Flor de Lótus-edward e Bella
4 Capítulo 03- O tempo cura todas as feridas
Notas iniciais
Edward sentou-se, ansioso, fez pedido de refrigerante e água com gás à maître e estudou a elite de Los Angeles em volta. Drogas eram usadas sem sutilezas. Seu grande pesar era que enquanto a Narcóticos tentava tirar as drogas das ruas, os usuários as financiavam.
\n\nCentrou o olhar no copo em suas mãos e perguntou-se que tipo de assunto desenvolveria com uma garota até que chegasse ao seu objetivo: descobrir sobre Emmett. Ocultaria quem era, obviamente. Teria que equilibrar mentira e objetivo.
\n\nEm sua visão periférica notou uma pessoa de vestido rosa, colado, de paitê, caminhar animada em sua direção, os cabelos louros e cheios balançando de um lado ao outro.
\n\n‒ Oie! ‒ a garota o cumprimentou calorosamente – como se fossem velhos conhecidos –, e inclinou-se para lhe dar um beijo na bochecha antes que ele se levantasse para recebê-la. ‒ O que é isso que está bebendo? ‒ censurou, intempestiva, o semblante curiosamente fechado, levou o copo ao nariz e cheirou. Ele olhou-a confuso.
\n\nApós um suspiro dramático, ela sorriu aliviada.
\n\n‒ Ufa, pensei que você estivesse bebendo álcool ‒ comentou e sentou-se à vontade ao lado dele, as pernas cruzadas e o pé balançando no ar. ‒ Sabia que viciados costumam recair quando ingerem álcool? Uma pesquisa disse que ex-fumantes sentem falta da nicotina quando bebem. O mesmo acontece com as drogas. O cérebro manda um recado... ‒ e explicou todo o processo de associação. Ele observou-a abismado enquanto pensava o que diabos fazia ali. ‒ Você não fala, não? ‒ Ela pressionou depois de minutos que tagarelava incansavelmente.
\n\n‒ Se você deixasse ‒ retrucou sem humor.
\n\nEla sorriu divertida e estendeu a mão.
\n\n‒ Sou a famosa Fllor. Com dois L. Estou pensando em acrescentar o terceiro ‒ comentou, sorridente.
\n\n‒ Por que dois L? ‒ juntou a sobrancelha, curioso.
\n\n‒ Dois de linda e legal ‒ brincou, triunfante por ter ganhado sua atenção. ‒ O terceiro seria de loura ‒ e balançou os cabelos. Ele olhou-a como se ela fosse um bichinho de laboratório. ‒ Mas me chame de Bella. Os íntimos me chamam assim ‒ piscou, simpática.
\n\nEle olhou-a sem ação. Ela aproximou-se mais e estendeu a mão, convidando-o.
\n\n‒ Vamos dançar? ‒ propôs.
\n\nEle advertiu não poder expor-se. Suspeitava que Emmett estivesse por lá. Seria facilmente reconhecido se visto em companhia dela.
\n\n‒ Não sei dançar ‒ mentiu, meio arredio, e olhou preocupado para os lados. Lidar diretamente com o crime habituou-o à precaução. Estar ali, no terreno do inimigo, aproximando-se de algo que lhe pertencia, obrigava-o a ter cautela.
\n\n‒ Eu imaginei que não soubesse dançar ‒ ela concedeu, compreensiva. ‒ Você deve ser tímido ‒ inferiu, torcendo os lábios. ‒ Não é de falar, nem sabe dançar. A introspecção costuma ser mais um dos motivos de viciados para se refugiar em estimulantes ‒ elucidou, naturalmente, como se ele não fosse o alvo da análise bizarra. Pegou o copo de água na mesa e bebeu. ‒ Argh, odeio água com gás! ‒ resmungou com uma careta. ‒ Por que você não toma água normal?
\n\n‒ Eu gosto assim ‒ respondeu seco.
\n\n‒ Gosta de coisas ruins ‒ afirmou, levou o copo novamente à boca e tomou um grande gole. ‒ Eu já sei por que você não tem amigos na sua agenda ‒ acusou, olhando para o copo. ‒ Você tem cara de sério, não sorri e não é descolado.
\n\n‒ Ah, é? ‒ perguntou incrédulo com a crítica. ‒ E como eu deveria agir para ser um cara descolado? ‒ questionou, enfadado. Aquilo não daria certo. Tinha que arrumar um jeito de livrar-se dela.
\n\n‒ Não sei... ‒ bateu os dedos no queixo pensativa. ‒ Tem um filme a que eu assisti, chama-se Nos tempos da brilhantina, com Jhon Travolta. Você assistiu? ‒ questionou animada. Ele assentiu com um esgar frio. ‒ O Danny era um exemplo de pessoa descolada. Era popular, sabia dançar, tinha um carro bacana.
\n\n‒ Os tempos são outros, garota ‒ rebateu com descaso. ‒ Eu nem sou tão velho assim para ter curtido os tempos da brilhantina ‒ rolou os olhos com uma visível carranca pela comparação.
\n\n‒ Você podia então mudar esse cabelo. Esse seu cabelo de Clark Kent tá fora de moda ‒ observou os cabelos lisos e jogados de lado.
\n\n‒ O quê? ‒ perguntou incrédulo com a crítica e passou a mão no cabelo, que estava sem corte, caindo no olho.
\n\n‒ Isso mesmo. Parece o cabelo do Zac Efron no High School Music ‒ ela sorriu divertidamente do seu ar ofendido, levou a mão astutamente ao seu cabelo louro-escuro e bagunçou.
\n\nFoi isso mesmo? Ela estava rindo dele? Perguntou-se cético enquanto ficava a cada segundo mais mal-humorado.
\n\n‒ Uso o cabelo assim desde que tinha dez anos de idade ‒ defendeu-se insultado e se esquivou da mão dela, que ignorava seu estado carrancudo.
\n\n‒ Isso realmente deve ter muito tempo ‒ gracejou e riu mais. Ele fulminou-a com o olhar, mas aos poucos o projeto de um sorriso foi crescendo no canto do seu lábio. Ela era engraçada, ele concedeu. E irreverente. Algo novo em seu mundo de pessoas bajuladoras e hipócritas formalidades.
\n\nEle dirigiu um perscrutador olhar a ela. Só então analisou detalhadamente o exótico rosto quadrado estilo modelo de óculos de sol Louis Vuitton. Olhos puxados arteiros, nariz pequeno arrebitado e encrenqueiro e boca teimosa com bico. Um pacote expressivo. Ela continuou rindo, agora tentando arrumar seu cabelo ao invés de bagunçar, comodamente, jogando-os para trás com os dedos. Ele ficou imóvel, dócil, como que hipnotizado por algo que brilhava em seus olhos. Alegria. Eles tinham uma cor indefinida sob as luzes piscantes. Pareciam verdes, com tons cinza e azuis claros. A sobrancelha perfeitamente desenhada contrastava com sua pele clara e indefectível. Parecia tão nova, ao mesmo tempo tão vívida.
\n\nAmbos os olhares encontraram-se. Ele segurou o olhar analítico. Antes que se desse conta, sorria vencido, subjugado pelo humor tão contagiante da garota.
\n\nPonto para ela.
\n\n‒ Você não é feio ‒ ela gracejou zombeteira e apertou sua bochecha.
\n\n‒ Ah, legal ouvir isso depois de você acabar com meu pobre cabelo ‒ devolveu a brincadeira e desviou o olhar, novamente sondando o local.
\n\n‒ É sério, eu só estava brincando quanto ao seu cabelo. Ele até que é bonitin. Queria só ver você relaxar.
\n\n‒ Ah tá, bonitin ‒ brincou na mesma linguagem dela. Ela sorriu triunfante ao vê-lo relaxado.
\n\n‒ Sabia que você não me disse seu nome? ‒ lembrou e apoiou o queixo com o punho, olhando-o avaliativamente. ‒ Seu pai disse, mas eu esqueci. Qual é mesmo?
