Flor de Lótus-edward e Bella

14 Capítulo 13- Inseguro


Notas iniciais
Oi, gente.
Eu sei que dessa vez demorei muito.
Mas agora, sim, voltei à ativa.
Meu tempo ficou escasso nos últimos tempos. Trabalho muito.
Além disso, teve a vida particular que me roubou muito tempo esses dias.
Mas posso garantir uma coisa a vocês: não pretendo desistir. A única coisa que pode me fazer desistir, é não ter quem leia. Mas enquanto vocês estiverem por aqui, me dando forças, estarei lutando contra o mundo real para vir escrever. Muito obrigada pelo apoio.

Agradecimento especial a Cecilia Marlene, Luana Gayo, Danimarjorie e Joi pelas últimas recomendações. Grande beijo. É por causa de pessoas que acreditam em mim que estou aqui.

Capítulo 13- Inseguro

Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.

Dalai Lama

Domingo pela manhã, após o término da missa das crianças, nove horas, Bella segurou a mão de Peter, saiu da igreja e dirigiu-se ao carro, a fim de deixar Peter em casa antes de seguir para o cuidado de viciados. Era uma manhã linda e ensolarada. Bella seguia animada com o programa que teria no decorrer do dia. Entretanto, antes de chegar ao carro foi abordada por Daniel. Ele tinha superado a fase das ameaças e tentava agora de outro jeito convencê-la de que conversassem.

“Eu sinto sua falta, florzinha. Acho que precisamos conversar.” Disse e levou a mão ao seu rosto, acariciando-a. Bella olhou em volta do estacionamento da igreja preocupada em ser alvo de fofocas, no entanto os presentes encontravam-se distraídos. E mesmo assim, as pessoas próximas não se importavam. Afinal, até meses atrás eram um casal. “Eu preciso de você.” Insistiu carinhosamente e pôs as duas mãos no teto do carro, encurralando-a, disposto a convencê-la.

“Daniel, eu...” Tentou afastá-lo pelo peito, mas ele já a abraçava e beijava seu cabelo. Meleca, enquanto ele usava ameaças era fácil dizer não. Mas quando voltava a ser o carente amigo, era difícil de resistir.

“Hã, hã.” Ouviu-se um pigarro. Daniel afastou-se um pouco, e Bella deparou-se com olhos azuis tensos, mandíbula travada. “Er, tem como você me dá uma carona?” Edward disse e apontou para a bicicleta que segurava ao seu lado. “O pneu está vazio e...” Encarou-a enigmático, esperando que ela manifestasse.

A verdade é que estava perto, observando-a de longe como todos os domingos, e seu sangue subiu ao ver o bombado acossando-a. Lógico que não iria expor isso. Também não iria iria revelar o quão impotente se sentiu. Pior, o quão ciumento ficou.

Peter, que tinha entrado no carro e rolava os olhos para a insistência de Daniel, desceu correndo ao ver Edward e, mal aproximou-se dele, abriu os braços e fez que o erguesse do chão.

“Oi, garotão! Quer ficar com o tio Edward hoje?” Propôs enquanto o abraçava. Peter balançou a cabeça assentindo.

“Boa idéia.” Daniel interpôs insolente. “Assim teremos um tempo para conversarmos e mais tarde almoçarmos despreocupados, Florzinha.” Pôs os braços possessivamente sobre o ombro da menina.

Bella olhou-o com incredulidade, mas foi Edward que falou antes. “Não acho que Peter seja um impedimento para conversar.”Olhou-o por sobre o ombro, superior. “De qualquer maneira, após voltar, Bella vai almoçar comigo.” Avisou desafiador, desceu Peter e encarou-o impávido, como dois animais disputando espaço.

Ela finalmente saiu do estático ao notar a postura ofensiva dos dois e movimentou-se, abrindo a seguir a porta e entrando. “Daniel, daqui a pouco conversamos, mas não vou almoçar com você. E Edward, Peter tem que ficar com o pai hoje. Se você quer a carona, desmonte a bicicleta e coloque no porta-malas.” Determinou séria, abriu o porta-malas no botão e ligou o som do carro, tentando se concentrar e acalmar. Era absurdo ter dois brutamontes rosnando um para o outro na porta de uma igreja, como machos marcando território. Pior ainda, e mais absurdo, era Edward ficar se trocando com um menino de dezesseis anos!

Capturou pelo canto do olho Daniel encarando Edward, que deu um bufo irritado, tirou uma chave estrela de sua pochete, então desmontou a bicicleta. Peter ficou ao seu lado, prestativo. Minutos depois, entraram no carro e Bella deu partida séria e calada.

“Qual é o motivo do bico?” Edward perguntou logo que viraram a rua de seu prédio.

“Lá em cima.” Cortou-o, tirou seu cartão da bolsinha e passou na leitora da guarita. O portão do prédio se abriu, entrou e estacionou seu Lótus Elise ao lado do Volvo preto de Edward.

Subiram com as peças de bicicleta na mão, Bella foi direto para a sala, onde ligou no canal da Disney para Peter, em seguida caminhou para o quarto de Edward e esperou-o lá, sentada sobre a cama, enquanto balançava os pés no ar inquietamente.

“Por que apareceu lá?” Inquiriu logo que Edward atravessou a porta.

“Porque estava passando por lá e o pneu murchou.” Respondeu intimidado pelo olhar inquisitivo da garota.

“Não minta.” Levantou e caminhou em sua direção. “Eu vejo você naquelas redondezas todos os domingos. Por que hoje resolveu falar comigo? Se abra. Eu quero ouvir você.” Apontou o indicador em seu peito.

Ele deu um longo suspiro, passou a mão no cabelo e deu as costas.

“Merda...” Praguejou baixinho, depois olhou-a com olhos intensos. “Eu não gostei de vê-lo tocar você.” Disse entre dentes. Ela respirou fundo e segurou o ar ao ver o fogo em seus olhos. “Eu não sei o que deu em mim. Sei que esvaziei o pneu da bicicleta e atravessei a rua rápido, a fim de fazê-lo tirar a mão de você.” Aproximou-se e segurou-a pelos ombros. “Eu não quero que mais ninguém toque em você.” Rugiu e cobriu a boca a frente possessivamente com a sua, tocando e exigindo resposta imediata.

Sua língua moveu-se rápido a procura da dela, e ela teve que dar o que queria, liberando sua língua para que ele tomasse. Nunca a tinha beijado assim antes. Sem cuidado, como macho dominante demarcando sua fêmea. Sua boca exploradora fez com que uma necessidade recem-desperta atasse ao corpo da menina, ela abraçou-o e moveu-se sutilmente em sua frente. Ele notou o movimento e apertou-a ao seu quadril, com urgência de pura e descarada intimidade. Ao mesmo tempo que sugava ferozmente a delicada língua, impunha a sua marcando posse, enquanto praguejava mentalmente por ela tê-lo deixado tão exposto. Maldita fosse por ter invadido sua casa, por invadir sua vida, por fazê-lo viver, sentir... Maldita fosse por ter invadido seu gélido mundo e transformado nesse inferno pessoal, uma montanha russa, onde não sabia como se comportar ante a próxima descida e subida.

“Calma.” Ela ofegou e tentou empurrá-lo. Ele apoiou o braço em sua coluna e fez inclinar-se para que pudesse beijá-la no pescoço e desviar beijos para seu colo.

“Eu quero que fique comigo. Quero que almocemos juntos.”

“Hoje eu não posso.” Murmurou baixinho. Edward parou imediatamente o que fazia, afastou-se contrariado e pôs a mão na cintura.

“Por que não pode?”

“Porque não. Quando voltar da rua vou almoçar com Emmett, depois iremos levar o Peter para passear.” Justificou-se tranquila.

“Ah, Emmett, Emmett, Emmett!” Exasperou movendo as mãos no ar. “Por que ele tinha que aparecer na minha vida?!” Gritou descontrolado.

Ela encarou-o com olhos céticos, achando sua atitude bizarra e infantil.

