Sabe, eu não queria ter amigos como os seus. Você estava muito mal. Podia ter pegado uma insolação, sabia?
\n\n‒ Pronto ‒ Erick avisou, o chefe tapou novamente a entrada. Erick informou os dados. ‒ O número do telefone tem o nome do dono bloqueado. Ela está em uma escola Junior. Ou é uma professora ou uma adolescente.
\n\nO chefe abriu e fechou a boca várias vezes, sem palavras. Pela voz, ela não poderia ser uma professora, logo, obviamente, seria a segunda opção. Curioso em saber qual era a dela, recomeçou o diálogo.
\n\n‒ Como eu estava quando você me... encontrou?
\n\n‒ Eu já disse: mal. Estava tremendo muito, suado. Achei que estivesse tendo uma convulsão.
\n\nEle fechou os olhos, esfregou a fronte e encostou a nuca no encosto da cadeira, quase convencido.
\n\n‒ Que horas você me encontrou?
\n\nRecordou ter dormido na rua e acordado em casa. Pela madrugada, sentia um cheiro suave e doce no ar. Bocejou e olhou em volta. Estava escuro, mas o local era familiar. Uma dor latente no pescoço e costas o encontrou. Conferiu ser sua casa e encontrou um pano rosa no seu pescoço. Estranho. Recolheu-o e jogou-o em uma gaveta no quarto. Olhou as horas no relógio de pulso, 05h30min. Atordoado, perguntou-se quem o trouxe para casa. Seguiu sem respostas para o banho. Foi à cozinha fazer um lanche e rapidamente percebeu que outra pessoa estivera lá. O pacote de cereais fora do lugar denunciava, além de farelos no chão e um prato e colher maculando seu impecável balcão de mármore branco. Foi à sala conferir a porta. Encontrou no aparador do hall um bilhete. Estive aqui. Segunda conversaremos sobre hoje. Carlisle Cullen. Domingo. 19h.
\n\nA partir daí, Edward ficou confuso com o lapso temporal ocultado por sua mente. Acreditava até agora que quem o tinha levado para casa foi um de seus colegas, na viatura.
\n\n‒ Hei, porque está tão calado? ‒ a garota chamou sua atenção. ‒ Ainda não acredita em mim? ‒ questionou, aparentemente insatisfeita pela desconfiança. ‒ Espera aí que eu vou mandar umas provas ‒ avisou e desligou sem se despedir. Três fotos de Edward abraçado à almofada, o pano rosa no nariz e a boca aberta em sono profundo foram enviadas.
\n\n‒ O que foi, chefe? ‒ Erick especulou ao ver o semblante de desagrado do chefe. ‒ Deixe-me ver ‒ estendeu a mão.
\n\n‒ Não! ‒ puxou o celular bruscamente, lembrando-se do conselho do neurologista sobre dormir. Depois de dias sem dormir, pode ocorrer um distúrbio no metabolismo e o cérebro se defender com alucinações e fadiga, além do risco de se apagar em sonos profundos.
\n\nSuspirou resignado e ligou de volta para garota.
\n\n‒ Er... Bella? ‒ chamou o nome gravado na tela do BlackBerry.
\n\n‒ Pois não? ‒ prestou-se com arzinho maquiavélico de quem venceu.
\n\n‒ Como eu posso lhe agradecer?
\n\n‒ Hmmm, deixe-me pensar... ‒ deu uma pausa, dramática. ‒ Em primeiro lugar, eu quero meu bolero de volta.
\n\n‒ Seu bolero? ‒ franziu o cenho.
\n\n‒ Sim, esse que você dormia agarradinho ‒ zombou, brincalhona.
\n\n‒ Tá, só isso? ‒ dispensou, impaciente.
\n\n‒ Lógico que não. Você é muito pesado, sabia? Além disso, quase que eu passei fome na sua casa. Portanto, sua dívida comigo é imensa ‒ enumerou, divertida.
\n\n‒ E como eu pagaria? Quer um passaporte para Disneylândia? ‒ ironizou.