\n\n‒ Edward ‒ respondeu no automático.
\n\n‒ Hmmm, Edward é um nome tão sério. Lembra-me a Edward Paudiss, o pintor... Outro Edward foi o senador Edward Dodd ‒ divagou pensativa.
\n\n‒ Agora vai criticar meu nome também? ‒ cruzou os braços fingindo chateação e encostou as costas na cadeira.
\n\n‒ Não. É bonito ‒ disse sinceramente. ‒ Só que vamos ter que arrumar um apelido mais fácil pra você. Edward não cola ‒ franziu o cenho como se pensasse em algo difícil. ‒ Tá, tudo bem que temos o Edward Maya, que toca umas músicas boas. Mas, no geral, Edward é um nome sério. Lembra-me homens sérios.
\n\n‒ Hmm, pelo jeito você é uma menina estudiosa, já que sabe nome de pintores modestos ‒ aproveitou a ocasião e direcionou a conversa para ela.
\n\n‒ Errado ‒ fez um bico e balançou a cabeça. ‒ Depois que eu perdi uns anos escolares, estou meio desmotivada de estudar. Mas gosto de arte ‒ esclareceu. ‒ Você já tem algum apelido?
\n\n‒ Não ‒ mentiu, de novo sério, e se inclinou sobre a mesa a fim de interrogá-la. Já que não desistiu, iria fazê-la falar de si. ‒ Por que você perdeu uns anos escolares?
\n\n‒ Imagine? ‒ arqueou a sobrancelha. ‒ Como eu iria estudar tendo que cuidar de Peter? ‒ explicou, como se ele já soubesse quem era Peter. Ele a deixou desenvolver. ‒ Foi uma época difícil quando ele nasceu. Passamos por maus bocados naquela época ‒ refletiu pesarosa.
\n\nA conversa perdeu a atenção dele quando viu descendo de uma escada proveniente do 3º andar dois homens de terno e Emmett Mattel logo atrás. O russo louro, forte, com cabelos cortados baixinho, não passaria despercebido em local algum. Mudou muito desde que se conheceram treze anos atrás, mas ainda era Emm.
\n\nAs mãos de Edward suaram quando, do último degrau, Emmett olhou com olhos entrecerrados em sua direção. Edward não sentiu medo. Longe disso. Era raiva e revolta.
\n\nInclinou-se e aproximou-se da garota para esconder seu rosto na sombra dela. Bastaria uma olhar de Emmett para reconhecer facilmente uma de suas meninas.
\n\n‒ O que foi? ‒ ela juntou as sobrancelhas e olhou para os lados, indiscretamente. ‒ Está se escondendo de alguém?
\n\n‒ Er, desculpe ‒ retratou-se, afastou-se um pouco e moveu o rosto para ver se Emmett já tinha passado. Outra surpresa o alarmou. Rachel e algumas colegas dela estavam encostadas à grade de alumínio do mezanino olhando em sua direção. Poderia ficar pior?
\n\nEle virou o rosto e fingiu que não a tinha visto.
\n\n‒ Uma pessoa conhecida estava olhando para nós ‒ improvisou. ‒ Eu fiquei preocupado dela vir aqui, er, nos atrapalhar... Atrapalhar o tratamento ‒ ludibriou-a.
\n\n‒ Legal! ‒ comemorou uns decibéis acima. ‒ Isso é sinal que você se rende ao tratamento? ‒ pressionou, animada. Ele não tinha respostas. Suspirou e ponderou por uns segundos levar a situação equivocada adiante.
\n\n‒ Primeiro me explica como é esse tal tratamento ‒ cedeu e apoiou o braço na cadeira dela, tentando esconder ao máximo o seu rosto com o cabelo dela. Rachel não podia vê-lo.
\n\n‒ Bom, se você estivesse em um estágio avançado de vício, teria que ser internado na casa de recuperação. Mas como aparentemente foi só uma fraqueza momentânea e você busca sair dessa por si, pois nem bebeu álcool, talvez precise só de umas palestras e acompanhamento de algum conselheiro lá da pastoral ‒ explicou.
\n\n‒ Não! ‒ ele interrompeu-a. Se não fosse ela a envolver-se no seu suposto tratamento, podia ser que ele não descobrisse algo nem agora nem nunca sobre Emmett. E se chegou até aqui, queria seguir adiante. ‒ Se for para ser acompanhado, eu prefiro que seja por você, que foi quem me resgatou. Não quero que ninguém mais saiba sobre essa minha fraqueza.
\n\nEla pausou um tempo olhando-o, depois riu triunfante.
\n\n‒ Bem vindo ao tratamento! ‒ aplaudiu-o contente com sua própria manobra ardil. ‒ Em nenhum momento pensei em passar minha missão para outra pessoa. Foi só um drama para te induzir a admitir que precisava de mim ‒ piscou. ‒ Ah, eu me esqueci de mandar a mensagem do dia ‒ olhou-o solene, antes de recitar. ‒ Eu não sei o que você perdeu. Não sei se levou um fora, ou se é somente frustrado em alguma área da vida, sei que um dia, Aquele que cuida de nós enxugará de nossos olhos todas as lágrimas. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Só esperança eterna.
\n\n‒ O quê? ‒ olhou-a perdido.
\n\n‒ Um dia tudo vai passar ‒ repetiu.
\n\n‒ Por que você está me falando isso? ‒ questionou confuso.
\n\nEla deu de ombros, espontânea.
\n\n‒ Porque eu consigo ler você. Algo ruim aconteceu para que seus olhos tenham esse brilho triste ‒ inclinou-se para perto dele. ‒ Eu queria que você soubesse dançar para ficar um pouco alegre. Você podia ter me dito mais cedo que não queria vir porque não sabia dançar, assim eu entenderia sua oposição. Mas vem aqui ‒ levantou-se animadamente e puxou sua mão. Ele relutou um instante, mas cedeu e ficou em pé no cantinho da parede.
\n\n‒ Não é difícil dançar. Você só tem que esquecer que tem gente te olhando ‒ instruiu, segurou a mão dele no alto e girou o corpo no eixo. ‒ Agora olha o meu ritmo e tenta seguir ‒ moveu-se de um lado ao outro, ainda segurando sua mão. ‒ Vem. É só fazer isso ‒ movimentou quadril e braços. Ele não a imitou. Olhou para os lados de novo e recebeu dois tapinhas leves no rosto. ‒ Ei, esqueça os outros. Olhe só para mim ‒ segurou seu queixo e o fez olhá-la. Continuou movendo-se, convidando-o a dançar. Ele se permitiu apreciá-la um segundo, desacreditando que Emmett tivesse alguém tão espirituosa ao seu lado, com boas intenções; ainda que rodeada por crimes e transgressões. Será mesmo que ela conhecia o que se passava dentro da propriedade? Será que ela fazia parte do esquema? Era paradoxal sua participação, pois como alguém que supostamente ajudava a embalar drogas ia para as ruas resgatar viciados? Ela era complexa.
\n\nImpotente diante de sua determinação, cedeu, vencido, e soltou um pouco o corpo, movendo-se sutilmente. Ela sorriu mais, pôs as mãos dele em sua cintura e levantou as duas mãos no ar.
\n\n‒ Sabe, meu namorado anda muito inseguro. Se ele imaginar que eu estou dançando com alguém vai ter uma crise ‒ contou e girou em sua frente. ‒ Mas eu no lugar dele não teria ciúme. Em primeiro lugar, porque ele não pode estar comigo sempre. Em segundo, porque você é muito mais velho que eu. Não teria nada a ver. Portanto, ele não tem motivos, né? ‒ considerou neutra e pôs as mãos em volta do pescoço dele amistosamente.