“Edward, eu tenho uma vida. Tenho família.” Disse segura. “As coisas não são como você pensa que é.” Aproximou-se novamente dele e bagunçou seu cabelo, divertida com seu semblante contrariado. “Não estou disponível hoje. Pode ser que em outro domingo eu fique com você.” Deu um tapinha brincalhão em seu rosto. “Esvazie seu pneu no próximo domingo de novo.” Piscou presunçosa, ficou na pontinha dos pés e beijou-o selinhos. “De qualquer maneira, eu te vejo quase todos os domingos perto da igreja e você nunca foi falar comigo. Portanto, não é porque teve uma atitude possessiva que irei sair com você hoje. Não quero que suas atitudes sejam movidas por possessão. De possessivo já bastava o Daniel. Quero que suas atitudes sejam movidas por afeto, saudade, não por testosterona.”

Ele suspirou e abraçou-a novamente. “Você me deixa inseguro.” Admitiu contragosto. Era difícil admitir o quão débil era esse tipo de sentimento.

“E eu? Você acha que estou segura?” Pôs a mão na cintura. “Ainda assim, mesmo insegura às vezes, tenho te dado espaço. Além disso, não fico rosnando para as mulheres que flertam você.”

Ele aproximou-se, apertou seu corpo e inclinou o rosto para pousar o nariz na curva de seu pescoço. “Eu só não queria que ninguém mais pusesse a mão em cima de você.” Disse manhoso. Ela o abraçou de volta, compreensiva.

“Ninguém põe.” Disse tranquilamente.

“U-hum, acredito.” Resmungou com amargura. “E aquele moleque estava fazendo o quê?”

“Tentando conversar. Ele é meu amigo.”

“Não é para deixar seus amigos por a mão de você. Já basta ter que te div...”

“Shiu!” Pôs o dedo em sua boca. “Cessou o assunto. Esquece o Daniel. Eu estou aqui é com você, não com ele.” Disse séria, mas tinha um risinho querendo se formar no canto de sua boca ao perceber seus sentimentos rompendo as barreiras. Ciúme já era um bom sinal, já que ele mantinha todos os outros a várias camadas de proteção.

Despediram-se, ela levou Peter e deixou-o em casa antes de dirigir-se a pastoral para seguir para os trabalhos na Rua Spring. Depois que ela saiu, Edward jogou-se entediado no sofá e só então trouxe a julgamento suas atitudes de mais cedo. Não gostou do que viu em si, nem de como agiu. Com uma careta, censurou-se e obrigou-se a prometer que não mais agiria sem pensar por causa dela.

A semana iniciou-se novamente. Agora passaram a trocar mensagens. Nada muito profundo, é claro, mas após receber a mensagem do dia de Bella, ele passou a responder: obrigado. Tenha um bom dia. E até mesmo mandava beijo. Tudo mudava gradativamente na relação.

Ultimamente, Edward passou a pensar bem mais na vida. Passava grande parte do tempo questionando o certo e o errado. O planejado e o acaso. E neste instante, ali onde estava, na operação em uma quarta-feira à noite, ao sentir-se irresoluto quanto aos reais motivos da perseguição a Emmett, buscou em sua memória flashs de sua vida que o embasassem a ir atrás do homem que levou Rosalie às drogas.

Era um sábado quando Emmett subiu do laboratório de sua mãe com um pacotinho de cocaína na mão, conversando levianamente sobre experimentos com a substância. Mais tarde, seguiram para uma Have, experimentaram, ele, Emmett e Rosalie, e com um acordo tácito de amigos e cúmplices, ficou subentendido que a brincadeira se restringiria àquele dia. No entanto, o que para eles, foi somente uma descoberta adolescente, a qual nunca mais repetiria, com Rosalie foi diferente. Sempre que tinha oportunidade, ela arrumava um meio de convencer Emmett a lhe dar um pouco da droga.

O tempo passou. Tentaram não enxergar o vício, considerando ser somente um meio de chamar a atenção. E foi então que a suspeita de que Emmett se envolvia com Elizabeth deflagrou e fez com que, por insegurança, Rosalie aumentasse a procura.

Com as mãos fechadas em punho, Edward encostou a cabeça a um contêiner e suspirou. Encontrava-se protegido pela escuridão, nas docas em San Diego, local onde decifrou através das escutas que Emmett e seus comparsas encontrar-se-iam para negociar toneladas de drogas supostamente descarregadas em navios.

Lembrou-se, por um instante, da mensagem de Bella mais cedo, avisando que hoje, quarta-feira, a partir das 20h00, o esperaria em sua casa. Também foi nessa mensagem que ela citou que Emmett viajou às 15h00. No momento que recebeu a mensagem, pensou que se conseguisse fechar o caso antes das oito, poderia ir jantar com ela. Por isso, respondeu: estou meio enrolado. Mas pretendo ir. Nem que seja para comer frio, irei te ver. No entanto, logo que respondeu uma preocupação pulsou em sua mente: o que ela faria se soubesse que Emmett foi preso por suas mãos? Será que daria tempo ao menos explicar-se, antes que ela soubesse? Será que teria coragem de dizer a ela que o pai de seu filho fora preso por ele?

Fechou os olhos, nervoso e ansioso, levou a mão ao cinto tático e tirou um carregador municiado. Era um claro sinal de nervosismo conferir e reconferir seus equipamentos. Levava na cintura duas pistolas Glock 17, 9mm, com três carregadores cheios. Faca, a costumeira Glock baby no coldre de calcanhar; algemas, granadas, lanterna, e por fim, o rádio comunicador. No rosto usava uma máscara balaclava, óculos de visão noturna. A roupa preta tática era confundida com a noite. E seu coração pulsava forte à medida que o tempo passava.

Para se ter êxito em uma operação, é preciso sangue-frio, preparo, estudo das estratégias de combate. Todas essas regras estavam sendo obedecidas. Todavia, mesmo diante de todo treinamento e preparação, o ser humano é limitados por tensões, nervosismo. E naquele momento, ainda que estivesse pronto para o assalto, algo no interior do chefe pulsava insegurança, ao mesmo tempo em que, um sexto sentido o atormentava. Só se acalmaria quando tudo tivesse terminado.

Aos poucos, depois de oito horas no encalço de Emmett, seguindo-o, sentiu-se manipulado. Era como se ele soubesse que era seguido. Como se previsse o que aconteceria. E, portanto, brincava com a ocasião.

Desde que Emmett saiu de casa às quinze horas, um agente o seguiu, julgando que a negociação ocorreria àquele horário, como deduzido nas escutas, e que depois ele atravessaria a fronteira com Tijuana. Todos os homens das duas equipes Alfa e Delta ficaram de sobreaviso, a qualquer momento entrariam em operação. No entanto, Emmett não facilitou. Passou em vários lugares diferentes, jantou fora, e, por fim, avisou por telefone, o qual estava grampeado, que estaria nas docas em San Diego às onze horas.

Doze homens armados até os dentes, mais dois snipers posicionados em um ponto mais alto, encontravam-se esse horário nas partes escuras das docas. Por volta de onze e quinze, chegou ao local retratado dois carros, e, por último, um carro da polícia de ronda. O chefe cerrou os olhos, trouxe o binóculo de visão noturna ao rosto e, com um sobressalto, notou o policial Félix e outro policial louro acompanhando-o.

Bingo! Iria matar dois coelhos com uma cajadada só. Seus homens já estavam há meses perseguido esses dois policiais. Por fim, teriam a compensação por tanto trabalho.

Com a adrenalina a mil pela tensão da operação, procurou o olhar de Erick e o oriental lhe entregou o aparelho de escuta à distância. Posicionou o aparelho, trouxe o fone ao ouvido e notou que conversavam em russo. Falavam rápido, mas pelo pouco que entendia, dava para ver que falavam de pagamento. Ouviu chamar o nome de MacCarty, lhe entregaram um pacote do que aparentemente era cocaína, em seguida ele abriu, pegou uma ferramenta em uma maletinha que segurava e fez algo que era aparentemente teste de qualidade.

Após isso, um homem louro e alto, com aparência russa, chegou com uma maleta, outro homem abriu um dos contêineres, dois deles tiraram uma lona, Emmett os conferiu, em seguida todos apertaram as mãos.

