Flor da meia-noite
22 XXII – Vamos jogar!
Notas iniciais

— Eu só sei que estava deitado em uma maca no hospital, disseram que eu morri mas foi apenas uma insuficiência cardíaca, o médico que me examinou agora a pouco falou que podem ter colocado algo no meu almoço aquele dia. Enfim, quando acordei estava no hospital e colocaram um saco preto na cabeça, uma voz me dizia pra andar. A pessoa me jogou dentro de um carro, eu acho, e depois de algum tempo o terreno ficou emburacado, percebi isso porque o veículo balançava demais. Quando tiraram o saco da minha cabeça, eu estava no porão, fiquei lá por dias e...
— Se tiraram o saco da sua cabeça, você viu quem foi – O detetive pergunta pro Jake e ele engole em seco olhando pra mim. Passo os dedos pelos meus lábios como um zíper – Senhor Miller?
— Ele usava uma máscara sempre que ia me levar comida.
— Ele? Como sabe que era ele?
—O corpo era de um homem, com certeza.
— Um sequestro sem pedido de resgate?
— Eu já falei tudo o que sei, detetive.
— Como escapou?
— Ele me colocou no carro de novo pra me levar a algum lugar, consegui me soltar das amarras e pulei.
— Com o carro em movimento? Não acha que o sequestrador teria ido atrás de você?
— Eu corri o mais rápido que consegui, sem olhar pra trás.
— E ao invés de vir diretamente pra delegacia, resolveu ir pra casa da Senhorita Hale?
— É.
— Mas ela não mora mais lá.
— Exatamente, a mãe dela ficou histérica, fomos atrás da Allyson e aí ela nos trouxe aqui.
— Por que?
— Ela era minha namorada, eu confio nela pra tudo.
— Ok, Senhor Miller — O detetive fecha o bloco de notas e se levantada da cadeira. Automaticamente me afasto da porta assim que ele a abre — Senhorita Hale, vamos investigar e avisaremos qualquer coisa.
— Obrigada — Sorrio e encaro Jake sentado na cama do hospital. Levanto o polegar pra ele — Foi bem.
— É, pode chamar a minha mãe.
— Jake...
— Quero ver a minha mãe, Allyson, pelo menos ela não pede pra eu contar mentiras.
— É complicado.
— É sempre complicado com você.
♕♕
As pessoas não tinham nem a decência de disfarçar os sussurros e as fofocas por onde passávamos. Era a fofoca do dia, da semana, do ano, de uma vida inteira. As insinuações começaram e eu fiquei incrédula: Alguns diziam que foi tudo um teatro e uma artimanha pra chamar atenção. Mas a pior de todas é que ele tinha ressuscitado, e uma garota no corredor disse que fariam um templo para o Jake. Porém o mais importante no meio daquilo tudo era que ele estava de volta na minha vida, no time, e no trono.
O depoimento foi divulgado depois de um tempo já que Ellicot é uma cidade pequena e literalmente todo mundo queria entender o que tinha acontecido.
Hoje era dia de jogo. Eu estava nervosa. Eu não podia ficar nervosa. Não é atitude de uma guerreira. Fiquei encarando meu reflexo no espelho do vestiário enquanto enrolava o esparadrapo nos dedos. Jake estava estranho, e tudo bem que só andávamos juntos pra manter as aparências de casal apaixonado que acaba de se reencontrar, mas ele estava distraído demais, sempre, como se sua cabeça estivesse em outro planeta. Me pergunto o que ele estaria pensando do outro lado dos vestiários colocando o equipamento de lacrosse.
Fechei os olhos. Me concentrei. Peguei minha bolsa e entrei na quadra ouvindo centenas de vozes gritarem o meu nome. Acenei pros meus pais na arquibancada e fiz o que eu fazia de melhor.
Trouxemos mais dois troféus pra Lincoln High e fomos até o campo pra comemorar na final do lacrosse. Hazel não apareceu e Jake não estava mais lá. O encontrei no vestiário ainda de uniforme, estava suado e com o pensamento longe demais pra notar minha chegada.