\n\n‒ É ‒ assentiu, mas não concordou. Não que fosse olhar com outros olhos para ela. Não mesmo. Mas é que, em um determinado momento, ela disse que ele era velho demais. Aí que entrava o x da questão. Por que o namorado dela, Emmett, que é mais velho que eu quase três anos, pode ser seu namorado, e eu não? Questionou-se intrigado. A resposta chegou rápida como uma bomba. Ele é um criminoso, Edward. Ele não respeita a lei sobre envolvimento com menor. Ele não respeita lei nenhuma. Ela é claramente uma menor de 18. E você não é igual a ele.
\n\n\nLeis básicas Californianas para menores de 18: http://california.iowoi.org/t251-leis-basicas-da-california
\n\n\n\n\nNo instante em que a comparação veio, um sentimento estranho se apossou de Edward ao recordar que ela era a garota de Emmett. Foi impelido a puxá-la mais para perto e encostou seus corpos, agindo como desordeiro adolescente com intenções de provocar o desafeto.
\n\nA garota sorriu confusa e o afastou um pouco com a mão, ganhando distância. Ele se deu conta do avanço descabido e criticou-se por isso. No entanto, ela não notou. O comentário a seguir expôs sua inocência.
\n\n‒ Se você se aproximar tanto, não vai pegar o ritmo ‒ alertou e continuou no ritmo trance, os olhos fechados, duas mãos acima da cabeça.
\n\nSeu cheiro de tutti-frutti encheu o ar, exalando a cada movida. Quando a viu no térreo mais cedo, seu vestido parecia chamativo demais. Olhando-a de perto, o conjunto era bem harmônico. O rosa combinava com o tom de sua pele, com a boca bem feita, com as bochechas rosadas. Era incrível que Emmett sempre tivesse coisas boas... Que estragava depois.
\n\n‒ Você sente isso? ‒ perguntou ela de olhos fechados.
\n\n‒ O quê? ‒ questionou, temeroso de que ela tivesse notado que ele sorvia disfarçadamente seu perfume doce.
\n\n‒ Essa energia inexplicável. A alegria de viver que os sons liberam em nós.
\n\nEle observou-a como se estudasse um raro alienígena. Alegria de viver? Um choque de realidade o atingiu. Não. A música não podia alegrá-lo. Nada podia.
\n\nA mão da garota tocou seu rosto.
\n\n‒ Você não consegue, né? ‒ ela supôs com um olhar piedoso. ‒ Carrega algo dentro de si que te impede de ser feliz ‒ deduziu, as costas dos dedos tocando sua bochecha, adulando-o. ‒ Emmett também é assim. Ainda que tentemos lhe dar felicidade, ele parece ser incompleto ‒ confidenciou. Inconscientemente, ele fechou os punhos ao ouvir esse nome. Afastou-se brevemente.
\n\n‒ Eu já tenho que ir ‒ avisou, amargo.
\n\nEla olhou o relógio colorido no braço e sobressaltou-se com as horas. Uma da manhã. ‒ Eu também já vou. Tenho aula cedo ‒ sorriu, amigável. ‒ Foi bom conhecer você. Acho que tem solução para seu problema.
\n\n‒ Pode ser ‒ concordou, distante. ‒ Até mais ‒ deixou-a apressadamente.
\n\n‒ Hei? ‒ chamou-o antes que ele se afastasse. Ele olhou-a. ‒ Até sábado ‒ piscou. ‒ Seria bom passar no banheiro e se olhar no espelho antes de ir ‒ sorriu, divertida, e saiu em direção às escadas.
\n\nEle foi logo atrás. Passou no banheiro e ajeitou o cabelo, irritado. Fora da boate ligou para Erick.
\n\n‒ E aê, como foi? ‒ Erick perguntou quando se encontraram no estacionamento pago.
\n\n‒ Interessante ‒ resmungou pensativo, fazendo o caminho de seu carro com mãos no bolso.
\n\n‒ Cara, elas não parecem ser o que a gente pensa ‒ Erick comentou. Todo esse tempo tinha ficado no térreo dançando com Alice. Edward desativou seu alarme e entrou no carro, introspectivo.
\n\n‒ As pessoas sempre ocultam o que são ‒ alertou em dúvida sobre o que diagnosticar. Sobretudo, não era porque elas tinham esse jeito cativante que iria tirar o olhar clínico da situação.
\n\n\n\nSexta pela manhã, após exercitar seus músculos na academia da Divisão, Edward tomou um banho e seguiu para sua sala. Recebeu um telefonema de Rachel; telefonema esse lhe intimando à sua sala no primeiro piso. Mal entrou, ela trancou a porta.
\n\n‒ Por que você não foi honesto comigo? ‒ inquiriu, direta.
\n\n‒ Eu não compreendo ‒ Ignorou seu tom de cobrança e sentou-se numa cadeira.
\n\n‒ Você sabe ‒ acusou. ‒ Você me trocou por uma fedelha!
\n\n‒ Ah, Rachel, me poupe de cenas! ‒ espanou o ar, com ar de tédio. ‒ Somos adultos por aqui.
\n\n‒ Eu sou. Quem não me parece ser é você. Por dias eu me senti mal, achando que o problema era eu. Ontem descobri que você mudou seu interesse para crianças! ‒ acusou ofendida. Para ela, qualquer mulher menor de vinte era uma criança. Aos trinta e três anos, solteira, ressentia-se com sua própria idade.
\n\n‒ Você está errada. Não tenho nada com ela ou com ninguém ‒ defendeu-se, apoiou o cotovelo no joelho e esfregou a fronte. A cabeça doía ao pensar na situação com a menina de Emmett. ‒ Aconteceu um mal entendido e acabamos nos conhecendo, só isso ‒ explicou, sincero.
\n\n‒ Você sabe quem é ela?
\n\n‒ Não completamente. Conheci-a ontem ‒ esclareceu. ‒ De onde você a conhece?
\n\n‒ Eu atendo Peter, o garotinho deles, no meu consultório particular algumas tardes. Peter tem problemas psicomotores que o impedem de falar. Ouve muito bem, mas não fala.
\n\n‒ Então ela tem um filho ‒ comentou baixinho, incrédulo.
\n\n‒ Afaste-se dela, Edie ‒ alertou.
\n\n‒ Eu já disse que eu a conheci por acaso ‒ justificou-se, cansado.
\n\n‒ Mas isso não te impediu de dançar com ela ‒ retrucou, ultrajada.
\n\nO BlackBerry de Edward vibrou no seu bolso alertando-o de uma mensagem.
\n\nAs suas frustrações não alteram a natureza dos fatos. Os seus desapontamentos não fazem o trabalho que só o tempo conseguirá realizar. A sua dor não impedirá que o sol brilhe amanhã sobre bons e maus. Perdoe sempre, porque, se você perdoar aos outros seus erros, também o Ser eterno lhe perdoará. Bom dia!
\n\n\nChico Xavier http://pensador.uol.com.br/
\n\n\nEdward entrecerrou os olhos tentando decifrar a mensagem por trás das frases. Mesmo que fosse copiada de um pensador, mostrava característica do emissor. Alguém que enxergava tudo colorido.
\n\nEclipsou a presença de Rachel da mente e deixou o consultório sem despedir-se. Em sua sala, deparou-se com relatórios para ler, expedientes para mandar à vara de entorpecentes. Não houve espaço para respirar ou para refeições, mas o dia pareceu mais leve.
\n\nDormir era uma suspensão temporária da vida e sonhava poder dormir uma noite inteira, no entanto, altas horas da madrugada acordou ofegante, agitado com os pesadelos. Não conseguiu mais dormir. Cada dia os pesadelos desencadeavam um diferente sintoma. Frustração, revolta, saudade. Se não voltasse para o tratamento com antidepressivos, não suportaria.
\n\nDeixou a cama, vestiu uma calça de moletom preta, camiseta cinza manga longa, pôs uma pochete na cintura com suporte para água e espaço para arma e distintivo, desceu e foi pedalar pela rua beira-mar, no rumo do Pier. Pedalou vinte quilômetros, acorrentou a bicicleta e encostou-se à grade para observar o mar durante o nascer do sol. Inspirou o cheiro salgado em absoluto silêncio. Aos poucos a angústia da sua alma após o pesadelo ganhava algum bálsamo.