\n\n‒ Bem que eu queria ir lá. Faz alguns meses que não vou ‒ apreciou, inocente, sem ler a ironia em sua voz. ‒ Mas isso não é sobre mim, é sobre você, portanto, para pagar sua dívida, quero que você entre em um programa de recuperação para viciados ‒ soltou, direta, receosa e incerta quanto a sua aceitação. Podia ser que ele não quisesse mudar, ela pensou. E se realmente não quisesse, nenhum programa o convenceria.
\n\n‒ Mas eu não sou um viciado! ‒ retrucou na defensiva.
\n\n‒ O primeiro passo para recuperação é assumir, sabia? ‒ censurou, séria.
\n\n‒ Eu não tenho do que me recuperar! ‒ aumentou o tom, incrédulo.
\n\n‒ A negação não leva a nada. Eu só quero ajudar ‒ contestou, complacente. ‒ Estou te adotando como meu ‘cuidando’ ‒ informou, solene. ‒ Trocaremos livros de autoajuda, falaremos de Deus, vida e esperança; trocaremos mensagens otimistas que te ajudem a acreditar em você; vou te ensinar a buscar a paz interior através de exercícios da mente para que você não tenha necessidade de buscar a paz nos tóxicos; vou te ensinar a se alimentar de modo que desintoxique o seu organismo ‒ enumerou, animada. ‒ Se isso não oferecer resultado, irei te increver para uma vaga na casa de recuperação da nossa pastoral ‒ concluiu, triunfante.
\n\n‒ Eu não sou viciado ‒ argumentou mais uma vez, os ombros caídos em impotência diante da obstinação dela.
\n\n‒ Ah, não? E aquele tanto de remédio tarja preta que tinha no seu banheiro? E aqueles saquinhos de drogas? ‒ destacou. Ele abriu a boca sem palavras para se defender. Ela referia-se aos remédios que a psiquiatra/psicóloga passou e a sua maleta de amostras da Narcóticos. ‒ Admita que precisa de ajuda. E evite aquele tipo de remédio ‒ exigiu. Ambos ficaram calados. Ela, triunfante; ele, perplexo com aquela intromissão.
\n\n‒ Mais alguma coisa, mestra? ‒ zombou, descrente.
\n\n‒ Não. Por hoje, não. Só quero que coma bastante frutas. Elas inibem os efeitos colaterais das drogas ‒ explicou, orgulhosa de si, sem perceber que na verdade ele zombava dela. ‒ Dê preferência às vermelhas ‒ instruiu.
\n\nEle não pôde evitar rir. Era hilária aquela situação.
\n\n‒ Ok, mais alguma coisa? ‒ incitou, testando até onde o absurdo iria.
\n\n‒ Você faz atividade física?
\n\n‒ Sim. Bicicleta, caminhada, Jiu-Jítsu e musculação ‒ contou, entretido.
\n\n‒ Que bom. Falta só o exercício para mente. Como diz o poeta: mens sana in corpore sano. Corpo e mente têm que estarem sãos. Agora tenho que desligar. Tchau! ‒ desligou, apressadamente.
\n\nEdward olhou o telefone na mão boquiaberto, como se atropelado por um furacão. Erick observou-o. Edward sentou-se e ligou para seu pai, que confirmou a história. A maior preocupação de Edward foi que voltasse a apagar numa futura operação. Tinha que se cuidar.
\n\nA semana se passou de modo normal, a não ser pelo fato de todos os dias receber mensagens de otimismo no celular. No primeiro dia, reagiu indiferente, acreditando que com o passar dos dias ela iria desistir. Não aconteceu. Quarta-feira, não recebeu só uma mensagem, mas duas. De onde essa garota tirou a ideia de que ele precisava de motivação?
\n\nOs pesadelos continuavam quando conseguia dormir. Alguns mais vívidos; outros, só flashs. E a insônia sempre o espreitava.
\n\nQuinta-feira, até as cinco da tarde não chegou nenhuma mensagem. Ele estranhou, mas se sentiu aliviado. Acabou a importunação, pensou. Sentado à mesa oval da sala de reuniões, ouvia e discutia o relatório da semana com os líderes de equipe. Ao fim, o assunto Emmett foi abordado.
\n\n‒ De acordo com um de meus informantes, Mattel trabalha em uma nova droga. ‒ Sebastian comentou. Edward ajustou-se na mesa, atento.
\n\nErick contestou.