— O que está acontecendo com você? — Perguntei me sentando ao seu lado — E não adianta dizer que é por causa da história que inventamos, Adam teve seus motivos.
— Adam teve seus motivos... — Ele ri sem humor algum e me encara — Aconteceram coisas lá em baixo, Allyson, muitas coisas, foi sinistro, e eu não sei se...
— Ei, você pode me contar qualquer coisa.
— Allyson... — Ele diz em tom de aviso.
— Jake... — Devolvo no mesmo tom.
— Seu Adam me transformou em um monstro, fica longe dele, por favor, Ally...
— Ele teve seus motivos — Coloco a mão na cabeça quando tudo começa a girar e fecho os olhos com força — Ele teve seus motivos, ele teve...
— Ally! Olha pra mim — Jake se levanta junto comigo e me força a encara-lo — Ele não faz bem pra você!
— Não! — Recobro os sentidos e me afasto, empurrando Jake com toda a força que consigo em direção aos equipamentos — Adam é o Grande Mestre!
— Olha só pra você, eu nem te reconheço mais.
— Eu tentei de proteger, Jake, mas você quer jogar no nível difícil, tudo bem, eu gosto de jogar — Me aproximo e o levanto, passando a mão no uniforme pra desamassar — Agora lide com as consequências e aperte o play.
♕ Baile de Formatura ♕
P.O.V. Hazel
Estávamos todos em volta da mesa mais uma vez aquela semana, tudo o que planejávamos ia sempre por água abaixo e eu odeio admitir que estava começando a perder as esperanças e pensando em desistir.
— A gente sabe que a Allyson ainda tá lá lutando pra sair, conversamos com ela — Jason diz e eu bufo.
— Você conversou, eu fiquei de vela.
— Não exagera.
— Gente, voltemos ao ponto — David diz emburrado e eu posso imaginar o porquê . Ele sempre foi louco pela Allyson, ter ela tão perto era tentador, mas no fundo ele sabia que aquela atração dela ia acabar no momento que salvarmos ela, cairá nos braços do Jason. O Jason só não podia saber do envolvimento esquisito dos dois.
—Ok, então, mas ela ainda tá diferente, calculista, a Adina no seu pior. Agora ela pode ver de todos os ângulos, ela quer jogar. Está sempre a dois passos de qualquer pessoa, porque a Allyson já era assim. É assim que ela vai agir, com cautela, malícia e calma, mas podemos ganhar dela no próprio jogo. Ela gosta de se sentir desejada, usa a sedução pra conseguir o que quer — David faz uma careta e eu sinto um pouco de pena — Allyson vai nos testar, ver até onde chegamos e aí vai acabar com tudo, mas não vamos deixar isso acontecer dessa vez, vamos estar três passos a frente.
— David disse que ela planejou algo grande pra hoje a noite — Clove se pronuncia.
— É, segundo ela, é a noite de pré estreia.
— A estreia vai ser na formatura — Digo cruzando os braços — Ela quer platéia.
— Vamos ser mais rápidos e mais espertos — Jason insistiu.
— Ela era a rápida e a esperta — Clove resmunga.
— E lembrem-se, não a machuquem, vamos trazer ela pra cá sem nenhum arranhão.
— Ta brincando? Ela tá uma piranha, com certeza alguém vai dar um tapa nela até lá.
— Clove...
— Ok, vamos todos nos comportar.
— Ótimo, vamos dançar conforme a música dela e tudo vai dar certo.
Depois que Jason sai passando a mão no rosto com um certo cansaço bem presente no rosto dele, me aproximo do David no canto.
— Ouvi que a Allyson tá montando um exército, toma cuidado hoje, não podemos confiar em ninguém.
— Vou tomar, agora tenho que ir buscar meu terno.
— E eu meu vestido, essa vai ser uma longa noite.
P.O.V. Allyson
— Tá na hora da sua intensificação — Adam disse me pegando pelo braço, já que ele sabia que eu tentaria correr assim que ouvisse essa palavra, e eu tentei, mas ele continuou me arrastando pelos corredores sujos da hidrelétrica.