\n\nO movimento no píer aumentou, alguns ambulantes ofereciam produtos a turistas, e logo a paz e o sossego foram interrompidos. Empurrou a bicicleta pelo píer e um movimento suspeito chamou sua atenção. Dois delinquentes assaltavam sorrateiramente uma mulher, ao seu lado.
\n\nComo Agente Federal à paisana, Edward tinha poder-dever de agir, ainda que o crime não tivesse ligado a drogas. Um policial é um policial em qualquer situação. Após uma avaliação periférica, calculou a distância e notou que só um dos assaltantes tinha arma de fogo, o outro portava arma branca. Pôs sua bike no chão, rápido e silencioso, e, num mesmo movimento, deu uma rasteira no rapaz que segurava a pistola e a tomou. Imobilizou-o com o braço no pescoço, fechando sua traqueia até deixá-lo indolente. Após o ato preciso e cirúrgico de quem treinava horas após o expediente no tatame com seus subordinados, Edward deixou-o inconsciente no chão e se virou para o outro, que o olhava estático.
\n\n‒ No chão! Narcóticos! ‒ comandou com a arma apreendida apontada para ele. Tirou sua Glock da pochete e apontou-a para o meliante inconsciente, por precaução. Era melhor pecar por excesso. Não se dava o direito de errar.
\n\nEncurralado e assustado, o assaltante soltou a faca e a mulher, pôs a mão na cabeça e deitou-se de bruços.
\n\n‒ Senhora, ligue para a polícia local, por favor ‒ Edward instruiu e olhou em volta, notando espectadores. O ato seguido deixou-o embaraçado. Ele foi aplaudido pelo êxito na ação por quem assistiu.
\n\nPoderia ter sido covarde, ter dado as costas e ter seguido para casa ao presenciar o assalto, afinal, o que poderia ser levado? Celular? Algum dinheiro? Mas a consciência de quem abraçou este ofício não o permitiu. A Justiça deveria progredir diante do crime.
\n\nTrês viaturas de polícia ostensiva estacionaram, Edward identificou-se, deu um relato acompanhado da vítima, a polícia algemou os assaltantes e os conduziu à delegacia. Antes de Edward montar sua bike, a senhora alvo do assalto surpreendeu-o com um abraço.
\n\n‒ Obrigada! ‒ agradeceu, calorosamente. O misto de bondade e carinho materno no seu semblante tocou Edward.
\n\n‒ Foi meu trabalho, senhora ‒ justificou-se embaraçado, tentando contê-la. Evitava toques e abraços despropositados.
\n\n‒ Obrigada mesmo assim ‒ sorriu e afastou-se. ‒ Vamos, Peter ‒ a senhora magra e ruiva segurou a mão de uma criança loura.
\n\nEnquanto desciam a rampa, a criança de inteligentes olhos azuis fitou Edward e apontou o indicador simulando uma arma imaginária. Fez pow pow com os lábios, depois acenou tchau, sorridente. Algo no garoto trouxe paz ao Federal, deu-lhe certeza de que, embora fosse cheio de conflitos, fez a escolha certa ao trabalhar para a Justiça. Restringir ou dificultar o tráfico de drogas era menos uma criança no mundo exposta a risco de vício no futuro.
\n\nPor volta de onze da manhã, Edward voltou ao seu prédio. Sentia-se melhor que quando acordou. Tinha a sensação de dever cumprido. Subiu com a bicicleta pelo elevador. Ao descer no seu andar, surpreendeu-se ao deparar com uma pessoa sentada no chão.
\n\n‒ Se demorasse mais cinco minutos eu iria embora! ‒ Bella reclamou sorridente, incorporou-se e caminhou até ele. ‒ Olá ‒ deu um beijo estalado em sua bochecha e bagunçou seu cabelo levadamente. Ele fechou o semblante. Ela notou.
\n\n‒ O que faz aqui? ‒ acusou sério.
\n\n‒ Que eu saiba combinamos de eu vir aqui hoje, esqueceu, é? Acho que, com a idade, seus neurônios estão morrendo ‒ espetou divertida, dirigiu a mão ao chaveiro na cintura dele e pegou a chave-cartão presa na calça. ‒ Vamos entrar? Eu não tenho tempo a perder ‒ pegou umas sacolas no chãos e abriu a porta, comodamente. Ele olhou-a pasmado. Não imaginou que ela realmente viesse. Não gostava de visitas.
\n\nEla tirou o tênis e deixou-o no canto do hall. Seguiu direto para a cozinha como se fosse íntima na casa. Ele ficou sem ação com a invasão. Ela voltou da cozinha segurando um copo com água.
\n\n‒ Você quer um pouco? ‒ ofereceu, parada sob o umbral da porta que separava o corredor da sala.
\n\n‒ Depois eu pego ‒ descartou e ergueu a bicicleta para levá-la à sacada. Encaixou a roda no suporte e, ao virar-se, foi surpreendido com o copo na boca. Iria negar novamente, mas Bella virou o copo. Ele bebeu no susto, derramando parte na camisa. Ela sorriu. Ele entrecerrou os olhos, reprovando seu ato.
\n\nBella afastou-se sorridente e encostou-se à proteção de alumínio e vidro da sacada. Usava uma calça bailarina rosa clara e uma blusa de frio da mesma cor, o cabelo amarrado num rabo de cavalo e um headband cheio de florzinhas coloridas enfeitando-o.
\n\n‒ Essa sua parte aqui fora é bem legal. Você poderia fazer um jardim suspenso aqui ‒ sugeriu e apontou para a área vazia. Ele ignorou o comentário, incomodado com a garota abelhuda. ‒ Eu não sei como uma pessoa pode viver em uma casa sem cores ‒ censurou-o e caminhou de uma extensão a outra avaliando o espaço de quarenta metros quadrados. ‒ Deixe-me colocar flores aqui? ‒ propôs animadamente. ‒ Eu posso trazer da minha casa. Lá tem muitas mudas ‒ propôs. Ele balançou a cabeça negando e não deu a mínima pista de que seria persuadido. Ela insistiu. ‒ Diz que sim, vai.
\n\n‒ Não sei se você percebeu, mas aqui é um apartamento de homem ‒ resmungou contrariado. ‒ Além disso, não tem quem cuide ‒ adicionou e tirou a camiseta molhada no caminho para o quarto. Ela seguiu atrás.
\n\n‒ A única coisa que vai ter que fazer é jogar água ‒ argumentou obstinada. Se ele já não tivesse presenciado suas últimas manobras por telefone, seria facilmente manipulado pela astuciosa garota. ‒ Tem umas que nem são todos os dias ‒ insistiu com carinha pidona e sentou-se na cama dele, à vontade.
\n\nEdward jogou a camiseta molhada no cesto, enfadado com a presença no seu espaço pessoal, tirou o tênis e colocou as meias usadas no cesto.
\n\n‒ Eu sou bem ocupado ‒ sentenciou com uma torcida de lábios.
\n\n‒ Argh, bom dia para você também! Que mau humor! Não me deu nem um sorriso desde que eu cheguei! ‒ reclamou com um bico, os braços cruzados dramaticamente. Ele caminhou pensativo na direção do banheiro. Não tinha percebido que estava de mau humor.
\n\n‒ Eu sou sempre assim ‒ argumentou teimoso.
\n\n‒ Tem razão de morar sozinho. Ninguém aguentaria dividir o dia com um tio velho e rabugento como você ‒ soltou natural, avistou uns livros na cabeceira da cama e pegou um.
\n\n‒ Eu não sou rabugento ‒ defendeu-se incrédulo.
\n\n‒ É, sim ‒ retrucou teimosa e folheou umas páginas.
\n\n‒ Também não sou velho.