O tenente sabia que estavam em uma posição quase de igual para igual, já que eram quatorze agentes para cerca de dez homens, contando com os dois que chegaram por último. Sua vantagem seria o assalto. Com um mover de mãos, fez sinal para seus homens que estavam em pontos estratégicos, avisando ser aquele o momento, depois contou mentalmente até dez, tempo em que os surpreenderiam.

Nove, oito, sete... Um estouro, fumaça no ar, e, de repente, tudo que se via eram homens de preto e alguns comandos. FBI, no chão! Um helicóptero apareceu ao alto de sua cabeça e mais homens vestidos de preto desceram por meio de cabos.

Confusão.

O tenente encontrou o olhar assustado de Erick e, prendendo o fôlego, correu pelos cantos em direção ao contêiner onde ocorria antes a negociação. Lá, após ver os gangsteres rendidos, aproximou do homem que parecia ser o chefe daquela invasão surpresa do FBI e apresentou-se. Teve que limitar-se a ouvir resignado sua resposta. Este carregamento veio de águas internacionais. Estamos investigando esta quadrilha há tempos. Portanto, o FBI assume. A resposta deixou o tenente de mãos atadas. O correto era retirar sua equipe e voltar para Los Ângeles. No entanto, ao olhar os homens deitados no chão com a mão na cabeça, entre eles, os dois policiais investigados por sua equipe, notou com indignação que Emmett não estava entre eles.

Fugiu! Filho da puta!

Edward olhou para os lados ainda anuviados de fumaça, correu em direção ao local onde o Jipe estava anteriormente e chegou a tempo de ver o carro sumir de vista, rumo à estrada principal.

Imediatamente, tirou a chave de sua moto do bolso, correu até ela e deu partida, perseguindo logo após o Jipe de Emmett em direção a rodovia que levaria à fronteira. O carro de Emmett estava pesado, a moto 1600 de Edward a ultrapassou rápido e seguiu na frente. Edward presumia para onde ele iria e onde teria que parar.

Emmett seguiu seu caminho tranquilamente.

Ao avistar as cercas que separavam San Diego de Tijuana, o tenente aproximou-se da guarita, desceu da moto, mostrou seu distintivo e avisou que perseguia um suspeito. Um minuto depois o Jipe de Emmett apareceu.

Edward levou a mão ao cinto tático, tirou sua arma e apontou-a em direção ao vidro do carro.

“Desce do carro com as mãos em um lugar que eu possa ver.” Deu a voz de comando.

Emmett, de dentro do carro, abaixou o vidro e balançou a cabeça. “Você tem que confiar muito em mim para me perseguir sozinho, não é, Du?” Comentou zombeteiramente, abriu a porta e desceu com as mãos para cima. Edward ignorou seu comentário, ainda apontando a arma e aproximou-se.

“Encosta no carro e ponha a mão para trás.” Disse, logo após passou as algemas em seus pulsos.

“Acho que você deveria ao menos ler os meus direitos. Sob qual acusação está me prendendo?”

Edward não respondeu, olhou pelo vidro do carro e notou algumas caixas térmicas. A seguir, uma viatura descaracterizada parou próxima e de dentro desceu Erick.

“E ae, chefe. Eu vi você saindo e presumi para onde estava indo.” O oriental disse e aproximou-se.

“Chame um policial na guarita e façam uma busca lá dentro.” Ordenou severo. Emmett o olhava de soslaio com um risinho de canto. Edward ignorou suas tentativas de provocação e tentou agir como profissional. “Você tem o direito de permanecer calado ou tudo que disser será usado contra você diante do Tribunal.”

“Mas você ainda não disse o porquê de eu estar sendo preso.”

Edward olhou-o incrédulo com sua dissimulação. “Se só precisar de um motivo, é por ter estado minutos atrás em uma negociação de uma quadrilha e ter fugido do flagrante local.”

“Eu não estava em lugar nenhum.” Alegou com uma careta cínica. “Estava jantando até minutos atrás com o prefeito de Los Ângeles.”

“Pare de brincar com a minha cara, MacCarty. Eu estava lá. Eu te vi.”

“Ligue para o prefeito. Ele pode confirmar que eu estava com ele.”

“Eu vi você. Eu e meus homens vimos você.” Disse entre dentes, observando de canto Erick que conferia as caixas pelo outro lado.

“Hmmm, agora você os chama assim: meus homens?” Ironizou. Edward fechou o punho e seus olhos escureceram de fúria. “Faça isso...” Emmett disse ao perceber seu gesto ameaçador. “Bata em um homem algemado diante das câmeras da fronteira.” Provocou.

Edward afastou-se para manter a calma. Sempre fora impassível em suas missões. Não seria agora que se permitiria afetar. “Nós vimos você lá. Dessa vez você não escapa.” Disse seguramente e sentou-se a um meio fio, com a adrenalina ainda pulsando em sua garganta.

“Chefe, encontramos algumas drogas, mas todas elas têm registro.” O oriental aproximou-se e levantou um papel que estava anexado à caixa que as continha.

“Como vê, tudo é legal.” Emmett piscou zombador. Não levava Edward a sério.

“Mas isso não alivia o fato de você ter estado agora a pouco nas docas.” Sentenciou, ignorando, de novo, as provocações.

“Eu não estava em lugar nenhum.” Defendeu-se. E qualquer um diria que ele dizia a verdade. “Ligue para o prefeito. Ele confirmará que estávamos jantando juntos.”

Edward olhou desconfiado para o telefone que tirou do bolso, ligou para a telefonista da Agência e pediu linha direta com o prefeito. No entanto, antes que a ligação completasse, tomou nota que já tinha acontecido algo parecido antes. Não era a primeira vez que Emmett saía ileso. Sempre tinha um álibi. Parecia brincar de esconde-esconde. Gato e rato. Tinha que ter alguém muito grande protegendo-o.

Com um suspiro frustrado, deixou os ombros cair, encerrou a ligação antes que completasse e guardou o telefone funcional no bolso. A seguir, abriu o porta-malas do Jipe e sentou-se na beira, cansado, enquanto analisava o papel que Erick lhe entregou com os componentes químicos das drogas que atravessariam a fronteira.

“Isso é legal, sargento Nunes?” Perguntou para o policial que acompanhou Erick na busca.

“Sim.” O homem de bigode escuro respondeu.

“Desalgeme-o, Erick.” Pediu e continuou sentado na parte traseira do carro, com os ombros pesados. Emmett venceu mais uma vez. Estava enfadado, frustrado, melancólico por tudo... Tinha que conseguir tirar ao menos Bella dele.

Depois de esfregar os dedos no cabelo, frustrado, decidiu, para acalmar-se, ler as últimas mensagens que tinham chegado horas atrás ao seu celular particular.

“E ae, garoto?” Emmett cumprimentou Erick amistosamente, quando este o desalgemava. “Resolveu deixar os computadores e brincar de policial?” Perguntou com uma intimidade de quem o conhecia há anos, e esfregou os pulsos.

“Pois é.” Erick deu um sorriso sem jeito e afastou-se, depois Emmett olhou de volta para Edward. “Vai continuar aí a noite toda ou eu já posso ir?”

Edward lia, distraído, a mensagem de Bella, portanto não deu a mínima para a pergunta.

Mensagem Bella 7h00

Você não disse que horas vem. Eu já mencionei que minha tia vai fazer uma lasanha?Te espero.

Mensagem Bella 8h30.

O jantar está pronto. Peter te espera animado.

Mensagem Bella 9h00

A comida vai esfriar.

Mensagem Bella 9h30

Acho que você não vem.

Mensagem Bella 10h00

Ainda estou te esperando... Está muito ocupado? O que está fazendo?

Mensagem Bella 11h00

Peter dormiu te esperando. Ele queria muito mostrar seu quarto para você.

Mensagem Bella 11h45- cinco minutos atrás

Vou dormir. Espero que tenha uma ótima desculpa.

Lia com tanto desapontamento que nem mesmo deu-se conta que era observado pelo dono do carro o qual estava sentado. Preparava-se para finalmente responder, quando foi interrompido por uma voz carregada de fúria.

“Eu poderia te matar por mexer com algo que é meu.” Emmett disse ameaçador. Edward nem mesmo levantou a cabeça.