— Não, por favor, eu tô ótima. Eve, fala pro Adam que eu tô bem — Tento me soltar em total desespero.
— Sinto muito, Ally, mas sabe que isso é preciso — Ela diz olhando pra mim com certa pena, seus cálidos olhos castanhos pareciam entrar fundo na minha alma. Eu gostava da Eve, mas ela sabia muito bem pelo que eu ia passar e mesmo assim não impediu o Adam.
— Eu não preciso de outra, por favor!
— Precisa sim — Adam insistiu.
— Eu juro que eu vou conseguir! — Tento me soltar mais uma vez, e como sempre, é em vão.
Adam e Eve me prendem à mesa de metal mais do que conhecida e eu me contorço a fim de me livrar das amarras. Sinto a droga consumindo meu corpo. O aparelho gigante cresce sobre mim e eu grito com o horror da luz forte nos meus olhos e a dor insuportável que vem logo me seguida.
♕♕
Baile de formatura. A noite em que todas as garotas passam horas no cabeleireiro, horas na maquiagem. A noite em que as garotas sonham com o par perfeito e depois choram por não terem sido convidadas por eles.
Meu vestido estava estendido em cima da cama, ele era branco e longo, magnífico e impotente, afinal não era só mais um baile, era o baile, o último baile, a última dança. Coloquei o que sobrou do meu cabelo pra trás e me arrumei em casa mesmo, com a ajuda da Clove.
— Estou terrivelmente confusa — Ela disse passando o pó no meu rosto — Adam disse pra matar o Jason, mas você não vai matar?
— Eu tenho um plano, hoje é só o começo, o dia da formatura vai ser épico.
— É, David me contou.
Meu coração dispara ao ouvir esse nome, querendo ou não ele estava se tornando importante um pouco demais, e graças à intensificação — que ainda me dava calafrios — essa sensação logo se vai, dando lugar à raiva.
— Tanto faz.
Clove sorriu e eu fiquei enjoada ao me lembrar de tudo o que Adam me contou sobre ela. Enjoada não, com sangue nos olhos seria a expressão correta, mas decidi não tocar no assunto.
— E o que você tá planejando?
— Não vou te contar — Sorri terminando de colocar o brinco e me levantando já pronta, bem a tempo de Jake buzinar lá em baixo — Cadê o Adam?
— Vai me encontrar lá.
Descemos juntas depois de tirarmos algumas fotos e mandar pra minha mãe, que quase chorou no áudio que mandou dizendo o quanto eu estava linda e o quanto ela estava feliz por mim, mesmo estando longe.
— Peter, tô indo, não me espere acordado — Comento colocando o celular na bolsa de mão.
— Sim senhora, divirtam-se — Concordo com a cabeça, mas antes de sair pela porta ele me chama — Ah, e Ally, você está maravilhosa, querida.
— Obrigada Pa... Peter.
Entramos no carro e passo o caminho todo sem trocar uma palavra sequer com Jake ou com Clove.
Desci as escadas quando Don't let me down, do The Chainsmokers já estava quase no final, e sorri quando a maioria dos olhares de voltaram se viraram pra mim e Jake. É como David sempre fala, eu continuo sendo a Rainha do Baile.
A decoração estava incrível e meu peito inflou de orgulho pelo trabalho perfeito que fiz com a Hanna e o resto do pessoal.
Assim que terminamos nossa descida pela escada de vidro fui logo cumprimentar a todos. Hazel estava com o Zack e eu sorri cinicamente acenando pra ela.
— Vamos jogar, Jake — Sussurrei em seu ouvido — Vá pegar bebidas pra nós.
Depois de reclamar algumas coisas desconexas ele saiu do meu lado e eu me vi sozinha no meio daquele enorme salão. Em cada canto eu podia ver meus fiéis escudeiros; também deixei um na portaria pra impedir a entrada de pessoas indesejadas, e com pessoas indesejadas eu quis dizer o Jason, eu podia sentir a energia escura do lado de fora.