\n\n‒ Ele é engenheiro bioquímico. Tem licença para manipular e pesquisar novas drogas ‒ ressaltou com um dar de ombros. Recebeu do chefe um olhar questionador. ‒ O quê? Você sabe que inclusive ele assina duas patentes.
\n\nEdward torceu os lábios e retrucou: ‒ Patentes essas que conseguiu por meios ilegais.
\n\nErick ignorou a carranca do chefe.
\n\n‒ Não há provas ‒ enfatizou, alertando-o com o olhar que suas visões pessoais não deveriam ser difundidas. Seriam nomeadas perseguição pessoal a Emmett, se percebidas pelos subordinados.
\n\nEdward fez sinal a Sebastian para que prosseguisse, mas um toque estridente de celular interrompeu a reunião ao som de Britney Spears. Break in the ice.
\n\n‒ Vamos desligar os telefones nas reuniões, senhores ‒ Edward repreendeu e tamborilou os dedos na mesa, impaciente. Os agentes olharam uns para os outros procurando o transgressor. A música continuou a tocar. ‘Deixe-me quebrar o gelo, permita-me te entender, assim que você se aquecer para mim, baby, eu posso fazer você se sentir quente, quente, quente’.
\n\nUm risinho foi abafado ao perceber o foco do som. Foi impossível conter os sorrisos nos segundos seguintes.
\n\n‒ Chefe, é o seu ‒ Erick apontou com um risinho de canto. Edward franziu o cenho, desacreditando, tirou o BlackBerry do bolso da calça e olhou aborrecido para a tela. Bufou irritado ao registrar a remetente. Rejeitou a ligação, a seguir voltou à pauta. O telefone tocou insistentemente no silencioso. Ato seguido, uma mensagem vibrou. Edward abriu indignado enquanto o líder da equipe Echo relatava sua semana.
\n\nVocê está em dívida comigo, lembra? Devia atender ao telefone... Bem que eu poderia ter te deixado na rua aquele dia. Você é tão, tão grande e pesado!
\n\nEle piscou longamente, buscando paciência para chantagem emocional da teimosa garota, levantou-se de sua cadeira e seguiu para o canto da janela.
\n\n‒ Com licença, senhores. Só um minuto.
\n\nO telefone vibrou. Ele atendeu, irritado.
\n\n‒ O.que.exatamente.a.senhorita.quer?
\n\n‒ Sabia que começam às quintas-feiras os altos índices de pessoas em busca de entorpecentes e desinibidores? ‒ respondeu com outra pergunta.
\n\n‒ O quê? ‒ objetou cético e embaraçado por sua quebra de postura ao atender celular em reunião.
\n\n‒ Isso mesmo que você escutou. Por isso eu tenho um programa para hoje à noite com você.
\n\n‒ Eu trabalho hoje à noite. Não...
\n\n‒ Sem chance de negar ‒ interrompeu-o, decidida. ‒ Não é um convite. É um pagamento de dívida ‒ recordou, incisiva. Ele abriu a boca, mudo.
\n\n‒ E seria o quê? E onde? ‒ concedeu e contou até dez, esperançoso de que se fizesse o que ela queria talvez ela desencanasse.
\n\n‒ Bom, vou te mostrar que para se divertir não é preciso drogas ou bebidas. O nosso próprio corpo, que é algo perfeito, (estudei isso em Biologia hoje) ‒ elucidou didática. ‒ libera uma substância que nos dá alegria e...
\n\n‒ Ah, por favor ‒ interrompeu-a, inquieto. ‒ Dessa lição eu já passei há anos. Fale logo que horas. Em meia hora eu estou livre para te levar para tomar um sorvete ‒ propôs, sarcástico.
\n\n‒ Não. Não quero tomar sorvete. Não tente me adular. O programa é por você, não por mim. Portanto, te encontro onze horas na Sky Disco Club ‒ decidiu firme, sem lhe dar chance de refutar. Ele ia argumentar, mas uma luz brilhou no seu cérebro ao lembrar que essa era a casa de festas de Emmett Mattel.
\n\n‒ Ok. Eu vou, mas devo ficar pouco tempo ‒ concordou. Havia a chance de observar disfarçadamente o movimento local.