“Igual matou a Rosalie?” Espetou num tom desatento.

“Não fui eu quem matou a Rosalie!” Bramiu entre dentes.

“Matou devagar.” Objetou calmo e baixo. Inexplicavelmente, tocar nesse assunto não o estava corroendo como foi por anos, principalmente com o precursor de toda tragédia. Perguntando-se o motivo, dirigiu por segundos o olhar para dentro de si e procurou nesse tempo aquela mágoa, a fúria e o ódio que alimentou a vingança por anos. Entretanto não conseguiu encontrar. Algo mudava.

“Vocês fizeram pior.” Emmett acusou lhe apontando o dedo. “Autorizaram que desligassem os aparelhos.”

“Eu não autorizei nada.” Opôs-se com a voz vazia e inanimada.

“Ah, é, você foi covarde. Se omitiu. Fugiu de vez para Virginia para não ter que vê-la sem vida em uma cama.” Provocou, tentando fazê-lo sair. Edward manteve-se em reserva, controlado.

“Foi você quem a colocou lá.” Retrucou cansado, com os ombros caídos, olhando, sem ponto fixo, para baixo.

“Merda, Edward, não fui eu! Quantas vezes eu tenho que dizer isso?!” Suplicou, nervoso. “Aquela mulher era a razão da minha vida.”

O ex-amigo levantou o olhar e encarou-o. “Você destruiu as duas! Você destrói tudo.” Balançou a cabeça, oprimido pelo assunto. Demorou a perceber que estava tremendo e ofegando. Era a primeira vez que conversavam sobre o tema. Nunca Edward deu acesso a explicações esses anos subseqüentes. Nunca o ouviu antes. Tirou suas conclusões e a última vez que Emmett tentou conversar na cerimônia de cremação de Elizabeth, Edward caiu em cima dele com chutes e pontapés, literalmente. Teve que ser contido pelo pai e por Jasper quando o agredia, cego, chorando com desespero por ter perdido a família.

“Como você acha que eu me senti vendo-a como estava?” Emmett insistiu novamente, com o semblante contrito, a dor e frustração da lembrança exposta em seu rosto. “Eu tentei o que pude para salvá-la.” Lembrou num tom derrotado.

“Mas não salvou.” Para Edward, Emmett era culpado sim. Por omissão, por conivência. Devia ter sumido enquanto teve chance de não destruir sua família.

Seis anos. Seis anos de vazio. Seis anos com o coração fechado e hostilidade com o mundo. Seis anos dedicando-se a essa perseguição. E continuava sem êxito, sem respostas. Continuava sem saber o que aconteceu aquele dia. Não sabia se sua mãe foi empurrada, caiu acidentalmente ou se se jogou ao lago. Seis anos o responsável por tudo livre, vivendo, tendo filhos, recebendo amor, carinho... Merda, ele tinha tudo! Era dono de Bella, pai de Peter; e ele, pelo contrário, não tinha nada!

Isso não ficaria assim.

O silêncio foi mortal por segundos. Ambos mergulhados em suas frustrações. Tanta coisa para ser dita, mas as palavras não alcançavam a superfície.

“Eu sei sobre você e Isabella.” Emmett disse depois de um tempo, com um suspiro vencido. Edward deu de ombros, com pouco caso. “Não gosto da idéia de usá-la nessa sua perseguição pessoal.”

“Não é uma opção sua. Eu uso os meios que posso.” Rebateu sem mudar o tom controlado.

“Proponho uma trégua.” Cruzou os braços no peito, deixando que o assunto afundasse. “Para que não envolvamos mais pessoas, proponho um acordo.”

“Que acordo?” Levantou os olhos das mãos e olhou em sua direção.

Emmett suspirou ao notar sua atenção. “Tenho um testes para fazer no México...” Explicou com o olhar ausente. “Provavelmente seja o último...” Deu as costas e passou a mão no cabelo, tentando conter sua inquietação. “Cacete, eu não consigo mais...” Revelou pesaroso. Algo em seu tom chamou atenção e Edward observou-o meticulosamente, enquanto tirava a máscara balaclava do rosto.

“Que acordo...?” Cortou as evasivas, em expectativa.

“Eu sei que se aproximou de Isabella somente para me investigar... E fui condescendente com isso.”

“Como assim, foi condescendente?” Questionou confuso.

“Se toca, Du. Você acha que eu não vi seus homens rodeando elas? Você acha que eu não te vi na minha boate dançando com ela?” Sorriu maquiavélico. “Você é previsível. Só fez o que eu quis.”

“Você sabia desde o início que Bella se aproximou de mim?” Abriu a boca cético. Emmett sorriu. Edward entendeu que sim. “E ela, sabia que você...”

“Ah, é assim que você a chama? Bella?” Interrompeu com um sorriso sarcástico. “Mas não.” Negou com uma careta. “Ela é inocente demais para saber. Faz tudo pelo bem das pessoas.” Admitiu com um suspiro. Edward notou o carinho do homem ao falar dela e fechou as mãos em punho, com ciúme. “Ela aproximou-se porque viu que você precisava de cuidados.” Falou com ironia enquanto fazia um gesto de aspas no ar. “Eu permiti porque precisava te manter distraído, fora do meu caminho... Por isso fingi não ver.”

“Qual era o acordo?” Voltou ao tema, sentindo-se manipulado.

“Bom, repetindo, não vale à pena deixar a Florzinha envolvida nessa nossa história. Eu e você somos adultos e devemos resolver nossas diferenças sem envolvê-la.”

“Acho que isso é meio tarde...” Edward declarou friamente.

“Não. Não é.”

Edward encarou-o, destemido. “É tarde, sim. Vou tomar tudo de você. Sua garota e filho. Ela já está envolvida o suficiente...” Disse com um sorriso confiante.

“Como?”

“Ah, Emmett, você não é tão inocente assim para me rotular um misógino.” Zombou provocador. Emmett cerrou os olhos, desentendido. Edward continuou. “Vou ser mais claro. Ela é muito gostosinha para passar despercebida. E eu não fiz nenhum voto de castidade para ser só amiguinho ou cuidando dela.” Escarneceu, somente para importuná-lo. “Estamos juntos. Homem e mulher.” Explicou com um gesto obsceno com a mão.

“O quê?” Abriu a boca, cético. “Você quer dizer que está comendo minha...” Aumentou o tom, e Erick, que estava observando de longe, alarmou-se ao ver o tom ofensivo. “Fica longe dela, seu porra!” E avançou em sua direção, pegando em sua camisa e sacudindo. Era tudo que Edward queria. Uma chance de cair na porrada com ele.

Em um golpe ágil, Edward segurou a palma de sua mão, torceu seu punho com técnica e fez com que Emmett contorcesse o braço e abruptamente ajoelhasse no chão, após ter levado uma joelhada nos rins. Com a graça de um felino, Edward torceu mais o golpe fortemente, com uma expressão violenta no rosto, e, por instinto de proteção, Emmett deitou-se no chão, grunhindo de dor. Edward apoiou o joelho em suas costas, e, com requinte de crueldade, torceu seu braço forte até a altura da cabeça. Emmett podia ser mais musculoso, mas Edward tinha treinamento intensivo.

Depois de tê-lo paralisado, Edward travou a mandíbula com agressividade controlada e provocou-o novamente. “Por enquanto ela é nossa, mas em breve será só minha. Você não terá nada.” Grunhiu beligerante e manteve-se firme sobre o outro.

Emmett rosnou com dor por ter seu braço torcido. “Ai, porra. Grrrr. Eu pensei que você era pelo menos um pouco profissional. Uh, mas você é um moleque!”

“Você não queria que ela me distraísse?” Retrucou cínico. “Ela conseguiu.”

“Filho da puta! Seu porra caralho!” Grunhiu e se mexeu, aumentando com o ato a dor da torção. “Ai, porra. Isso dói, seu merdinha!”

“Foi você quem veio para cima de mim.” Sorriu cínico. “Legítima defesa.” Alegou zombeteiro e afrouxou um pouco o golpe, para depois se afastar e ganhar distância. Argh, Bella devia proibir Emmett de ver Peter. Era um péssimo exemplo. Xingava demais. Se toca, Edward, você também xinga. Não é melhor que ele.

