Flor da meia-noite
23 XXIII – Adina de Riverland
Notas iniciais

Era mais uma lembrança, como aquelas que eu tive de Amélia e Aura, mas tinha um pouco de reconhecimento, percebi que era a lembrança da Adina, os resquícios dela ainda haviam ficado em mim. Bufei quando percebi que estava descalça e comecei a andar.
Ela era ruiva, os olhos, como esperado, do mesmo tom de azul que os meus. Os fios de cabelo laranja, extremamente lisos e longos estavam arrumados em um penteado pra trás. O vestido era incrível, em um tom de cinza cheio de mandalas verdes de diferentes tamanho em ordem aleatória. Adina estava acompanhada de um cara loiro muito bonito, estavam de braços dados e sorriam um para o outro. Corro pra tentar ouvir a conversa.
— Encantador como sempre, Lorde Lancel.
— Ah Lady Adina, é muita gentileza. Mas responda-me uma coisa, como a senhorita e o resto do conselho estão lidando com... – Lorde Lancel olha para todos os lados e depois completa sussurrando – as ameaças?
— O Castelo Dunluce está seguro, eu garanto.
— Mas e toda Riverland? Como pode garantir?
— Eu sou a filha da profecia Lorde Lancel, não é sensato duvidar de mim, mas já que perguntou, tenho muitos soldados leais a mim, soldados muito bem treinados.
— É claro, Milady – Os dois se sentam perto de uma fonte – Mas Riverland não é mais a mesma cidade.
— Ainda é o refúgio mais seguro para os nephilins nesse momento – Adina pousa as mãos sobre o colo e suspira – Não entende, Lorde Lancel? Estou cansada de apenas fugir.
— Eu concordo com a senhorita, mas...
— Então acabamos por aqui, vou mandar mais homens para as Ilhas Skelig, o senhor pode voltar pra lá com as instruções que lhe dei.
— Foi um prazer, Milady.
— Igualmente – Adina sorri quando o loiro se levanta e faz uma reverência desajeitada.
Eu queria poder toca-la, conversar com ela e perguntar milhares de coisas, já que eu nunca a tinha visto, apenas escutado sua voz na minha cabeça.
Aí depois me toquei de que aquela ainda era eu, ela ainda fazia parte de mim, embora ela fosse assustadoramente mais bonita que eu agora, o cabelo era perfeito, o sorriso era perfeito, ela era um guerreira que se preocupava com seu povo sem precisar de uma intensificação. Uma guerreira que nunca serei.
— Adi! – As duas nos viramos ao mesmo tempo, observando Jason andando até nós, de armadura e cabelo na altura dos ombros. Ele pega ela em seus braços e a gira no ar – Estava com saudades.
— Sabe que não deve me chamar ou me tocar assim quando estamos ao ar livre, sob olhares de outras pessoas – Adina diz com uma careta e Jason beija sua mão, mas é possível notar o sorriso em seus olhos.
— É simples, vamos para o seu quarto.
— Sir Jason! – Ela repreende rindo – Os Arcanjos não ficariam nada felizes com isso, na verdade, já não estão.
— Não me importam os Arcanjos, eu amo você. Eu amo você!
— Também amo você, agora cale-se – Os dois sorriem e se aproximam para um beijo. Viro o rosto sem querer ver a cena.
— Então vamos falar para todos de Riverland – Jason e Adina começam a andar em direção à um castelo de pedra enorme e eu os sigo novamente.
— Sabe que não é tão simples. Você é um anjo, eu sou apenas uma nephilim, ninguém lá em cima gosta de nephilins, já tentaram acabar com a gente uma vez. Além de comandar o Castelo, tem toda a Riverland, meus conselheiros dizem que tenho me casar com Lorde Lancel, precisamos das Ilhas Skelig.
— Eu as tomo para você.
— Seria esse meu maior desejo, tê-lo ao meu lado para onde eu for, segurando a minha mão. É uma pena termos que nos contentar com visitas sorrateiras em meus aposentos.
— Lady Adina! – Um homem surge correndo – Perdoe-me a intromissão, senhorita, mas estão atacando o portão leste.
— Sir Jason – Ela diz com pesar enquanto suspira de tristeza.
— Pode deixar, encontro a senhorita depois — Ele diz — Vamos, Dune, vamos enxotar alguns caídos do nosso castelo.
Jason coloca o capacete e corre na direção contrária pela qual estávamos indo.
♕♕
Adina se senta na ponta de uma mesa que suponho ser do conselho e um homem velho abre um livro antigo e grosso, espalhando moléculas de poeira no ar do fim da tarde. Pulamos um dia inteiro?
— É só mais um cerco como todos os outros, Sir Jason vai voltar pra ficar de guarda para a senhorita, não se preocupe — Ele diz.
— Não é com o cerco ou com a minha proteção que estou preocupada — Adina retsmunga apoiando a cabeça no cotovelo — Mestre Ari, como vão as economias? — Quando começam a falar do dinheiro é como se minha mente desligasse e eu ouvisse os pensamentos da minha ancestral. Jason estava lá fora agora, no meio de todo aquele sangue, se machucando por mim. Um anjo se ferindo por uma nephilim — Senhor Agenor?
— Sim, Lady Adina — Um homem jovem e moreno na outra ponta da mesa responde.