\n\n‒ Velho depende do ponto de vista, já dizia Mario Quintana ‒ recitou e continuou folheando o livro, agora deitada de lado na cama. Ele olhou-a com crítica por ela sentir-se tão cômoda em sua cama, deu as costas aborrecido e entrou para um banho.
\n\nNão gostava de pessoas espaçosas. Não tinha idade de ser tio dela. Nem tão pouco seu irmão mais velho, Jasper, tinha idade de ter uma filha da idade dela. Só se Jasper tivesse sido pai com 12 ou 13 anos, o que não era de todo impossível, já que ela era mãe. Argh, cada vez que pensava nisso ficava mais chocado! Nunca pensou na possibilidade de meninas de 11 a 14 anos grávidas em seu país, só em países de terceiro mundo.
\n\nTerminou o banho e voltou com a toalha enrolada na cintura para o quarto. Ela estava de bruços sobre a cama, os pés apontados para cima enquanto lia.
\n\n‒ É isso que você costuma ler? ‒ censurou-o.
\n\n‒ Sim ‒ assentiu. Abriu o armário se questionando se ela não iria sair do quarto para lhe dar privacidade. Ela ignorou sua presença e passou mais uma página do livro desinteressante. Ele pegou contrariado umas peças de roupa e voltou ao banheiro para se trocar. Vestiu calça de moletom e camiseta desbotada preta, passou perfume e voltou ao quarto.
\n\n‒ Hmmm, este perfume é tão bom ‒ Ela fungou o ar profundamente para saborear o aroma cítrico. ‒ Sabe que eu acho completamente errada a leitura desse tipo de livro? ‒ apontou.
\n\n‒ Por quê? ‒ franziu o cenho.
\n\n‒ Porque esses livros te incitam a querer justiça. Mostram as maldades do mundo. E eu prefiro não ler. Saber nos revolta ‒ rejeitou o livro jogando-o na cama.
\n\n‒ Ele te põe a par da realidade no mundo ‒ defendeu. ‒ O mundo não é cheio de flores. Precisamos estar informados sobre marginalidade para nos defender.
\n\n‒ Para mim tudo tem os dois lados. Se você ler sobre Operações Especiais contra o crime... ‒ repetiu o nome dramatizando. ‒ ...Fica paranóico e enxerga coisas onde não há.
\n\n‒ Esse é o meu trabalho ‒ enfatizou, pegou o livro na cama e voltou-o ao lugar na mesinha de canto.
\n\n‒ E do que você trabalha? ‒ questionou, curiosa. ‒ Deve ganhar bem para ter uma cobertura beira-mar aqui em Santa Mônica ‒ adicionou natural, como se falar de salário fosse normal.
\n\nSurpreso por mais essa intromissão, ele advertiu-se de que deveria improvisar uma mentira. Se ela desconfiasse de sua atividade policial investigativo-preventiva, descobriria o motivo de sua fácil, não tão fácil assim, rendição.
\n\n‒ Sou, er, um escritor ‒ mentiu sem jeito e sentou-se ao lado dela na cama.
\n\n‒ Ah, é? Então me mostra suas obras! ‒ pediu animada e recolheu as pernas de lado na cama, os pés sobre o lençol. ‒ Você usa pseudonome? Eu conheço?
\n\n‒ Não. Eu não tenho nenhuma obra publicada ‒ consertou, desconfortável. A mentira tomava proporções maiores. ‒ Estou ainda nas primeiras páginas.
\n\n‒ E por que você é rico, se não tem nenhum livro famoso ainda? ‒ pressionou confusa. Ela era muito perspicaz, ele notou.
\n\n‒ Porque minha mãe era uma bioquímica e assinava algumas fórmulas ‒ esclareceu sincero. ‒ O pecúlio pelas patentes, eu e meu irmão herdamos ‒ baixou o olhar. A lembrança de sua mãe despertou a dor da saudade.
\n\n‒ O que ela assinava? ‒ perguntou atenciosa. Ele pausou um tempo, calado, nervoso por estar falando a verdade.
\n\n‒ Cosméticos anti-idade ‒ respondeu apático, tocado pela pessoalidade do assunto. Ela observou-o. Ele desviou o olhar para o chão, desolado. Não gostava de ser visto tão vulnerável. Todavia conversar sobre sua mãe sempre o consternava. Não podia evitar.
\n\n‒ Ela morreu? ‒ Bella supôs cautelosa, a voz mais baixa.
\n\n‒ Sim.
\n\n‒ Você sente muita falta dela, né? ‒ ergueu a mão ao cabelo dele, tranquila, e tirou um fio do olho. Ele olhou-a desconfiado, pesando se era genuína sua solidariedade.
\n\n‒ Sinto ‒ admitiu. Droga, não queria trazer ninguém para sua dor. Nunca gostou de se expor, pior ainda para alguém que mal conhecia. Demorou séculos para se abrir minimamente com sua psicóloga, Rachel, quando eram só paciente e psicóloga. Por que, então, contou para essa garota?
\n\nNão gostou disso. Antes que pudesse se precaver, a garota ficou em pé, posicionou-se entre suas pernas e apertou a cabeça dele em seu tórax, abraçando-o forte pelos ombros. Ele ficou em mudo estupor. Ela devia ser dessas adeptas à terapia do abraço.
\n\n‒ Eu queria ter tido uma mãe para sentir falta ‒ sussurrou compadecida. Ele suspirou rendido e fechou os olhos. ‒ Mas, pelo contrário, eu senti alívio quando fugi dela ‒ revelou triste, os dedos deslizando gentilmente na sua nuca. Ele deixou a mente em branco, só o perfume e o calor da garota ocupando seus sentidos. Há tempos não recebia algo afetuoso. Era novo isso.
\n\n‒ Agora brrruuuuuhhh ‒ ela afastou-o e tremeu os dedos no ar. ‒ Sai para lá, energia ruim! ‒ balançou as palmas das mãos sorridente. ‒ Não vamos conversar coisas tristes. Melhor fazer algo para comermos, vamos? ‒ propôs animada, tirou a blusa de frio e jogou-a na cama, ao lado de sua mochilinha rosa de costas.
\n\n‒ Geralmente eu peço comida ‒ ele avisou e a seguiu pelo corredor. ‒ Melhor pedir.
\n\n‒ Não. Eu comprei verduras e legumes antes de vir. Também comprei um peixe.
\n\n‒ Você não vai sujar minha cozinha, vai? ‒ perguntou, cético. Ela abriu a geladeira e tirou sacolas.
\n\n‒ Vou, sim ‒ garantiu sossegada, desempacotou os legumes na cuba e abriu a torneira. ‒ A regra é a seguinte: eu sujo, você limpa.
\n\n‒ Fácil assim? ‒ criticou mordaz.
\n\n‒ Ai, você é chato. Relaxa. Depois limpamos os dois. Não custa nada ‒ lavou tomates, depois alface e verduras. Ele observou-a. Ela usava um body florido de amarrar no pescoço, costas nuas. Ele pegou-se a avaliando, distraído. Ela tinha mais curvas do que tinha percebido. Quadril sinuoso, cintura fina, e os cabelos amarrados no alto davam um ar displicente ao conjunto. Movia-se inquieta para lavar os itens, cantarolando alguma música.
\n\n‒ Vai ficar só olhando? ‒ espetou-o. Ele abriu as mãos no ar desorientado. Bella abandonou a faca ao seu lado. ‒ Vem cortar ‒ instruiu e acendeu o fogo para o peixe em postas já temperado.
\n\n‒ O que aconteceu com seu cabelo? ‒ Ele inseriu assunto, encostou-se ao balcão e picou tomates. Há anos não fazia serviço doméstico, mas duvidava que tivesse a opção de negar. Sentia-se coagido em sua própria casa.
\n\n‒ Meu cabelo? ‒ ela trouxe o rabo de cavalo do seu cabelo para frente e olhou-o confusa, depois sorriu. ‒ Ah, eu ponho um tic tac com cachos artificiais quando saio para festas. Acho que ele liso assim me deixa muito novinha ‒ deu de ombros. ‒ Você me acha mais linda assim ou cheia de cachos?