Por uma fração de segundos, um flash de quando eram mais novos foi trazido a sua memória, época em que Emmett, por ser mais forte, sempre saía ganhando quando brincavam de lutinha. Isso mudou. Agora se rendeu como uma putinha resmungona. Quis rir brevemente da lembrança, segundos depois rolou os olhos para si.

Isso lá era hora de lembrar isso?!

“Erick.” Adotou sua capa austera e chamou o oriental que só os observava. “Escolte-o até a porta do carro dele. Não quero mais problemas.”

“Seu veado!” Emmett resmungou aborrecido e passou as mãos no terno, limpando a poeira, após ter levantado. Estava zangado por ter sido vencido por seu antigo mirrado amigo. Entretanto resolveu voltar ao foco inicial da conversa antes de ir embora. “Eu subestimei você...” Voltou a dizer, ignorando Erick ao lado. “Deixei a florzinha aproximar de você para te controlar, não para você comer... Por Deus, ela é uma criança!” Apelou.

“Uma criança que você também comeu, corno pedófilo!” Disse entre dentes, indiferente ao fato de estarem fazendo show. “Inclusive tem um filho de cinco anos com ela, seu doente.”

“Eu?!” Emmett parou de tentar limpar-se, olhou-o cético e congelou boquiaberto. Teve vontade de rir, e soube no mesmo instante que ele estava completamente alheio aos fatos. Segundos depois, notou que, ao fim e a cabo, Isabella não revelou nenhuma verdade. Além disso, era impossível que ele estivesse comendo-a, como disse. Tudo era uma provocação, anuiu. Edward só queria atingi-lo.

Acalmou-se, passou as mãos sobre o terno novamente, espanando uma poeira não mais inexistente, e respirou fundo. “Tudo bem, garoto, pode nos deixar sós. Não vou me alterar novamente.” Avisou ao Erick, que deu um passo atrás e pôs a mão no bolso. “Nos dê licença um pouco.” Pediu novamente ao oriental, que olhou ao chefe pedindo autorização antes de sair.

“Está tudo bem.” Edward disse. Erick saiu.

“Vamos fazer um acordo...” Emmett disse. “Tudo que você quer é vingar-se por algo que diz que a culpa é minha. Posso não ser culpado pelo que você me culpa, mas continuo trabalhando para o tráfico. Não é segredo para você que eu modifico fórmulas e intermédio negociações.”

“Sim... Mas não consegui provar. Então dá na mesma.” Cruzou os braços no peito, querendo saber aonde ele queria chegar.

“O acordo é: eu vou ao México, passo um tempo por lá, e quando voltar, me entrego e confesso os meus crimes.” Propôs resoluto.

Os olhos de Edward se arregalaram. “O quê?”

“Isso mesmo.”

“Rá, e papai Noel vem me ver daqui a duas semanas.” Fez uma careta incrédula. “O que vem por trás de toda essa generosidade?”

Emmett olhou-o sombrio. “Quero que fique longe da minha família. Quero que deixe a minha florzinha em paz e pare de ver Peter. Agora sei que só quer vingar-se e para isso planeja destruir a nós três. Então o que quero é que isso fique entre nós. Eu me entrego, você os esquece.”

Edward congelou e sentiu as mãos gelarem. Algo o sufocou ao ouvir aquela proposta seguida da acusação. Isso não era verdade. Nunca poderia machucá-los só para atingir Emmett.

“E se eu me afastar, você se entregará.” Considerou e entrecerrou os olhos.

“Sim. E levarei comigo muita gente.”

“O que me garante que você realmente o fará?”

Emmett pôs as mãos no bolso, tirou um cartão de memória e segurou-o uns segundos no ar. Edward observou-o.

“Isso aqui te garante.” Estendeu-o e entregou na mão de Edward. “Aqui tem as provas contra mim, todo o esquema. Porém, eu só quero que você o entregue a Justiça quando eu voltar...”

“Isso é um blefe.” Edward apertou o cartão na mão.

“Não é.” Disse sério. “Você tem duas opções: entrega o arquivo agora para a Justiça, comigo fora do país e enfrenta a imprensa sozinho até provar. Ou espera eu voltar, eu confesso tudo, me entrego e ainda entrego os outros.” Disse com semblante obscuro. “Aí tem provas somente contra mim. Se você se afastar de Bella, entregarei tudo. Toda a contabilidade. Todos os contatos dentro da DEA, polícia de Los Angeles, até no FBI.”

“Por que isso? Ela é tão importante assim para você?”

“Muito... Mas não é só por isso... Cansei.”

Por alguns instantes Edward pensou nas opções, sopesando cada uma segundo seus julgamentos. Por incrível que fosse, após pensar em toda a satisfação pessoal em ver Emmett pagar por tudo, a única preocupação que teve foi: como seria melhor diante dos olhos de Bella, ele mesmo tornar público os dados do micro cartão ou o próprio Emmett confessando os crimes e envolvidos? Lógico que a opção dois era mais viável. No entanto, em ambos os casos, perderia Bella ou teria que se comprometer a deixá-la.

A conversa chegou ao fim, ambos ficaram em silêncio, Edward levantou o Blackberry na mão e novamente olhou a foto. Um espasmo de dor atravessou seu estômago ao pensar no que sucederia esse acordo.

No dia seguinte, Edward chegou cedo a Agência, mandou a confirmação de inscrição em um curso para a Virgínia e ligou para adiantar a passagem. Depois ligou para o capitão Marcus, chefe da DEA da Califórnia, avisou que Laurent o substituiria enquanto fazia o curso, a seguir foi a sua mesa pôr em dia seu expediente.

“Vai ser bom mesmo que você saia da cidade.” Carlisle disse quando Edward avisou por telefone que estaria viajando no fim de semana.

“Pois é.” Respondeu inanimado. “Vou aproveitar estar na Capital para finalizar minha especialização.” Disse enquanto lia a notícia no jornal sobre a prisão de traficantes nas Docas.

“Mas você aparecerá no casamento do seu irmão, sim?”

“Talvez.” Suspirou.

“O que aconteceu, Edward, que está mais pra baixo que o normal?”

“Nada... Soube sobre a operação de ontem?” Mudou rapidamente de assunto.

“Mais ou menos.”

“O FBI chegou de última hora, não sei como, e assumiu a operação. Ficando com o mérito pelas prisões.”

“Ah, tudo bem. Você não liga mesmo para popularidade.” Deu pouca vazão. “Hmmm, Emmett estava lá?” Perguntou meio cauteloso.

“Sim. Mas fugiu do flagrante. Depois cruzou a fronteira livremente.” Respondeu com uma careta.

“Por isso você está com a voz assim? Parece que morreu alguém.” Comentou desconfiado. Só então Edward notou que não tinha tocado nos Donuts sobre a mesa, e mantinha a foto de Bella no papel de parede do Blackberry.

“Não.” Suspirou e apertou o aparelho, sentindo um buraco em seu estômago. “Só estou cansado. Foi uma operação desgastante.”

“Então tire uns dias de folga. Até segunda você tem quatro dias.”

“Não posso. Tenho que passar o serviço para o meu substituto.”

“Ah... Então não há o que fazer. Boa sorte no curso e dê notícias.” Carlisle não conseguia esconder a satisfação em sua voz em tirar seu filho da cidade e, além disso, em saber através de Erick, que Emmett e Edward terminaram a conversa quase que descentemente na noite anterior. Podia ser que as coisas finalmente estivessem acertando.

“Ok. Até mais.” Depositou o fone no gancho e voltou aos seus afazeres. A manhã se passou acelerada enquanto tentava, sem sucesso, ler os arquivos codificados que Emmett gravou no cartão. Um som de mensagem o tirou da distração, abriu o celular e leu. Onde está você? Estou na sua casa. Vim trazer novas flores. Que tal vir comer a lasanha que perdeu ontem? Também estou preparando um cação para você. Bjinhus cheios de temperos para você.

Ofegou, passou as mãos no cabelo e sentiu como se tivessem apertando suas costelas. Uma última vez. Precisava vê-la uma última vez. Absorveria de sua companhia suficiente para os próximos dias.