— Mande Ana buscar minha capa e leva-la até o meu quarto, por gentileza.
— Milady, não é sensato cavalgar por aí a noite quando tem caídos atacando o castelo.
— Não me importa — Adina bebe o resto de seu vinho e se levanta da mesa como uma perfeita dama. Sigo seus passos pelos corredores escuros até para o que imagino ser o seu quarto — A noite chega e é escura — Ela sussurra se encaminhando até uma janela e tocando um colar que até então eu não tinha visto — Mas por sorte sempre estaremos encarando a mesma lua, meu anjo.
Uma criada entra com um manto escuro e grosso sobre os braços.
— Senhorita, clamo para que espere até o amanhecer — A criada diz.
— Sir Jason não esperaria até o amanhecer para me encontrar.
— Sir Jason é um anjo.
— E eu sou apenas uma nephilim, sim, estou ciente.
— Lady Adina...
— Por favor, Ana, eu preciso ir.
— A guerra se aproxima, eu posso sentir — Ana deixa o manto em cima da cama e começa a acender algumas velas — Apressa-la só vai piorar tudo, senhorita.
— Você é quem deveria ser minha conselheira, não aquele bobo do Senhor Agenor — Adina sorri e se senta derrotada na cama, claramente vencida —Confio em você com a minha vida, Ana.
— Mesmo sendo uma feiticeira?
— Mesmo assim.
— E eu confio a minha à senhorita. Agora durma, e pratique aquele mesmo exercício de todas as noites.
— Não consigo mais me imaginar levantando muros ao meu redor.
— Faça mesmo assim, é o que vai te salvar daqui muitos anos.
— O que vai acontecer daqui muitos anos?
— Sente-se aqui, querida — A criada manda e Adina se aproxima — Quero que saiba que o que farei agora é pra te proteger. Seu destino é incerto, criança, é obscuro e cheio de terrores. Achei que poderia adiar, mas temo que não.
— Ana, está me assustando.
— Sua morte já foi escrita, Adi, será amanhã. Preciso que sua alma permaneça intacta para quando a hora certa chegar, mesmo que eu tenha que quebrar algumas regras, preciso que sobreviva.
— Morrerei? Do que está falando?
— A alma da garota encontrá um corpo humano em todas as vidas que virão, mas assim que completar dezoito anos, perecerá, então a alma da garota achará outro hospedeiro e assim em diante — Ana fecha os olhos e segura a mão de uma Adina muito assustada — A alma da garota finalmente encontrará um coração verdadeiramente puro e nele vingará seu povo, vai amar e depois dos dezoito reinará, só então poderá continuar de onde parou. Pelo anjo da noite ancestrais de Elmo e feiticeiros de Tubal Cain, eu, Kaleesa, evoco esta maldição, que só poderá ser desfeita aos dezoito anos da última vida da garota.
Um vento frio entra pela janela ainda aberta, bagunçando todos os papéis e mapas que Adina mantém em uma mesa de madeira escura. Tudo fica em silêncio até a ruiva voltar de um transe sinistro, não parecia a mesma pessoa.
— Construa o muro, criança, e jamais esqueça quem você é.
Sou transportada para o dia seguinte, creio eu, a partir daí são só flashes. Adina sentada em cima de um cavalo branco com a expressão de que nada poderia entrar em seu caminho, Jason estava ao seu lado em seu próprio cavalo.
Guerra, sangue, corpos.
Uma flecha.
Veratrum.
Adina está jogada nos braços de Jason, com os olhos fechados e expressão de dor. Ando ao redor dos dois e arfo quando vejo a flecha alojada em suas costas, na altura do coração;
— Onde está a Hazel?! — Ele gritava.
— Jason, não — Adina sussurra e se solta do abraço — Hazel não vai conseguir me curar dessa vez.
— Ela vai ter que conseguir.
— Eu amo você.
— Isso não é uma despedida.
— Não, não é, vamos nos encontrar de novo.
— Do que está falando? — Ele a carrega pela neve.
— Nunca desista de mim.
— Não desistirei. Adi, eles são muitos, temos que correr, consegue?
— Posso tentar.
Os dois começaram a correr com passos vacilantes pela praia quase congelada.
Corro.
Os punhos das ondas rasgam a praia enquanto forço pesadamente um pé à frente do outro. Escalo, escorrego, repito o processo. Mais rápido. Olhos fixos nas dunas à minha frente. Não olhe para trás. Não devo olhar. Respiração ofegante; inspira, expira; inspira, expira. Ainda assim eu corro.
Quando os pulmões estão prestes a entrar em combustão e o coração a explodir, uma estrela carmesim surge na neve, tropeço.
Jason retorna. Ergue-me e apressa-me.
Está chegando mais perto.
Não posso aguentar, e caio novamente. Não consigo mais correr.
Ele se ajoelha para me pegar e olha em meus olhos.
— Está na hora. Rápido!
Está perto.
Sem chance de resgate.
— Jamais esqueça quem você é! — Ele grita, ou eu estaria ouvindo a voz de Ana na minha cabeça? Segura meus ombros com firmeza e me sacode com força – Adina! Jamais esqueça!
Um manto de terror suprime o mar. A areia. Suas palavras, as contusões em meus braços, a dor em meu peito e pernas.
É aqui.
Construo um muro ao redor de minhas memórias, confiando na última garota.
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