\n\n‒ Vou estar de vestido rosa e uma flor do mesmo pano no cabelo ‒ avisou, animada. ‒ E você? Não sei se ainda me lembro de você. Você vai estar de olhos azuis? ‒ gracejou, divertida.
\n\nEle ponderou a resposta, surpreso com seu ar brincalhão e desprendido.
\n\n‒ Preta, camiseta preta.
\n\n‒ Então até lá ‒ e desligou.
\n\nEle voltou a sentar-se à mesa sentindo-se perdido com a ligação. Encerrou a reunião e chamou Erick para acompanhá-lo ao seu escritório.
\n\n‒ Vamos comigo hoje à Rua Spring? ‒ convidou-o e tentou se focar em uns papéis que precisava assinar. Falhou.
\n\n‒ Outra investigação? ‒ Erick especulou.
\n\n‒ Também. Mas é sobre aquela garota do telefonema de segunda... ‒ explicou fingindo indiferença, mas estava ansioso em encerrar o assunto.
\n\n\n\nVestindo calça jeans escura, camisa preta e jaqueta de couro, Edward dirigiu-se em seu Porshe Kayenne preto rumo ao local combinado. 23h ele e Erick tomavam refrigerantes no mezanino da casa de festas. Cada garota que entrava na boate era alvo de avaliação.
\n\n‒ Eu acho que é a sua nova amiga ali ‒ Erick apontou zombeteiro em direção a duas garotas que dançavam animadas, de costas para eles.
\n\nEdward olhou a loura vestida de rosa de cima abaixo.
\n\n‒ Puxa vida, eu ainda tinha esperança de ser uma adulta com voz de adolescente, mas realmente é uma menina! Por Deus, a última vez que eu aproximei de uma garota com flor no cabelo eu tinha quatorze anos! ‒ destacou, desgostoso. Erick entrecerrou os olhos e só então pareceu atentar aos rostos das garotas.
\n\n‒ Hei, são elas! ‒ Erick exclamou, alarmado.
\n\n‒ Sim, você já falou.
\n\n‒ Não, cara, são as meninas do Emmett! ‒ esclareceu. O chefe olhou-as detidamente, incrédulo. Três semanas parecia uma eternidade, desde que as viu a primeira vez.
\n\n‒ Caramba, Edward, sem prever, você acabou exatamente onde queria! ‒ Erick animou-se. ‒ Tem o telefone particular de uma das meninas do Emmett, além de tê-la na sua cola todos os dias!
\n\nAs mãos de Edward começaram a suar, inexplicavelmente.
\n\n‒ Eu não posso me aproximar dela, você sabe ‒ alegou, frustrado, já pensando em sair imediatamente de lá. Precisava pensar um pouco.
\n\n‒ Por que você não pode? ‒ Erick quis saber. ‒ Vem esperando há tempos uma oportunidade de descobrir algo sobre Emmett, agora que as portas estão abertas vai deixar passar?
\n\nEdward balançou a cabeça negando, impotente.
\n\n‒ Emmett sabe quem eu sou ‒ sussurrou, desanimado. ‒ Os homens dele devem estar por aqui. Não tem como eu passar despercebido ‒ explicou relutante, com o coração batendo a mil pela expectativa de provocar o inimigo em seu terreno, muito mais com uma de suas meninas.
\n\n‒ Fazemos assim: eu vou lá distrair Alice e você manda uma mensagem para a lourinha vir te encontrar aqui em cima, que é mais isolado ‒ propôs, persuasivo.
\n\nEdward ponderou por uns segundos a proposta, tentado a desafiar seu ex-amigo Emmett. Olhou para uma mesa isolada no canto do mezanino incerto se era ético se envolver tanto; depois de um suspiro nervoso, passou a mensagem.
\n\nOlá, Bella. Eu já te vi... Tem como você subir e conversarmos no segundo piso? Estou na última mesa à direita da escada.
Notas finais
N/B: OMG! Mais uma vez aqui, betando pra nossa querida Bia Braz... Só vou lhes informar que eu não sei qual o ruma da historia! Eu quis saber somente com vocês... quer dizer pouco antes... então nem adianta pensar q a beta tem privilégios... pq eu não... heheheh Momento descontração: Assistam ao filme Rio... é mto legal e tem uma valorização fenomenal do nosso Brasil! Bjs e até!
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