O cheiro de comida estava no corredor quando desceu do elevador. O som alto de uma música do Bruno Mars também sobressaia às portas. Com um rolar de olhos, abriu a porta, pôs a jaqueta que vestia sobre o sofá e encontrou Bella na cozinha de costas, cantando, movendo-se ao som da música e mexendo em uma panela. Estava linda com uma usual calça de ioga e blusa de alças. Foi como se toda a frustração e mau humor fossem tirados com uma mão. Sorriu, observando-a furtivamente mover-se, depois a surpreendeu, abraçando-a por trás, inclinou e beijou-a no pescoço.

“Hmmm. Não sei o que cheira melhor, a comida ou você.” Comentou carinhoso, enquanto a apertava contra o seu peito, com as mãos enlaçadas em sua cintura.

“Ah, legal. Quer dizer que tem dúvidas se sou mais cheirosa que o peixe?” Brincou e virou-se, ficando frente a ele.

“Ambos têm cheiros deliciosos. Mas no momento sinceramente estou em dúvida de quem eu ataco primeiro.” Deu-lhe selinhos.

“Quem está mais tentador?”

“Você.” Sentou-a sobre a ponta da mesa de vidro e lhe dedicou beijos suaves no pescoço, mordiscando tentadoramente, fazendo com que ela arqueasse de satisfação, deixando a sua boca descer pela clavícula. Mas então ela assustou-se quando lembrou onde estava sentada.

“Não. Aqui não. Posso quebrar o vidro.” Gritou e desceu preocupada.

“Então tá. Vou deixar o prato principal para depois.” Afastou-se e sentou, colocando-a sobre suas pernas. “Não sabia que estava com fome até chegar aqui.”

Ela riu e abraçou-o ao seu colo.

“Onde você estava?”

Ele travou e demorou alguns segundos antes de responder. “Por ae.” Suspirou evasivo, com o peso nos ombros, deixou o rosto descansado sobre a curva de seu pescoço um tempinho, depois levantou. “Deixe-me trocar de roupa.” Caminhou rumo ao quarto e perguntou-se se conseguiria afastar-se dela.

Hoje, provavelmente, teria que ser o último dia. Sabia que devia agir como homem, por ter dado sua palavra, e romper logo esse laço. Esse triângulo poderia prejudicá-lo em vários aspectos, afinal, o valor sentimental que ambos dedicavam a ela era intenso demais para ser ignorado. Sim, era claro que Emmett lhe queria bem. Mas e ele? O que sentia além de desejo, saudade, ciúme, vontade de explorar sua graciosidade, simpatia, ser envolvido por aquela luz cálida que emanava dela?

Como nominar sentimentos tão fracos e dependentes, quando nunca dependeu emocionalmente de ninguém?

A única coisa que sabia era que precisava ter de volta o controle sobre seus sentimentos.

Ao terminar de tirar seu jeans e camisa e vestir uma bermuda e camiseta, voltou à cozinha e esperou-a pensativo cortar uma salada. Merda, se ela ao menos não fosse tão doce, altruísta, generosa, cativante, honesta. Mas não, tinha que olhá-lo de canto com um sorriso todas as vezes que mexia na panela, tinha que saltitar cantante na cozinha como uma pulga feliz, tinha que ser tão menina e bonita, enfeitando sua cozinha. Por instantes, travava uma discussão interna do que nela o atraía mais, se era as qualidades anteriores ou se era somente o corpo adolescente. Se fosse somente a última opção, poderia considerar-se um doente pedófilo como Emmett. Mas tinha certeza que não. Havia muito mais nela que o fascinava: seu jeito de lidar com ele, impondo-se em sua vida; seu jeito de lidar com Peter; até seu jeito de lidar com a situação com Emmett. Havia por trás dela uma alma forte. Uma raiz que foi criada na lama, mas que cresceu forte. Sua mãe tinha tentado podar seu futuro, contaminar seu corpo e roubar sua alegria de viver. Mas isso não impediu Bella de ver o mundo com cores, não se autocomiserou ou julgou-se injustiçada. Pelo contrário, viveu contente. Continuou acreditando nas pessoas e usufrui de sua alegria de viver.

Após muito observá-la, por fim, decidiu que a disposição da menina em por uma pedra no passado e viver simplesmente o presente, sem medo do futuro, era o que mais o atraía.

Sempre soube que precisava de alguém forte perto dele. Principalmente depois de todo o ocorrido seis anos atrás. Todavia como poderiam ficar juntos? Em contradição a tudo que disse a Emmett no dia anterior para provocá-lo, sabia que não poderia tê-la. Embora quisesse livrá-la de tudo, livrá-la de Emmett e apagar de sua memória aquele mundo sujo o qual viveu, não poderia ficar com ela. Em primeiro lugar por causa de sua idade. Esse era o ponto principal... Talvez, se vivessem em um mundo paralelo ― se a realidade fosse outra―, quando ela fosse mais velha pelo menos um ano, poderiam assumir algo. Mas a situação não era essa. Ficar com ela implicaria em especulação. Quando o bioquímico e empresário Emmett fosse preso e o assunto viesse aos jornais, o nome Edward nunca poderia estar vinculado à garota de Emmett, afinal, se assumisse Bella depois disso, certamente se afirmaria que a perseguição segundo especuladores fora por motivos passionais, não profissionais. Logo seus motivos reais ficariam em dúvida. E ainda que tivesse provas cabais que incriminassem Emmett, seus fundamentos seriam questionados. Assim, uma coisa desencadearia outra, e outra... E poderiam chegar ao ponto em que não queria que chegasse: a ligação de Emmett com sua família. Se já tinha protegido durante todos esses anos a integridade de sua família, a renomada família Cullen, não seria agora que permitiria que fossem alvos de especulações. Não queria que o vício de Rosalie viesse à tona. Não queria que fizessem a ligação de sua mãe com Emmett. Queria proteger ao menos a memória de sua família. E sabia que uma coisa desencadearia outra...

Portanto, não podia ficar com Bella.

“Por que está tão pensativo?” Ela inquiriu e pôs a comida sobre a mesa.

“Estou pensando em algo.” Disse com um sorriso triste. “Mas acho que preciso comer primeiro antes de conversar.” Adiou covardemente, serviu-se e começou a comer.

“Lice quer conhecer você.” Bella sentou-se ao seu lado e também se serviu.

“O que deu nela essa curiosidade?” Evadiu-se. Não podia fazer planos futuros.

“Eu falo muito de você.” Admitiu encabulada, depois levou um garfo com lasanha aos lábios. “Falo muito de nós dois. Ela é meio vidente. Diz que conhece as pessoas só de olhar. Se ela gosta, gosta. Se não gosta, já era. Se você diz que eu sou uma bruxinha, ela é pior. É capaz de te ler em um segundo.”

“Hmmm, tô até com medo.” Brincou.

“É sério. Ela é capaz de te fazer soltar todos os seus segredos. Por isso não consigo esconder nada dela.”

“Qual a idade dela?”

“Quase dezoito. O próximo será o último ano dela.”

“Você vai viajar nessas férias?”

“Não. Até que eu queria ir a Forks e tentar descobrir quem é meu pai. Mas Emmett não concordaria. Ele tem medo que minha mãe descubra onde estou e queira a minha guarda. Afinal, por enquanto, ainda tenho dezesseis. Nos EUA, menor completamente incapaz segundo a lei.” Gracejou.

“Os EUA não conhece você. Não sabem que mesmo menor, você é completamente capaz de tudo.”

“Você acha mesmo isso?” Perguntou animada. “Pensei que me achasse uma menor muito, muito criançona.”

“Só às vezes.” Sorriu. “Perto de mim, principalmente. Já que eu sou quase dez anos mais velho.”

“Ai, de novo esse assunto. Até que você não é um velho tão velho.” Brincou e bebeu um pouco de suco.

“Ah não?”

“Não. Para mim, o que deixa uma pessoa velha é o estado de espírito. O bom humor conta muito. Se bem que para minhas amigas do Junior, quando um cara passa de vinte e cinco já é coroa. Mas eu não penso assim. De qualquer maneira você está na linha de tolerância, já que tem vinte e cinco.” Brincou, ele riu triste de sua espontaneidade.