\n\nEle avaliou-a de viés, surpreendido com a pergunta natural. Ela estava flertando? Obviamente não. Nunca! Era somente alguém espontânea, fácil de conversar sem cerimônia.
\n\n‒ Prefiro assim ‒ pronunciou sucinto. Não o agradava a associação mental que fazia entre ela e Rosalie quando ela usava cachos. ‒ Onde você comprou tudo isso?
\n\n‒ Comprei na feirinha perto da casa de recuperação que vou todos os sábados pela manhã levar mantimentos. Já que domingo não vi comida decente por aqui, comprei produtos naturais para não passar fome e ensinar você a se alimentar direito ‒ adicionou séria.
\n\n‒ Sua família sabe do seu, er, trabalho comigo? ‒ perguntou cauteloso. Ela picou salsa, pimentões e pôs no peixe.
\n\n‒ Alie, sim. Os outros eu ainda não falei. Emm não concorda muito que eu me envolva tanto, mas sabe o que eu penso? Como eu posso ajudar alguém sem me envolver? Muita gente acha que ajudar é só depositar dinheiro na conta da casa de recuperação, de creches ou lar dos velhinhos. Tudo por desencargo de consciência. Esquecem que lá existem pessoas que querem ser ouvidas, querem se sentir importante ‒ defendeu, empurrou-o com o quadril e o afastou da pia para colher água para o arroz integral.
\n\n‒ Pedir licença é algo educado ‒ criticou.
\n\n‒ Tô vendo se, brincando, você relaxa um pouco.
\n\n‒ Você não deve brincar com algo perigoso ‒ ele alertou e mostrou a faca. Quando ela o empurrou, ele a segurava e poderiam se acidentar.
\n\n‒ Você não me faria mal ‒ acentuou, pôs a panela de arroz no fogo e sentou-se à mesa. Ele trabalhou na salada meticulosamente, agora bem pensativo. Por que ela depositava nele sua confiança? Ela era insensata em agir assim. Ele podia não ser – assim como não era – quem ela pensava. Poderia representar perigo à sua integridade. Ela parecia inocente demais para visualizar isso.
\n\n‒ E se eu não fosse do bem, Bella? Como você reconhece alguém íntegro? ‒ questionou, inexplicavelmente, preocupado, pegou a travessa de salada e pôs sobre a mesa.
\n\nEla lia a coluna de arte do jornal interessada, mas registrou seu nome ser pronunciado pela primeira vez por ele. Adorou, mesmo que fosse do seu jeito sisudo.
\n\n‒ Não sei como ‒ ponderou distraída. ‒ Mas eu sei reconhecer pessoas más.
\n\n‒ Você sempre confia em viciados ao ponto de ir à casa deles? ‒ criticou confuso com o sentimento protetor que o invadiu. Censurou-se. De quem deveria protegê-la, não iria conseguir, já que ela o amava. Emmett... Assim como foi com Rosalie.
\n\n‒ Não. Eu não costumo ir à casa de ninguém que não seja a casa do Daniel, com muito custo ‒ explicou. ‒ Mas com você foi diferente. Eu me envolvi. Fui eu a te encontrar, a ligar para seu pai, a te trazer para casa num momento vulnerável seu. Eu fiquei comovida ao te ver sofrer na rua e aceitei a missão como se estivesse escrita para acontecer ‒ estudou-o com cautela por cima do jornal. ‒ Sou observadora e sei julgar. Seu pai é do bem, logo não tem como ter um filho do mal. Você é fácil de ler. É como seu apartamento. Solitário, frio, mas não insensível ‒ enumerou naturalmente, virou a página do jornal. ‒ Além disso, seus livros me dizem que você é íntegro. Eu não me enganaria. Se você planejasse me fazer mal, não teria resistido tanto quando nos falamos a primeira vez por telefone.
\n\nEle calou-se perplexo com sua defesa e fé nas pessoas. Terminou de organizar o que ela tinha desarrumado, colocou talheres na mesa e se sentou frente a ela.
\n\n‒ Talvez você não me conheça ‒ acusou vagamente ressentido consigo por abusar de sua confiança.
\n\n‒ Eu vou ter tempo para isso. Somos amigos agora.
\n\nEle recolheu-se ao silêncio, incomodado. Ela era ambígua. Enquanto inquieta e imatura, era corajosa e boa.
\n\nO cheiro de comida encheu o ar. Ela abriu as portas do armário procurando pratos. Ele acompanhou seus movimentos rápidos e espalhafatosos de abre e fecha portas, puxa e empurra gavetas.
\n\n‒ Ajudaria se você perguntasse onde está ‒ repreendeu com uma torcida de lábio. Ela encontrou finalmente a gaveta de pratos e os pegou. Mostrou-os triunfante.
\n\n‒ Eu gosto de dificuldade ‒ rebateu, colocou o prato na mesa e se serviu. Ainda em pé, levou à boca um pedaço de peixe ao molho com os dedos e gemeu exageradamente. ‒ Hmmm, muito boooom ‒ rolou os olhos. ‒ Lógico, fui eu que fiz! ‒ gabou-se sorridente e se serviu salada. Ele experimentou o peixe com o garfo.
\n\n‒ Você cozinha bem ‒ elogiou cheio de reservas.
\n\n‒ Bingo! Ele sabe elogiar! ‒ gracejou animada.
\n\n‒ Onde aprendeu?
\n\n‒ Tive que me virar. Não gosto que Peter coma coisas pouco nutritivas ‒ explicou com a boca cheia. ‒ Tive que ler muito.
\n\n‒ O que ele é exatamente seu? ‒ questionou curioso. Ainda não acreditava no que Rachel disse, quanto a ela ser mãe.
\n\n‒ Ele é meu bebê ‒ assegurou, com olhos sonhadores. ‒ Eu tinha quase doze anos quando fui obrigada a trocar panelinhas e bonecos de pano por um bebê de verdade! ‒ contou como se fosse algo natural e divertido. Ele olhou-a incrédulo ao ler seu orgulho em ter sido mãe tão cedo.
\n\n‒ E o pai? ‒ tentou esconder a censura, mas a comida travou na garganta.
\n\n‒ Emmett? ‒ perguntou retórica. ‒ Ele não podia me ajudar muito. Estudava e trabalhava na época ‒ explicou compreensiva. ‒ Se não tivéssemos nos sacrificado, não teríamos chegado aonde chegamos.
\n\nOs dedos de Edward apertaram o garfo, inconsciente. Ela o surpreendia e revoltava-o com a consideração por Emmett, a quem Edward julgava um monstro pedófilo que usurpou sua infância.
\n\n‒ Você é interessante, gosta de ler, mas não gosta de estudar ‒ mudou de assunto para dominar a raiva. Serviu-se de arroz e caldo de peixe.
\n\n‒ Não é que eu não goste de estudar. Meus trabalhos e apresentações são os melhores. Eu só queria adiantar. É muito ruim ser a mais alta e mais velha do Junior.
\n\n‒ Ah.
\n\n‒ Mas chega de falar de mim. E você? Que curso superior fez?
\n\n‒ Química ‒ respondeu, tranquilo, enquanto mastigava. ‒ Ainda estou terminando o meu TCC de especialização em Química Forense.
\n\nGemeu inconsciente. Há tempos não comia algo caseiro e saboroso. Ela gargalhou ao flagrá-lo.
\n\n‒ Está bom mesmo? ‒ perguntou com um sorriso vaidoso.
\n\n‒ Sim. Quantas vezes tenho que repetir? ‒ questionou quase sorrindo.
\n\n‒ Quantas eu conseguir ouvir de você. É melhor que comida industrializada, não? ‒ brincou.
\n\n‒ Ah, tá, entendi. Você é adepta ao naturalismo, não é? ‒ deduziu. Ela assentiu balançando a cabeça. ‒ Eu não. Sou sozinho e tenho que me virar como posso para comer ‒ justificou-se.