Me virei pra escada a tempo de ver David descendo pela mesma, arfei quando nossos olhares se conectaram no meio daquele mar de gente, existia apenas eu e ele por um breve momento. O cabelo estava um pouco mais curto, a barba por fazer, e além disso, vestia um blazer azul, totalmente fora do formal que estipulei, como ele gostava tanto de me irritar? Talvez porque sabia que era o único que podia fazer isso e sair vivo pra contar a história.
— Bom — David diz se aproximando — Queria falar com você, mas nunca sei puxar assunto, então vou falar uma frase da poeta contemporânea, Adele.
— Diz aí.
— Hello, it's me — Não aguento e rio jogando a cabeça pra trás — Gostaria? — Pergunta ele, e mal consigo ouvir sua voz naquela confusão, tão baixa que não passa de um sussurro.
— Gostaria de quê?
Meu coração está urrando, batendo em meus ouvidos, e ainda que haja muitos centímetros entre a minha mão e a dele há uma energia zumbindo e murmurando que nos conecta, e pelo calor inundando meu corpo parece até que estamos colados um no outro, mão com mão, rosto com rosto.
— Dançar — Diz ele ao mesmo tempo que se aproxima, eliminando com aqueles últimos centímetros.
Então, ele encontra minha mão e me puxa para perto; naquele segundo, a música soa uma nota aguda, e eu confundo as duas impressões, a mão dele e a elevação da música.
Dançamos.
Jake não volta por um tempo e quase me preocupo se não fosse pelo calor da mão do David se espalhando por toda a minha espinha.
— Às vezes acredito que você ainda tem um lado bom — Ele sussurra e volto minha atenção pros seus olhos castanhos.
— É?
— Seu lado bom é ao meu lado.
— Eu não posso fazer isso com você — Murmuro me afasto — Achei que podia, mas não posso.
— Eu sei que só tá me usando, mas me responde uma coisa, Allyson. A justiça é mais cega do que a paixão? Existe justiça na sua vingança?
— O que...?
— Você abandonou sua família, machucou sua melhor amiga, e tudo isso pra que?
— Glória.
— Você não precisa de glória, não precisa de nada disso, desiste dessa ideia e volta pras pessoas que você ama.
— Não vai rolar — Balanço a cabeça e sorrio amarelo — Desculpa.
— A gente se vê por aí, Rainha do Baile — David diz depois me beijar na bochecha e sair andando como se nada no mundo fosse o atingir, quando ele se tornou isso?
— Eu não fugi, mereço uma recompensa — Jake diz atrás de mim com dois copos vermelhos na mão — Tipo me deixar fora dessa.
— Qual é, Jake, vamos jogar, vai ser divertido, confia em mim — Bebo o conteúdo do copo de uma só vez e sorrio.
Hazel não parou de me rondar durante toda a festa. Clove estava grudada com o Adam, mas sempre que me encarava eu via a expressão de medo em seus olhos, covardes. David não tirou o olho de mim e eu sorri internamente.
Saquei o plano deles na hora e saí do salão usando Persuasão no Zack pra ele me seguir. Parei no corredor quando ele me achou e me forcei a respirar ofegante, me apoiando na parede.
— Ally? Ta fazendo o que aqui?
— Ai meu Deus, que bom que eu te achei — Suspirei — Não sei mais pra onde fugir, Zack, me ajuda.
— Vou chamar a Hazel.
— Não, espera.
— É rápido.
— Zack! — Grito quando ele começa a se virar e seu sorriso some quando ele percebe que tiro uma faca debaixo do vestido — Vamos conversar, ok?
— Allyson... — Ele faz menção de correr e eu reviro os olhos, atirando a adaga em seguida. Acerto em cheio na lateral da barriga dele, sem pegar nenhuma artéria fatal, ele cai com um olhar assustado.