“O que foi?” Passou os dedos carinhosamente em sua sobrancelha. “Estou te achando melancólico... Prefiro seu antigo mau humor à baixo astral. Aconteceu algo?” Perguntou analisando-o.

“Não. Só um imprevisto. Mas vamos terminar de comer.”

Minutos depois, após fazerem a higienização bucal juntos no banheiro, ela seguiu para a cama, abriu sua bolsinha e tirou de dentro um papel, a seguir colocou-o no criado mudo, ao lado de sua foto. “Eu trouxe isso para você.”

Ele cerrou os olhos, caminhou até o criado e abriu o envelope.

“O que é isso?”

“Meus exames...” Disse naturalmente. “Eu estive pensando... Você me perguntou sábado se eu usava anticonceptivos. Eu disse que sim. Então, no banheiro, estivemos a ponto de transarmos, mas você não o fez por não ter preservativos. Logo eu deduzi ser por isso.” Apontou com indiferença para o papel.

Ele abriu a boca para negar, após ter notado a dimensão de sua atitudes, todavia ela foi mais rápida. “Não precisa negar. Eu sei o que pensa de mim.” Deu de ombros.

Ele abriu a boca novamente, ela aproximou-se e pôs o indicador em sua boca. “Eu sei o que quero, Edward. Eu quero fazer amor com você.”

Um arrepio instantâneo se formou em sua coluna ao ouvir o que ela dissera. Automaticamente seu corpo respondeu, prontificando-se. Ato contínuo amaldiçoou-se pela ambição que sentia por ela. Não. Não poderiam envolver-se mais. Seria muito mais difícil deixá-la depois de entrar nela alguma vez. Depois de sábado, já tinha certeza disso. Melhor parar agora. Argumentou mentalmente, ainda assim abraçou-a pela cintura e caminhou arrastando-a até a sala.

Deitados no carpete branco da sala rodeados de almofadas, Edward encontrava-se abraçado a ela, com a cabeça apoiada em seu colo, as mãos deslizando em suas costas, e pernas entrelaçadas as dela, enquanto Bella acariciava seu cabelo. Ela não entendia por que ele não respondeu a sua intimação, e paralelamente, sentia que algo errado acontecia a ele, já que a abraçava como se estivesse relutante.

O sono acumulado da noite em claro, juntamente com a tensão da noite anterior, resultava que agora encontrasse cansado pós-almoço, letárgico com o deslizar de dedos nos cabelos. Pesaroso pelo que faria, ainda queria aproveitar cada minuto que pudesse ter dela.

“Você me dá dúvidas...” Ela comentou distraída. Ele permaneceu de olhos fechados, o nariz no vão entre os seus seios expostos pela regata. Dizia-se que poderia ficar ali sempre. Queria esquecer o mundo lá fora. Ela continuou. “No geral, me parece vulnerável, carente... Mas então, eu te vi jogando aqueles garotos com a cara no chão... foi tão seguro, confiante. Às vezes acho que não te conheço.”

Ele suspirou e deixou o assunto morrer. A perspicácia dela o deixava encurralado. Sim, os quase dois anos de intenso treinamento na Virginia deixaram-no tático, belicoso. A sede por vingança o instigou a dedicar seus últimos anos buscando ser o melhor estrategista contra o crime. Mas isso não foi a única lição que teve. A convivência nesses últimos dois anos de DEA com as bibliotecas ambulantes de experiências, que são os antigões da Agencia, ensinou sobre a lida no dia a dia com o crime.

Entretanto todo o vazio, inflexibilidade e dureza que a vingança inseriu em seu coração, ninguém o ensinou como lidar. Só a presença de Bella abrandou. Agora não se sentia mais só. Sabia que em algum lugar de Los Ângeles tinha alguém que o queria bem. Alguém que estava para ele. E isso lhe trazia conforto e angústia, pois pelo mesmo motivo que o levou a aceitar aproximar-se, deveria separar-se. A vingança pessoal.

Mantendo sua capa controlada, uma pose firme diante do que se seguiria, fechou os olhos e deixou o tempo transcorrer.

Bella não dormiu de início, mesmo o vendo cochilar. Sorriu ao senti-lo agarrado a ela como uma jibóia. Deitou a cabeça na almofada e permaneceu com os dedos em seus cabelos, entregando-se depois ao cochilo. Horas mais tarde, ele começou a tremer e ranger os dentes. Dessa vez não era como das outras vezes. Mesmo assim, ele tremia ligeiramente. Ela percebeu, abraçou-o mais e disse palavras doces em seu ouvido.

Em seu sonho, Edward chorava na beira do lago, abraçando o joelho enquanto recolhiam o corpo sem vida de sua mãe. Elizabeth não sabia nadar, mas adorava aquele lago que enfeitava o jardim na propriedade. Edward não podia acreditar que ela tinha morrido. A lembrança de encontrá-la morta nunca se apagaria de sua mente. Sabia que a lei natural da vida era os filhos enterrarem os pais, não o contrário. Mas a dor da perda era tão grande que preferia ter sido ele a ter morrido, ao invés de sua jovem mãe.

Olhou para o lado e encontrou seu pai contemplativo ao lado dos paramédicos que a recolhiam do chão. Mesmo à distância, pode ouvir quando esse pediu ao médico que mantivesse sigilo sobre o assunto. Ele não queria que a imprensa soubesse que a renomada bioquímica, esposa de um dos integrantes de gerações de juízes nos EUA, fosse alvo de especulações.

A dor da perda era excruciante. Seu mundo desmoronava e não conseguia suportar. Ela era seu porto, seu tudo. Era a sua mãe. A pessoa em quem se inspirava. Sua própria carreira futura foi escolhida para segui-la, a de químico, ao invés de decidir ser um jurídico como Jasper. Agora ela não estava mais viva para vê-lo formar-se em algum tempo. Não estava mais viva para ensiná-lo, assim como fez a Emmett. Ela não estava mais aqui. Isso o fazia tremer de angústia.

Com a dor de todas as lembranças comprimindo seu peito através do sonho, a pressão em sua mente fez com que lágrimas molhassem seus olhos, no mesmo instante que um espasmo de dor escapou em sua garganta. No entanto, penetrando sua névoa de dor, uma voz doce e preocupada sussurrou em seu ouvido, dizendo que ia ficar tudo bem. Sentiu uma mão esfregando seu pescoço, como se quisesse acalmá-lo, em seguida sentiu beijos molhados na bochecha, queixo, mandíbula. ‘Eu estou aqui para você.’

Era Bella.

Foi finalmente despertado do sonho, abraçou-a mais e pousou o nariz no vão em seu pescoço, absorvendo ali o seu cheiro, enquanto os resíduos lacrimais eram absorvidos pelo cabelo da menina. Aos poucos seu coração foi desacelerando, a respiração normalizando. Presumia que a lágrima fora somente uma manifestação do seu subconsciente em meio à melancolia a qual estava.

“Desculpe... eu estava sonhando.” Disse com a voz rouca, infeliz.

“Você não tem de que se desculpar. Eu sei que tem esse problema.”

Ele esfregou os olhos. “Sabia que eu nunca dormia com uma mulher porque tinha vergonha disso?” Revelou contrito.

“Comigo não precisa ter. Temos intimidade suficiente. Eu cuido de você, lembra?” Ela brincou complacente. Queria vê-lo melhor. “O primeiro momento em que te vi lá na Rua Spring, era bem pior, você tremia de verdade. Está diminuindo com o passar do tempo.”

“Espero que sim. Já tem seis anos. Era para não ter mais esse efeito em minha mente.” Deu um sorriso forçado. “Mas no começo era pior mesmo. Eu não dormia nada. E quando dormia, acordava em estado crítico. Ainda bem que não tinha companheiro de quarto na Universidade, pois eu me movia muito no sonho revivendo na lembrança os últimos momentos reais. Pulava na cama igual pulei no lago para salvá-la.”

“Você pulou?”

“Sim.”

“Conta como foi.” Pediu carinhosamente. Gostava quando ele se abria. Era bom colocar para fora os sentimentos angustiantes.