\n\nEla parou o garfo no ar e olhou-o com atenção, relutante em formular uma pergunta, mas rendeu-se.
\n\n‒ Faz quantos anos que ela se foi?
\n\n‒ Quem?
\n\n‒ Sua mãe. Faz quanto tempo? ‒ perguntou mais segura. Ele parou de comer e olhou-a. A realidade de quem ela era e do que representava aquele almoço o atingiu. Por instantes, deixou-se levar pela ilusão de que poderia ter uma amizade normal. Mas ela não era nada mais que um meio de atingir Emmett Mattel, meio de investigá-lo e fazê-lo pagar por tudo que fez.
\n\nEla leu a ira e dor em seus olhos.
\n\n‒ Seis... Faz quase seis anos que ela morreu ‒ ele sussurrou distante.
\n\n‒ Você tem lembranças boas com ela? ‒ tentou manejar a situação ao notar seu aborrecimento. Apoiou as costas na cadeira e apontou em direção ao prato dele para que voltasse a comer.
\n\n‒ Sim. Tenho boas lembranças ‒ suspirou rendido.
\n\n‒ Quais? ‒ incitou-o esperançosa.
\n\n‒ Só as antigas... Quando eu era criança, ela me fazia rir. Ela adorava peixe e fingia que ele falava antes de comê-lo ‒ revelou introspectivo. Em um ato de rendição inconsciente, pegou novamente o garfo e espalhou um pouco a salada, ainda sem vontade de recomeçar.
\n\nApós vê-lo melhor, Isabella decidiu dividir com ele parte de sua vida.
\n\n‒ A última lembrança que eu tenho da minha mãe é de quando eu tinha quase onze anos e ela queria me vender para seus clientes num prostíbulo ‒ revelou triste. Ele parou o garfo no ar, novamente chocado com sua vida. ‒ Sorte que Emmett me roubou a tempo ‒ concluiu grata.
\n\nEla despertava uma gangorra de emoções nele. Ele queria gritar que não, que Emmett não a resgatou para salvá-la. Bella percebeu novamente sua mudança.
\n\n‒ Seu humor é tão instável, né? ‒ acusou-o divertida.
\n\nEle encerrou a refeição, levou seu prato à pia, sombrio, culpado, em um conflito interno por colocá-la no meio disso. Ela era só uma vítima. Vítima da marginalidade e refém de um homem por quem tinha consideração e amor.
\n\n‒ As louças são suas ‒ ela ditou. ‒ Eu vou ao quarto escovar os dentes, depois vou colocar uma música.
\n\n‒ Quê? ‒ olhou-a de canto.
\n\n‒ Você vai lavar as louças ‒ dispôs naturalmente, já saindo da cozinha.
\n\n‒ Não, isso não.
\n\n‒ Escovar os dentes? ‒ repetiu, confusa.
\n\n‒ Música. Pra que música? ‒ censurou, indisposto a ter mais inconvenientes.
\n\nEla rolou os olhos.
\n\n‒ Sua casa é muito silenciosa. Vamos colocar barulho por aqui.
\n\nQuando Edward terminava de organizar a cozinha, um rock da Avril Lavigne se iniciou. Menos mal. Pensou que iria ser obrigado a ouvir Justin Bieber. Secou as mãos e seguiu para sala. Ela estava sentada no carpete felpudo branco, as costas apoiadas no sofá. Ao vê-lo, deu uma palmada no chão ao seu lado para que ele se sentasse.
\n\n‒ Espere um pouco ‒ pediu e foi ao quarto também fazer higiene bucal.
\n\nEncontrou-a deitada de lado no carpete passando músicas do celular por Bluetooth para o aparelho de som. Ele sentou-se no sofá atrás dela.
\n\n‒ Aqui no chão ‒ apontou o carpete, teimosa.
\n\n‒ Para que eu vou sentar no chão se tenho o sofá? ‒ relutou.
\n\n‒ Porque eu quero ‒ gracejou. ‒ Custa muito fazer sem resistir? Ponha uma coisa em sua cabeça... ‒ ajoelhou-se e puxou sua mão, forçando-o a levantar-se. ‒ Eu sempre consigo o que quero.
\n\nEle sentou-se em sua frente contrariado. Se fizesse logo o que ela queria talvez ela fosse embora rápido, pensou.
\n\n‒ Você se parece com Peter quando faz essa carranca ‒ apertou sua bochecha. ‒ Se eu não soubesse que o pai do Peter é Emmett, imaginaria ser você ‒ comentou reflexiva. ‒ Os olhos. Ele tem os olhos azuis parecidíssimos com os seus ‒ ajoelhou-se mais próxima e estudou-o encantada com o tom azul royal. ‒ São lindos ‒ elogiou.
\n\nEle sentiu seu hálito bom, baixou o olhar e sua atenção voltou-se involuntariamente para o body, que apertava o busto para cima, a centímetros do seu rosto. Observou a pele clara do colo, os seios médios e bem redondos e inferiu que eram assim crescidos por ela já ter amamentado.
\n\nPor que não notou que ela tinha seios antes?
\n\nEle passou a língua sobre os lábios ressequidos. Engoliu saliva ao perceber o que os pensamentos desencadeavam. Droga. Um maldito volume sob a calça de moletom! Droga, droga, droga. São só peitos! Nada que justifique essa reação! É muito errado enxergá-la com outros olhos.
\n\n‒ E as flores? ‒ ela sentou-se de novo em sua frente, inocente. Ele fechou os olhos, encolheu os joelhos para esconder seu estado rígido e respirou fundo, xingando-se pela fraqueza. Ela não passa de uma garota, Edward! A garota do gângster Emmett Mattel. Lembre-se disso!
\n\n‒ O que têm as flores? ‒ limpou a garganta.
\n\n‒ Posso fazer um jardim suspenso ali? ‒ apontou para a sacada, o olhar suplicante.
\n\n‒ Não ‒ disse definitivamente, um pouco rude demais. ‒ Nada de flores aqui ‒ sentenciou.
\n\n‒ Tudo bem ‒ aceitou resignada, mudou a música para Katy Perry e ficou um tempinho cantando. ‒ Você é chato ‒ arreliou-o, deu as costas e foi à cozinha. Voltou segundos depois com um sorriso no rosto e peras nas mãos. Jogou uma para ele, que foi pego de surpresa e deixou-a cair no sofá.
\n\n‒ Ih, tá perdendo os reflexos? Acho que é problema de DNA. Data de Nascimento Antiga ‒ zombou e sentou-se indiana enquanto comia, inquieta, com os joelhos balançando para cima e para baixo, como asas de borboleta. ‒ Eu queria sorvete, mas aqui não tem. Nem pensei nisso quando fui às compras hoje.
\n\n‒ Eu não costumo receber pessoas aqui, por isso não faço compras ‒ justificou-se e mordeu a pera.
\n\n‒ Ninguém vem aqui? Seus amigos, família, uma mulher? ‒ pressionou curiosa.
\n\n‒ Não. Só meu pai. Minha casa é meu local de paz ‒ pelo menos era, adicionou mentalmente. ‒ Se quero encontrar alguém, combino em outro lugar.
\n\n‒ E funcionária? Você tem uma? ‒ olhou em volta. ‒ Aqui é tão limpo.
\n\n‒ Eu tenho uma algumas vezes na semana ‒ explicou sem delongas.
\n\n‒ Você podia pedi-la para cozinhar para você, assim não precisaria comer na rua ‒ sugeriu atenciosa. ‒ Alimentação saudável e natural influencia em uma boa recuperação.
\n\n‒ E o que tem a ver comida com o seu tratamento?
\n\n‒ Tudo! ‒ disse animadamente. ‒ Corpo e mente andam juntos. A alimentação influencia em tudo ‒ explicou como se fosse especialista.
\n\n‒ Queria mesmo saber por que uma garota como você preocupa-se com isso. Geralmente alimentação é assunto de pessoas meia-idade.