— Acho que agora é a hora de dizer alguma coisa engraçada — Chego bem perto e ajoelho. Acerto o cabo da faca na cabeça de Zack e ele apaga — Mas eu não sou engraçada — Me levanto e carrego seu corpo desmaiado até uma sala escura no fim do corredor. Depois coloco os dedos sobre suas têmporas e coloco comandos na sua cabeça pra quando ele acordar.
Depois de lavar a faca no banheiro, eu a devolvo pro compartimento na minha perna e volto pro grande salão. Entrei no labirinto de fotos s me certifiquei de que estava sozinha. Parei na frente de uma foto minha e da Clove, tiramos no começo desse último ano e quase me senti melancólica. Quase.
— Sempre achei que as duas poderiam se matar pelo trono um dia — David diz. Ensaio minha expressão de aflição e me viro — Mas é claro que ninguém nunca teve coragem de te desafiar.
— Ela teve.
— Daqui a pouco vão anunciar o rei e a rainha.
— Suponho que você não vá me deixar ficar.
— Sinto muito, Allyson — Dito isso tudo fica escuro quando um saco preto é colocado sobre a minha cabeça e sou carregada pra algum lugar. Tento me soltar pra manter as aparências. Tão previsíveis!
Fui amarrada à uma cadeira na casa do Jason e ri alto quando vi o próprio parado de braços cruzados na minha frente. Clove e Hazel ainda com os vestidos da festa e David sozinho em um canto escuro.
— Meus amigos! É um prazer revê-los. Mas me digam, o que vocês acham que vão fazer comigo?
— Te deixar aqui até você voltar ao normal — Clove resmunga.
— Boa sorte com isso — Sorrio e me mexo um pouco ma cadeira — Só que esse vestido é muito desconfortável. David, se importa em tirá-lo para mim? — Quase não seguro a risada ao notar que a mandíbula do Jason mexeu um centímetro — Vocês são tão chatos, eu hein.
— Cala essa boca, Allyson — Hazel diz colocando uma mão de cada lado da minha cadeira super confortável.
— Esse é o espírito! Viram? Ela sabe jogar — Mordo o lábio inferior pra provocar Jason e sorrio vitoriosa quando ele descruza os braços devagar — Ei Hazel, vocês, anjos de luz sentem quando alguém que amam correm perigo, não é? Mesmo depois de perderem os dons, algo ainda grita lá no fundo. Acho que você vai precisar.
A respiração de Hazel fica ofegante e eu reviro os olhos, ainda amarrada à cadeira.
— Tá, eu vou dar uma pista. O Zack está na escola.
— Vai — Jason diz entre dentes e ela corre pela porta.
— Ah, tomara que ela chegue a tempo — Jogo a cabeça pra trás e rio — Eu gosto da Hazel. Temperamento curto, compulsão homicida. É muito mais divertida que vocês, bobões, tentando salvar o mundo todo dia.
— Jason, arranjou um jeito de prender ela em uma cadeira, mas tem alguma coisa pra boca? — Clove diz cruzando os braços.
— Eu tenho — Jason tira um pedaço de fita adesiva e cola na minha boca assim que a estico em um sorriso cínico sem mostrar os dentes.
Fico um bom tempo sozinha na sala, no escuro enquanto ouço os sussurros dos outros na cozinha. Depois de uns trinta minutos Clove vem até mim e fica de vigia.
Permaneço quieta, ciente de que tentar me soltar não vai adiantar nada e ficarei cansada. Uma lágrima cai e eu engulo em seco, fechando os olhos com força.
— Allyson? — Ela pergunta e eu afirmo com a cabeça, sem poder responder. Clove tira a fita da minha boca e mais uma lágrima cai, esquentando meu rosto.
— Sério? — Inclino a cabeça pro lado e arqueiro as sobrancelhas — Eu derramei uma lágrima, é fácil assim? Qual é, você não pode desmoronar tão fácil — Clove abaixa a cabeça e eu sorrio — O que vai fazer quando todo mundo souber a verdade?
— O que?