Ele fechou os olhos com a lembrança e a abraçou mais. “Quando ela emergiu, eu estava só e ela estava pesada para conseguir tirá-la sozinho. Foi difícil. Eu gritava por ajuda e ninguém me ouvia. Nenhum empregado. Lutei até que consegui tirá-la. Depois tentei fazer respiração artificial. Estava tão fora de mim que não percebi que ela estava morta há muito tempo.” Sua voz falhou.

“Você tentou. Não teve culpa.” Tentou consolá-lo.

“Tive sim... Nada disso teria acontecido se não fosse...” Interrompeu-se introspectivo, afastou-se e apoiou o rosto na almofada, olhando-a intensamente. Ela alongou-se e sentou. A posição de horas apertada a ele a deixou com algumas partes dormentes. “Sabe, Bella...” Começou, suspirando. “Você não merece isso...” Apontou para si. “Você tem só dezesseis anos para estar se envolvendo com um cara problemático como eu.” Disse sinceramente. “Não é justo com você diante de toda a juventude que tem pela frente. Você precisa curtir, sair com garotos da sua idade, viver.”

“O que está querendo dizer?” Perguntou calmamente, prevendo suas palavras por trás das entrelinhas. Esse assunto era cansativo. As vezes tinha a impressão de que o sentimento entre eles era completamente unilateral. Essa hora, por exemplo.

“Que seria melhor, er...” Engasgou. Era muito difícil proferir palavras que não estava certo em querer dizer.

“Que seria melhor...?” Instigou-o.

Ele sentou indiana e passou a mão no cabelo, tenso.

“Bom... Eu tenho que passar uns tempos na capital do país. Tenho que fazer uns cursos e finalizar minha especialização...” Rodeou.

“Portanto, está avisando que não vamos mais nos ver.” Ela completou, calma.

“Er, mais ou m-menos.” Balbuciou. Por que era tão complicado conversar abertamente com ela? Sentia-se encostado na parede. O desejo de revelar-lhe tudo era estarrecedor.

“Por quê?” Ela suspirou instantaneamente triste. “Por que você sempre resistiu em nos dar uma chance?”

“Por que nunca pôde existir nós.” Disse num sussurro.

“Enumere os motivos.” Pediu teimosa.

“Você tem dezesseis anos.”

“Grande motivo.” Rolou os olhos. “Dê outro menos bizarro.”

“Você é a garota do...”

“Ah, por favor, quantas vezes vou ter que te dizer que não sou?!” Levantou do chão impaciente. Ele também levantou, alcançou-a e segurou sua mão, interrompendo-a de se contrapor.

“Mas isso é o que menos importa. Se não fosse pela sua idade eu...”

“Esquece, Edward.” Balançou a cabeça impaciente. “Tenho certeza que não é só isso.” Deu as costas, pensativa. “É você. Eu sei que existe um lado seu que não tenho acesso. É um lado longínquo, frio. Você pode ter me deixado entrar em sua casa, nos seus fins de semana, mas não me deixou entrar em sua vida. Você sabe a minha história, sabe os meus passos, onde eu estudo, que horas entro na escola, que horas saio, sabe dos meus programas de fins de semana. Mas eu não sei nada sobre você... Eu queria saber o que você esconde de mim... Além de tudo, minha idade não pode ser um pretexto para fugir. Você sabe que minha vida não é de uma menina de dezesseis anos. Fui obrigada muito cedo a ser adulta. Portanto, não é desculpa para não se envolver comigo.”

“Mas não podemos assumir nada sério.” Argumentou sem fundamentos óbvios.

“Eu nunca disse que quero casar com você, para você dizer isso.” Respondeu orgulhosa, com o queixo empinado. “Eu só queria ter tido a chance de ser como um casal normal depois que nos envolvemos. Queria que você não ficasse constrangido em me apresentar como sua garota. Queria, devagar, que você me deixasse fazer parte de sua vida. Mas eu não vou insistir. Você é adulto. Sabe o que quer. Quem não deve saber o que quer sou eu.” Pegou a bolsinha em cima do sofá, com orgulho nos gestos e afastou-se rumo à porta.

Ele alarmou-se, caminhou até ela e a impediu de sair. Também não queria que fosse assim, merda. Queria que ela simplesmente compreendesse que não daria certo. Nunca tinha terminado com ninguém antes. Sempre deixava seus relacionamentos no vácuo, então as meninas se tocavam e desistiam. Mas sabia que com Bella não podia ser assim. Ela se deu demais para que simplesmente a deixasse no vácuo. Tinha que deixar as coisas claras, que isso era para o seu bem, que era melhor do que magoá-la depois... Todavia, não sabia que deixá-la o quebraria tanto. Doía pra porra.

“Prometa-me que...” Ele levantou os braços dela e pôs em volta de seu pescoço. “... Vai viver sua vida. Que vai estudar, namorar, viajar, cuidar do Peter...”

“Você fala como se uma grande mudança fosse acontecer em minha vida.” Comentou desconfiada e olhou-o atentamente. Ele desviou o olhar. Sabia que uma mudança aconteceria, sim, quando Emmett fosse preso.

“Só prometa que vai aproveitar de sua liberdade, curtir, vai ter muitos namorados antes de se envolver sério com alguém...”

“Você teve muitas namoradas?” Reptou com a sobrancelha arqueada.

“Namoradas não. Mas saí com algumas mulheres.”

“Então deve ter sido muito apaixonado e feliz.” Comentou capciosa, tentando enrolá-lo nas palavras. “Teve alguma delas que marcou sua vida? Fala o nome dela.”

Ele abriu a boca para falar, mas ela o interrompeu antes. “Para querer que eu viva algo, você já deve ter passado por isso. Você já namorou sério? Continua apaixonado por alguém?”

“Não. Eu já te disse que nunca fui apaixonado por ninguém.”

Ela deu de ombros. “Então você não é um exemplo. Como pode dizer que eu preciso namorar, curtir, se você nunca namorou sério, nunca se apaixonou?... Como pode querer que eu tenha algo que você nunca teve? Como pode dizer que isso é bom para mim, se nunca viveu? Se você quer simplesmente que eu pare de vir te ver, diga sem desculpas. Eu vou entender. ” Deu dois tapinhas leves em seu rosto. “Eu te adoro, Edward. E sei que sou importante para você. Mas é você quem tem que perceber isso.” Sorriu forçado, fez um bico e enfiou os dedos na bolsa, retirando dela um molho de chaves. “Que pena.” Disse com um sorriso penoso. “Elas só foram minhas cinco dias.” Entregou o molho em sua mão. Ergueu os ombros, caminhou até a sacada e inclinou-se diante das florzinhas que trouxera neste mesmo dia. “Ih, meninas, espero que a tia que cuida da casa cuide bem de vocês nesses dias em que o tio Edward estará longe.” Sussurrou como se contasse um segredo e sentiu algo queimar em sua garganta. Doía. Não podia negar. Mas seria forte. Não desmoronaria. Sabia que a vida era assim, cheia de perdas. Não seria a primeira perda que teria na vida. Não deu, não deu. Iria buscar forças onde sabia que tinha para passar por cima da rejeição. Engoliu em seco e continuou a conversar, tentando nesse tempo manter-se firme. “Fiquem bem.” Deu um tchauzinho triste para as plantas, depois se virou novamente em direção a Edward, que a observava encostado na parede. “Boa sorte no curso, Edward.” Deu-lhe um beijo no rosto, e antes mesmo que expusesse sua frustração no semblante, deu as costas e caminhou rápido até a porta, abrindo-a imediatamente e saindo em seguida. Edward ficou onde estava, parado, em conflito. O melhor era deixá-la ir, pensou. Mas se era o melhor, por que doía assim?

O resto do dia ficou em casa, preparou a documentação para a viagem, depois procurou distrair-se vendo TV. Ainda que a sensação de perda apertasse em seu peito, não ouviria aquelas mensagens estúpidas do coração de que devia ligar para ela. Iria firmar-se nos argumentos lógicos do cérebro, que dizia que fez o certo.

Continua...

Notas finais
O resto eu posto o restante da semana.
Obrigada por todos os reviews.
Não me crucifiquem ainda. Vocês vão gostar mais do Edward no próximo.
Bjus