\n\n‒ Então você já devia se preocupar com isso ‒ acentuou naturalmente. Ele entrecerrou os olhos pronto para lhe dar uma resposta mordaz, mas desistiu. Terminou de comer a pera e encostou as costas no sofá.
\n\nEla colocou os restos da fruta no canto próximo ao carpete e apoiou as duas mãos no chão, atrás do corpo, em silêncio. Ele não desistiu de perguntar sobre Emmett, se não, não valeria a perda de tempo e invasão de privacidade.
\n\n‒ E o pai do garoto? Do que ele trabalha? ‒ fingiu casualidade. Ela olhou-o com atenção.
\n\n‒ Ele faz pesquisas com remédios.
\n\n‒ Para um laboratório? ‒ estendeu o assunto.
\n\n‒ Ele presta serviços para um laboratório fora, eu acho. Mas fica grande parte do tempo em seu laboratório lá em casa mesmo ‒ explicou tranquila. ‒ Mas ainda bem que nosso terreno tem duas entradas, assim as pessoas que vão lá não precisam passar por nossa casa ‒ fez um bico, contrariada.
\n\n‒ Você não gosta das pessoas que vão ao laboratório dele? ‒ incitou-a a desenvolver.
\n\n‒ Não. Eles são estranhos.
\n\n‒ Estranhos como?
\n\n‒ Não sei... Não são de todos que eu não gosto. Não gosto mesmo é dos tiras ‒ expôs, pensativa.
\n\n‒ Policiais? ‒ ofegou, sobressaltado, depois dissimulou a expressão. ‒ Emmett recebe policiais?
\n\n‒ Sim. Eu acho que são policiais ‒ respondeu confusa com seu tom acusador. ‒ Quase sempre estão armados ‒ deu de ombros. ‒ Tudo bem que o país libere armas e Emmett e Rilley andem armados, mas os outros são estranhos.
\n\n‒ Quem é o Rilley? ‒ inclinou-se mais, interessado. Já tinha investigado sobre Rilley, mas as fichas dele também estavam em branco. Limpas. Sem sobrenome, sem nome de pais.
\n\n‒ É o braço direito de Emm. O faz tudo no laboratório. Mas por que esse interesse pela minha família? ‒ perguntou brincalhona.
\n\nEle afastou-se sem jeito, pego de surpresa por ela ter notado o indisfarçável interesse. ‒ Só curiosidade ‒ tentou evadir-se. ‒ Queria saber suas origens para entender o porquê de fazer isso que faz: ajudar viciados ‒ mentiu.
\n\nEla sorriu, facilmente convencida.
\n\n‒ Gosto de me sentir útil.
\n\n‒ Emm apoia? ‒ perguntou ele de modo familiar. Ela deixou passar.
\n\n‒ Sim, lógico. É ele quem me ajuda financeiramente em todas as benfeitorias que eu quero fazer ‒ explicou com olhos intensos. Ela o venerava, Edward notou.
\n\nA música trocou. Ele sentia-se gelado com o que descobriu hoje sobre ela. A ética alertava-o a parar antes que ultrapassasse limites. Debateu-se entre o certo e o errado. O profissional era mandá-la embora, dizer que tudo era um equívoco e pedir-lhe para não voltar, assim manteria a impessoalidade no caso Emmett, principalmente por causa do histórico dos dois. A despeito disso, o errado era mais atrativo.
\n\nLivrando-o de decidir, ela puxou seu braço apoiado no sofá e empurrou seus ombros para que ele sentasse ereto. Ele olhou-a confuso, ela sentou-se indiana e colocou as costas das mãos no joelho.
\n\n‒ Senta do mesmo jeito que eu ‒ pediu, ele espelhou-a sem vontade, mas decidiu não contrariá-la mais por hoje. Se iria seguir em frente, tinha que parar de se opor a tudo.
\n\n‒ Feche os olhos e inspire profundamente ‒ instruiu e fechou os olhos.
\n\n‒ Pra quê?
\n\n‒ Para aprender a relaxar, tranquilizar a mente ‒ tomou ar profundamente.
\n\nEle observou-a, desacreditando de ter realmente que fazer aquilo. Isso era exercício de mocinha!
\n\n‒ Mas pra quê, Bella? ‒ relutou, mesmo que tivesse dito para si que não iria se opor. Na teoria era fácil dizer.
\n\n‒ Edward! ‒ abriu os olhos, ajoelhou-se próxima e segurou o rosto dele nas mãos, impaciente. Era a primeira vez que o nome dele saía de seus lábios fatidicamente, de um jeito enérgico. Ele arregalou os olhos intimidado. ‒ Por favor, me dê uma chance ‒ mudou o tom para suplicante. ‒ Tente, pelo menos. Não vai doer. É meu trabalho na casa de recuperação exercitar yoga com os recuperandos e quero dividir isso com você ‒ pôs os dedos em suas pálpebras e o obrigou a fechar os olhos.
\n\nMesmo contra a vontade, ele baixou a guarda.
\n\n‒ Inspire devagar ‒ Bella ensinou, os dedos passeando por seus traços tensos na junção na testa. Ele perdeu a resistência. ‒ Lento e longamente.
\n\nEle inspirou profundamente, exalou devagar e repetiu o exercício até relaxar.
\n\n‒ Onde aprendeu isso? ‒ perguntou baixinho, sentindo a respiração compassada dela próxima. O sabor era agradável.
\n\n‒ Nos livros ‒ esclareceu. A música calma se repetiu. Ele tornou-se muito consciente dela, de seu perfume, mas manteve os olhos fechados.
\n\nSentiu a mão macia dela tocando a mão dele, fazendo círculos no dorso.
\n\n‒ Não abra os olhos ‒ ela pediu, virou a mão dele para cima e a massageou. Surpreendentemente, onde ela tocava parecia brotar pequenas vibrações. As unhas correram toda a palma, pulso e subiram até o cotovelo. A massagem se repetiu. Sentimentos dúbios se conflitaram em seu organismo. Calor e frio. Calma e pulsação. Tudo se tornou quietude. A mente esvaziou-se.
\n\n‒ Pode abrir os olhos ‒ ela autorizou e baixou o som. Ele não queria mais abrir, mas os abriu, sonolento. Ela ainda massageava sua mão. ‒ Quando Peter era pequeno, ficava muito agitado. Emmett disse que era por causa da gravidez conturbada, então aprendi a massageá-lo e colocar músicas clássicas para acalmá-lo ‒ explicou. ‒ Foi nessa época que comecei a ler sobre a cultura oriental de relaxamento.
\n\n‒ Interessante ‒ concedeu, preguiçoso. Ela riu triunfante com o efeito.
\n\n‒ Você relaxado não parece um velho ranzinza ‒ comentou alegre. Ele finalmente sorriu, o primeiro sorriso do dia, e encostou as costas no sofá, a cabeça apoiada no antebraço. ‒ Bom, eu já tenho que ir ‒ Bella se levantou e seguiu apressada ao quarto. Voltou com sua blusa de frio e bolsinha. ‒ Marquei de sair duas horas com Peter e Alie para o cinema. Vou ter que correr ‒ ajoelhou no carpete, deu-lhe um beijo rápido no rosto e se levantou. ‒ Você quer ir conhecer o trabalho da pastoral amanhã? ‒ convidou-o.
\n\n‒ Não ‒ descartou direto.
\n\n‒ Tudo bem. Quem sabe em uma próxima. De repente é até melhor. Daniel pode reclamar da minha falta de dedicação exclusiva ‒ zombou. ‒ Sabe que eu odeio cobranças? ‒ comentou reflexiva e deu as costas. ‒ Tchauzin ‒ balançou a mão no ar e fechou a porta atrás de si.
\n\nEdward seguiu para a sala de televisão e programou noticiários. Caiu em sono profundo, talvez pela leveza da refeição ou pelo relaxamento pós-almoço.
\n\nContinua...
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