— Quando eles souberem o que você realmente fez quando o Adam estava te ajudando. Claro, beijar o meu namorado foi pouco. E aquelas duas semanas que você sumiu do mapa? Eu adoraria contar, mas aí perde a graça. Sabe quando tudo vai cair pra você? Quando a Ally acordar depois de ter matado todos eles e só sobrar você. E eu sei que a culpa tá te corroendo por dentro porque eu te conheço, e então...
— Essa não é você — Ela se levanta limpando as mãos no vestido. Parecia despreocupada, mas sua alma estava rodeada de arrependimento e consciência pesada.
— Agora é.
— Você é um monstro.
— E vocês trouxeram o monstro pra casa, obrigada pela colaboração.
Clove pega a fita adesiva e cola novamente na minha boca, só que com mais aspereza dessa vez. Grito querendo me livrar daquelas correntes de hospício idiotas. Quero matar todos eles!
Depois de algumas trocas de turno eu consigo dormir ainda atada aquela cadeira. Acordo assustada, estou suada e exausta, e Jason está sentado na minha frente.
— Oi Allyson — Ele diz e tira a fita da minha boca, mas estou cansada demais pra conseguir fazer algum comentário, a abro pra massagear e movo a mandíbula pros lados. Onde Adam se meteu? — Preciso que se lembre. Preciso que olhe pra mim e se lembre de quem você é.
Uma visão minha correndo pela areia volta à minha cabeça. Respiração ofegante; inspira, expira; inspira, expira. Corro.
—Jamais esqueça quem você é! — O homem grita, segura meus ombros com firmeza e me sacode com força — Adina! Jamais esqueça!
É a primeira vez na lembrança que ouço meu nome ser chamado. Ainda não tenho imagens focadas, mas já é um avanço.
— Ally...
— Você nunca me chama de Ally.
— E você nunca machuca seus amigos.
— Não são meus amigos — Me mexo desconfortavelmente na cadeira e bocejo.
— Sabe — Ele chega pra frente na poltrona e cruza as mãos, fala baixo creio que pra não acordar ninguém já que a casa está escura e silenciosa — Você costumava me chamar de Plutão — Jason me encara com tanta intensidade que quase derreto na cadeira.
— Por que Plutão?
— Misterioso, na minha, sozinho e frio.
— Ah é? E que planeta eu era?
— Na verdade, o sol.
— Mas são distantes demais.
— Exatamente.
— Olha Jason, eu não sei onde você tá querendo chegar com isso, mas não vai funcionar comigo — Sorrio — Então desiste, você já desistiu de mim uma vez, pode desistir de novo.
— Não vai dar, nós temos um acordo.
— A outra Allyson tem um acordo, eu não.
— Você vai voltar, eu sei disso, nem que pra isso eu tenha que te manter aqui por um bom tempo — Ele se ajoelha na minha frente e pega minhas mãos que estão atadas à minha perna.
— Você é ridículo se acha que conseguiu me pegar. Bom, mas vamos aos fatos, Hazel deve estar ocupada lutando com o Zack, mandei ele queimar ela viva. Clove é louca pelo Adam mesmo que as vezes não acredite nisso, acontece que até depois de o soro sair do organismo como fiz com ela, algo lá no fundo ainda diz que ela precisa seguir ele. Ah, e tem o David, ele me ama, e vai fazer tudo por mim — Jason se levanta devagar começando a perceber o que tá acontecendo, olha ao redor e deve ter notado a energia de muitos nephilins ao redor da casa — Você tá sozinho, e se não me soltar agora, vai se dar mal.
— Você ouviu o que ela disse — Adam entra pelos fundos com Clove ao seu lado.
— Jason, sinto muito.
— Allyson, não faz isso.
— Eu ganhei, Jason, e você perdeu — Sussurro junto com ele enquanto observo ele me desamarrar. Me levanto e ajeito o vestido — Nos vemos na formatura.
— Adi...
— A Adina morreu — Sorrio e deposito um beijo no canto da sua boca.
— Podemos ir? — Adam pergunta enlaçando a cintura da Clove com o braço.
— Claro.
Sigo meu caminho pra casa do Peter. Mas naquela noite eu tenho um sonho.
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